domingo, 11 de outubro de 2020

O cavaleiro e o pacto com o diabo

Gárgula, da catedral Notre Dame de Paris.
Gárgula, da catedral Notre Dame de Paris.
Luis Dufaur
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Um cavaleiro nobre, poderoso e rico despendeu todos os seus bens e caiu em muito grande miséria. Tinha uma esposa muito casta e devota da Santíssima Virgem Maria.

Havendo uma grande festa na cidade, o cavaleiro queria fazer muitas despesas, mas não tinha mais dinheiro. Por vergonha, foi se esconder numa mata até que passasse a festa.

Estando ele naquele lugar, apareceu-lhe uma criatura muito espantosa em um cavalo assustador, e perguntou-lhe por que estava assim tão triste.

O cavaleiro contou-lhe toda sua história. E a criatura espantosa lhe disse:
— Se quiseres fazer o que eu te mandar, eu te farei ter mais riquezas e mais honras que antes.

O cavaleiro lhe prometeu que faria tudo o que ele quisesse, se ele cumprisse o que estava prometendo. E o demônio lhe disse:
— Vai à tua casa e cava um lugar. Acharás muito ouro. E promete-me que tal dia trarás aqui a tua mulher.

O cavaleiro prometeu. Foi para casa e achou muita riqueza, segundo lhe dissera o diabo, e começou a viver como antes.

domingo, 27 de setembro de 2020

O camponês avarento

Cidade de Colmar, Alsácia, França, no Natal
Cidade de Colmar, Alsácia, França, no Natal
Luis Dufaur
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Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi surpreendido pela noite à entrada de uma aldeia. 

Procurou uma casa onde pudesse pedir pousada, mas as portas todas estavam fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas.

Tudo estava adormecido. 

Apenas no fim de um beco se ouvia o barulho de um mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequenina luz. 

 Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou rente ao muro de uma quinta e bateu à porta. 

Logo depois veio um camponês atender. 

domingo, 13 de setembro de 2020

Como Deus apareceu a São Francisco e companheiros enquanto falavam de Deus

São Francisco pregando aos pássaros. Benozzo Gozzoli (1421 - 1497) Capela de Capela de São Francisco, Montefalco, Itália
São Francisco pregando aos pássaros. Benozzo Gozzoli (1421 - 1497)
Capela de Capela de São Francisco, Montefalco, Itália
Luis Dufaur
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Estando São Francisco uma vez, nos princípios da Ordem, recolhido com os seus companheiros a falar de Cristo, em um convento, no fervor de espírito mandou a um deles que em nome de Deus abrisse a boca e falasse de Deus o que o Espírito Santo lhe inspirasse.

Obedecendo o irmão à ordem e falando maravilhosamente de Deus, São Francisco lhe impôs silêncio e mandou a outro irmão que fizesse o mesmo.

Obedecendo este, e falando subtilissimamente Deus, São Francisco lhe impôs o silêncio e ordenou ao terceiro que falasse de Deus.

O qual semelhantemente começou a falar tão profundamente das coisas secretas de Deus, que certamente São Francisco conheceu que ele, como os dois outros, falava pelo Espírito Santo.

domingo, 30 de agosto de 2020

Legenda da fidelidade

Santa Ada, Giotto di Bondone
Luis Dufaur
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Conta-se que em tempos muito remotos havia um convento de monjas agostinianas, perto da cartuxa de Monte Alegre.

Havia entre elas — e era, por certo, a mais humilde — uma monja de família nobre, de alta linhagem e muito bela.

Numa tarde, um cavaleiro que habitava nos arredores do castelo desse lugar, por acaso viu-a no jardim, e de tal maneira impressionou-se por sua beleza, que não teve mais repouso.

Desde então o cavaleiro rondava todas as noites o jardim do convento, chegando ao extremo de escalar os muros e cantar em frente à cela da enclausurada.

Esta teve notícia dos padecimentos do jovem cavaleiro, e chorou amargamente por ser causa deles.

Sua humildade e sua religião não podiam suportar a situação que o cavaleiro lhe criava, rondando-a como se fosse do mundo.

domingo, 16 de agosto de 2020

O pregador sutil que confundia os simples

Adaptação de 'O sono da razão produz monstros',  Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), Museo del Prado
Adaptação de 'O sono da razão produz monstros', 
Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), Museo del Prado
Luis Dufaur
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Houve um frade da nossa ordem que era muito bom para pregar.

E falava com tantas sutilezas, mas tão sutil que era uma maravilha.

Era mais fino que o mais fino fio que podem fiar as moças.

Esse frade tinha um irmão de religião que era completamente o oposto.

Ele era grandão, e dos grosseiros, que causava assombro só de vê-lo tão grande que ele era.

Ele acostumava ir ouvir os sermões desse sutilíssimo irmão dele.

Um dia, aconteceu que depois de ouvir a pregação, tendo se reunido com os outros num círculo de outros frades, ele lhes perguntou:

“Ó vós, que assististes nesta manhã à pregação de meu irmão, que coisas nobres disse ele?·

Eles responderam: “O que ele disse? Oh! ele disse as coisas mais nobres que você já ouviu”.

“Então, contem-me o que ele disse”.

E eles contestaram: “Ele falou das coisas mais nobres do céu, mais do que tudo que jamais se ouviu”.

E acrescentaram: “por que? você por acaso não veio? Não acreditas que ele tenha dito as coisas mais nobres!”

domingo, 2 de agosto de 2020

Pouco devemos acreditar no demônio (Cantiga 190)

Madonna del Soccorso, Ascoli Satriano, Itália
Madonna del Soccorso, Ascoli Satriano, Itália
Luis Dufaur
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Esta cantiga nos conta o poder de Santa Maria contra as insídias do diabo.

Devemos ter em pouca conta o demônio.

Assim sempre Deus me tenha, porque a Virgem vai nos guardar.

É Ela que nos conduz, é a Virgem que vai nos proteger.

Com pouco juízo obraremos se tivermos o demônio em conta de algo, pois a Virgem nos sustenta-

Ela nos conduz, porque é a Virgem que nos mantém.

Porque o poder do diabo pouco vale, porque de seu mal nos protege a Virgem espiritual que nos conduz; a Virgem espiritual.

O saber das trevas pouco nos causa dano, pois nosso lume e nossa luz é Aquela que viu seu Filho numa Cruz-

domingo, 19 de julho de 2020

Para cada doença, seu remédio

Médico fazendo uma sangria
Médico fazendo uma sangria
Luis Dufaur
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Quem está doente do estômago, vai ao médico.

Mas se lhe ocorre encontrar solução no que está nos livros e diz: “eu quero me curar segundo este autor” vai ler desde o início o livro onde estão os remédios para se curar da cabeça.

E assim achará o remédio que está escrito, mas nunca vai sarar com ele.

Por isso se deve saber que o médico deve procurar as coisas que o doente precisa.

Mas se tu vãs à consulta querendo um remédio determinado dizendo: “dai-me tal e tal coisa” o médico pega o primeiro vidro ou pó que encontra e o dá ao enfermo que não vai curar com isso.

Então se o doente tem necessidade de um remédio que cura o estômago, ele lhe dá um remédio para lhe curar a cabeça ou o braço, e não sarará mais.

domingo, 5 de julho de 2020

A origem das pérolas

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Tombou Abel, assassinado pelo invejoso e cruel irmão.

Impulsionada pelo instinto materno, tentou Eva reanimar o filho morto, acariciando longamente seu corpo exânime.

Quando se convenceu de que Abel não despertava mais, desconsolada e aflita, caminhou longa jornada até junto à praia do mar, e aí quedou-se a olhar, assombrada, a extensão das águas até então desconhecidas.

Nesse momento afloraram-lhe aos olhos suas primeiras lágrimas.

Uma após outra, rolaram silenciosamente pela face, e foram cair sobre as pétalas de

domingo, 21 de junho de 2020

A lenda do desterrado


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Quem tem pecado muito e teme por sua salvação, que ouça uma lenda alemã adequada.

Um pobre desterrado retornava à pátria após 30 anos de ausência.

Os padecimentos haviam-no encanecido, e o haviam tornado irreconhecível.

À entrada do lugar, topou uns companheiros de sua juventude e estendeu-lhes a mão para saudá-los.

Mas eles recusaram o cumprimento, pois não o reconheceram.

O desterrado foi adiante e viu um irmão seu, com quem havia trabalhado, comido e dormido.

Chamou-o, mas o outro não o reconheceu e o fitou com desprezo.

Pobre desterrado! Entrementes era insultado pela garotada, e mantido debaixo do olho da polícia. Dando mais uns passos, viu à sacada sua irmã.

Gritou a ela, com afeição:

domingo, 7 de junho de 2020

O enforcado de La Piroche

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La Piroche é uma aldeia que deve ser como todas as outras; a ação se desenrola justamente em 1448; que um dos dois homens é o pai do outro, ambos camponeses, e vão trotando em seus cavalos a uma velocidade até razoável, tendo em vista que carregam camponeses.

— Será que chegaremos a tempo? — perguntava o filho.
— Sim. Vai ser às duas horas, e pela posição do sol deve ser ainda meio-dia.
— Não quero perder, pois tenho muita curiosidade em ver como é. Vão enforcá-lo com a armadura que roubou?
— Exatamente.
— Onde já se viu, o sujeito ter a idéia de roubar uma armadura!
— O difícil não é ter a idéia...
— É ter a armadura, eu bem sei — atalhou o filho, aderindo à brincadeira do pai. — E a armadura era boa?
— Dizem que era magnífica, toda marchetada de ouro.
— E o pegaram quando a levava?
— Sim. É fácil compreender que uma armadura não concorda em ser roubada sem montar um escarcéu de todo tamanho. Ela não queria abandonar o dono.
— Era de aço, e deveria ser muito pesada.
— O ruído que ela produzia despertou o pessoal do castelo.
— E logo puseram a mão no ladrão?
— Não exatamente assim. Primeiro ficaram com medo.
— Quem é roubado sempre sente medo dos ladrões. Se não fosse assim, os ladrões não levariam nenhuma vantagem.

domingo, 24 de maio de 2020

Um olho por minha Mãe


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Um menino órfão que vivia aos cuidados dos padres da Catedral de Notre Dame, começou a andar um pouco triste e pensativo.

O padre vendo a tristeza no rosto inocente se aproximou e perguntou-lhe:

– O que está acontecendo? Por que tens andado pensativo e tão triste?

– É que eu vejo que muitos meninos tem uma mãe para poderem abraçar, mas eu não tenho nenhuma – respondeu o menino.

O padre se compadecendo da situação daquele menino inocente, lhe falou com um sorriso caridoso:

– Meu filho, você não sabe que você tem a Mãe mais bonita de todas as Mães? Para as crianças órfãs, Nossa Senhora assume uma maternidade toda especial.

Todo contente e já confortado, saiu de lá com a convicção alegre de que sua Mãe era a mais bonita de todas as Mães…

Toda a vez que ia à Catedral, rezava de modo mais especial, porém com um pedido inesperado: o menino queria ver sua Mãe pessoalmente.

Para isso não só rezava, mas fazia sacrifícios também.

domingo, 10 de maio de 2020

Como Santa Clara foi miraculosamente transportada, na noite de Natal, à igreja de São Francisco e aí assistiu ao ofício


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Estando uma vez Santa Clara gravemente enferma, tanto que não podia ir dizer o oficio na igreja com as outras freiras, chegando a solenidade da Natividade de Cristo, todas as outras foram a Matinas.

E ela ficou sozinha no leito, malcontente por não poder juntamente com as outras ir e ter aquela consolação espiritual.

Mas Jesus Cristo, seu esposo, não querendo deixá-la assim desconsolada, fê-la miraculosamente transportar à igreja de São Francisco e assistir a todo o ofício e à missa da meia-noite.

E, além disto, receber a santa comunhão e depois ser trazida ao leito.

domingo, 26 de abril de 2020

O menino que dava seu pão ao Menino Jesus

"Siempre Real Santo Niño de Malolos", Filipinas
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Vivia na cidade de Veneza um homem muito rico. Sua grande fortuna lhe permitia uma vida de luxo e comodidades.

Mas ele estava entristecido, sem poder desfrutar nada, pois todos os seus filhos morriam.

Tinha o coração triste, e nada o podia consolar.

Com satisfação trocaria todas as suas riquezas pelos filhos, embora ficasse na miséria, mas com eles.

Um único filho pequeno lhe restava.

Amedrontado com a ideia de perder também aquele, confiou-o ao abade de um mosteiro, convencido de que só a intervenção divina poderia conservar-lhe a vida.

O menino cresceu no mosteiro, em meio à dedicação de todos os monges, que gostavam dele e o atendiam.

Sempre alegre, percorria os claustros ou brincava nos jardins, onde admirava as flores ou comia os frutos que colhia.

Ele era o único menino ali.

Um dia, enquanto tomava sua merenda, entrou pela primeira vez na igreja, impressionando-se com a suntuosidade.

Ficou admirando com grande curiosidade a imagem da Virgem, que tinha nos braços o Menino Jesus, e alegrou-se por encontrar ali outro menino como ele.

domingo, 12 de abril de 2020

O escorpião de frei Anselmo

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D. Lourenço de Baena, homem bondoso e simples, possuía uma considerável fortuna. Um dia, porém, aconteceu que a má sorte entrou em sua casa, e desde então as calamidades se sucederam numa série ininterrupta.

Um de seus barcos, que regressava com tecidos da China, foi saqueado pelos piratas. Naufragou outra caravela de mercadorias, que D. Lourenço havia comprado.

Enviou um comboio de prata às províncias do Ocidente, e os índios o assaltaram. Mas não foi isto o pior.

Seu filho único, que ia neste comboio, foi escalpelado pelos índios. Sua esposa, esgotada pela dor, morreu algum tempo depois.

D. Lourenço sofria tudo com cristã resignação. Quando sua ruína foi completa, seus amigos o abandonaram, e teve que vender sua casa e até seus móveis.

domingo, 29 de março de 2020

A cilada dos bruxos

As Bruxas de Macbeth, Alexandre-Marie Colin (1798-1875), col. priv
As Bruxas de Macbeth, Alexandre-Marie Colin (1798-1875), col. priv
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Mons. Balduíno, ex-reitor da Universidade de Paris, em virtude de seus conhecimentos superiores adquiriu reputação e imensa popularidade entre os grandes do clero e do Reino da França.

Mas não só isso. Suas virtudes fizeram dele o inimigo dos feiticeiros.

Nas reuniões noturnas em que esses assinavam pactos com o diabo, pediam ao príncipe das trevas meios para se livrar do sábio abade.

Tentaram vários ataques preternaturais contra ele, mas sem dúvida ele era protegido por um bom anjo, porque frustrava todos os truques perversos a tempo...

Um dia ... Mons. Balduíno teve que ir de Saint-Quentin a Dijon, na Borgonha.

Ficou claro que essa viagem foi mencionada nas reuniões nas quais Satanás comparecia ...

Nosso abade empreendeu a estrada a cavalo com seu criado Jean.

Depois de uma parada em Verberie, eles se aproximaram da floresta de Retz, que deviam atravessar.

Mas era ali que o diabo e sua tropa amaldiçoada os aguardavam ...

domingo, 15 de março de 2020

Como São Francisco domesticou as rolas selvagens

Luis Dufaur
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Um jovem havia apanhado um dia muitas rolas e levava-as a vender.

Encontrando-o São Francisco, o qual sempre sentia singular piedade pelos animais mansos, olhando com os olhos piedosos aquelas rolas, disse ao jovem:

“Ó bom moço, peço-te que mas dês, para que passarinhos tão inocentes, os quais são comparados na santa Escritura às almas castas e humildes e fiéis, não caiam nas mãos de cruéis que os matem”.

De repente aquele, inspirado por Deus, deu-as todas a São Francisco; e ele recebendo-as no regaço, começou a falar-lhes docemente:

domingo, 1 de março de 2020

Os três ducados


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Era uma vez um homem como todos nós, nem melhor nem pior, um pobre pecador.

O que havia feito? Não sei. Uma falta talvez mais grave que as outras; um pecado maior que os outros, sem dúvida, quando Deus o abandonou à própria sorte.

Deus, evidentemente, não faltou; foi ele que não correspondeu.

E estava sendo conduzido à forca da cidade de Toulouse. Acompanhavam-no os juízes e o carrasco, em meio a uma multidão atraída por curiosidade, para ver o que aconteceria.

Ora, exatamente nesse dia, passava por Toulouse o rei René com sua esposa, a formosa rainha Aude, que ele acabara de desposar na pátria vizinha.

Passando em frente à forca, a rainha viu o condenado já empoleirado no banco, com a cabeça enlaçada pela corda. Não pôde conter um grito, e escondeu o rosto entre as mãos.

O rei deteve a todos, e fez sinal ao carrasco para que parasse. E voltando-se para os cônsules, disse:

— Senhores magistrados, a rainha vos pede, como sinal de boas vindas, que seja de vosso agrado conceder a esse homem o perdão.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A princesa do castelo de Wangenbourg

Ruínas de Wangenbourg
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Num tempo longínquo morava no poderoso castelo de Wangenbourg, na Alsácia, um senhor muito encrenqueiro e de moralidade bastante duvidosa.

Ruínas de Wangenbourg
Voltando com seus companheiros de armas de uma expedição guerreira, ele viu uma bela donzela num prado florido.

Com ramalhetes de margaridas nos braços, ela resplandecia de beleza.

O senhor quis seduzi-la de todas as formas.

Mas, além de bela, nossa princesa fora abençoada no nascimento por um poderoso anjo, e tudo nela era maravilhoso.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Carlos Magno e o abade de São Gall

Notker Balbulus, St Gall, contos e lendas medievais

Luis Dufaur
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Carlos Magno, numa de suas frequentes viagens, viu o abade de S. Gall preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia.

Carlos gostava de homens enérgicos e ativos, e o abade era indolente.

Além disso, o Imperador tinha mais de um motivo de queixa contra ele.

— Bom dia, Sr. Abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me responder em sessão solene de nosso conselho imperial daqui a três meses, contados dia-a-dia.

Primeiro de tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro.

Em segundo lugar, quanto tempo levaria para dar a volta ao mundo.

Em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que V. Revma. vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro.

Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, do contrário deixará de ser abade de S. Gall, e terá de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada para o rabo, se não o responder.

domingo, 24 de novembro de 2019

Como todos andavam atrás de São Francisco para confusão do mundo e graça de Deus

Quadro de São Francisco, Porziuncola
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Estava uma vez São Francisco no convento da Porciúncula com Frei Masseo de Marignano, homem de grande santidade, discrição e graça em falar de Deus; pela qual coisa São Francisco o amava muito.

Um dia, voltando São Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade.

Foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse:

“Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?”

São Francisco respondeu: “Que queres dizer?”

domingo, 10 de novembro de 2019

Um ardil de Filipe Augusto

O rei Filipe Augusto recebe as chaves de Acre. Grandes Chroniques de France, Biblioteca Nacional da França, Manuscritos 2813
O rei Filipe Augusto recebe as chaves de Acre.
Grandes Chroniques de France, Biblioteca Nacional da França, Manuscritos 2813
Luis Dufaur
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Um bailio de Filipe Augusto, Rei de França, cobiçava a terra deixada por um cavaleiro morto.

Uma noite, em presença de dois carregadores que ele tinha pago, fez com que o morto fosse desenterrado, perguntou se queria vender sua terra e propôs-lhe um preço.

Naturalmente, o defunto nem se mexeu.

Quem cala, consente. Em seguida, algumas moedas foram postas em suas mãos, e o defunto recolocado em seu caixão.

Com grande espanto, a viúva viu seus domínios usurpados e se dirigiu ao rei.

Convocado, o bailio compareceu ladeado por suas duas testemunhas, que atestavam a realidade da venda.

Filipe Augusto percebeu que era trapaça. Levou para um canto um dos carregadores e lhe disse em voz baixa:

— Recita-me no ouvido o Pai-nosso.

Concluída a oração, o rei exclamou em alta voz:

— Muito bem!

O segundo carregador foi também convocado.

O bailio, então, ficou convencido de que seus companheiros denunciaram a tramóia, apressou-se a dizer o que sabia.

O bailio foi condenado.

domingo, 27 de outubro de 2019

A contagem dos pães

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Dois homens que viajavam juntos sentaram-se à beira da estrada, para comer. Um tinha cinco pães, e o outro três. Quando colocaram diante de si a comida, passou por ali um homem e os cumprimentou. Eles o convidaram:

— Senta-te para comer conosco.

Ele se sentou e comeu com eles, consumindo-se durante a refeição os oito pães. O homem então se levantou e lhes deu oito moedas de prata, dizendo:

— Recebam este pagamento pela comida que me deram.

E continuou seu caminho.

Os dois companheiros discutiram sobre o modo de dividir entre si as moedas. O dono dos cinco pães dizia:

— Para mim são cinco moedas, e para ti três, pois isto corresponde ao número de pães que cada um de nós tinha.

— Só me conformarei com a divisão das moedas em partes iguais, pois ele recompensou a nossa hospitalidade, que tem o mesmo valor.

Não conseguiram chegar a um acordo. Por isso levaram sua pendência ao Emir Ali ben Ali-Talib, a quem expuseram o ocorrido. O Emir disse então ao dono dos três pães:

domingo, 15 de setembro de 2019

Cantiga 97: “Sempre acorrer a Nossa Senhora”

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Esta cantiga nos conta como Santa Maria protegeu da morte a um súdito do rei que havia sido caluniado.

“Nossa Senhora vem sempre nos socorrer, nos socorrer e salvar, e salvar ao coitado”.

Sobre isso, vos contarei um milagre que a Virgem fez em Cañete a um pobre servidor do rei. Os caluniadores inimizaram o rei contra ele, como eu bem sei, e queriam fazê-lo morrer.

De tal maneira o caluniavam que o rei o fez vir ante ele. E ele, com grande pesar e angústia, começou a chorar a rezou à Virgem tudo quanto podia.

Além do mais, doou à Igreja um rico pano, e se fez escravo de Nossa Senhora. Ele tinha por nome Mateus, e bem facilmente era conhecido na casa do rei.

domingo, 1 de setembro de 2019

O velho abade cruzado e o jovem traidor

Montemor o Velho, lenda do abade de Montemor, ©Rui Ornelas

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Numa fria noite de Natal, em pleno século IX, o abade Dom João de Montemor, superior de todos os abades de Portugal, regressava à sua casa depois de haver celebrado.

Ao passar por uma das igrejas que havia no caminho, ia persignar-se devotamente, quando o pranto de um menino o deixou surpreso.

Aproximou-se da porta de igreja, e viu que na entrada havia uma criatura que tremia de frio.

Com muita compaixão, tomou o menino, arrumou-o bem e o levou consigo ao seu palácio.

Grande foi a admiração de todos os familiares e serventes do abade, ao vê-lo aparecer com uma criança nos braços.

Explicou o ocorrido, e ordenou ao seu mordomo que dispusesse todo o necessário para que o menino abandonado fosse atendido devidamente.

Com efeito, tudo de que necessitava foi-lhe proporcionado. E assim foi crescendo o menino, que recebeu o nome de Garcia.