domingo, 26 de maio de 2019

Ladrão! Ladrão!


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Um mercador voltava de uma feira, onde fizera grandes negócios. Colocara numa bolsa de couro toda a sua fortuna, em belas moedas de ouro. Ia assim por vales e montes.

Chegando à cidade de Amiens, passou diante de uma igreja. Como tinha por hábito, entrou para rezar diante da Mãe de Deus e pousou a bolsa ao lado. Quando se levantou, distraiu-se e partiu sem ela.

Havia na cidade um burguês que, ele também, tinha o costume de ir rezar aos pés da bendita Virgem.

Veio ele pouco depois ajoelhar-se no lugar que o outro acabara de deixar, e encontrou a bolsa, selada e guarnecida de um pequeno fecho. Compreendeu logo que devia conter moedas de ouro.

— Meu Deus! Que devo fazer? Se mando apregoar pela cidade o que encontrei, não faltará quem o reclame contra todo o direito.

Decidiu então guardar a bolsa num cofre, até aparecer alguém à procura.

Voltou para casa, e com um pedaço de giz escreveu na porta: "Se alguém perdeu algo, que venha aqui".

Nesse ínterim o mercador tinha se dado conta do esquecimento:
— Pobre de mim! Perdi tudo! Estou aniquilado!"

E voltou à igreja, na esperança de recuperar o perdido, mas nada de bolsa.

Foi ter com o padre, mas nenhuma informação obteve.

Perturbado, deixou a igreja e pôs-se a vagar pela cidade. Passando diante da casa do burguês que encontrara a bolsa, viu as palavras escritas na porta.

Viu também o burguês postado na janela, e aproximou-se:
— Sois vós, senhor, o dono desta casa?
— Sim, senhor, enquanto Deus o permitir. Em que vos posso servir?
— Ah, senhor! Por Deus, dizei-me: quem escreveu essas palavras em vossa porta?

O burguês fingiu nada saber:
— Senhor, passa por aqui muita gente, sobretudo estudantes que gostam de escrever o que lhes passe pela cabeça. Mas perdeste algo?
— Tudo o que possuía.
— O quê, precisamente?
— Uma bolsa de couro, guarnecida de um fecho e selada, repleta de moedas de ouro.
E descreveu a bolsa e o selo.


O burguês compreendeu sem dificuldade que aquele homem dizia a verdade. Conduzindo-o a seu quarto, devolveu-lhe a bolsa.

Vendo a lealdade do burguês, o mercador ficou todo embaraçado, e pensou: "Senhor Deus, não sou digno de possuir este tesouro. Esse honesto burguês é mais digno que eu".

E voltando-se para ele, disse:
— Senhor, este dinheiro estará melhor colocado em vossas mãos do que nas minhas. Eu vo-lo entrego e vos recomendo a Deus.
— Ah, caro amigo! Tomai vossa bolsa, por favor. A ela não tenho nenhum direito.
— Não, não a mereço. Permita Deus que não a retome.
E fugiu correndo.

O burguês pôs-se a correr atrás, aos brados:
— Ladrão! Ladrão! Prendei-o!

Os vizinhos o escutaram, saíram correndo atrás, detiveram o mercador e o conduziram ao burguês:
— Ei-lo. Que vos roubou ele?
— Senhores, ele quis roubar-me a honra e a lealdade, que conservei por toda a vida.

E contou toda a história aos vizinhos, que obrigaram o mercador a retomar seu dinheiro.



(Fonte: "Fabliaux et Contes du Moyen Âge" - Classiques Hatier)



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domingo, 12 de maio de 2019

A ponte do diabo de St. Guilhem-le-Désert

A ponte do diabo de St. Guilhem-le-Désert
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Na região de Hérault, perto de Saint Guilhem-le-Désert, na França, há uma magnífica ponte.

Em tempos muito antigos, os pobres habitantes de Saint-Guilhem padeciam terrível isolamento. Era impossível atravessar o rio Hérault por causa dos abismos e dos redemoinhos. Por isso, eles tinham que enfrentar perigosas e longas travessias através das florestas e das montanhas.

Um dia, um dos habitantes teve que percorrer muitas léguas para contornar o rio.

Ele jurou então que faria tudo para evitar esses desvios.

Como acontece nesses momentos de cólera, juramentos e impaciência súbita, Lúcifer anda por perto.

Disfarçado, ele se aproximou de mansinho do nosso homem e com voz melosa, disse:

‒ “Quantas voltas para vender a mercadoria!”