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domingo, 8 de maio de 2022

A pedra do Beuvray

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






É uma grande pedra, um penhasco, uma pedra colossal que todos os anos, na noite de Natal, durante a Missa do Galo, gira sobre si mesma.

Existe na Borgonha um grande número dessas pedras misteriosas que giram, abrem-se e deixam ver grutas ou cavidades.

Uma delas está no topo do morro de Beuvray, onde é protegida por um ente estranho: a Wivre.

Esta é uma serpente fabulosa – uma espécie de dragão demoníaco coberto de escamas brilhantes amarelas e verdes quase luminosas, que ao entrechocarem-se produzem um ruído especial e silvam enquanto a Wivre voa e reluz no ar.

Se a pedra de Beuvray requer tão terrível proteção é porque encerra um tesouro. E esse tesouro só é acessível num momento do ano, durante alguns instantes da noite de Natal.

Na hora da Missa, como que incomodado pela celebração dos santos mistérios, o dragão se afasta e – dizem— a pedra se mexe e deixa entrever o a atração sedutora do ouro, das joias resplandecendo discretamente sob a luz das estrelas.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O campanário das fadas – ou dos anjos?

Dijon, a cidade dos cem campanários: a catedral no fundo, São Filiberto na esquerda
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“Dijon é a cidade dos cem campanários!”

Esta exclamação histórica foi pronunciada no topo da fortaleza de Talant pelo rei Francisco I assim que ele descobriu a seus pés o espetáculo inesquecível da capital da Borgonha – França – emergindo da bruma matinal.

Foi numa manhã de 1515. Grande mecenas das artes durante o Renascimento, Francisco I partia com um exército rumo à Itália.

Porém, sua famosa exclamação não foi tão original, pois toda cidade de alguma importância desenvolvida na Idade Média havia sido louvada em termos análogos.

Pois ao se considerar os campanários de suas catedrais, igrejas paroquiais, abadias e capelas, conventuais ou privadas, não se conseguia contar o número.

 Catedral Notre Dame e a torre do relógio
Naquela época a França era com toda razão reconhecida como a filha primogênita da Igreja.

Santa Benigme

Os campanários de Dijon são em geral cobertos com telha ou ardósia. 

Alguns deles, entretanto, eram protegidos por chapas de pedra conhecidas como “laves”.

Um campanário apresenta características muito peculiares.

O da igreja de São Filiberto, por exemplo.

Essa igreja se ergue à sombra da catedral, edificada por volta do ano mil pelo arquiteto italiano Volpiano.

Alguns séculos depois, os noviços da abadia de São Benigno quiseram construir uma igreja mais “ao vento”, “na moda” da época.

São Filiberto e seu campanário de lenda

E encomendaram o projeto a um arquiteto da região. 

Tinha que ser uma igreja nova, sem os vestígios obsoletos do passado.

O arquiteto quebrou a cabeça para conceber um prédio segundo a moda nova: de estilo humanista, que ressuscitava o velho estilo romano pagão.

A tarefa não era simples, pois devia ser discreta, não derrubando a igreja já existente e fingindo manter no estilo a originalidade da Borgonha.

Afinal o novo santuário ficou quase pronto, com um detalhe importante: para satisfazer à ânsia de modernidade e originalidade, não possuía campanário.

Mas muito ciumentos de seus abençoados sinos e dos respectivos campanários, os habitantes de Dijon contam que, na noite anterior à consagração do templo, fadas ou anjos – as opiniões divergiam sobre este particular – combinaram entre si edificar eles mesmos a torre que o capricho dos homens eivados de Renascença recusava.

E trabalharam até a madrugada.

Quando o carrilhão da abadia de São Benigno começou a chamar os monges para a recitação de Matinas, a surpresa estava ali.

Desenhando seu perfil na noite, um campanário se erguia aos céus onde não devia haver nenhum!

Na manhã cedinho, a nova igreja de São Filiberto ostentava o mais brilhante campanário da cidade.

Ele estava feito inteiramente com pedra entalhada, mas trabalhado com tanta perfeição, arte e detalhe que parecia feito de renda.

Com um particular: em virtude de um senso de hierarquia bem graduado, o novo campanário, resplandecente de alvura, fora feito com o cuidado de não ficar mais alto que o da catedral, mãe de todas as igrejas da diocese.



(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França)





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domingo, 19 de dezembro de 2021

Réveillon tumultuado no castelo

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na manhã de Natal do ano de graça de 1212, a fortaleza de Vergy, situada sobre esta célebre e fantástica montanha, estava recoberta com um espesso manto de neve que lhe ficava muito bem.

No vasto pátio, a guarnição tinha aberto caminhos que conduziam às torres de defesa, aos prédios de serviço e aos grandes salões. Estas passagens conferiam à neve o ar de uma renda.

Do alto desse ninho de águia, a paisagem se mostra suntuosa. Os harmoniosos vales apareciam ainda mais suaves pela neve. Por todos os lados se viam aldeiazinhas feéricas de cujas chaminés se desprendiam dezenas de colunas fantasiosas de fumaça azulada e prazenteira.

Uma floresta de altas árvores rodeia o bastião, cada uma das quais se assemelhava a um grande candelabro de prata aceso para a festa.

Pelos caminhos que levam a Vergy grupos de cavalheiros e damas a cavalo chegavam dos castelos vizinhos. Eles pareciam quase desaparecidos entre suas roupagens de lã e seus veludos forrados com pele de raposa.

Seus narizes estavam vermelhos de frio, mas seus olhares brilhavam de alegria. Eram os convidados do Duque Eudes III e da duquesa Alix, que haviam decidido celebrar nesse Natal uma missa de ação de graças pelo nascimento de seu filho Hugo IV, acontecido na primavera.

Entre os visitantes que se dirigiam a Vergy havia um cortejo particularmente destacado: era o de Dom Arnaud II, abade de Cîteaux, grande personagem a quem o Duque pedira que prestigiasse com sua presença a cerimônia e celebrasse a missa pelo bebê.

Dom Arnaud aceitou. Uma escolta de cavaleiros e homens de armas deixou então a fortaleza para ir a seu encontro e trazê-lo por um bom caminho, garantindo ao mesmo tempo sua segurança contra os percalços de uma terra onde abundam os lobos e os bandidos de estrada.

Familiares e amigos começaram a se reunir. Assistidos por suas respectivas mães e sogras, Eudes e Alix acolhiam os convidados na grande sala do castelo.

Tudo estava previsto para que e o frio e as fadigas da viagem se desfizessem junto ao grande fogo da lareira. Vinhos quentes e calorosas palavras de boas-vindas faziam o resto.

Cada um tinha um quarto reservado segundo sua condição, tendo Dom Arnaud recebido a mais bela peça do alojamento destinado aos cônegos.

O crepúsculo foi deslumbrante. Os convidados subiram em grande número nas muralhas e para ver o disco vermelho desaparecer por trás das densas florestas da serra de Bruant. O pôr do sol de inverno naquela região é sempre feérico.

O céu transparente da noite deixou brilhar uma constelação de estrelas. O ambiente ficou sobrenatural, os portadores de tocheiros iam e viam, lançando suas sombras em movimento sobre as pedras e fazendo faiscar os cristais de neve.

Tocheiros foram instalados ao longo de todo o caminho que conduzia à capela, as velas foram acesas. Naquela noite, a pequena igreja românica ia estar cheia como jamais esteve.

Abriram-se as portas e o personagem mais importante entrou primeiro: o abade de Cîteaux, sem dúvida, seguido pelo Duque e a Duquesa, depois pelas babás Mahaut e Adeline que levavam o berço do futuro Hugo IV. Logo em seguida vinham a família, os amigos e os convidados. No fim as portas foram fechadas.

O clero e os coroinhas estavam reunidos detrás do altar. Os olhos de toda a assistência estavam postos naquele que era chamado na época de “Papa dos cistercienses”.

Ninguém prestou atenção num monge de hábito escuro escondido atrás de uma coluna da capela lateral. Um grande capuz ocultava-lhe a cabeça, mas um observador atento teria ficado surpreso contemplando na sombra seus olhares negros desprovidos de amenidade.

Ele tinha essas silhuetas flexíveis que permitem passar despercebido e parecia absorto em fervorosa oração.

O abade subiu ao altar e começou o Introito da Missa de meia-noite: “Dominus dixit ad me; filius meus es tu...”

No momento em que ele pronunciava essas palavras, uma rajada de ar quente apagou velas e candeias, inclusive a lâmpada a óleo que ardia dia e noite junto ao Santíssimo Sacramento.

Um murmúrio de surpresa percorreu a nave da igreja, mas o oficiante não perdeu seu sangue frio e continuou como se nada tivesse acontecido, enquanto o bedel reacendia os pavios.

Depois, precedido pela cruz processional e pelos coroinhas, o oficiante deixou o presbitério em direção à nave, cantando o Kyrie com os fiéis.

Mas, a meio-caminho suas pernas se recusaram ir mais longe, como se tivessem ficado de chumbo. Ele já não mais podia fingir desconhecer este segundo fenômeno.

Seu canto ficou afogado em sua garganta. Os fiéis estavam profundamente perturbados vendo nesses fatos maus presságios para o futuro Duque.

Não podendo avançar, o abade se viu obrigado a voltar para o altar. Ninguém observou que o abade tinha se detido exatamente à altura onde estava aquele monge em oração.

Porém, a Missa continuou, com os cantos gregorianos mais emocionantes que de costume. Não era para menos, pois entre os presentes havia valorosos cavaleiros que deram prova de sua bravura no sítio de São João d’Acre, por ocasião da Cruzada.

Chegada a hora da Elevação, todo mundo aguardava o toque da sineta para se ajoelhar sobre o chão de pedra. Mas por mais que o coroinha tocasse a sineta, som algum se ouvia!

Todos receberam a comunhão. Chegara por fim o momento de o bebê ser consagrado a Deus.

Contudo, uma trovoada interrompeu o abade, um relâmpago iluminou a igreja, e todas as lâmpadas apagaram-se de novo. Uma luminosidade amarela e um odor de enxofre escaparam da capela lateral.

Desta vez a desordem atingiu um auge: os guardas abriram as portas, e a multidão, que não mais aguentava, precipitou-se para fora.

Vários guardas foram atropelados e jogados por terra por um ser impetuoso cuja sombra gigantesca enveredou pelo caminho do Grande Rochedo.

Como anfitrião cônscio de seus deveres, o duque Eudes deu ordens para que os convidados fossem conduzidos logo para a grande sala de jantar onde o festim estava preparado.

Entretanto ninguém tinha fome, nem ousava levantar o olhar ou romper o silêncio.

Por fim, Dom Arnaud se animou a falar: com sua voz forte e sempre calma, ele explicou o que tinha acontecido, não sem antes dar sua bênção.

Ele disse que essas manifestações provinham de Lúcifer, o qual durante muito tempo viveu em Vergy disfarçado no triste cavaleiro Rodolfo, aquele que dizia vir das margens do Reno e que tentara seduzir em vão Margarita de Vergy.

Desde então ele manifesta seu despeito agindo em torno da fortaleza.

Dom Arnaud prometeu celebrar uma Missa de exorcismo no dia seguinte.

Novamente aberta a capela, descobriu-se que as lajes da capela lateral estavam completamente carbonizadas.

Nos anos que se seguiram os visitantes vinham vê-las, com um misto de curiosidade e temor.

Essa estranha noite de Natal continuou a correr de boca em boca durante muito tempo na Borgonha.

Mas o demônio achava que não tinha desabafado todo seu ódio contra a poderosa fortaleza de Vergy.

E encontrou um instrumento no rei Henrique IV, que foi um caudilho protestante nas guerras de religião.

Esse rei ordenou destruir o castelo. Ao canteiro da demolição viu-se então chegar um homem extremamente alto, de força hercúlea, que assumia trabalhos desmesurados; destruía com tanto zelo que nem olhava para as horas suplementares.

Até se comenta no vale de Vergy que em todos os anos, durante a noite de Natal, estranhos fogos faiscantes e espectros de sans-culottes fazem uma sarabanda por cima das ruínas do castelo.

Mas ninguém foi tão louco para ir verificar se isso é verdade.

(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 55-58)



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domingo, 28 de novembro de 2021

A fonte de Santa Reine

A fonte de Santa Reine, Alise, Borgonha
A fonte de Santa Reine, Alise, Borgonha

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Havia pouco que a Gália se tornara cristã e os romanos já a atravessavam com estradas retas e seguras, templos de mármore e tijolo, fazendas bem ordenadas que eles chamavam de ‘vila’.

Em Alésia, César havia dado fim a Vercingétorix, acabando com a resistência dos gauleses.

Apesar da lembrança dos dias do sítio implacável, os nobres e os dirigentes empenhavam sua boa vontade em aplainar as dificuldades que podiam eclodir entre os novos senhores que pretendiam ser pacificadores, e os habitantes que povoavam os morros desde tempos imemoriais.

Os pontos de encontro eram a boa acolhida, o bom trato, a paciência, como também o comércio e os casamentos.

Romanos e gauleses trabalhavam para dar coesão ao país.

Porém, os romanos tinham um novo inimigo para combater: a religião cristã que se espalhava de modo cada vez mais rápido e profundo.

Foi nesse momento que um dia chegou a Alésia um certo Olibrius, prefeito do imperador, enviado para combater a nova religião.

Os nobres do burgo fizeram questão de recebê-lo bem.

Visitando a casa de um deles, Olibrius deitou o olho em Reine.

Ela era muito nova, muito bela e reservada.

A fonte de Santa Reine
A fonte de Santa Reine
Olibrius ficou apaixonado, mas ao mesmo tempo tinha a missão de aproximar os dois povos.

Pediu então ao pai a mão de sua jovem filha.

Porém, Reine se recusou.

O pai tentou convencê-la, explicou-lhe todo o bem que o casamento proporcionaria à pequena comunidade e ao país, mostrou-lhe as vantagens de tão belo partido.

Ele lhe rogou, chegou até ameaçá-la, mas Reine tinha uma boa razão para não se casar com Olibrius.

No fim, ela confessou: sua babá tinha feito dela uma cristã, e a cristã se recusava casar com um pagão.

A jovem foi jogada na prisão, numa cela escura e minúscula onde ficou privada de beber e comer.

As únicas visitas que recebeu foram de seu pai, que foi pressioná-la para que cedesse.

Depois chegaram os carrascos. Talvez a infeliz tivesse cessado de resistir se uma pomba não tivesse aparecido para reconfortá-la na prisão.

Por onde entrou essa pomba? De onde vinha? Ninguém soube.

Santa Reine, Alise, Borgonha
Santa Reine, Alise, Borgonha
Reine disse “não” mais uma vez. Ficou então decidido que seria afogada numa enorme bacia. Ela receava essa morte pelos suplícios morais que ela supunha, mas a preferia antes que renunciar à sua fé.

Porém, seu destino era maior: ela ia se tornar uma mártir, uma santa, e por isso aconteceriam milagres.

No dia do derradeiro suplício aconteceu um grande tremor de terra que abalou o morro e derrubou a bacia.

A pomba voltou e depositou uma coroa na testa de Reine.

Alguns acharam que talvez naquele momento sua vontade seria mais forte que a de seu pai.

Este, porém, não entendeu assim e, fora de si de tanta cólera, ordenou que cortassem a cabeça da filha.

Desta vez Reine perdeu a vida, mas não foi em vão.

Uma fonte começou a brotar no mesmo ponto onde seu sangue molhou o chão.

E a água que ali brotava logo curou doentes e enfermos que se encontravam nas vizinhanças.

Obviamente, com essa água que devolvia a saúde e punha fim aos males propagaram-se a fama da jovem mártir e os milagres da nova religião.

Hoje, no mês de setembro de cada ano, os peregrinos voltam a Alésia para ali beber a água de fonte de Santa Reine.



(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 26-27)




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domingo, 18 de julho de 2021

São Vicente, o vinho e o gelo

Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha
Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na Idade Média, os monges cistercienses exploravam a quase totalidade do célebre vinhedo da Borgonha.

E isso com toda justiça, pois foram eles que desbravaram suas terras e plantaram as vinhas.

Pesados comboios saíam regularmente das vinícolas e adegas da região para irem prover as abadias das cidades.

Numa jornada muito fria de dezembro, num desses comboios seguia para Dijon.

Dois monges bem agasalhados conduziam as charretes, que a todo o momento escorregavam sobre o gelo.

O destinatário da carga era o abade de São Benigno.

No frio iam os dois monges vinhateiros, sonhando com a acolhida calorosa que lhes reservariam seus irmãos de Dijon.

Antes de partir, os dois não haviam se esquecido de colocar a viagem sob a proteção de São Vicente, padroeiro dos vinicultores, e de Nossa Senhora do Bom Caminho.

domingo, 28 de março de 2021

Os sarcófagos vazios de Quarré-les-Tombes

São Jorge, catedral de Estocolmo
São Jorge, catedral de Estocolmo
Luis Dufaur
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No coração da região de Morvan, na Borgonha (França), entre os límpidos rios Cure e Cousin, uma aldeia tem um nome curioso: Quarré-les-Tombes, algo como o Cercado das Tumbas.

O nome vem da presença sempre inexplicável de grande número de sarcófagos vazios – lá chamados de “pierres carrées”.

A concentração nesse local de milhares de túmulos sem os respectivos restos sempre excitou a imaginação popular.

A história começa no século nono da era cristã. 

Os normandos – ou vikings – que naquela época eram pagãos, invadiam a França e remontavam os rios a bordo de seus grandes barcos, os drakkar.

Eles não somente matavam, pilhavam e queimavam tudo na sua passagem, mas também arrasavam as igrejas e dispersavam as santas relíquias.