quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A perfeita alegria segundo São Francisco de Assis

Vindo uma vez S. Francisco de Perusa para Santa Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo do inverno, e o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, frei Leão perguntou-lhe:

‒ Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria.

E São Francisco assim lhe respondeu:

“‒ Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser:

“‒ Quem são vocês?

“E nós dissermos:

“‒ Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser:

“‒ Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui!

“E não nos abrir e deixar-nos estar ao tempo, à neve e à chuva, com frio e fome até à noite: então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele (...) escreve que nisso está a perfeita alegria.

“E se ainda, constrangidos pela fome e pelo frio e pela noite batermos mais e chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser:

“‒ Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem.

“E sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó:

“Se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, as quais devemos suportar por seu amor:

“Ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria, e ouve, pois, a conclusão, irmão Leão.

“Acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, está o de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos”.

(Fonte: “Fioretti de São Francisco”, excerto)

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Poço do Diabo no castelo de Fleckenstein


O altaneiro castelo de Fleckenstein (foto ao lado) fica na Alsácia, França. Hoje a fortaleza medieval está em ruínas.

Mas ela tem um poço de mais de 70 metros de profundidade inteiramente entalhado na rocha. Essa façanha não parece humana e fez nascer a lenda do Poço do Diabo de Fleckenstein:



“O ponto débil de todo castelo é a água. Se ficar sem ela o inimigo podia exigir a rendição.

“Por isso o senhor feudal de Fleckenstein fiz vir os melhores entendidos em poços da região. E eles se puseram a trabalhar encarniçadamente. Eles queriam topar o desafio!

“Dia após dia, semana após semana, o poço se aprofundava, mas nenhuma gota d’água aparecia para refrescá-los.

“Após um ano de um trabalho de Hércules, eles tinham atingido uma profundidade “próxima do centro da terra”, como eles diziam.

“Ali, os raios do sol não podiam mais iluminá-los e eles trabalhavam numa obscuridade desconhecida.

“E nunca encontravam a água!

“Foi então que apareceu um estranho poceiro. Ninguém conhecia-o.


“E ele foi dizendo que ele, e só ele, poderia achar logo água cristalina e gostosa.

O castelo de Fleckenstein na Idade Média


‒ “Negócio fechado!”, exclamou o senhor feudal dando tapas nas costas do desconhecido num gesto que lembrou um pacto!

‒ “Tu terás o que queiras em troca da água”, acrescentou o dono do castelo.

“O curioso personagem pôs-se então a trabalhar diante dos poceiros extenuados e incrédulos.

“Ao cabo de algumas horas, ele declarou com certeza diante de uma multidão de olhares espantados que ele, por fim, tinha encontrado água “abundante e fresca”

“Ele, então, convidou o nobre senhor a descer com ele até o fundo do obscuro furo. Os dois homens subiram numa cestinha amarrada com uma corda e desceram lentamente.

“A cestinha descia e descia. Isso começou a durar demais e só havia trevas em volta.

“Quando pareciam ter chegado até o fundo do poço, o senhor de Fleckenstein começou a achar que estava vendo chamas.

“No meio daqueles luores enigmáticos ele percebeu que seu companheiro começava a se transformar.

“Seus pés iam se parecendo com o pezunho do bode, chifres cresciam na sua fronte e, no fundo do buraco, as chamas tentavam queimar-lhe os pés!

“Ele logo compreendeu: o estranho poceiro não era outro senão o diabo que o levava para os infernos !!!!

“O nobre cavaleiro, então, rezou a Nossa Senhora, clamou a Ela que lhe obtivesse a graça de Deus.

“E, enquanto rezava, o diabo pulou da cesta e lhe fez sinal de descer e entrar nas labaredas do seu sinistro, infeliz e eterno reino.

“Mas, o barão apavorado soltou poderosos brados de recusa. Os seus ajudantes, lá acima ouviram os gritos e começaram a puxar a corda.

“Ah! O diabo não ia deixar escapar fácil sua presa! Era dele! Ao menos assim pensava o bandido.

“Dependurou-se da cestinha e começou a balançá-la com toda sua força para que o passageiro caísse nas brasas ardentes de seu malcheiroso reino.

“Lá foram os dois brigando. O nobre invocando a Nossa Senhora se segurava com força da cestinha que para ele virou uma imagem da Igreja, a Arca de Salvação.

“O diabo blasfemava como um herege, chacoalhava a cesta, puxava-a para baixo e para todos os lados, e amaldiçoava a Mãe de Deus que era mais forte do que ele.

“Assim foram subindo até que começaram a ver os primeiros raios do sol.

‒ “Maldito sol! blasfemou o anjo das trevas. “Faz-me lembrar Deus! E São Miguel o dia que me aprisionou no fundo da terra entre enxofre e chamas!”

“A luta foi dura.

Diabo mascando precitos. Coppo di Marcovaldo, batistero da catedral de Florença.

“Alguns que ali estiveram garantem que saíam faíscas e chamas do poço...

‒ “Arrgh! O sol, a luz, tudo isso fala de Deus! Não agüento mais, bradou desesperado o pai da mentira, largou a cestinha e jogou-se no precipício.

“O dono do castelo foi salvo. Assim que ele pôs o pé em terra mandou derramar litros de água benta dentro do poço.

“Ainda hoje e desde aquele dia desce uma água clara e fresca para os habitantes da cidade vizinha. E ela vem do poço do castelo!”

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O lenhador que queria ficar rico sem trabalhar


Ficaram umas poucas ruínas do castelo de Hohenstein, na Alemanha. Elas não dão idéia da grandeza daquela cidadela medieval, e da riqueza de seu senhor.

Uma legenda conta que:

“Há já muito tempo, naquela densa floresta, um lenhador trabalhava duramente perto da cidadela.

Floresta do castelo de Hohenstein

“O lenhador, entretanto, acariciava um sonho. Ele até falava em alta voz, quando ninguém o ouvia:

‒ “Que tal ficar rico sem trabalhar? Uma sorte, um inesperado, e a gente acha um tesouro. Ah! Nunca mais trabalhar... que bom !

“O diabo que andava por ali perto pegou a coisa no ar e aprontou uma das dele.

“Quando os últimos raios de sol desapareceram por trás da colina, o lenhador parou seu serviço e pegou o caminho de volta.

“O demônio tinha ali montado uma arapuca. Como de pura sorte o lenhador julgou perceber entre as ruínas do castelo uma curiosa pilha de materiais transparentes e desconhecidos.

“Pareciam com asas de besouros, insetos que havia em grande quantidade naquele bosque. Ele achou estranho, mas ele estava certo que ninguém acreditaria se contava ter achado isso. De fato, os besouros não se reúnem nesse número para morrerem juntos. Ele, então coletou a mancheia essa estranha matéria e a colocou delicadamente na sua bolsa.

“Mas, eis que se afastando das ruínas, a matéria começou a pesar cada vez mais.

“Sem dúvida, a fadiga de uma jornada particularmente difícil e longa fazia sentir seus efeitos.

Castelo de Hohenstein

“Ele já não conseguia caminhar mais com aquele peso todo. Não podia mais!

“Se livrar desse peso tornou-se sua maior preocupação.

“Perto do fosso da antiga muralha, ele jogou todo o conteúdo de sua bolsa.

“Nessa hora, em lugar de asas de besouro caíram belas moedas de oro que sumiram entre as pedras e as fendas do fosso.

“Os olhos do lenhador abriram-se enormes, ele estava fascinado pela descoberta!

“Ouro! Rico... riquíssimo... sem trabalhar... por um simples acaso... um mero achado...!

“Ele tentou tudo o que podia para recuperar as moedas, remexeu a terra, levantou as pedras, arrancou o capim...

“Mas tudo foi em vão! As moedas se escondiam entre as ruínas do castelo.

Castelo de Hohenstein

“Ele então lembrou aquela pilha esquisita ao lado do caminho e voltou. Ele ficaria rico... para sempre... moedas de ouro.... muitas moedas... muito ouro...

“Ele voltou a procurar as asas de besouro. Mas, ... não ficava nada.

“Tudo havia desaparecido.

“Ele não quis acreditar. O sonho dele era mais forte do que tudo.

“Começou a procurar, procurar, procurar...

“Desde aquele dia, quando a noite começa a descer perto das ruínas fantasmais do castelo, os passeantes perdidos contam que uma figura estranha remexe o fosso da velha praça forte.

“Eles não sabem, mas é o lenhador que sonhava de olhos abertos em ficar rico sem trabalhar e que há séculos escava as ruínas à procura de seu cobiçado tesouro.”

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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O fruto que o Menino Jesus aceitou de um menino pobre


Nada mais comovedor do que a lenda do pequenino predileto da Virgem Mãe e do Menino Jesus, o Bem-aventurado Hermano José.

Menino de maravilhosa pureza de coração, fugia com a maior cautela de companheiros mal educados e de jogos ruidosos. Pelo contrário, em parte alguma gostava mais de estar do que na igreja, e a sua delícia particular era orar diante das imagens da Mãe de Deus, que já tinha escolhido por Mãe sua.

Ainda hoje se mostra em Colônia, na Igreja de Santa Maria do Capitólio, o lugar onde, segundo uma piedosa tradição, com filial singeleza conversava com o Menino Jesus e sua Santa Mãe. Ali saudava Maria, quando ia para a escola. Para ali se retirava, enquanto os seus condiscípulos jogavam ou se entregavam a outros brinquedos próprios da idade.

Uma vez levava Hermano consigo uma formosa maçã, e lhe veio a idéia de oferecê-la ao Menino Jesus. Estendeu a mãozinha para a imagem, e — oh! prodígio! — a maçã foi aceita.

Outra vez, durante o inverno, apareceu o pobre menino descalço diante da imagem e ajoelhou-se para orar, a tremer de frio. Nisto perguntou-lhe Maria:
— Hermano, por que andas descalço, com tamanho frio?
— Porque não tenho sapatos — respondeu.
Então Maria apontou para uma pedra, e disse:
— Vai àquela pedra, e lá encontrarás o dinheiro de que precisas. Quando no futuro te faltar alguma coisa, vai sempre lá procurar, com toda a confiança.

Quando os outros meninos perceberam que Hermano encontrava dinheiro naquele local, também começaram a fazer buscas. Mas, como não eram tão puros nem tão bons como Hermano, e como não tinham grande amor a Maria, não encontravam nada. O dinheiro estava lá só para Hermano.

A sua pureza era tamanha, que mais tarde, quando tomou o hábito no convento de Steinfeld, ao seu nome juntaram o do esposo virginal de Maria, e desde então ficou chamando-se Hermano José.

(Fonte: Pe. Adolfo de Doss, S.J., "A Pérola das Virtudes" - Porto, 1958)

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A ponte do diabo em Montoulieu

Perto da formidável fortaleza de Foix, na região de Languedoc, França, não longe da fronteira com a Espanha há uma ponte. É a ponte Montoulieu que existe até hoje. Há turistas que chegam perto.


A Ponte do Diabo, Montoulieu

Mas é melhor ir bem confessado!!! Pois dela conta-se a seguinte história:

“Numa manhã, Raymond Roger, conde de Foix, acordou de péssimo humor. Passara mal na noite por culpa do javali que jantou na noite anterior.


Desse jeito, fez selar seu cavalo favorito e partiu ao galopo rumo às montanhas.

Ele atravessou logo o burgo de Foix e entrou pelo caminho que corre ao longo do rio Ariège. Ele ia pelo lado esquerdo cavalgando no sentido contrário da correnteza.

Assim ele passou por Ferrières e Prayols. Mas, logo depois lhe deu na fantasia de cambiar de lado. Ele mandou o cavalo cruzar o córrego. Porém, naquele lugar o rio Ariège corre entre paredes de pedra enormes e a água é profunda.

O cavalo não quis passar. O conde ficou furioso, deu meia-volta e voltou para o castelo.

Imediatamente, ele mandou vir o barão de Saint-Paul, e lhe disse encolerizado:

‒ “Sr. barão, esse desvio na tua região me põe em cólera...”

‒ “Mas, meu senhor, sempre foi assim desde que existe esse rio!”

A Ponte do Diabo, Montoulieu

‒ “Chega! Eu te ordeno construir uma ponte no local. E logo!!!”

‒ “Bom… sim,... vou tentar…” sussurrou o barão consternado diante da perspectiva de uma tarefa quase impossível.

‒ “Se num mês eu não vejo a ponte, tua vida vai pender de um fio!”

E o conde se retirou deixando o pobre barão completamente desolado.

Acontecia que o barão era um poeta que não se preocupava pelo dia de amanhã e gastava logo os escudos que ganhava. Por isso, ele não tinha um tostão sequer para começar os trabalhos.

Então, ele que cantava sempre, ficou todo triste. Os dias passavam e não aparecia nenhuma solução. Ele foi até os bordes do Ariège e muito desanimado lamentou-se:

‒ “Ah! Eu faria um pacto até com o diabo para sair desta enrascada!”

Fora o diabo malandro que soprara essa idéia no miolo mole do barão .

‒ “¨Ca estou eu ...” disse uma voz por trás do barão.

O diabo cheirando a enxofre apareceu e lhe estendeu a mão dizendo:

‒ “Tua ponte estará pronta no dia combinado!...”

‒ “É verdade? Não posso acreditar... bem, muito obrigado... quer dizer... bom, sim, sim, obrigado...”, gaguejou o tolo barão.

‒ “Sim, sim...”, disse o diabo. “Mas o que é que você vai me dar em troca?”

‒ “Quer dizer... bem...” tartamudeou o barão compreendendo tarde demais que tinha posto os pés pelas mãos.

‒ “Você não tem dinheiro... eu sei...”, continuou o diabo sabido. “Olha aqui!”

O espírito da mentira pegou uma pedra e jogou para ele. Na hora de apanhá-la, o barão viu que tinha se transformado em moedas de ouro!

‒ “Mas... eu... quer dizer... não sei...”

‒ “O que eu quero... ‒ e nessa hora o olhar do demônio faiscava como fogo do inferno ‒ é que você me entregue a alma do primeiro que passe pela ponte!”

O barão fechou os olhos e disse:

‒ “Tá bom! Eu te juro pela minha honra que a alma do primeiro que passar pela ponte será tua!”

E cada um partiu para seu lado. Mas, a partir daquela data, o barão estava cada vez mais triste. Ele tinha feito um pacto com o diabo!

Cheio de remorsos, ele foi para o lugar onde vão todos os que tem necessidade de um reconforto.

Ele foi para a igreja do mosteiro de São Volusien.

Igreja da abadia de São Volusien

Envergonhado por seu pecado, ele se escondeu detrás da primeira coluna à direita, e prosternou-se no chão chorando.

O irmão sacristão percebeu esse homem imenso por terra e foi chamar o reverendíssimo abade:

‒ “Meu pai, disse ele, há um ladrão na igreja!...”

‒ “Um ladrão? Como assim? Vamos ver...”

O abade foi pé ante pé até o homem deitado por terra, escutou e ouviu os prantos.

‒ “Mas não é um ladrão! É um homem que sofre!”, sussurrou para o irmão.

E, avançando, tocou no ombro do barão, dizendo:

‒ “Meu amigo, venha...” E ele levou-o à sacristia onde reconheceu ao barão de Saint-Paul. Este então lhe contou o caso, sua dor e confessou seu pecado.

Quando a confissão acabou, o reverendo padre disse estas palavras na orelha do barão sonhador e atrapalhado:

‒ “Amanhã, vos será necessário... então vós fareis... então... a solução!”

Ninguém ficou sabendo o que saiu nesse momento. Mas o abade passou a noite rezando muitas “missas baixas” pelo barão.

O barão, por sua parte, voltou para sua casa, cantando como um passarinho de alegria.

Entrementes, durante aquela noite toda, ouviu-se no vale o eco de uma barulheira infernal. Era um canteiro de obras pavoroso!!!

Os aldeões de Montoulieu não puderam dormir.

E no raiar da aurora apareceu bem construída uma ponte sobre o perigoso córrego.

Belzebu instalou-se sobre o murinho da ponte, aguardando o primeiro passante para levá-lo ao inferno.

E quando desabrochavam os primeiros alvores matinais, envolto numa capa preta, apareceu o barão de Saint-Paul.

O diabo zombou dele:

‒ “Ah, sim, você vai ser o primeiro!...”

‒ “Não, não”, respondeu o barão. “O primeiro, aquele que é para você... olha está aqui!”

E abrindo uma sacola ocultada sob a capa puxou um enorme gato negro que tinha uma panela amarrada na cauda. E o gato saiu disparado. Usando todas suas patas atravessou a ponte.

O diabo soltava vapores pelas orelhas e partiu para pegar o barão, quando na encosta de um morro apareceu a procissão dos monges de São Volusien, cantando as ladainhas de todos os santos, com a Cruz na frente e o Padre Abade levando o hissope e aspergindo a ponte com água benta.

O diabo afundou na terra!!! Vitória!!!

Durante muitos e longos anos poucas pessoas ousaram cruzar a ponte durante a noite.

Entretanto, há mais de dez séculos que não se ouve falar de sinais de Lúcifer na ponte de Montoulieu.

Se você for passear por ali e você o encontrar, fique sabendo que foi você que o atraiu lá!”

Castelo de Foix, perto de Montoulieu

(Fonte: “La legendo del pount del diable”, tirada do livro “La Mandrette- Mémoire d’Ariège”, Ed. Lacour/Rediviva).

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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O combate contra o gigante Ferragut


Terminada a conquista da região de Monjardin, anunciaram a Carlos Magno que em Najera havia um gigante da raça de Golias, chamado Ferragut. Tinha vindo da Síria, enviado pelo emir de Babilônia com 20.000 turcos, para combater o monarca franco. Possuía o vigor de quarenta homens fortes. Media uns sete pés.

Quando o gigante se inteirou da chegada do Imperador, saiu alegre ao seu encontro e lhe propôs um combate singular. Um cavaleiro devia lutar contra ele. Saiu primeiro Ojeros até Ferragut, e o gigante pegou-o com sua mão direita e o levou como uma ovelha até a cidade. Carlos mandou Reinaldo de Montalbán. Tomando-o pelo braço, Ferragut o encerrou no cárcere da cidade. Tiveram idêntica sorte vários guerreiros. Carlos desistiu então da idéia de prosseguir a luta.

Roland pediu permissão ao Rei para medir as suas forças com o gigante. O David franco se acercou de seu rival. Ferragut, tomando-o pela direita, o pôs ante si sobre o cavalo, conduzindo-o até a cidade para prendê-lo com seus compatriotas cristãos.

O franco, porém, com rapidez, conseguiu derrubar o gigante ao chão. Levantou-se com presteza e montou de novo em seu cavalo. Roland brandiu sua espada e descarregou um forte golpe para matar o seu adversário. A força da espada partiu em dois o cavalo, e Ferragut proferia terríveis ameaças contra o franco. Começaram a lutar com a espada. Porém Roland conseguiu desarmá-lo.

O Golias sarraceno intentou matar Roland com um murro, mas a mão cerrada caiu sobre a cabeça do cavalo de Roland, matando-o e deixando o cristão em posição parecida com a de seu inimigo. Perdida a cavalgadura, a luta continuou durante toda a tarde. Fizeram uma trégua, e os dois prometeram continuar a luta no dia seguinte, sem cavalos nem lanças.

No dia seguinte nada pôde conseguir Roland em seus intentos, para ferir com paus e pedras o seu invulnerável inimigo. Fizeram novas tréguas. Ferragut caiu, dormindo no próprio campo de batalha. Roland, como bom cavaleiro, pôs uma pedra sob a cabeça do gigante, para lhe servir de almofada e assim poder descansar melhor. As tréguas eram tempos sagrados.

Quando Ferragut despertou, Roland sentou-se ao seu lado. Perguntou qual era a razão de sua invulnerabilidade, não sendo ele atingido por espadas, bastões ou pedras.
— Porque tan solo por el ombligo puedo ser herido — confessou o gigante, falando em espanhol.

Continuaram conversando longo tempo, interessando-se o gigante pela origem e religião do franco, que aproveitou a ocasião para evangelizar o pagão, fazendo uma minuciosa exposição dos dogmas cristãos. A discussão teológica terminou com uma reação normal naqueles tempos: a verdade religiosa e a aceitação da fé ficou submetida ao resultado da batalha entre os dois campeões.
— Lutarei contigo — disse Ferragut — com a condição de que, se é verdadeira essa fé que sustentas, seja eu o vencido. E se é falsa, o sejas tu.

O cristão aceitou. O duelo feroz se iniciou logo depois. Um golpe de espada de Ferragut partiu em dois a arma de Roland. Ao vê-lo desarmado, o gigante avançou sobre ele, aplastando-o sob o peso de seu corpo.

Compreendeu Roland que não podia fugir, e invocando a Virgem, revolveu sob o ventre do opressor. Tomando então o punhal, cravou-lho no umbigo, fugindo imediatamente. Aos gritos do gigante invocando Maomé, acudiram os sarracenos, levando seu capitão a Najera.

Então as hostes cristãs atacaram os mouros perto do castelo que domina a povoação, conquistando a cidade e a fortaleza e pondo em liberdade os prisioneiros cristãos.

(José Maria Jimeno Jurio, "Leyendas del Camino de Santiago" - Diputación Foral de Navarra, 1977)

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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O cavaleiro de Tundale e sua visita ao inferno


O cavaleiro irlandês Tundale aprendeu uma lição de seu soldado, que nunca esqueceu.

Tundale era um bravo homem e bom soldado, mas não levava uma vida muito boa. Um dia, enquanto estava sentado a uma mesa, caiu inconsciente e ficou naquele estado por três dias.

Quando recobrou consciência, era um homem mudado. Começou a louvar a Deus e a fazer penitência por todas coisas más que tinha feito.

Por que mudança tão repentina? Ele contou a seus amigos que, enquanto estava inconsciente, sua alma pareceu deixar o corpo, e ele se achou rodeado de demônios que queriam levá-lo para o inferno.

Os demônios atormentavam-no terrivelmente, até que seu anjo da guarda apareceu e expulsou-os.

Então o anjo conduziu-o através do inferno e purgatório, mostrando-lhe pessoas que tinha conhecido quando vivas.

Tundale disse a seu anjo o quanto ele tinha padecido nas mãos dos demônios, e o anjo lhe respondeu: “Tenho estado sempre ao seu lado, mas você nunca me pediu ajuda”.

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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

São Francisco, o frade orgulhoso e o enviado de Deus


No tempo de S. Francisco de Assis vivia um frade que achava estar à altura da inteligência de um anjo.

Aconteceu que um dia São Francisco estava rezando na floresta, quando um jovem veio até a porta do mosteiro e começou a bater bem forte, por tanto tempo, que os frades surpreenderam-se com o barulho. Um deles foi até a porta, abriu-a e disse ao jovem:

— Obviamente você nunca esteve aqui antes, pois não sabe como bater em nossa porta adequadamente.

— Como então devo bater?

— Bata três vezes lentamente, então espere até que os frades possam dizer um Padre Nosso. Se ninguém vier, bata novamente.

— Estou com muita pressa, por isso bati tão forte. Envie-me Frei Elias, pois eu lhe farei uma pergunta. Ele é muito sábio.

Frei Elias ficou ofendido com o modo do pedido, e não queria ver o jovem. Novamente ele começou a bater, tão alto quanto antes. Mais uma vez o frade foi até a porta, e disse:

— Você não observou minhas instruções de como bater.

— Frei Elias não virá. Vá até a floresta e diga a Frei Francisco para enviar-me Frei Elias.

Quando Frei Elias soube desta ordem, foi até a porta com grande fúria, e abrindo-a com violência e barulho, disse:

— O que você faria?

— Tome cuidado, Frei Elias — respondeu o jovem —, pois a ira atrapalha a alma e encobre a percepção da verdade.

O jovem fez então a Frei Elias uma pergunta muito difícil, sobre uma das regras do mosteiro.

— Eu sei bem a resposta — respondeu Frei Elias com raiva. Mas na verdade não sabia respondê-la, e bateu a porta na face do jovem.

São Francisco, a quem todos esses acontecimentos tinham sido revelados, repreendeu severamente Frei Elias, dizendo:

— Deveis estar doente, Irmão Elias, pois expulsais anjos que Deus nos envia para nos ensinar. Pois eu vos digo que temo muito que vosso orgulho vos fará acabar os dias fora da ordem.

E assim aconteceu, como São Francisco havia dito.

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quinta-feira, 23 de julho de 2009

O alcaide-mor de Faria, Nuno Gonçalves

O castelo de Faria, ruinas
A breve distância da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um convento de franciscanos. Aprazível é o sítio, sombreado de velhas árvores. Sentem-se ali o murmurar das águas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silêncio daquela solidão — a qual, para nos servirmos de uma expressão de Frei Bernardo de Brito — com a saudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o espírito à contemplação das coisas celestes.

O monte que se alevanta ao pé do humilde convento é formoso, mas áspero e severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colocado no cimo daquela eminência volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais apresentam-lhe o panorama variadíssimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro e Minho.

Este monte, ora ermo, silencioso, e esquecido, já se viu regado de sangue; já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas e estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que aí viveram homens, porque é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra.

O Castelo de Faria, com suas torres e ameias, com sua barbacã e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou aí como dominador dos vales vizinhos. Castelo real da Idade Média, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão há muito. Mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de mármore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcácer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e caiu.

Ainda no século XVII parte da sua ossada estava dispersa por aquelas encostas. No século seguinte já nenhuns vestígios dele restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremitério, fundado pelo célebre Egas Moniz, era o único eco do passado que aí restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro duque de Bragança, dom Afonso. Era esta lájea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, último senhor de Ceuta. Dom Afonso, que seguira seu pai dom João I na conquista daquela cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a consigo para a vila de Barcelos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do cristianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino?

Serviram os fragmentos do Castelo de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitórios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbrais das balhesteiras e postigos em janelas claustrais. O ruído dos combates calou no alto do monte, e nas faldas dele alevantaram-se a harmonia dos salmos e o sussurro das orações.

Este antigo castelo tinha recordações de glória. Os nossos maiores, porém, curavam mais de praticar façanhas do que de conservar os monumentos delas. Deixaram, por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heróicos feitos de corações portugueses.

Reinava entre nós dom Fernando. Este príncipe, que tanto degenerava de seus antepassados em valor e prudência, fora obrigado a fazer paz com os castelhanos, depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que se esgotaram inteiramente os tesouros do Estado. A condição principal, com que se pôs termo a esta luta desastrosa, foi que dom Fernando casasse com a filha d’el-Rei de Castela. Mas brevemente a guerra se acendeu de novo; porque dom Fernando, namorado de dona Leonor Teles, sem lhe importar o contrato de que dependia o repouso dos seus vassalos, a recebeu por mulher, com afronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pai a tomar vingança da injúria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exército e, recusando dom Fernando aceitar-lhe batalha, veio sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso propósito narrar os sucessos deste sítio, volveremos o fio do discurso para o que sucedeu no Minho.

Alcaide de FariaO adiantado de Galiza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela província de Entre-Douro e Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavalo, enquanto a maior parte do pequeno exército português trabalhava inutilmente ou por defender ou por descercar Lisboa. Prendendo, matando e saqueando, veio o adiantado até às imediações de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saiu-lhe ao encontro dom Henrique Manuel, conde de Seia e tio d’el Rei dom Fernando, com a gente que pôde ajuntar. Foi terrível o conflito; mas, por fim, foram desbaratados os portugueses, caindo alguns nas mãos dos adversários.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mor do Castelo de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para socorrer o conde de Seia, vindo, assim, a ser companheiro na comum desgraça. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo d’el-Rei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausência um seu filho, e era de crer que, vendo o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defesa escasseavam. Estas considerações sugeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castelo, porque ele, com suas exortações, faria com que o filho o entregasse, sem derramamento de sangue.

Um troço de besteiros e de homens de armas subia a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O adiantado de Galiza seguia atrás com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez de Viedma, estendia-se, rodeando os muros pelo outro lado. O exército vitorioso ia tomar posse do Castelo de Faria, que lhe prometera dar nas mãos o seu cativo alcaide.

De roda da barbacã alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria, mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir cintilante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram acolher-se no terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e a cerca exterior ou barbacã.

Nas torres, os atalaias vigiavam atentamente a campanha, e os almocadéns corriam com a rolda pelas quadrelas do muro e subiam aos cubelos colocados nos ângulos das muralhas. O terreiro onde se haviam acolhido os habitantes da povoação estava coberto de choupanas colmadas, nas quais se abrigava a turba dos velhos, das mulheres e das crianças, que ali se julgavam seguros da violência de inimigos desapiedados.

Quando o troço dos homens de armas que levavam preso Nuno Gonçalves vinha já a pouca distância da barbacã, os besteiros que coroavam as ameias encurvaram as bestas, os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrários as suas quadrelas e virotões, enquanto o clamor e o choro se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.

Alcaide de FariaUm arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacã, todas as bestas se inclinaram para o chão, e o ranger das máquinas converteu-se num silêncio profundo.
— Moço alcaide, moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado de Galiza pelo mui excelente e temido dom Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro, e chegando à barbacã, disse ao arauto:
— A Virgem proteja meu pai. Dizei-lhe que eu o espero.

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e depois de breve demora o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu dentre seus guardadores e falou com o filho:
— Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo que, segundo regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia?
— É — respondeu Gonçalo Nunes — de nosso rei e senhor dom Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem.
— Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?
— Sei, ó meu pai! — prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.
— Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência?

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:
— Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver.
— Morra! — gritou o almocadén castelhano.
— Morra o que nos atraiçoou.
E Nuno Gonçalves caiu no chão, atravessado de muitas espadas e lanças.
— Defende-te, alcaide! — foram as últimas palavras que ele murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

Os castelhanos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro da barbacã ficou alastrado de cadáveres tisnados e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerva; o vento suão soprava nesse dia com violência, e em breve os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castelo, pereceram juntamente com as suas frágeis moradas.

Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldição de seu pai. Lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o último grito do bom Nuno Gonçalves: "Defende-te, alcaide!"

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do Castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento e pelas façanhas que obrara na defesa da fortaleza cuja guarda lhe fora encomendada por seu pai no último transe da vida. Mas a lembrança do horrível sucesso estava sempre presente no espírito do moço alcaide. Pedindo a el-Rei o desonerasse do cargo que tão bem desempanhara, foi depor ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavaleiro, para se cobrir com as vestes pacíficas do sacerdócio. Ministro do santuário, era com lágrimas e preces que ele podia pagar a seu pai o ter coberto de perpétua glória o nome dos alcaides de Faria.

Mas esta glória, não há hoje aí uma única pedra que a ateste. As relações dos historiadores foram mais duradouras que o mármore.

(Alexandre Herculano, "Lendas e Narrativas")

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

O senhor feudal criminoso, o ermitão piedoso e o misterioso barrilzinho

Habitava nos confins da Normandia um destemido cavaleiro, cujo nome causava terror na região. De seu castelo fortificado junto ao mar, não receava nem mesmo o rei.

De grande estatura e belo porte, era no entanto vaidoso, desleal e cruel, não temendo a Deus nem aos homens.

Não fazia jejum nem abstinência, não assistia à Missa nem ouvia sermões. Não se conhecia homem tão mau.

Numa Sexta-feira Santa, bradou ele aos cozinheiros:
— Aprontai-me para o almoço a peça que cacei ontem.

Ouvindo isto, seus vassalos exclamaram:
— Senhor, hoje é Sexta-feira Santa. Todos jejuam, e vós quereis comer carne? Crede-nos: Deus acabará por vos punir.
— Até que tal aconteça, terei enforcado e roubado muita gente.
— Estais seguro de que Deus tolerará mais isso? Vós devíeis arrepender-vos sem demora. Em um bosque vizinho há um padre eremita, varão de grande santidade. Vamos até lá e confessemo-nos — insistiram os vassalos.
— Confessar-me? Aos diabos! — respondeu com desprezo o senhor.
— Vinde ao menos fazer-nos companhia.
— Para me divertir, concedo. Por Deus, nada farei.

E puseram-se a caminho. Na floresta solitária e quieta encontraram o santo varão na ermida.

Advertido pelos vassalos, que se confessaram, saiu o eremita ao encontro do orgulhoso senhor, que ficara montado. E disse-lhe:
— Sede bem-vindo, senhor. Visto que sois cavaleiro, deveis ser cortês. Desmontai e vinde falar comigo.
— Falar convosco? Por que diabos? Estou com pressa.
— Entrai e conhecei minha capela e minha morada.

Muito a contragosto e resmungando, o cavaleiro apeou. O eremita tomou-o pelo braço, conduziu-o diante do altar e disse-lhe:
— Senhor, matai-me, se quiserdes, mas daqui não saireis sem antes confessar-vos.
— Não contarei nada! E não sei o que me impede de matar-vos.
— Irmão, dizei-me um só pecado. Deus vos ajudará a confessar os demais.
— Diabos! Não me dareis sossego? Eu o farei, mas de nada me arrependerei.
E com grande arrogância contou de um só lance todos os pecados.

Depois de ouvi-lo, o eremita propôs:
— Senhor, pelo menos sujeitai-vos a uma penitência.
— O quê!? Penitência!? Caçoais de mim! — vociferou furioso o cavaleiro.
— Jejuareis todas as Sextas-feiras durante três anos.
— Três anos! Estais louco! Jamais!
— Então, um mês.
— Também não.
— Ireis a uma igreja e direis aí um Padre-Nosso e uma Ave-Maria.
— Para mim seria enfadonho, e ademais, tempo perdido.
— Pelo amor de Deus todo poderoso, pegai pelo menos este barrilzinho, enchei-o no regato próximo e trazei-o de volta para mim.
— Bem, isto não me custa tanto. E sobretudo para ficar livre de vós, concedo.

Saiu o cavaleiro em direção à fonte, e de um só golpe afundou na água o barrilzinho. Neste não entrou uma gota sequer. Tentou novamente de um jeito, de outro... Nada!

Intrigado e rangendo os dentes de raiva, voltou à ermida e esbravejou:
— Barril enfeitiçado! Não consigo meter-lhe uma só gota de água!
— Senhor, que triste estado é o vosso! Uma criança o teria trazido transbordando. Isto é um sinal de Deus, por causa de vossos pecados.
— Pois eu vos juro que não lavarei minha cabeça, não farei a barba nem cortarei as unhas enquanto não encher este barril, ainda que tenha de dar a volta ao mundo. E nisto empenho minha palavra!

E assim partiu o cavaleiro com o barrilzinho, levando só a roupa do corpo. Em todos os poços e regatos, cascatas e rios, lagos e mares, experimentava encher o pequeno tonel, mas sempre em vão. Caminhando sem cessar, passando frio e calor, por planícies e montanhas, percorreu ele muitos países.

Maltrapilho e sujo, curtido pelo sol, obrigado a mendigar, sofreu fome, insultos e chacotas, pois muitos desconfiavam dele. Seu corpo ia definhando, e o barrilzinho pesava-lhe enormemente, amarrado ao pescoço.

Ao cabo de um ano de fracassos, decidiu voltar à ermida, onde por fim chegou, exatamente na Sexta-feira Santa. O eremita, não o reconhecendo, perguntou:
— Caro irmão, quem vos deu esse barrilzinho? Há um ano entreguei-o a um belo cavaleiro, que não voltou mais aqui. Nem sei se ainda vive.
— Esse cavaleiro sou eu, e este é o estado em que me colocaste! — respondeu cheio de cólera o desgrenhado peregrino, contando a seguir suas desventuras.

O santo homem indignou-se ante tanta dureza de alma, bradando:
— Vós sois o pior dos homens! Um cão, um animal qualquer teria enchido o barril. Ah! bem vejo que Deus não aceitou vossa penitência, porque não vos arrependestes!
E pondo-se a chorar, rogou à Santíssima Virgem que intercedesse por aquele pecador empedernido.

Enquanto o eremita soluçava em sua longa oração, o cavaleiro, quieto, foi tocado pela graça. Seu coração tão duro comoveu-se. Os olhos se lhe turvaram. Uma grossa lágrima rolou-lhe pela face ressequida, caindo diretamente dentro do barrilzinho, que trazia amarrado ao pescoço. E esta única lágrima encheu-o até os bordos.

Sinceramente arrependido, o cavaleiro pediu para confessar-se. O eremita, maravilhado, abraçou-o em prantos de alegria. Após ministrar a absolvição sacramental ao penitente, o eremita perguntou-lhe se queria receber a comunhão.
— Sim, meu pai. Mas apressai-vos, porque sinto que vou morrer.

Tendo recebido o Santíssimo Sacramento, com a alma purificada, o cavaleiro agradeceu comovido ao eremita, e colocou-se em suas mãos. Pouco depois exalava o último suspiro.

A capela iluminou-se, e os anjos levaram sua alma ao Paraíso. Diante do altar, o eremita velou longamente aquele corpo coberto de andrajos, tendo junto de si o prodigioso barrilzinho.



Fonte: Catolicismo, nov. 1978 - Adaptado de "Poètes et prosateurs du Moyen Âge", Hachette, Paris, 1921.

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

O milagre de Santa Cecília para o violinista ambulante

Outrora, os habitantes de Gmund, na Suábia (Baviera, Alemanha), construíram magnífica igreja sob a invocação de Santa Cecília, a padroeira dos músicos.

Lírios de prata brilhavam como raios de luar em torno da santa, e rosas de ouro, como o resplendor da aurora, enfeitavam-lhe o altar.

Trajava a santa vestido de prata e calçava riquíssimos sapatos de ouro, porque naquele tempo, não somente na Alemanha, mas no mundo inteiro, os ourives de Gmund eram célebres pelo seu trabalho.

Grande número de peregrinos dirigia-se à capela de santa Cecília, onde constantemente ressoavam sinos melodiosos.

Um dia chegou à cidade um pobre violinista, de faces pálidas e cavadas, e muito magro. Caminhara durante longo tempo, estava fatigado e não tinha nem mais um pedaço de pão, nem a mais pequenina moeda de cobre. Entrou na igreja, e tocou seu divino instrumento.

A santa comoveu-se com aquela melodia e com aquela miséria. Fez um movimento, inclinou-se, descalçou um de seus sapatinhos de ouro e lançou-o nas mãos do pobre menestrel.

Louco de alegria, o mocinho saiu correndo, cantando, e deixou a igreja, dirigindo-se à casa de um ourives, a fim de vender o precioso presente.

O ourives, mal viu o sapato, reconheceu-o e fez prender o jovem músico, tratando-o como ladrão. Conduziram-no ao juiz, foi julgado e condenado à morte.

Ressoou o sino, funebremente, tangendo pelo que ia morrer. Numeroso cortejo pôs-se em marcha. Ouvia-se o canto solene dos monges, e, dominando-o, os sons do violino, porque o inocente músico pedira, como graça especial, que lhe deixassem conservar o instrumento e tocá-lo até seu derradeiro instante.

Quando passavam diante da igreja de Santa Cecília, ele rogou:
— Deixai-me entrar aqui uma última vez, e executar minha última harmonia!
Como a vontade dos que vão morrer é sagrada, permitiram-lho. Entrou, prostrou-se diante do altar, e com mão trêmula fez vibrar o arco.

A santa, enternecida diante daquela dor, inclinou-se, descalçou o outro sapatinho de ouro e lançou-o às mãos do pobre músico.

Numerosa multidão assistiu àquele milagre, e todos viram como a santa protegia os músicos do povo.

O artista ambulante foi cercado, coroado de flores e carregado em triunfo até o palácio da justiça, onde os magistrados lhe ofereceram lauto banquete.

(Fonte: "Maravilhas do conto popular" - Cultrix, SP, 1960)

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quinta-feira, 11 de junho de 2009

São Save e o diabo

Diabo encontra Santo Save.Um dia São Save tinha de ir a uma aldeia, que ficava sobre uma montanha. Subindo o caminho alcantilado, viu o diabo que vinha pelo lado oposto. No mesmo momento em que pôs os olhos no santo, o diabo quis fugir, mas havia altos barrancos em ambos os lados da passagem estreita, e ele não teve jeito de escapar.

Quisesse ou não quisesse, tinha que continuar e encontrar-se com São Save. Quando estavam bem próximos, São Save cumprimentou-o:
— Deus o ajude, viajante!
— Minha viagem não é de sua conta! — respondeu o diabo, zangado.
— Quem é você?
— E que lhe importa saber quem sou eu?
— Aonde vai?
— Também isso não lhe diz respeito.
— Que gostaria você de fazer?
— Bem, eu gostaria de plantar verduras, se tivesse um pouco de terra e um sócio tal como o senhor.
— Se é isso que deseja, irmão, serei seu sócio. Mas primeiro vamos decidir a respeito do que fazer: o que semearemos, e quem deve comprar a semente?
— Embora eu deteste trabalhar com o senhor, padre, farei isso, com a condição de estabelecermos um contrato de negócios. Não quero ser seu subordinado, de maneira alguma. Temos que ser sócios com direitos iguais.

Conversaram sobre várias verduras, durante algum tempo, e resolveram cultivar cebolas, para começar. Encontraram um campo nas proximidades, semearam as sementes de cebolas e esperaram que elas crescessem.

Depressa as hastes verdes irromperam da terra. O diabo vinha freqüentemente festejar seus olhos com aquela sua bonita plantação. Claro está que jamais lhe ocorreu olhar o que havia na terra, por baixo das hastes verdes.

Quando as cebolas estavam no seu melhor ponto, São Save chamou o diabo, e assim lhe falou:
— Agora, aquilo tudo é nosso. Isto é, metade me pertence e a outra metade pertence a você. Trate de decidir qual é a metade que prefere.
— Ficarei com a parte que fica acima da terra, e o senhor pode ficar com a outra.
— Está bem — disse o santo, sorrindo.

Logo depois de terem feito aquela combinação, as cebolas começaram a amadurecer. O diabo vinha sempre vê-las, mas agora já não se mostrava tão jubiloso, pois as hastes verdes iam ficando amarelas e secando. Quando as cebolas ficaram inteiramente maduras, tudo quanto ficava acima da terra tornou-se arruinado e inútil. Foi então que São Save chegou ao campo, cavou e retirou da terra as grandes cebolas vermelhas, e levou-as consigo.

O diabo ficou muito triste e muito zangado, e resolveu vingar-se do santo.
— Tentemos outra vez, amigo — disse ele.
— Eu gostaria que fizéssemos outro contrato de trabalho.
— Está bem, sócio, mas que iremos plantar, desta vez?
Discutiram durante alguns momentos, e finalmente resolveram plantar repolhos.
— Veja lá, sócio: desta vez eu ficarei com a metade que fica sob a terra, e o senhor ficará com a outra metade, a que fica por cima.
— Como quiser, sócio — respondeu cortesmente o santo.

Semearam os repolhos, e depressa as folhas começaram a aparecer acima da terra. Eram bem bonitas de se ver: grandes rodas verdes, pareciam crescer dia a dia. O diabo estava muito satisfeito, e dizia sempre, para si próprio:
— Já que há tanto acima da terra, quanto deverá haver debaixo dela!
E felicitava-se, por ter escolhido tão sensatamente.

No outono, quando os repolhos estavam em seu melhor ponto, São Save veio ao campo, cortou as cabeças e levou-as, deixando as raízes duras para o diabo. Logo depois dele chegou o diabo com um grande séquito, pronto para dar uma esplêndida festa de regozijo pelo seu sucesso. Adiantou-se lentamente, com tocadores de gaitas de fole, cantores, dançarinos e muitas outras pessoas em sua esteira. Ao chegar ao campo, fez sinal a todos para que parassem e o observassem — para que o admirassem, era isso que ele sinceramente esperava.

São Clemente, primeiro bispo de Metz encadeia o demônioAjoelhou-se no chão e cavou uma raiz, com gestos elegantes. Não pôde acreditar em seus olhos. Tendo visto as raízes secas e duras por toda parte, precisou, mais uma vez, confessar seu fracasso. O rosto dele ficou verde de fúria e desapontamento, mas não quis que as coisas ficassem assim. Despediu seus acompanhantes, encolerizado, e apressou-se a ir ter com São Save.
— Caro sócio, tenho grande prazer neste nosso trabalho em conjunto. Façamos outro contrato em relação às verduras que vamos plantar agora.
— Se esse é o seu gosto, sócio, também eu estou disposto a continuar, porque também estou gostando do nosso trabalho em comum. Que será, desta vez? Talvez batatas?
— Oh! muito bem... batatas, era isso mesmo que eu tinha em mente quando vim falar com o senhor. Só que eu desejo ficar com a parte de cima da terra, e o senhor ficará com a de baixo.
— Está bem, fica assim combinado — confirmou São Save, afastando-se.

No tempo certo, logo no começo da primavera, semearam batatas. O tempo estava bom, e depressa apareceram as folhas verdes sobre a terra. Quando as batatas deram flor, o diabo sacudia o corpo, rindo e dizendo consigo mesmo:
— Desta vez agarrei o padre Save: ele terá tempo bastante para se arrepender de sua escolha.
Ria na cara do santo, que suportava aquilo com grande paciência, e esperava pelo outono.

São Miguel Arcanjo crava a lança no diabo, Allemans-du-Dropt, Lot-et-GaronneA flor da batata transformou-se em semente, as grandes folhas verdes encolheram, ficaram amarelas e apodreceram. O diabo não ria, agora. Quase chorou de despeito quando São Save veio cavar suas batatas e levá-las para seu carro. O diabo quase rebentava de fúria, mas ainda assim esperava poder tirar sua vingança.
— Vamos continuar com o nosso contrato de negócios — disse ele ao santo. — Estou tão habituado a trabalhar com o senhor, agora, que me aborreceria de morte, se deixasse de fazê-lo.
— Trabalharemos juntos enquanto você tiver prazer nisso, sócio. Ainda não tentamos plantar trigo. Vamos tratar disso?
— Como quiser, meu caro sócio — respondeu o santo, tão cortesmente como de costume.

Semearam trigo, que no tempo devido cresceu e amadureceu. Quando as espigas douradas estavam pesadas de grãos, São Save chamou vários trabalhadores, que cortaram habilmente o trigo com suas foices. O diabo, entretanto, estava pensando nas riquezas subterrâneas, mas ficou amargamente desapontado, mais uma vez. Não levou muito tempo a perceber que só a haste espinhenta ficara para ele. Gritou de cólera, e foi ter direito com São Save.
— Bem, padre, quero plantar uma vinha com o senhor. Se conseguir levar vantagem sobre mim, não mais seremos sócios.
— Seja assim, meu amigo. Deixarei a você a escolha, como sempre fiz — disse São Save.

Plantaram uma vinha. Dessa vez levaram três anos a esperar os frutos. No terceiro ano, belos cachos verdes começaram a crescer nas vinhas. São Save e o diabo vieram dar uma olhadela à sua propriedade e decidiram dividir tudo. São Save perguntou ao diabo:
— Que deseja agora, sócio: o caldo claro ou a massa espessa?
— Ficarei com a massa espessa, e o senhor pode ficar com o caldo claro — disse imediatamente o diabo.

Santo religioso estudandoQuando os cachos amadureceram, São Save apanhou-os da vinha e colocou-os num tonel. Logo depois derramava vinho fino em barricas, deixando o resto para o diabo. O diabo ficou furioso outra vez, mas algo ocorreu-lhe: derramou água sobre o restante, e assim obteve a aguardente. São Save viu-o remexendo-se em torno do tonel, e perguntou-lhe:
— Que está fazendo, sócio?
— Destilando aguardente, irmão.
— Deixe-me prová-la, para ver que gosto tem.
— Com muito prazer, sócio.

O diabo entregou um copo de aguardente. São Save provou uma vez, duas vezes, e na terceira vez abençoou a bebida e persignou-se. O diabo não pôde agüentar aquilo e fugiu, gritando:
— De agora em diante essa bebida será remédio para os velhos e loucura para os jovens!

Desapareceu, e nunca mais voltou aos lugares onde sabia que se poderia encontrar um padre virtuoso.

("Maravilhas do conto popular" - Cultrix, SP, 1960)

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

A alma do sacerdote orgulhoso

Irlanda, igreja
Em velhos dias, havia na Irlanda grandes escolas, nas quais toda sorte de conhecimentos eram ministrados ao povo, e mesmo os mais pobres tinham mais instrução naquela época do que têm hoje os cavalheiros.

Mas, no que se refere aos sacerdotes, sua instrução era das muito altas, de forma que a fama da Irlanda correu todo o mundo, e vários reis de terras estrangeiras costumavam mandar seus filhos até a Irlanda para serem educados nas escolas irlandesas.

Naquele tempo havia um meninozinho que freqüentava uma dessas escolas, e era uma maravilha para quantos o conheciam, pela sua inteligência.

Seus pais não passavam de pobres trabalhadores. Apesar de jovem e pobre, nem filho de rei nem filho de senhor poderia competir com ele em instrução. Os próprios mestres sentiam-se envergonhados, pois quando estavam tentando ensinar-lhe, o menino dizia-lhes coisas que eles jamais tinham ouvido antes, mostrando assim a ignorância deles.

Um de seus grandes sucessos era a argumentação. Ele insistia até provar que o preto era branco, o que levava o interlocutor a desistir, pois ninguém conseguia derrotá-lo na conversa.

Depois ele dava voltas, e mostrava que o branco era preto, ou mesmo que no mundo não havia cor alguma. Quando cresceu, seus pobres pais tornaram-se tão orgulhosos dele que resolveram fazê-lo sacerdote. Conseguiram-no finalmente, embora quase morressem de fome para arranjar o dinheiro.

Não havia na Irlanda outro homem assim instruído, e continuava a ser grande argumentador, como sempre, de forma que ninguém podia enfrentá-lo. Mesmo os bispos tentaram conversar com ele, mas imediatamente o sacerdote mostrou-lhes que eles nada sabiam.

PeregrinoNaquele tempo não havia professores leigos, e eram os sacerdotes que instruíam o povo. Sendo aquele homem o mais inteligente da Irlanda, todos os reis estrangeiros mandaram-lhe seus filhos.

Assim, o homem fez-se muito orgulhoso, e começou a esquecer de quão baixo viera, e — pior do que tudo — a esquecer mesmo Deus, que fizera dele o que era.

A vaidade de argumentar dominou-o, de forma que, passando de uma coisa para outra, chegou ele a provar que não havia Purgatório, e portanto não havia Inferno, e portanto não havia Céu, e portanto não havia Deus.

Por fim, declarou que os homens não tinham alma, não eram mais do que um cão ou uma vaca, e terminavam quando morriam.

— Quem já viu uma alma? — dizia ele. — Se alguém puder mostrar-me uma, eu acreditarei.

Ninguém poderia dar resposta a tais palavras. Por fim, terminaram todos por acreditar que não havia outro mundo, e que toda a gente podia fazer aqui quanto entendesse.

Ele mesmo deu o exemplo, pois tomou uma bela jovem por esposa. Mas, como não encontrou em todo o país sacerdote ou bispo que o casasse, foi obrigado a oficiar o seu próprio casamento. Foi aquilo um grande escândalo, entretanto ninguém ousou dizer uma palavra, pois todos os filhos de reis estavam do lado dele, e teriam matado quem quer que tentasse impedir aqueles atos errados.

Pobres rapazes! Acreditavam nele, e supunham que todas as suas palavras fossem verdadeiras. Dessa maneira, aqueles pontos de vista começaram a espalhar-se.
Anjo, Guariento di Arpo, capela Palacio Carrara, Padova
O mundo todo ia pelo mau caminho, quando uma noite um anjo desceu do Céu e disse ao padre que lhe restavam apenas vinte e quatro horas de vida.

Ele começou a tremer, e pediu mais um bocadinho de tempo. Mas o anjo foi rígido, e disse-lhe que tal coisa não poderia ser.
— Para que desejas tempo, pecador? — perguntou ele.
— Oh! Senhor, tem piedade de minha pobre alma! — insistiu o sacerdote.
— Oh! não! Então tens uma alma? — perguntou o anjo. — Dize-me, por favor: como foi que descobriste isso?
— Ela tem estado adejando em mim, desde que apareceste. Que louco fui em não pensar antes nisso.
— Realmente, um louco — respondeu o anjo. — De que adiantava toda a tua instrução, se não sabias que eras dono de uma alma?
— Ah! meu senhor, se tenho que morrer, dize-me quando chegarei ao Céu.
— Nunca! Negaste a existência de um Céu.
— Então, meu senhor, poderei ir para o Purgatório?
— Também negaste a existência de um Purgatório. Deves ir diretamente para o Inferno.
— Mas, meu senhor, também neguei a existência do Inferno — respondeu o sacerdote — e dessa forma para ali também não me podes mandar.

O anjo ficou um tantinho perplexo.
— Bem — disse ele — vou contar-te o que posso fazer por ti. Poderás agora viver na Terra durante cem anos, gozando de todos os prazeres, e depois ser atirado ao Inferno, pela eternidade. Ou podes morrer dentro de vinte e quatro horas, entre os mais horríveis tormentos, e passar através do Purgatório, ali ficando até o Dia do Julgamento. Isso, se puderes encontrar uma pessoa que acredite. Através dessa crença, a misericórdia te será concedida, e tua alma se salvará.

O sacerdote não levou cinco minutos a resolver.
— Prefiro a morte dentro de vinte e quatro horas — disse ele — para que assim minha alma seja finalmente salva.

Ouvindo isso, o anjo instruiu-o sobre o que devia fazer, e deixou-o.

Imediatamente o sacerdote entrou numa grande sala, onde todos os letrados e os filhos de reis estavam reunidos, e disse-lhes:
— Dizei-me a verdade, e não temais contradizer-me. Dizei-me qual é a vossa crença: os homens têm almas?
— Mestre — responderam eles — houve um tempo em que acreditávamos que os homens tivessem alma, mas graças aos teus ensinamentos, já não cremos nisso. Não há Inferno, não há Céu e não há Deus. Esta é a nossa crença, pois foi assim que nos ensinaste.

Então o sacerdote ficou lívido de pavor, e exclamou:
— Ouçam! Eu vos ensinei uma mentira! Há um Deus, e o homem tem uma alma imortal. Acredito agora em tudo que antes neguei.

Mas as gargalhadas elevaram-se, dominando a voz do sacerdote, pois pensaram que ele apenas os estivesse provocando, para que argumentassem sobre o assunto.
— Prova isso, mestre — exclamaram. — Prova isso. Quem jamais viu Deus? Quem jamais viu a alma?

E o aposento estremecia com as risadas. O sacerdote levantou-se para responder-lhes, mas não conseguiu dizer uma só palavra. Toda a sua eloqüência, todo o seu poder de argumentação o haviam abandonado, e ele nada mais pôde fazer senão torcer as mãos e gritar:
— Há um Deus! Há um Deus! O Senhor tenha piedade de minha alma!

Todos começaram a zombar dele e a repetir as próprias palavras que o sacerdote lhes ensinara antes:
— Mostra-nos, mostra-nos teu Deus.

Ele fugiu dali, gemendo de angústia, pois sabia que ninguém era crente. Assim, como poderia salvar sua alma? Pensou em seguida na sua esposa.
— Ela acreditará — disse consigo mesmo. — As mulheres nunca abandonam Deus.

E foi ao encontro dela. Mas a esposa disse-lhe que só acreditava naquilo que ele próprio lhe ensinara, e que uma boa esposa devia acreditar primeiro em seu marido, acima e antes de todas as coisas do Céu ou da Terra.

Então ele desesperou-se e correu para fora de sua casa, começando a perguntar a todos que encontrava se eles acreditavam. A mesma resposta, porém, veio de cada qual:
— Acreditamos apenas naquilo que nos ensinaste.

A sua doutrina se havia espalhado amplamente pela região.

Então ele ficou meio louco de medo, pois as horas iam passando, e atirou-se ao chão, num ponto deserto, chorando e gemendo de terror, já que o tempo corria e ele teria de morrer. Foi então que uma criancinha aproximou-se dele.
— Deus vos salve — disse-lhe a criança.

O padre teve um sobressalto.
— Acreditas em Deus? — perguntou ele.
— Vim de um país longínquo para me instruir sobre Ele — disse o menino. — Quererá o senhor indicar-me qual a melhor escola que existe nesta região?
— A melhor escola e o melhor professor estão aqui perto — disse o padre, dando seu próprio nome.
— Oh! Esse homem, não! Sei que ele nega Deus, o Céu, o Inferno, e até mesmo que o homem tenha alma, pois não se pode vê-la. Mas eu hei de vencê-lo bem depressa.

O padre olhou ansiosamente para ele.
— E como?
— Bem, eu lhe perguntarei se acredita que tem vida, e pedirei que me mostre a sua vida.
— Mas ele não poderá fazer isso, meu menino. A vida não pode ser vista. Nós a possuímos, mas ela é invisível.
— Então, se temos vida, embora não a possamos ver, podemos também ter alma, embora ela seja invisível.

Quando o padre ouviu a criança falar daquela maneira, tombou de joelhos diante dela, chorando de alegria, pois agora sabia que sua alma estava segura. Encontrara finalmente alguém que acreditava.

Contou ao menino toda a sua história, toda a sua maldade, orgulho e blasfêmias contra o grande Deus, e como o anjo viera ter com ele e dissera-lhe qual a única forma de salvação, através da fé e das orações de alguém que acreditasse.
— Agora — disse ele ao menino — toma este canivete e enterra-o no meu peito, e continua a golpear minha carne até que vejas o livor da morte em meu rosto. Então observa, pois verás algo de vivo que se destacará de meu corpo quando eu morrer, e saberás que minha alma subiu à presença de Deus. Quando vires isso, apressa-te e corre até minha escola, chama meus alunos para que vejam como a alma de seu mestre deixou o corpo, e que tudo quanto eu lhes ensinei era mentira, pois que há um Deus que castiga o pecado, e um Céu e um Inferno, e que o homem tem uma alma imortal, destinada à felicidade eterna ou à eterna desgraça.
— Rezarei — disse a criança — para ter a coragem de executar esse trabalho.

Ajoelhou-se e orou. Então levantou-se, tomou o canivete e enterrou-o no peito do sacerdote, e enterrou-o e enterrou-o outras vezes, até dilacerar-lhe a carne. O sacerdote ainda vivia, embora a agonia fosse horrível, pois não podia morrer antes que expirassem as vinte e quatro horas.

Por fim a agonia pareceu cessar, e a imobilidade da morte instalou-se no rosto dele. Então a criança, que estava observando, viu uma bela criatura viva, com quatro asas de uma brancura de neve, sair do corpo morto daquele homem e ficar flutuando em torno da cabeça dele. Correu e trouxe os estudantes, e quando eles viram aquilo, ficaram sabendo que se tratava da alma de seu mestre. E observaram, com espanto e temeroso respeito, até que ela desaparecesse a seus olhos, confundindo-se com as nuvens.

Mas as escolas da Irlanda, depois dessa ocasião, ficaram bastante despovoadas, pois o povo dizia:
— Que adianta ir para tão longe, estudar, quando o homem mais sábio da Irlanda não sabia que é dono de uma alma, até o momento em que estava para perdê-la, e só foi salvo através da singela crença de uma criancinha?

("Maravilhas do conto popular", Cultrix, SP, 1960)

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quinta-feira, 14 de maio de 2009

A catedral de Lund


Em Zchonen, cidade universitária e primeiro arcebispado da Escandinávia, ergue-se formosa catedral romana.

Debaixo do coro, abre-se grande e bela cripta. Dizem todos que a igreja nunca será terminada, que sempre faltará alguma coisa, e que o motivo é este:

Quando São Lourenço chegou a Lund, a fim de pregar o Catolicismo, desejou construir uma igreja, mas carecia dos meios necessários e não sabia onde arranjá-los.

Pensando constantemente no seu objetivo, teve um dia a surpresa de ver na sua frente um gigante, que se ofereceu para em pouco tempo erguer o templo, contanto que São Lourenço adivinhasse o seu nome antes do fim.

Se não o conseguisse, o gigante receberia como prêmio da aposta o Sol, a Lua ou os olhos do santo. Este, confiando em Nossa Senhora, não teve o menor receio e aceitou a imposição.

Iniciou-se a construção, e dentro em pouco o templo estava quase pronto. São Lourenço, pensando tristemente em como descobrir o nome do gigante, pois evidentemente não queria de maneira nenhuma desfazer-se dos seus olhos, tão necessários para a glória de Deus.

LundUm dia, percorrendo as ruas da cidade, sentiu-se cansado e resolveu sentar-se na encosta de uma colina.

Do interior da colina chamou-lhe a atenção o pranto de uma criança e a voz de uma mulher que cantava:
— Durma bem, durma bem, filhinho meu, que amanhã regressa o bom Finn, seu pai, e você brincará com o Sol ou a Lua, ou então com os olhos de Lourenço.

O santo, ouvindo aquilo, alegrou-se imensamente. Sabia, por fim, o nome do gigante. Imediatamente voltou para a igreja, e viu o gigante sentado já no teto, preparando-se para colocar a última pedra. Gritou-lhe:
— Ó Finn, coloque bem a última pedra!

O gigante, enfurecido, atirou a pedra para longe, afirmando que a igreja jamais ficaria terminada, e desapareceu. A partir daquele dia, falta na igreja sempre alguma coisa.

(A. Della Nina, "Enciclopédia Universal da Fábula": Contos da Suécia - Editora das Américas, SP, 1957)

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quinta-feira, 30 de abril de 2009

A catedral submersa


Na Bretanha, as crianças ouvem contar a lenda da catedral submersa:

"Era uma vez uma catedral bonita, plantada havia muitos anos na beira do mar. Era a jóia da aldeia, o povo gostava dela. Em dia de festa, mais bonita ficava, cheia de gente, e os sinos dobrando.

"Mas um dia — foi o vento? foi a maré muito forte? foram os pecados da gente que irritaram a Deus? — o certo é que o mar subiu e devorou a catedral. Depois, durante muitos séculos não se ouviu falar mais da "cathédrale engloutie". Mas quando era calma a noite, quando não silvava o vento gemendo no arvoredo, nem uivavam os cães na redondeza, se o barqueiro que singrasse aquelas ondas apurava o ouvido, escutava lá longe, vindo do fundo das águas, o claro som argênteo de sinos tocando. Eram os sinos da catedral, que dobravam para as suas festas".

Ora, é um pouco assim com cada alma humana. Quantas vezes esbarramos na vida com um ser abjeto, cheio de defeitos. Pensamos com asco que nada de sadio existe nele. Bastaria, entretanto, aguçar o ouvido para escutar — muito distantes, talvez, mas sonoros e cristalinos — cantarem os sinos dessa "cathédrale engloutie".

O que é preciso é não desesperar de ninguém. É saber descobrir em cada coração o reflexo de Deus que aí existe, ainda que esteja envolto na lama. É saber dar a esse mísero desgraçado a possibilidade de emergir para a vida. Fazer que cantem os sinos da catedral.

(D. Lucas Moreira Neves, "A semente é a palavra" - Paulinas, SP, 1969, pp. 13-16)

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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Não queiras para os outros o que não queres para ti


Entre os lavradores e viajantes da Catalunha, o nome de Ferreol era muito temido. Nas noites de tempestade, quando a água bate com fúria nas rochas, o bandido Ferreol e seus companheiros aguardavam em seus postos, para assaltar qualquer infeliz e roubar-lhe a bolsa, e quiçá deixá-lo estendido sem vida em um matagal.

Por toda parte se narravam as façanhas do bando, que levava o terror a todos os que tinham que passar pelos montes e bosques, lugares preferidos de Ferreol e seus companheiros.

Um dia, ao pôr-do-sol, quando o crepúsculo enchia de sombras as proximidades das montanhas, um frade caminhava a passos largos. Ia rezando com devoção suas orações, e não percebeu a aparição de dois homens no meio do caminho. Estes pararam o bom religioso, dizendo-lhe:
— Irmão, passe-nos a bolsa!
O frade, surpreendido, lhes respondeu que não levava nada consigo.

Bandidos como eram, o conduziram então, com os olhos vendados, à cova onde o bando estava reunido. Ferreol, sentado junto ao fogo, entretinha-se em afiar com grande cuidado sua adaga. Os bandidos tiveram grande surpresa com a chegada de seus companheiros e do frade. Ferreol, com o intento de zombar do padre, lhe disse:
— Há muito que desejo me confessar, e agora vejo uma oportunidade. O senhor vai me confessar, reverendo padre, mas tende em conta que espero vossa absolvição. Se não for assim, podeis encomendar-vos a todos os santos, pois não saireis vivo desta caverna.

O frade, tranqüilamente, lhe disse que estava disposto a ouvi-lo em confissão.
— Mas sou Ferreol, o bandido — disse o chefe. — Não tendes ouvido falar de mim?
— Não importa. Vem aqui comigo, e eu te absolverei.
Retiraram-se a um canto da caverna, e terminada a confissão o frade disse a Ferreol:
— Agora vou dar-te a penitência. Antes de qualquer assalto, repete isto e pensa bem nisto: não queiras para os outros o que não queres para ti. E isto te bastará.
Soltando uma estrondosa gargalhada, Ferreol disse:
— Se essa é a penitência, não é demasiado dura. Agora deveis sair daqui depressa, antes que eu me arrependa e vos mate.
O frade saiu. Ferreol continuou afiando sua adaga, e os seus companheiros continuaram bebendo, jogando ou roncando. No entanto, as palavras do frade não haviam caído em terreno pedregoso.

São Miguel e São Francisco, Juan de FlandesAlguns dias depois, dispunha-se Ferreol a dar assalto a uma carroça que ia a uma cidade vizinha, onde se celebrava uma festa. Colocaram-se os bandidos como de costume, alguns no alto de um monte, para avisar a chegada da gente, e os demais ocultos na floresta, entre as ramas de frondosas árvores. Até que o assobio de um sentinela os avisou, e então se esconderam. Pelo caminho, puxando um burrinho, vinha um homem com sua esposa e um menino nos braços.
— Boa presa! — pensaram todos.

Já estavam preparados para assaltar, ao sinal de Ferreol, quando viram com surpresa que o sinal não fora dado. Passou a família, e desapareceu atrás de uma curva do caminho. Tudo ficou em silêncio, e os bandidos foram lentamente se incorporando, se aproximando de Ferreol, e lhe perguntaram a causa de não haver ordenado o ataque. O chefe se mostrava pensativo. Não contestou as reclamações de seus subordinados, mas com receio, disse:
— Não sei... não me pareceu conveniente. Agora voltemos à caverna.

Desde aquele dia Ferreol sempre agia assim. Preparava-se o assalto, mas na última hora não o executava. E já os bandidos murmuravam, acreditando que seu capitão havia enlouquecido ou sido atacado por algum mal súbito, pois não mais falava com eles, e passava largas horas melancolicamente passeando pelos bosques ou na cova, isolado da algazarra dos demais. Até que um dia eles resolveram roubar uma mansão, e Ferreol negou-se a ir.
— Pensem se gostariam que fizessem isso com vocês. O que não queremos para nós, não devemos querê-lo para os outros.
Os bandidos ficaram estupefatos. Logo um coro de brutais gargalhadas estalou:
— Ah! Ferreol virou São Ferreol! Viraste frade e santo!
E passando dos risos para as ameaças, e destas para os fatos, o golpearam, e por fim o mataram. Levaram o cadáver com eles à mansão que iriam assaltar, e o esconderam na adega.

Desta maneira, Ferreol, que havia meditado sobre as palavras daquele frade, cumpriu a penitência de que tão impiamente zombara.

Passou o tempo, e o dono da mansão que os bandidos haviam roubado notou com surpresa, ao tirar o vinho de um certo tonel, que esse havia melhorado em qualidade de uma maneira notável, estando com um sabor agradabilíssimo. E além disso o tonel estava sempre cheio. Sem encontrar uma explicação, removeu um dia o tonel. Grande foi a surpresa ao encontrar atrás do tonel o corpo de Ferreol, que estava ainda fresco e com as feridas ainda sangrando, como se acabasse de morrer.

Compreenderam que um grande milagre havia ocorrido, e desde então São Ferreol recebeu culto e devoção.

(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)

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quinta-feira, 2 de abril de 2009

O vinho derramado


Havia na Normandia um fidalgo bastante pobre, que só podia dispor de umas poucas moedas para comprar diariamente seu alimento.

Uma certa manhã, verificou que só tinha em casa um pão, e decidiu comprar um pouco de vinho com algumas moedas de pouco valor. Foi à taberna próxima e pediu vinho.

O taberneiro, que era um homem grosseiro e desagradável, serviu-lhe de má vontade um copo de vinho. Colocou-o na mesa tão bruscamente, que derramou quase a metade. Em vez de desculpar-se, disse com insolência:
— O senhor está com sorte. O vinho derramado significa alegria e riquezas.

O fidalgo não quis protestar contra aquele mal educado, pois seria trabalho perdido. Mas achou que de algum modo deveria ajustar essas contas, e pediu que o taberneiro lhe trouxesse um pedaço de queijo.

O homem apanhou a moeda bruscamente e foi ao andar de cima buscar o queijo. Enquanto isso o fidalgo levantou-se, abriu a torneira do tonel de vinho e deixou que ele escoasse livremente, formando uma lagoa vermelha no meio da taberna.

Quando o taberneiro voltou e viu o que acontecera, avançou furiosamente sobre o fidalgo. Este se defendeu e conseguiu lançá-lo de encontro ao tonel, que caiu ao chão junto com seu dono, entornando o que restava do vinho. Acudiram vizinhos e soldados, separaram os contendores e os levaram junto ao rei.

O taberneiro falou primeiro e pediu uma indenização. Antes de dar a sentença, o rei quis ouvir também o fidalgo, que narrou o sucedido com toda a veracidade, e acrescentou:

— Senhor, este homem me disse, quando entornou a metade do vinho que me vendera, que isso era sorte minha, pois vinho derramado significa alegria, e que eu me tornaria rico. Pensei então que, se eu me tornaria rico por ter derramado só meio copo de vinho, o bom taberneiro se tornaria muito mais rico e feliz se derramasse meio tonel. Cheio de reconhecimento e gratidão, resolvi então abrir a torneira do tonel, e o resto já conheceis.

O rei e toda a corte se divertiram com a engenhosa justificativa, e o fidalgo foi dispensado sem pagar a pretendida indenização.

(Fonte: Jakes de Basin, in R. Menéndez Pidal, "Antología de cuentos" - Labor, Barcelona, 1953)

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quinta-feira, 19 de março de 2009

Nossa Senhora e a monja fugitiva do mosteiro


Num antigo e austero mosteiro habitava uma monja muito jovem, chamada Beatriz, de grande piedade em sua vida religiosa e profundamente devota de Santa Maria, a quem consagrara a metade de sua vida.

Continuamente a viam de joelhos diante do seu altar, em fervorosa veneração, oferecendo sua esplêndida juventude e angélica pureza à sua Santíssima Mãe.

A abadessa e todas as irmãs do convento lhe professavam grande carinho, por sua bondade e doçura, e a nomearam para o cargo de sacristã da igreja, que ela desempenhava com grande zelo.

Porém, sendo Beatriz extraordinariamente bela, despertou a paixão de um clérigo que freqüentava o mosteiro. Tentou convencê-la a fugir do convento com ele. Mas Beatriz, que a princípio resistia com firmeza, sentia desfalecer suas forças ante os embates daquela forte tentação.

Procurava rezar, porém sua devoção se havia convertido em aridez de espírito, e sua imaginação voava muito longe, sentindo fastio na oração. Numa ocasião em que a igreja estava deserta, o enamorado conseguiu enfim que a monja consentisse em fugir com ele.

Antes de partir, ela se prostrou de joelhos ante a Virgem, dizendo:
— Soberana Senhora, eu te servi honestamente durante a vida toda, até hoje, e não posso conter esta força que me arrasta longe de ti. Entrego-te e te encomendo as chaves desta igreja.
E depositando as chaves sobre o altar, fugiu com o clérigo.

Transcorreu pouco tempo, e o clérigo, uma vez satisfeita sua paixão, abandonou Beatriz, que caiu com a alma desgarrada e grande confusão de espírito.

Sem atrever-se a voltar ao convento, transformou-se numa mulher pública, levando vida ímpia e vergonhosa durante quinze anos, torturada pelos remorsos de sua consciência e conservando uma vaga esperança de perdão.

Passava um dia diante do mosteiro, e sentiu o desejo de parar, para saber o que pensavam da irmã sacristã.

Aproximou-se da porteira do convento, e perguntou:
— Diga-me, irmã, como está Beatriz, a sacristã?

A porteira respondeu:
— Vai muito bem, tão santa e devota como sempre, desempenhando maravilhosamente seu ofício de sacristia. Todas as religiosas a admiram. Já está no convento há vinte e seis anos, demonstrando grande piedade.

Beatriz ficou pensando nas misteriosas palavras que acabava de ouvir, mas sem poder compreendê-las. Então lhe apareceu a gloriosa Virgem, dizendo:
— Beatriz, minha filha, durante quinze anos, em figura tua, Eu desempenho o ofício de sacristã. Volta ao mosteiro, e continua servindo como se nunca tivesses saído, porque nada sabem de teu pecado. Crêem que continuas em teu posto. Faze penitência para alcançar o perdão de teus muitos pecados.

E nesse momento desapareceu. Beatriz regressou ao convento, e voltando a tomar seus hábitos e as chaves, continuou o ofício de sacristã, sem que ninguém chegasse a se dar conta de sua volta.

Unicamente o confessor, a quem revelou sua vida e seus pecados, era conhecedor daquele milagre.

Impôs-lhe severas penitências, que Beatriz cumpriu com rigor, edificando suas companheiras com o exemplo de suas virtudes heróicas e sua santa vida cheia de sacrifícios, para expiar suas culpas.

Chegada sua última hora, Beatriz chamou toda a comunidade, que a rodeou em seu leito de morte, e em alta voz confessou seu pecado, descobrindo o prodígio de misericórdia operado por Nossa Senhora, que durante quinze anos desempenhou por ela o cargo de sacristã. Foi tudo isso atestado pelo confessor.

E morreu santamente naquele instante.

Todas as monjas ficaram admiradas daquele portento, e deram graças à sua Mãe Celestial, que havia feito aquele favor para a religiosa.

(V. Garcia de Diego, Antología de Leyendas de la Literatura Universal - Labor, Madrid, 1953)

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quinta-feira, 5 de março de 2009

Legenda de Zmovit


Era uma terra onde o trigo brotava, louro e farto, em imensas planícies. Também o linho ali crescia. A gente do lugar ocupava-se com a agricultura, e nunca lhe faltava alimento são e frutos gostosos, que a boa terra oferecia generosamente.

Das grandes florestas tiravam a madeira com que construíam suas casas, chamadas isbás.

Apesar de o inverno rigoroso cobrir de neve, durante longo tempo, as grandes planícies, transformando os pinheiros em árvores de cristais que refulgiam ao sol, os camponeses sentiam-se felizes, festejando com cânticos os dias alegres e consolando-se mutuamente quando surgiam as horas de tristeza.

Entre esses camponeses havia um, chamado Piast, homem respeitado e querido pelos companheiros. Era bom e forte, sempre pronto para auxiliar os menos felizes. Esse bom Piast amava ternamente a esposa e o único filho que tinha. O menino se chamava Zmovit, e era uma criança encantadora. A pele fresca e rosada como flor recém-aberta, os cabelos como que feitos de pura seda cor de sol.

Zmovit tinha os olhos azuis. Olhos imensos, puros e claros como duas estrelas. Mas — ai dele! — seus olhos eram estrelas, sim, mas duas tristes estrelas mortas, sem luz e sem calor: Zmovit, o filho do camponês Piast, nascera cego.

Os pobres pais choravam, mas Zmovit nada sabia da tristeza deles. Passava os dias sentado à porta da isbá. Inventava canções e poesias, erguendo a voz meiga, no silêncio das tardes, para louvar as coisas belas que existiam sobre a terra, as coisas que ele não podia ver, mas aprendera a amar através dos olhos maternos.

Ora, na terra do camponês Piast adoravam-se ainda toda sorte de deuses pagãos. Ainda não conheciam ali o único e verdadeiro Deus, e o nome divino de Jesus Cristo nunca fora pronunciado entre aquela gente.

Havia um costume estranho entre eles. As crianças, em vez de receberem o batismo, passavam por uma cerimônia, no dia em que completavam sete anos. Essa cerimônia consistia em cortar os cabelos, que até aquela data tinham permissão de crescer à vontade. Nesse dia a criança era consagrada aos deuses, e os pais faziam uma bonita festa, convidando todos os vizinhos.

No dia em que Zmovit devia cortar seus cabelos cor de sol, a pobre mãe estava bem triste. Via a despensa quase vazia. Pouco vinho e pouco mel havia, para oferecer aos convidados.

Também os frutos eram escassos, e a carne de que dispunham não daria para satisfazer a todos. A mãe de Zmovit estava triste, porque desejara que a festa de seu filho fosse farta e alegre.

Queixava-se assim a boa mulher, quando lhe bateram à porta dois peregrinos pobres. Vinham cansados e com fome. O casal de camponeses nem por um momento pensou em recusar-lhes hospedagem. Escolheram ambos as melhores frutas e o mais claro mel, para os viajantes desconhecidos. Com isso haveria ainda menos fartura na festa de Zmovit, mas não importava. Antes de tudo estava o dever de caridade.

Terminada a refeição, porém, um dos peregrinos levantou-se e disse:
— Meus amigos, destes com amor, a dois pobres que passavam, o que de melhor tínheis em vossa despensa, não pensando na vergonha que iríeis sentir quando os vizinhos viessem para a festa deste menino e nada encontrassem. Ouvistes apenas a voz do coração, e destes alimento aos famintos e matastes a sede dos caminhantes exaustos. Sois dignos de conhecer o único Deus verdadeiro, Aquele que fez o Céu e a Terra!

Uma grande luz inundou então a cabana. As vestes dos peregrinos tombaram ao chão, e os camponeses, mudos de espanto, viram que ali estavam dois anjos de faces resplandecentes, dois mensageiros de Deus. Um deles, abrindo a porta da despensa, fez a mãe de Zmovit ver que as prateleiras, momentos antes vazias, estavam transbordando agora de vinhos e de alimentos deliciosos, ricamente preparados para a festa.

Entraram os vizinhos, em ruidoso bando, ataviados com seus coloridos trajes domingueiros, tocando flautas e dançando. Foram chegando e rodeando o casal e seu filho cego.

O mais velho do grupo adiantou-se e fez um sinal. A música e os cânticos cessaram, e em meio ao silêncio respeitoso que se fez, a voz do ancião ergueu-se:

— Amigo Piast, és homem honrado e bom. Nossa gente tem aumentado e nossa tribo já é um povo. Queremos que sejas nosso rei, o primeiro rei desta terra fértil e boa, que se chamará Polônia. Porque Polônia quer dizer planície, e esta é a terra das grandes planícies, cheias de trigo e de sol.

E todos gritaram:
— Viva! Viva Piast! Viva o primeiro rei da Polônia!

Piast chorava, não porque agora era rei, mas por ver quanto o estimavam os seus vizinhos. Contudo, as felizes surpresas ainda não estavam terminadas. Zmovit fora trazido para o meio da casa, e começaram a cortar-lhe os cabelos, conforme mandava o cerimonial do dia.

O pequeno conservava-se imóvel, com os imensos olhos azuis muito abertos e um sorriso angelical nos lábios. Ao tombar o último cacho de seu cabelo cor de sol, ele deu um grande grito:
— Eu vejo, eu vejo! Ó minha mãe, eu vejo!

Então, todos quantos ali estavam tombaram de joelhos. Os anjos peregrinos reapareceram, e disseram:
— Esta criança cega era símbolo deste pobre povo pagão. Ela abre hoje os olhos à luz, como este povo abre o coração a Deus Todo-Poderoso!

E desde então existe um grande país católico, chamado Polônia.

(Fonte: Fernando Correia da Silva, "Maravilhas do Conto Popular" - Cultrix, SP, 1968)

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A lenda de São Goar e o colar de Carlos Magno


São Goar foi sacerdote e confessor na cidade de Tréveris (Trier). Sua festa litúrgica, inscrita no Martírológio Romano, comemora-se a 6 de julho. Exerceu grande influência moral na região que vai desde Estrasburgo, na França, até Nimega, na Holanda.

Uma pequena cidade sotuada às margens do Reno, na Alemanha, leva o nome do Santo. É aí que se pode ouvir o relato de sua lenda.

São Goar era contemporâneo de Carlos Magno, e em conseqüência assistiu à luta do grande Imperador contra os infiéis. Portanto muito tempo o Santo lamentava amargamente não poder ajudar o filho de Pepino de outro modo, a não ser com suas orações.

São Goar era não somente eremita, mas também barqueiro. Ele estava tomado por essa pena ao ir recolher um viajante na margem direita do Reno, que lhe tinha feito sinais para vir erguê-lo. Nisso, subitamente, veio-lhe uma idéia que lhe pareceu ser de tal maneira uma inspiração do Céu, que resolveu colocá-la em execução no mesmo instante.

Com efeito, assim que São Goar chegou com o viajante ao meio do Reno, ou seja ao ponto onde o rio é mais rápido e profundo, parou de remar e perguntou a seu passageiro de que religião era.

Tendo tomado conhecimento de que estava diante de um herege, deixou o remo, jogou-se sobre ele, batizou-o de uma vez em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Em seguida, de medo de que um Batismo assim ministrado perdesse seu efeito salutar, jogou o novo convertido no rio, que o conduziu diretamente ao Paraíso.

Na mesma noite, a alma do afogado apareceu a São Goar e, em vez de lhe fazer censuras sobre a maneira um pouco brutal pela qual o havia forçado a sair deste mundo, agradeceu por haver-lhe alcançado a felicidade eterna.

Não foi preciso mais ao Santo, dadas suas disposições naturais, para lançá-lo nesta nova via apostólica. Assim, a partir daquele memento, poucos dias não foram marcados por alguma nova conversão.

Quando prestava serviço a um católico, pelo contrário, São Goar não se contentava em fazê-lo atravessar o Reno, conduzia-o a sua ermida e lá partilhava com ele os dons que a piedade dos fiéis ali deixava com uma prodigalidade que, aumentando de hora em hora, provava que a reputação do Santo crescia a olhos vistos.

Ora, aconteceu que essa grande reputação chegou até Carlos Magno, que apreciou o meio de conversão adotado por São Goar, e resolveu não deixar um tão poderoso auxiliar sem recompensa.

Ele foi, então, como simples forasteiro para passar o Reno, e tendo feito o sinal de costume, viu chegar até ele o bom eremita. Mas seu desejo de passar o rio incógnito ficou sem resultado, pois Deus tinha gravado em sua fisionomia uma tal majestade, que São Goar reconheceu-o antes mesmo que tivesse posto o pó na barca.

Semelhante hóspede devia deixar marca de sua passagem. Assim, chegando à outra margem, e tendo bebido um vinho que lhe pareceu agradável, Carlos Magno pediu informações sobre a terra que o produzia, e, tomando conhecimento que estava à venda, comprou-a e fez dela presente para o eremita, prometendo enviar-lhe também um barril e um colar.

Efetivamente, algumas semanas depois da passagem do Imperador, São Goar recebeu os dois objetos prometidos. Ambos eram milagrosos e cada um tinha uma propriedade peculiar. O barril permanecia, sempre cheio, contanto que não se tirasse vinho a não ser pela torneira.

Quanto ao colar, era algo bem diferente. Na expansão do contacto pessoal, São Goar se tinha queixado a Carlos Magno da má fé dos infiéis, que agora, sabendo dos hábitos de São Goar, em vez de confessarem sua heresia, respondiam pura e simplesmente que eram católicos, atravessavam o rio protegidos por este titulo e, quando estavam na outra margem, bebiam seu vinho e iam embora zombando dele. Não havia remédio para isso, sendo que nada se assemelhava tanto a um católico como um infiel que fazia o sinal da Cruz .

Era este inconveniente que o Imperador Carlos havia prometido obviar, e foi para cumprir sua promessa que enviou o colar.

Com efeito, o colar tinha uma virtude peculiar: apenas tocava a pele, sentia de quem se tratava:
– Se era um católico, permanecia no seu statu quo, e deixava passar tranqüilamente o vinho da boca ao estômago;
– Se era um infiel, apertava-se imediatamente até ficar reduzido à metade, de sorte que o bebedor soltava o copo, punha a língua e revirava os olhos. Então, São Goar, que ficava perto dele com uma taça cheia d'água, batizava-o prontamente, e o sistema voltava ao que era antes.

Eram portanto dois presentes inapreciáveis e bem pensados para estarem juntos: o barril e o colar.

São Goar percebeu o valor desse dom. Assim, não só durante toda a sua vida fez uso dele, mas ainda ordenou aos monges ― que se tinham reunido em torno dele, e que ainda em sua vida haviam fundado uma abadia, da qual ele era o superior ‒ de fazerem uso dele depois de sua morte.

Os monges não se omitiram, e o colar e o barril milagrosos atravessaram séculos conservando seu poder.

(Fonte : Alexandre Dumas, « Excursions sur lés bords du Rhin - Impressions de Voyage », Calmann-Levy Editeurs, Paris, Tomo II, pp. 49 a 56).

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