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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Legenda da fidelidade

Santa Ada, Giotto di Bondone
Conta-se que em tempos muito remotos havia um convento de monjas agostinianas, perto da cartuxa de Monte Alegre. Havia entre elas — e era, por certo, a mais humilde — uma monja de família nobre, de alta linhagem e muito bela.

Numa tarde, um cavaleiro que habitava nos arredores do castelo desse lugar, por acaso viu-a no jardim, e de tal maneira impressionou-se por sua beleza, que não teve mais repouso.

Desde então o cavaleiro rondava todas as noites o jardim do convento, chegando ao extremo de escalar os muros e cantar em frente à cela da enclausurada.

Esta teve notícia dos padecimentos do jovem cavaleiro, e chorou amargamente por ser causa deles. Sua humildade e sua religião não podiam suportar a situação que o cavaleiro lhe criava, rondando-a como se fosse do mundo.

Uma tarde, depois de rezar devotamente na capela do convento, pedindo conselho à Santíssima Virgem, tomou uma decisão heróica. Ao chegar a noite, a monja esperou atrás da cela em que o cavaleiro escalava o muro do convento, como era seu costume.

Livro de Horas, século XV, Reims
Não teve que esperar muito tempo. Apenas a lua despontou no céu, viu o cavaleiro que, colocando uma escada no muro, desceu em silêncio por ela, levando sua espada.

Saiu então a monja e se aproximou do cavaleiro, que estava trêmulo de emoção. Ela então lhe disse que havia sabido do muito que por seu amor sofria tentações, e que não poderia consentir nisso.

E tampouco podia tolerar que todas as noites ele rondasse sua cela e lhe cantasse trovas, quebrando o espírito de clausura.

Salterio de Alfonso
O cavaleiro referiu-se à sua extrema beleza. Ao ouvir estas palavras, a religiosa respondeu que, como era sua beleza que causava suas tentações, estava decidida a destruí-la, para devolver à sua alma a tranqüilidade que tinha perdido.

Dizendo isto, tirou uma adaga que trazia escondida embaixo do escapulário, e com um só golpe cortou o nariz.

A lenda não conta o que aconteceu com o cavaleiro, mas nos consta que naquele lugar nasceu um raro arbusto, de uma espécie desconhecida até então, que dava flores de cor vermelha e em forma de nariz.

Os cientistas do país asseguram que não há outro igual em toda a Catalunha. Em várias ocasiões, procuraram extirpá-lo, mas renascia com maior louçania. Puseram-lhe o nome de "arbusto de fogo", mas o povo, sempre amante do maravilhoso, o chama de "arbusto dos narizes".

(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 147)




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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A lenda de Santo Elígio

Deus Pai e Deus Filho, Sevilha, Espanha

Um dia estava o Senhor Deus todo pensativo no Céu. Tanto que Jesus lhe perguntou:
— Que é que tendes, meu Pai?
Respondeu o Senhor:
— Olha lá no fundo.
— Onde?
— Lá em baixo: Vês naquela vila, numa das últimas casas, aquela grande e bela oficina de ferrador?
— Vejo.
— Pois bem. Lá está uma criatura que eu quisera salvar. Chama-se Elígio. É sem dúvida um homem bom, obediente às minhas leis, caridoso com os pobres, pronto para servir a todos. Da manhã até à meia-noite ele está sempre aplicado ao trabalho, sem que jamais escape de sua boca uma blasfêmia ou uma palavra suja. Parece-me mesmo digno de tornar-se um grande santo.
Jesus perguntou:
— E que é que lho impede?
— O seu orgulho. É um artífice de primeiríssima ordem, mas está convencido de que não há no mundo quem seja capaz de superá-lo. E tu sabes que presunção significa perdição.
— Meu Pai, se consentis que eu desça à terra, tentarei a conversão dele.
— Pois vai, meu filho.

E Jesus desceu à terra. Vestiu um macacão de aprendiz de ferreiro, pôs nos ombros uma trouxa de ferramentas, e sem mais o divino operário pôs-se a caminho da oficina do Mestre Elígio. À entrada lia-se: "Ferrador Elígio, mestre dos mestres. Quase sem fogo bate qualquer ferradura".

O pequeno aprendiz chegou até à porta, e descobrindo a cabeça, exclamou:
— Bom dia, mestre! Bom dia a todos. Se precisam de um pouco de auxílio, estou pronto.
— Por enquanto, não — respondeu Elígio.
— Então adeus, mestre. Ficará para outra vez.

E Jesus continuou o seu caminho. Logo adiante topou com um magote de gente, e disse:
— Não pensei que numa oficina, onde deveria haver muito trabalho, recusassem meu serviço.
— Escuta, rapaz — disse um do grupo: — ao chegar, como foi que saudaste ao Mestre Elígio?
— Como saúdam todos: Bom dia, mestre, e a toda a companhia.
— Não, não era esse o modo de saudar. Precisava chamá-lo mestre dos mestres. Não viste o que está escrito sobre a porta?
— É verdade — disse Jesus. — Vou tentar novamente.

Voltou à oficina e disse:
— Senhor mestre dos mestres, o Sr. não precisaria de um ajudante?
— Entre. Trabalho haverá para ti também. Mas lembra-te bem do que te digo uma vez por todas: Quando me saudares, deves chamar-me mestre dos mestres. Não é por orgulhar-me, mas homens como eu, que com duas escaldaduras batem qualquer ferradura, em toda esta terra não se encontram.
— Na minha terra bate-se com uma escaldadura apenas.
— Com uma só? Ah! meu rapaz, não venhas contar-me lorotas.
— Pois bem, eu vos mostrarei se digo ou não a verdade, Sr. mestre de todos os mestres.
E Jesus tomou um pedaço de ferro, atirou-o ao fogo, soprou e atiçou as brasas. Quando o ferro estava em brasa, dispôs-se a pegá-lo com a mão.
— Pobre tonto! — gritou-lhe um dos presentes — tu queres te queimar?
— Não tenhais medo — replicou Jesus. — Graças a Deus, em nosso país não precisamos de tenazes.
Tomou com uma das mãos o ferro em brasa, colocou-o sobre a bigorna, e com o seu martelo bateu-o, deixando-o tão perfeito como ninguém fizera até então.

São Martim de Tours, Museu de Cluny, Paris
Mestre Elígio disse:
— Basta que eu queira, e sou capaz de fazer o mesmo.
E de fato tomou uma pedaço de ferro, lançou-o na forja, soprou e atiçou o fogo. Quando o ferro estava bem vermelho, quis pegá-lo para levá-lo à bigorna, mas queimaram-se-lhe os dedos. Quis fazê-lo depressa e resistir à dor, mas foi obrigado a largar o ferro e recorrer às tenazes. Entretanto, o ferro esfriou. O pobre Mestre Elígio fez força, bateu, suou, mas não conseguiu fazer o que fizera o rapaz.

— Escutem — diz o rapaz — parece-me que ouço o andar de cavalo.
Mestre Elígio correu à porta e viu um cavaleiro, que parou diante da oficina. Ora, convém saber que aquele cavaleiro era São Martinho. Ele cumprimentou e disse:
— Venho de muito longe, e o meu ginete perdeu um par de ferraduras. Preciso encontrar um ferrador.


Mestre Elígio, todo orgulhoso, assim lhe falou:
— Melhor do que aqui não encontrareis, senhor cavaleiro. Estais diante do melhor ferrador daqui e de toda a França. Pode-se dizer com verdade que ele é o mestre dos mestres. Rapaz, segura um pouco a pata do cavalo.
— Segurar a pata do cavalo? — observou Jesus. — Em nossa terra isso não é necessário.
— Esta agora é boa! — gritou mestre Elígio. — Como fazeis para ferrar um cavalo sem segurar a pata?

O rapaz tomou o puxavante, aproximou-se do cavalo, e com um golpe lhe cortou o casco, levou-o à oficina e apertou-o no torno. Depois limou o casco, aplicou-lhe a ferradura nova que acabara de bater, e com o martelo meteu-lhe os cravos. Em seguida desapertou o torno, levou o casco ao cavalo e adaptou-o bem. Fazendo um sinal da cruz, disse:
— Meu Deus, fazei que o sangue estanque.
São Elígio, santo bispo
E a pata do cavalo estava pronta, ferrada e segura, como jamais se vira igual. Enquanto o primeiro aprendiz arregalava os olhos, Mestre Elígio exclamou:
— Caramba! O mesmo hei de fazer eu também.

E pôs mãos à obra. Armado do puxavante, correu ao animal e cortou-lhe o pé. Levou-o para dentro, apertou-o no torno e meteu-lhe os cravos, tudo como fizera o rapaz. Depois — e aqui está o busílis — devendo colocar o pé no lugar, aproximou-se do animal e ajustou-o à perna do melhor modo que pôde. Mas... o sangue escorria, e o pé caiu no chão.

Agora a alma soberba de Mestre Elígio se achava confundida. Entrou na oficina, para ajoelhar-se aos pés do jovem, mas este desaparecera, como desapareceram o cavalo e o cavaleiro. O pranto inundou o coração do Mestre Elígio. Reconhecera que acima dele, pobre mortal, havia outro Mestre que era inimitável. Tirou o avental de couro, abandonou a oficina e pôs-se a percorrer o mundo, anunciando a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Fonte: Pe. Francisco Alves, C.SS.R., "Tesouro de Exemplos" - Vozes, Petrópolis, 1960)




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domingo, 18 de dezembro de 2011

Como Santa Clara foi miraculosamente transportada, na noite de Natal, à igreja de São Francisco e aí assistiu ao ofício


Estando uma vez Santa Clara gravemente enferma, tanto que não podia ir dizer o oficio na igreja com as outras freiras, chegando a solenidade da Natividade de Cristo, todas as outras foram a Matinas.

E ela ficou sozinha no leito, malcontente por não poder juntamente com as outras ir e ter aquela consolação espiritual.

Mas Jesus Cristo, seu esposo, não querendo deixá-la assim desconsolada, fê-la miraculosamente transportar à igreja de São Francisco e assistir a todo o ofício e à missa da meia-noite.

E, além disto, receber a santa comunhão e depois ser trazida ao leito.

Voltando as freiras para junto de Santa Clara, acabado o oficio em São Damião, disseram-lhe:

‒ “Ó nossa mãe, Soror Clara, que grande consolação tivemos nesta noite de santa Natividade! Prouvesse a Deus que houvésseis estado conosco!”

E Santa Clara respondeu:

‒ “Graças e louvores rendo ao meu Senhor Cristo bendito, irmãs minhas e filhas caríssimas; porque a todas as solenidades desta santíssima noite e maiores do que as que assististes, assisti eu com muita consolação de minha alma; porque, por procuração do meu Pai São Francisco e pela graça de meu Senhor Jesus Cristo, estive presente na igreja do meu Pai São Francisco; e com as minhas orelhas corporais e mentais ouvi o canto e o som dos órgãos que aí tocaram; e lá mesmo recebi a santa comunhão.

“E por tanta graça a mim concedida rejubilai-vos e agradecei a Nosso Senhor Jesus Cristo”. Amém.


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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Natal: a lenda do Menino Jesus do Espinho

Uma piedosa lenda de Natal conta que o Menino Jesus sentado num troneto brincou tecendo uma coroa de espinhos.

E um espinho machucou seu dedo indicador da mão direita.

Nesse momento, com ciência profética, Ele previu os sofrimentos que haveria de aceitar para redimir o genro humano.

Em sua doçura de criança e na candura de sua inocência infinita Ele pressentiu as dores lancinantes de sua Paixão e Morte na Cruz.
Veja vídeo
CLIQUE PARA VIDEO:
o sonho do Menino
Jesus do Espinho

Contemplou também a glória de sua Ressurreição. Anteviu a Redenção da humanidade, o triunfo universal da Igreja e da Cristandade.

escola de Murillo
Na iconografia tradicional, o Menino Jesus do Espinho aparece sentado numa poltrona com braços de madeira, estofada em veludo vermelho, meditando sobre os futuros tormentos da Paixão.

Numa outra tela do célebre pintor espanhol Francisco de Zurbarán (1598-1664)  o Menino Deus contempla o dedo sangrando.

O rosto mais sereno parece velado pelo presságio do sofrimento vindouro trazido pela ferida.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Os três ducados

Era uma vez um homem como todos nós, nem melhor nem pior, um pobre pecador.

O que havia feito? Não sei. Uma falta talvez mais grave que as outras; um pecado maior que os outros, sem dúvida, quando Deus o abandonou à própria sorte. Deus, evidentemente, não faltou; foi ele que não correspondeu.

E estava sendo conduzido à forca da cidade de Toulouse. Acompanhavam-no os juízes e o carrasco, em meio a uma multidão atraída por curiosidade, para ver o que aconteceria.

Ora, exatamente nesse dia, passava por Toulouse o rei René com sua esposa, a formosa rainha Aude, que ele acabara de desposar na pátria vizinha. Passando em frente à forca, a rainha viu o condenado já empoleirado no banco, com a cabeça enlaçada pela corda. Não pôde conter um grito, e escondeu o rosto entre as mãos.

O rei deteve a todos, e fez sinal ao carrasco para que parasse. E voltando-se para os cônsules, disse:

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A princesa do castelo de Wangenbourg

Ruínas de Wangenbourg
Num tempo longínquo morava no poderoso castelo de Wangenbourg, na Alsácia, um senhor muito encrenqueiro e de moralidade bastante duvidosa.

Ruínas de Wangenbourg
Voltando com seus companheiros de armas de uma expedição guerreira, ele viu uma bela donzela num prado florido.

Com ramalhetes de margaridas nos braços, ela resplandecia de beleza.

O senhor quis seduzi-la de todas as formas.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Como São Francisco domesticou as rolas selvagens


Um jovem havia apanhado um dia muitas rolas e levava-as a vender.

Encontrando-o São Francisco, o qual sempre sentia singular piedade pelos animais mansos, olhando com os olhos piedosos aquelas rolas, disse ao jovem:

‒ "Ó bom moço, peço-te que mas dês, para que passarinhos tão inocentes, os quais são comparados na santa Escritura às almas castas e humildes e fiéis, não caiam nas mãos de cruéis que os matem”.

De repente aquele, inspirado por Deus, deu-as todas a São Francisco; e ele recebendo-as no regaço, começou a falar-lhes docemente:

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O “Volo Biou” (boi voador) de Saint-Ambroix

Saint-Ambroix: a produção de vinho foi demasiada

Há muitos séculos – pois esta lenda se perde na noite dos tempos – a colheita de uvas foi fabulosamente abundante, mas excessiva e verdadeiramente abundante, em Saint-Ambroix (Santo Ambrósio).

Pelo excesso de uva, não havia mais um recipiente livre utilizável na cidade. Era impossível guardar adequadamente todo esse vinho.

O que fazer?

A desavença tomou conta dos habitantes cuja única renda era o fruto da terra.

‒ “Se não fizermos algo, vamos perder tudo”, disse um deles.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Importância dos contos e das lendas na vida medieval

Um elemento essencial da vida medieval foi a pregação.

Nessa época, pregar não era monologar em termos escolhidos perante um auditório silencioso e convencido.

Pregava-se um pouco por todo lado, não apenas nas igrejas, mas também nos mercados, nos campos de feira, no cruzamento das estradas; e de modo muito vivo, cheio de calor e de ímpeto.

O pregador dirigia-se ao auditório, respondia às suas perguntas, admitia mesmo as suas contradições, os seus rumores, as suas invectivas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Da maravilhosa prédica, a qual fez Santo Antônio de Pádua, ou Lisboa, em consistório

Santo Antônio, Sevilha

O maravilhoso vaso do Espírito Santo, meu senhor Santo Antônio de Pádua, também de Lisboa, um dos discípulos escolhidos e companheiros de São Francisco, ao qual São Francisco chamava seu vigário.

Pregando uma vez em consistório diante do Papa e dos cardeais (no qual consistório havia homens de diversas nações.

Isto é, gregos, latinos, franceses, alemães, eslavos e ingleses e de outras diversas línguas do mundo).

Inflamado do Espírito Santo tão eficazmente, tão devotamente, tão sutilmente, tão docemente e tão claramente e intuitivamente expôs e falou a palavra de Deus, que todos os que estavam em consistório, conquanto usassem línguas diversas, claramente lhe entendiam as palavras distintamente como se ele tivesse falado na língua de cada um.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ladrão! Ladrão!


Um mercador voltava de uma feira, onde fizera grandes negócios. Colocara numa bolsa de couro toda a sua fortuna, em belas moedas de ouro. Ia assim por vales e montes.

Chegando à cidade de Amiens, passou diante de uma igreja. Como tinha por hábito, entrou para rezar diante da Mãe de Deus e pousou a bolsa ao lado. Quando se levantou, distraiu-se e partiu sem ela.

Havia na cidade um burguês que, ele também, tinha o costume de ir rezar aos pés da bendita Virgem.

Veio ele pouco depois ajoelhar-se no lugar que o outro acabara de deixar, e encontrou a bolsa, selada e guarnecida de um pequeno fecho. Compreendeu logo que devia conter moedas de ouro.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Carlos Magno e o abade de São Gall

Notker Balbulus, St Gall, contos e lendas medievais
Carlos Magno, numa de suas freqüentes viagens, viu o abade de S. Gall preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia.

Carlos gostava de homens enérgicos e ativos, e o abade era indolente.

Além disso, o Imperador tinha mais de um motivo de queixa contra ele.

— Bom dia, Sr. Abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me responder em sessão solene de nosso conselho imperial daqui a três meses, contados dia-a-dia.

Primeiro de tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro.
Em segundo lugar, quanto tempo levaria para dar a volta ao mundo.
Em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que V. Revma. vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, do contrário deixará de ser abade de S. Gall, e terá de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada para o rabo, se não o responder.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O milagre da Santa Mãe d’Aquele que andou sobre o mar

Esta é a história da mulher que passou grande perigo no mar levando seu filho pequenino nos braços, e Nossa Senhora Santa Maria a fez andar sobre as águas como se fosse sobre o chão...

“A Santa Mãe d’Aquele que caminhou sobre as águas pode obter do poder dEle que outro andasse sobre elas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Como todos andavam atrás de São Francisco para confusão do mundo e graça de Deus

Quadro de São Francisco, Porziuncola

Estava uma vez São Francisco no convento da Porciúncula com Frei Masseo de Marignano, homem de grande santidade, discrição e graça em falar de Deus; pela qual coisa São Francisco o amava muito.

Um dia, voltando São Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade.

Foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse:

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Como Frei Leão só pode dizer o contrário do que São Francisco queria

Estando uma vez São Francisco, no princípio da Ordem, com Frei Leão em um convento, onde não havia livro para rezar o ofício divino, ao chegar a hora de Matinas, disse São Francisco a Frei Leão:

“Caríssimo, não temos breviário, com que possamos rezar Matinas: mas, a fim de passarmos o tempo louvando a Deus, eu direi e tu me responderás como te ensinar; e toma cuidado, não digas as palavras de modo diverso do que te ensinar’.

Direi assim: ‘Õ irmão Francisco, praticaste tanto mal, tais pecados no século que és digno do inferno’; e tu, irmão Leão, responderás: ‘Verdadeira coisa é que mereces o inferno profundíssimo’

‒ E Frei Leão, com simplicidade columbina, respondeu: “Estou pronto, pai, começa em nome de Deus”.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O jogral da Virgem

Muitos peregrinos, vindos dos mais remotos confins da Cristandade, iam à romaria do Santuário de Nossa Senhora de Rocamador.

Era gente de toda espécie, desde mendigos ou empestados até fidalgos e grandes dignitários da Igreja.

Freqüentemente misturavam-se àquela turba alguns indivíduos aloucados, galhofeiros ou poetas, que tanto entoavam uma canção, acompanhando-a com qualquer instrumento, como embasbacavam o povo com malabarismos e trabalhos de saltimbancos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A contagem dos pães

Dois homens que viajavam juntos sentaram-se à beira da estrada, para comer. Um tinha cinco pães, e o outro três. Quando colocaram diante de si a comida, passou por ali um homem e os cumprimentou. Eles o convidaram:

— Senta-te para comer conosco.

Ele se sentou e comeu com eles, consumindo-se durante a refeição os oito pães. O homem então se levantou e lhes deu oito moedas de prata, dizendo:

— Recebam este pagamento pela comida que me deram.

E continuou seu caminho.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A flauta do monge inocente

Igreja de Dégagnazès

Sabeis por que todos os anos multidões de peregrinos vão rezar em Dégagnazès? É que antigamente ocorreram lá as grandes coisas que eu vos contarei.

No bosque, no local em que os mercadores montam suas barracas no dia de peregrinação, havia um convento com trinta monges vestidos todos de branco.

Na realidade eram trinta e um, mas eu disse trinta, como todo mundo, porque o trigésimo primeiro não contava.