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domingo, 10 de agosto de 2014

A cidade de Ys, no fundo da “baía dos mortos”

Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França
Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França

Entre a lenda e a história real há sempre uma zona nebulosa de incerteza. O fato é que a figura de uma cidade submersa, com uma catedral magnífica cujos sinos tangem ao sabor das ondas, ainda hoje excita as imaginações.

A misteriosa Bretanha é uma das mais interessantes regiões da França. Imensa plataforma que avança sobre o Atlântico, ao sul da Grã-Bretanha, ela é castigada por toda espécie de ventos e marés, como também o foi por invasões, ao longo de sua história milenar.

Os primeiros celtas chamaram-na Armor — “Terra voltada para o mar”. Daí o nome de Península Armórica, que ainda hoje a designa.

Na sua extremidade sul formou-se a Cornualha, nome que parece vir da Cornwall britânica, a península mais ocidental da Inglaterra.

Ocupada por gauleses, romanos, celtas, várias vezes saqueada pelos normandos, a Bretanha constituiu-se em reino até o século X, e depois em poderoso ducado, antes de ser incorporada definitivamente à França com os casamentos sucessivos de Ana de Bretanha com Carlos VIII e Luís XII, ambos filhos do astuto Luís XI.

Cheia de mistérios, é uma terra fértil em lendas e tradições imemoriais.

Santos, calvários, menires, peregrinações dos perdões… uma riqueza de tradições e costumes que fazem da Bretanha uma região especial, cheia de mitos e legendas. É o caso do rei Artur e seus cavaleiros da távola redonda.

O Santo Graal da legenda teria sido o cálice usado por Nosso Senhor na Santa Ceia.

José de Arimateia, membro do Sinédrio e discípulo oculto do Divino Mestre, teria trazido da Terra Santa esse cálice, contendo algumas gotas do Preciosíssimo Sangue de Cristo.

Na península Armórica, o discípulo teria vivido numa floresta para depois desaparecer sem deixar traços.

Outra lenda da Bretanha concerne a cidade de Ys, ou Is, sepultada no fundo do mar na baía de Douarnenez, a “baía dos mortos”.

Construída sobre um pólder e protegida por um dique, Ys teria sido a capital da Cornualha sob o rei Gradlon, o Grande, no século VI.

Enormes comportas permitiam evacuar as águas que vinham dos rios e proteger a cidade das marés altas. O rei guardava pessoalmente a chave das portas do mar, como eram conhecidas as comportas.

Gradlon tinha uma filha chamada Dahud ou Ahés. A princesa, em toda a cidade, era conhecida por seus costumes dissolutos.

Gwenolé (ou Guenole), um santo monge da região, vinha frequentemente a Ys e advertia os seus habitantes, mas estes não lhe davam ouvidos.

A fuga do rei Gradlon. Evariste Vital Luminais (1822–1896). Musée des Beaux-Arts, Quimper
A fuga do rei Gradlon.
Evariste Vital Luminais (1822–1896). Musée des Beaux-Arts, Quimper
Deus permitiu então que o demônio se introduzisse no palácio real sob a forma de um formoso jovem e seduzisse a filha do rei, a quem o príncipe das trevas pediu como prova de amor que ela abrisse as comportas que protegiam a cidade.

Dahud roubou as chaves do pai quando este dormia e fez a vontade diabólica.

A maré estava alta quando as eclusas foram abertas. As águas invadiram logo as ruas e as casas da cidade, apanhando de surpresa os seus habitantes, a maioria dos quais adormecidos.

Deus permitiu que o rei fosse despertado por Gwenolé alguns instantes antes da tragédia. O soberano saltou sobre o seu cavalo e fugiu precipitadamente, levando a filha na garupa do animal.

Mas, enquanto o cavalo do monge ia rápido como o vento, o de Gradlon esgotava-se rapidamente com o peso da pecadora. As ondas já alcançavam os fugitivos.

Gwenolé ordenou então ao rei que, se quisesse salvar-se, devia separar-se de sua filha; Gradlon recusou-se. As águas começaram a cobrir os cascos do animal.

O santo renovou então sua ordem e, finalmente, o rei obedeceu. No mesmo instante, seu cavalo deu um salto e como que libertado de um grande peso, disparou.

Logo o rei e o monge atingiam terra firme enquanto o mar cobria toda a cidade de Ys, até seus mais altos monumentos.

Depois Gradlon teria feito de Quimper a sua nova capital e terminado seus dias em penitência, falecendo em odor de santidade.

(Autor: Gabriel José Wilson. Catolicismo, março 2014).

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domingo, 27 de julho de 2014

“De muitas formas Santa Maria favorece àqueles que são dEla”

Nossa Senhora de Cluny Abadia Saint Denis, Paris
Nossa Senhora de Cluny
Abadia Saint Denis, Paris
Cantiga 299 do rei de Leão e Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
Como Santa Maria apareceu a um frade e lhe ordenou dar ao rei a imagem dEla que ele levava

Sobre isso eu queria vos mostrar um milagre, e vos peço ouvir-me com boa atenção, pois por meio dele vos ensinarei a servir Àquela que é um prodígio de bem.

Isto aconteceu a um rei que servia a essa Senhora em tudo quanto podia e se aprazia grandemente louvando-A: por isso lhe aconteceu quanto vos narrarei.

Um frade da Ordem da Estrela levava em seu peito uma imagem em marfim da Virgem que nos guia com seu Filho nos braços (Santa Maria de Espanha), na qual ele tinha muita fé.

Uma noite, deitado em seu leito e já adormecido, viu vir a Mãe de Deus que lhe dizia:

— ”Por que é que levas essa imagem, é um disparate levá-la; vai procurar o rei e a dá a ele de presente; isso me aprazeria muito e farias muito bem nessa obra”.

Tendo dito isso, Ela se afastou, e o frade contou o fato aos outros irmãos que replicaram:

— “Isso é um sonho que não faz sentido”.

Mas ele, ouvindo isso, ficava cada vez mais decidido a dá-la ao rei, e após se repetir o fato três vezes, Ela veio lhe dizer com grande despeito:

— ”Como ousas não dar ao rei aquilo que Eu te mandei dar, e que Eu te agradeceria? Dá a ele, se não sairás prejudicado”.

O frade, antes de completar o terceiro dia, foi contar o acontecido a seu mestre e superior, que lhe disse:

— ”Foi estúpida tua resistência; essa imagem não te convém. Ela está bem para um rei; por isso aconselho-te que lha dês, pois ele saberá honrá-la devidamente, e procura para ti uma mais apropriada”.

E o frade saiu procurando o rei, que estava ouvindo missa.

Tendo-o achado, deu-lhe a imagem, pelo que o rei muito se alegrou de verdade, e, levantando-a com as duas mãos, agradecia-lhe pelo sucedido, abençoava seu santo nome, dizendo: “Bendita sejas, amém”.





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domingo, 20 de julho de 2014

As lendas medievais apresentam o verdadeiro aspecto de Nossa Senhora: a bondade sem limites de uma Mãe

Os devocionários medievais e as lendas sobre a devoção a Nossa Senhora na Idade Média, incluem algumas verdadeiras e outras imaginadas.

Mas todas elas apresentam a graça e a gentileza especial de Maria Santíssima no trato com as almas, de modo indizivelmente ameno e interessante.

Então, não nos interessa saber se o fato narrado é verdadeiro no que se refere à parte dos homens, porque a verdade está naquilo que o conto mostra de verdadeiro a respeito de Nossa Senhora.

Portanto, embora sejam lendas, como são teológicas e mariais, fazem-nos sentir bem quem é Nossa Senhora.

Por exemplo, a história de um menino órfão da Idade Média que tinha uma vontade enorme de ver Nossa Senhora e dava tudo para obter isto, ainda que tivesse de ficar cego.

Então, Nossa Senhora lhe fez saber que obteria a graça de vê-lA se ele aceitasse ficar cego de um olho.

Ele aceitou.

Então, Nossa Senhora lhe apareceu numa formosura resplandecente, imensamente bondosa, régia, condescendente, e ele ficou extasiado.

Quando a visão se dissipou, verificou que estava cego de um olho, não dos dois, e desmaiou. Após acordar, ficou com aquela nostalgia de Nossa Senhora…

Novo pedido e a pergunta: você consente em ficar cego do outro olho?

Ele ficou naquela dúvida…

– Consinto! Eu tenho tanta vontade de vê-La mais uma vez, que eu consinto em ficar cego do outro olho!

Então Nossa Senhora lhe apareceu, falou com ele, e quando a visão se dissipou, estava com os dois olhos em perfeito estado!

LEIA A HISTÓRIA COMPLETA EM:

* Um olho por minha Mãe

VEJA TAMBÉM AS CANTIGAS DE SANTA MARIA. CLIQUE AQUI

Eu não me interesso em saber se o fato é verdadeiro, porque o que eu sei é que Nossa Senhora é assim!

Ou seja, Ela pode nos fazer passar por um certo apuro para provar o amor e portanto tirar uma vista e fazer passar por estas angústias.

Mas em última análise Ela acaba sorrindo e, passando pelas necessárias provações, tudo se termina bem com um Seu sorriso.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira excerto de uma palestra de em 18-05-1964, sem revisão do Autor)



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domingo, 29 de junho de 2014

O violinista pobre de Cracóvia

A igreja de São Salvador, em Cracóvia, Polônia.
A igreja de São Salvador, em Cracóvia, Polônia.

A igreja de São Salvador, no bairro de Zwierzyniec de Cracóvia, existe há 900 anos.

Ela teria sido construída pelo príncipe soberano Piotr Wlast, fundador legendário de 77 igrejas.

O arcebispo de Cracóvia lhe havia predito que ele recuperaria a visão, caso fundasse sete igrejas e três conventos.

Cheio de presunção, o soberano decidiu construir 70 igrejas e 30 conventos, dez vezes mais do que pediu o arcebispo. Porém, não recuperou a vista.

Ele recapitulou o que tinha feito e compreendeu seu pecado de orgulho.

E começou então a construir as sete igrejas e três mosteiros ordenados, entre os quais a igreja de São Salvador, fundada por volta do ano 1148.

Lá há um velho quadro que representa a Crucifixão. O singular é que o Crucificado está vestido com longas roupagens suntuosas e calçado com ricas sandálias.

Um dia viu-se um pobre violinista se ajoelhar, com as mãos elevadas ao alto, aos pés do Crucificado.

Ele rezava com fervor e, pegando seu filho, o alçava até o crucifixo. Ele não podia sair para trabalhar, pois criava sozinho seu filho e não podia deixá-lo sem companhia.

Os dois viviam na miséria, mas eram felizes. Até o dia que a criança adoeceu gravemente.

O violinista não tinha dinheiro para curar o menino. Voltou então até a Cruz, ajoelhou-se, e tocando seu violino com emoção, contou a Jesus seu desespero.

O milagre aconteceu. Uma das preciosas sandálias deslizou do pé do Crucificado e caiu no violinista.

Ele agradeceu a Deus, pegou a sandália e foi até a Praça do Mercado para trocá-la por dinheiro.

O violinista pobre de Cracóvia recebe a sandália
O violinista pobre de Cracóvia recebe a sandália
Mas os comerciantes viram essa mercadoria preciosa e chamaram os guardas denunciando um roubo.

Nem os comerciantes nem os guardas podiam acreditar que o próprio Jesus lhe tinha dado a sandália para salvar seu filho único.

O Conselho Municipal tampouco acreditou em suas palavras e naquela noite mesmo ele foi condenado à morte.

O violinista não conseguia convencer ninguém. A execução devia acontecer na manhã do dia seguinte.

Mas, como estipulava a tradição, ele tinha direito a um último desejo. A assembleia ficou pasma quando ele pediu para ir tocar seu violino uma derradeira vez, antes de morrer, diante de Jesus na Cruz.

Na madrugada, e na presença de muitos curiosos, o violinista se ajoelhou diante do Crucifixo e executou sua música enquanto chorava.

Todo mundo entendeu a extensão do desespero de um pai.

E, diante dos olhos de todos, a outra sandália caiu em suas mãos.

O Salvador tinha ouvido novamente suas orações.

Imediatamente o violinista foi liberado. Algum tempo depois, um pintor eternizou o testemunho da misericórdia divina num quadro que ainda hoje está posto no muro.

Durante as guerras, o Crucifixo foi levado embora. Mas o quadro do Cristo com o violinista continua sempre no altar da igreja de São Salvador.

(Fonte: “Légendes de Cracovie”, Wydawnictwo Wam, Cracóvia, 1972, p. 50 a 53)



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domingo, 15 de junho de 2014

O anel de Santa Cunegunda

Santa Cunegunda, capela de Nossa Senhora, Budapest, Hungria
Santa Cunegunda, capela de Nossa Senhora, Budapest, Hungria
O príncipe Boleslau V o Casto procurava uma esposa em algum país vizinho.

Tinha que ser uma princesa e o casamento se decidia na base de cálculos políticos.

Foi assim que ele decidiu casar-se com a princesa Kinga, ou Cunegunda (1224-1292), filha do rei da Hungria.

Ela era a filha bem-amada do rei Bela IV e de Santa Isabel da Hungria, e irmã de Santa Margarida da Hungria.

A bela princesa húngara deu sua mão ao príncipe polonês.

Ela tinha um espírito fino e esclarecido, e pediu a seu pai um dote fora do comum. Contudo não pediu ouro nem dinheiro, nem belos panos, mas um presente que contribuiria muito para a prosperidade de sua nova pátria.

Naquela época o sal era um elemento raríssimo e o rei Bela ofereceu à filha uma das minas de sal que faziam a riqueza da Hungria.

Porém, a mina ficava muito longe da Polônia e a princesa percebia que seria difícil tirar proveito dela.

Ela foi, então, visitar a mina e decidiu levá-la consigo até sua futura pátria.

Para isso, arrancou inesperadamente um anel precioso de sua mão e jogou-o no poço mais fundo da mina, invocando São Francisco e Santa Clara de Assis.

Pouco tempo depois Cunegunda partiu para a Polônia escoltada por cavaleiros poloneses e húngaros.

Os primeiros meses que ela passou no castelo real de Cracóvia lhe fizeram descobrir e experimentar sua nova vida e seus novos servidores pobres e sacrificados.

Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Quanto mais passava o tempo, mais ela compreendia que era preciso fazer algo para a felicidade de seus vassalos.

Certo dia, ela pediu a seu esposo licença para procurar um lugar onde cavar para tirar o sal.

No dia seguinte, um grande cortejo acompanhou o casal real, que deixou a cidade e se deteve pela noite na pequena aldeia de Wieliczka, perto de uma floresta.

Cunegunda decidiu intuitivamente que não era necessário ir muito mais longe. Era ali que era preciso escavar. Os trabalhos começaram pela manhã.

Não se sabe ao certo quanto demoraram até acharem os primeiros blocos de sal. O fato é que a jovem rainha acompanhava os trabalhos de perto.

Ela até entrou no poço e acabou saindo alegremente com as primeiras pedras de sal.

Um dia, a soberana percebeu que entre os blocos de sal havia uma coisa que brilhava.

Cunegunda se inclinou, afastou a poeira e recuperou o anel que tinha jogado na mina de Hungria invocando seus padroeiros franciscanos.

Capela de Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Capela de Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Era bem o mesmo, o anel oferecido outrora por seu pai em sua terra natal.

Então ela ficou bem segura. Havia escolhido o local certo para tirar o sal.

Desde então o sal da mina de Wieliczka trouxe muita riqueza para Cracóvia e para a Polônia inteira.

Mas Cunegunda não deixava de procurar meios para tornar seu povo sempre mais próspero.

Ocupava-se cuidadosamente dos vassalos e fazia muita caridade.

Após a morte do rei seu marido, Cunegunda se retirou para um mosteiro fundado por ela mesma em Nowy Sacz e adotou o hábito de religiosa.

Lá ela dorme o sono da bem-aventurança eterna.

Muitos anos depois foi canonizada. E Santa Cunegunda é hoje uma das padroeiras da Polônia e da Lituânia.

(Fonte: “Légendes de Cracovie”, Wydawnictwo Wam, Cracóvia, 1972, p. 32 a 35)



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