domingo, 26 de julho de 2015

A legenda de Zmovit

Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia, Polônia.
Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia, Polônia.




Era uma terra onde o trigo brotava, louro e farto, em imensas planícies. Também o linho ali crescia. A gente do lugar ocupava-se com a agricultura, e nunca lhe faltava alimento são e frutos gostosos, que a boa terra oferecia generosamente.

Das grandes florestas tiravam a madeira com que construíam suas casas, chamadas isbás.

Apesar de o inverno rigoroso cobrir de neve, durante longo tempo, as grandes planícies, transformando os pinheiros em árvores de cristais que refulgiam ao sol, os camponeses sentiam-se felizes, festejando com cânticos os dias alegres e consolando-se mutuamente quando surgiam as horas de tristeza.

Entre esses camponeses havia um, chamado Piast, homem respeitado e querido pelos companheiros. Era bom e forte, sempre pronto para auxiliar os menos felizes. Esse bom Piast amava ternamente a esposa e o único filho que tinha. O menino se chamava Zmovit, e era uma criança encantadora. A pele fresca e rosada como flor recém-aberta, os cabelos como que feitos de pura seda cor de sol.

Zmovit tinha os olhos azuis. Olhos imensos, puros e claros como duas estrelas. Mas — ai dele! — seus olhos eram estrelas, sim, mas duas tristes estrelas mortas, sem luz e sem calor: Zmovit, o filho do camponês Piast, nascera cego.

Os pobres pais choravam, mas Zmovit nada sabia da tristeza deles. Passava os dias sentado à porta da isbá. Inventava canções e poesias, erguendo a voz meiga, no silêncio das tardes, para louvar as coisas belas que existiam sobre a terra, as coisas que ele não podia ver, mas aprendera a amar através dos olhos maternos.

Ora, na terra do camponês Piast adoravam-se ainda toda sorte de deuses pagãos. Ainda não conheciam ali o único e verdadeiro Deus, e o nome divino de Jesus Cristo nunca fora pronunciado entre aquela gente.

Havia um costume estranho entre eles. As crianças, em vez de receberem o batismo, passavam por uma cerimônia, no dia em que completavam sete anos.

Essa cerimônia consistia em cortar os cabelos, que até aquela data tinham permissão de crescer à vontade. Nesse dia a criança era consagrada aos deuses, e os pais faziam uma bonita festa, convidando todos os vizinhos.

No dia em que Zmovit devia cortar seus cabelos cor de sol, a pobre mãe estava bem triste. Via a despensa quase vazia. Pouco vinho e pouco mel havia, para oferecer aos convidados.

Também os frutos eram escassos, e a carne de que dispunham não daria para satisfazer a todos. A mãe de Zmovit estava triste, porque desejara que a festa de seu filho fosse farta e alegre.

Queixava-se assim a boa mulher, quando lhe bateram à porta dois peregrinos pobres. Vinham cansados e com fome. O casal de camponeses nem por um momento pensou em recusar-lhes hospedagem. Escolheram ambos as melhores frutas e o mais claro mel, para os viajantes desconhecidos. Com isso haveria ainda menos fartura na festa de Zmovit, mas não importava. Antes de tudo estava o dever de caridade.

Terminada a refeição, porém, um dos peregrinos levantou-se e disse:
— Meus amigos, destes com amor, a dois pobres que passavam, o que de melhor tínheis em vossa despensa, não pensando na vergonha que iríeis sentir quando os vizinhos viessem para a festa deste menino e nada encontrassem. Ouvistes apenas a voz do coração, e destes alimento aos famintos e matastes a sede dos caminhantes exaustos. Sois dignos de conhecer o único Deus verdadeiro, Aquele que fez o Céu e a Terra!

Uma grande luz inundou então a cabana. As vestes dos peregrinos tombaram ao chão, e os camponeses, mudos de espanto, viram que ali estavam dois anjos de faces resplandecentes, dois mensageiros de Deus.

Anjo com o escudo da Polônia. Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia.
Anjo com o escudo da Polônia.
Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia.
Um deles, abrindo a porta da despensa, fez a mãe de Zmovit ver que as prateleiras, momentos antes vazias, estavam transbordando agora de vinhos e de alimentos deliciosos, ricamente preparados para a festa.

Entraram os vizinhos, em ruidoso bando, ataviados com seus coloridos trajes domingueiros, tocando flautas e dançando. Foram chegando e rodeando o casal e seu filho cego.

O mais velho do grupo adiantou-se e fez um sinal. A música e os cânticos cessaram, e em meio ao silêncio respeitoso que se fez, a voz do ancião ergueu-se:

— Amigo Piast, és homem honrado e bom. Nossa gente tem aumentado e nossa tribo já é um povo. Queremos que sejas nosso rei, o primeiro rei desta terra fértil e boa, que se chamará Polônia. Porque Polônia quer dizer planície, e esta é a terra das grandes planícies, cheias de trigo e de sol.

E todos gritaram:
— Viva! Viva Piast! Viva o primeiro rei da Polônia!

Piast chorava, não porque agora era rei, mas por ver quanto o estimavam os seus vizinhos. Contudo, as felizes surpresas ainda não estavam terminadas. Zmovit fora trazido para o meio da casa, e começaram a cortar-lhe os cabelos, conforme mandava o cerimonial do dia.

O pequeno conservava-se imóvel, com os imensos olhos azuis muito abertos e um sorriso angelical nos lábios. Ao tombar o último cacho de seu cabelo cor de sol, ele deu um grande grito:
— Eu vejo, eu vejo! Ó minha mãe, eu vejo!

Então, todos quantos ali estavam tombaram de joelhos. Os anjos peregrinos reapareceram, e disseram:
— Esta criança cega era símbolo deste pobre povo pagão. Ela abre hoje os olhos à luz, como este povo abre o coração a Deus Todo-Poderoso!

E desde então existe um grande país católico, chamado Polônia.

(Fonte: Fernando Correia da Silva, "Maravilhas do Conto Popular" - Cultrix, SP, 1968)


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domingo, 28 de junho de 2015

A Cidade do Pavão




A umas léguas de Paleacate, porto da costa de Coromandel, no meio das brenhas da vegetação tropical, encontrava-se no século de quinhentos uma cidade morta e deserta.

[Nota: Costa de Coromandel é o nome dado à faixa marítima de Tamil Nadu, no sudeste da Índia, banhada pelo oceano Índico. Em Chenai, antiga Madrás se venera o túmulo de São Tomé Apóstolo]

Grande cidade, evidentemente, a julgar pelos montões de pedras, ricamente esculpidas, e colunas ornadas de finos lavores, que se viam espalhadas pelo matagal – ruínas de templos, palácios e outros edifícios imponentes, agora a esboroar-se debaixo do sol escaldante do Estio e chuvas da monção.

Cidade destruída pela invasão das hordas muçulmanas – diziam alguns –, devassada por uma incursão catastrófica do mar que tragou a população e arrasou as casas – opinavam outros.

Fosse como fosse, muito se contava do esplendor antigo de Meliapor, dos seus trezentos templos e maravilhosos paços.

O seu nome significava Cidade do Pavão, porque entre as aves outra não há mais formosa do que o pavão.

Não era todavia para contemplar restos de glórias transactas, que os viajantes ainda visitavam a Cidade do Pavão. Era que sobre estas ruínas pairava uma auréola de santidade.

Corria fama por todo o Oriente de que a extinta Meliapor guardava as relíquias dum santo.

Diziam-no gentios e muçulmanos com a mesma convicção, e os cristãos das antigas igrejas da Ásia afirmavam, como sabido e certo, que aqui veio, pregou, e morreu martirizado, o Bem-aventurado Apóstolo São Tomé.

Imaginemos pois o alvoroço sentido por meia dúzia de portugueses, quando, em 1517, tendo desembarcado em Paleacate, uns armênios ali residentes se ofereceram para guiá-los à sepultura de São Tomé.

Catedral de São Tomé Apóstolo, Chennai (ex-Madrás), Índia
Catedral de São Tomé Apóstolo, Chennai (ex-Madrás), Índia
Partiram todos a pé, e andaram seis jornadas até chegar à cidade abandonada.

No meio das ruínas, foi-lhes apontado um modesto edifício – o único ainda de pé, antigo e danificado, apresentando a forma de igreja cristã com abóbada alta e coruchéu, e tendo três portas de madeira lavrada.

Aí, encontraram um velho indiano, meio cego, e evidentemente pobre. Era – dizia – o guardião desta casa, quem a varria e limpava, como o tinham já feito seus pais e avós e granjeava algumas esmolas para pagar o azeite da candeia, que acendia quando chegavam peregrinos.

Alumiados por esta, os portugueses penetraram no interior cheio de sombras, entre as quais descortinaram três naves e uma capela-mor, com cinco pavões esculpidos e cruzes gravadas nas paredes circundantes.

Em duas capelas laterais, viam-se duas sepulturas, cada qual do tamanho do corpo de um homem. Do lado direito, informaram os armênios, jazia o Apóstolo Bem-aventurado, e, à esquerda, estava enterrado o companheiro, São Matias.

Rogaram então ao velho que lhes narrasse tudo quanto sabia da história estranha deste lugar sagrado, e ele, de boa vontade, anuiu.

Havia muitos e muitos anos – talvez uns mil e quinhentos –, dizia o seu pai, que o ouvira de seus bisavós, os quais por sua vez o tinham ouvido aos antepassados, e o mesmo contavam os mais antigos desta terra – que em Paleacate desembarcaram dois estrangeiros, oriundos de terras remotas e então chegados da China.

Andando na praia, eles viram os elefantes do rei a puxarem com toda a força um pau enorme, lançado pelo mar, sem que o conseguissem. O principal dos recém-vindos pediu ao rei que lhes desse o lenho.

“Leva-o – respondeu ele, a rir – se puderes com o peso!”

Então, perante o espanto de todos, o homem desapertou o cinto, amarrou-o ao pau, que primeiro benzeu, e, tranquilamente, sem o menor esforço, foi-o levando atrás de si umas doze léguas, sertão dentro.


São Tomé toca nas chagas de Cristo. Museu The Cloisters, New York. Originário de Carinthia, Áustria.
São Tomé toca nas chagas de Cristo.
Museu The Cloisters, New York. Originário de Carinthia, Áustria.
Um santo, sem dúvida nenhuma! clamou a multidão, e onde parou com o lenho, o rei deu-lhe licença para fazer casa.

Todo o povo acorreu a ajudar. Queriam ser pagos em dinheiro ou em mantimentos? – perguntou o santo.

Aos que diziam dinheiro ele dava cavacos da obra, que se tornavam moedas; aos que optavam por comida, enchia as abas de areia, que logo se transformavam em arroz!

Assim a casa ergueu-se depressa, o santo ficou lá a viver, pregou o Evangelho e fez grandes milagres na terra.

O próprio rei converteu-se e foi baptizado com toda a família e muitos dos súbditos, apesar da oposição furiosa dos brâmanes.

Estes conseguiram provocar um motim contra o pregador das novas doutrinas, fazendo-o apedrejar e atravessar por uma lança. Isto conforme os mais entendidos.

O povo, todavia, contava a coisa de outra maneira!

O santo costumava ir rezar para o ermo da serra e – certamente para que não o incomodassem – transformava-se muitas vezes num pavão.

Ora aconteceu, certo dia, que um caçador, deparando com um grupo de lindos pavões no cume da montanha, atirou com a lança ao mais formoso.

Qual não foi o seu espanto quando viu a bela ave tomar a forma de homem – de um homem ferido de morte!

Quisera fugir, mas o santo deteve-o. que não se assustasse – pois a sua morte era da vontade do Senhor.

Que chamasse mesmo os seus discípulos para que o enterrassem na sua casa.

Assim se cumpriu e, desde então, todo o povo venerava esta sepultura, onde achava cura milagrosa para os seus males.


(Autor: Elaine Sanceau, “Recortes de pequena história”)


O túmulo de São Tomé Apóstolo em Chennai, ex-Madrás, Índia
O túmulo de São Tomé Apóstolo em Chennai, ex-Madrás, Índia
Nota: quando do tsunami de dezembro de 2004 que devastou toda aquela região, o templo que guarda supostas relíquias ficou imune às ondas gigantescas que destruíram todas as construções adjacentes.

Uma antiga tradição afirmava que um poste fixado pelo apóstolo limitaria até o fim dos tempos as águas, que jamais o ultrapassariam.

Este poste existe até os dias atuais e se localiza exatamente na porta principal da igreja que guarda suas relíquias.

Isto deixou os sacerdotes hindus desconcertados e os mesmos prometeram não mais perseguir e discriminar os cristãos daquelas plagas. Fonte: Wikipedia, verbete São Tomé.



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domingo, 14 de junho de 2015

Nossa Senhora e a monja fugitiva do mosteiro




Num antigo e austero mosteiro habitava uma monja muito jovem, chamada Beatriz, de grande piedade em sua vida religiosa e profundamente devota de Santa Maria, a quem consagrara a metade de sua vida.

Continuamente a viam de joelhos diante do seu altar, em fervorosa veneração, oferecendo sua esplêndida juventude e angélica pureza à sua Santíssima Mãe.

A abadessa e todas as irmãs do convento lhe professavam grande carinho, por sua bondade e doçura, e a nomearam para o cargo de sacristã da igreja, que ela desempenhava com grande zelo.

Porém, sendo Beatriz extraordinariamente bela, despertou a paixão de um clérigo que freqüentava o mosteiro. Tentou convencê-la a fugir do convento com ele. Mas Beatriz, que a princípio resistia com firmeza, sentia desfalecer suas forças ante os embates daquela forte tentação.

Procurava rezar, porém sua devoção se havia convertido em aridez de espírito, e sua imaginação voava muito longe, sentindo fastio na oração. Numa ocasião em que a igreja estava deserta, o enamorado conseguiu enfim que a monja consentisse em fugir com ele.

Antes de partir, ela se prostrou de joelhos ante a Virgem, dizendo:
— Soberana Senhora, eu te servi honestamente durante a vida toda, até hoje, e não posso conter esta força que me arrasta longe de ti. Entrego-te e te encomendo as chaves desta igreja.

E depositando as chaves sobre o altar, fugiu com o clérigo.

Transcorreu pouco tempo, e o clérigo, uma vez satisfeita sua paixão, abandonou Beatriz, que caiu com a alma desgarrada e grande confusão de espírito.

Sem atrever-se a voltar ao convento, transformou-se numa mulher pública, levando vida ímpia e vergonhosa durante quinze anos, torturada pelos remorsos de sua consciência e conservando uma vaga esperança de perdão.

Passava um dia diante do mosteiro, e sentiu o desejo de parar, para saber o que pensavam da irmã sacristã.

Aproximou-se da porteira do convento, e perguntou:
— Diga-me, irmã, como está Beatriz, a sacristã?

A porteira respondeu:
— Vai muito bem, tão santa e devota como sempre, desempenhando maravilhosamente seu ofício de sacristia. Todas as religiosas a admiram. Já está no convento há vinte e seis anos, demonstrando grande piedade.

Beatriz ficou pensando nas misteriosas palavras que acabava de ouvir, mas sem poder compreendê-las. Então lhe apareceu a gloriosa Virgem, dizendo:
— Beatriz, minha filha, durante quinze anos, em figura tua, Eu desempenho o ofício de sacristã. Volta ao mosteiro, e continua servindo como se nunca tivesses saído, porque nada sabem de teu pecado. Crêem que continuas em teu posto. Faze penitência para alcançar o perdão de teus muitos pecados.

E nesse momento desapareceu. Beatriz regressou ao convento, e voltando a tomar seus hábitos e as chaves, continuou o ofício de sacristã, sem que ninguém chegasse a se dar conta de sua volta.

Unicamente o confessor, a quem revelou sua vida e seus pecados, era conhecedor daquele milagre.

Impôs-lhe severas penitências, que Beatriz cumpriu com rigor, edificando suas companheiras com o exemplo de suas virtudes heróicas e sua santa vida cheia de sacrifícios, para expiar suas culpas.

Chegada sua última hora, Beatriz chamou toda a comunidade, que a rodeou em seu leito de morte, e em alta voz confessou seu pecado, descobrindo o prodígio de misericórdia operado por Nossa Senhora, que durante quinze anos desempenhou por ela o cargo de sacristã. Foi tudo isso atestado pelo confessor.

E morreu santamente naquele instante.

Todas as monjas ficaram admiradas daquele portento, e deram graças à sua Mãe Celestial, que havia feito aquele favor para a religiosa.



(V. Garcia de Diego, Antología de Leyendas de la Literatura Universal - Labor, Madrid, 1953)


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domingo, 31 de maio de 2015

As doze palavras ditas e retornadas

Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.
Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.



Era uma vez um homem muito trabalhador e honrado, mas infeliz em todo negócio em que se metia. Tinha ele devoção ao Anjo da Guarda, rezando todos os dias em sua intenção.

Cada vez mais pobre, o homem perdeu a paciência, e um dia gritou, desesperado com sua triste sina:
— Acuda-me o diabo, que o Anjo da Guarda não me quer ajudar!

Apareceu um sujeito alto, todo vestido de preto, barbudo e feio, com uma voz roufenha e desagradável:
— Aqui estou! Aqui estou! Que é que queres de mim?
— Quero ficar rico.

O diabo indicou uma gruta onde havia um tesouro enterrado, e disse:
— Daqui a vinte anos voltarei para buscar-te. Se não disseres as doze palavras ditas e retornadas, serás meu para toda a eternidade.

O homem começou a viver folgadamente, em festas e alegrias, cercado de amigos e de mulheres.

O tempo foi passando, e uma noite ele lembrou-se de que estava condenado às penas do inferno. Só se soubesse as doze palavras ditas e retornadas...
— Isso deve ser fácil — disse ele consigo. — Todo mundo deve saber.

No dia seguinte perguntou aos amigos, aos vizinhos e a todos os moradores da cidade, e não havia quem soubesse o que vinha a ser o que ele lhes perguntava.

O homem afligiu-se muito. Cada vez mais o tempo passava, e ninguém sabia o segredo das doze palavras ditas e retornadas. Largou ele a vida má que levava, fez penitência e saiu pelo mundo, perguntando. Todos diziam:

São Miguel Arcanjo. Pacino di Buonaguida (1280 – 1340).
— Não sei, nunca ouvi falar...

O homem só faltava morrer, com o pavor da ideia de ter de encontrar-se com o diabo e ser carregado para o fogo eterno.

Já correra muito tempo desde que deixara o folguedo dos ricos, vestindo com modéstia e dando esmolas.

Uma tarde, ia por um bosque na hora da "Ave-Maria". Ajoelhou-se para rezar, e ao terminar viu um velho que se aproximava dele.

Cumprimentou-o, e foram andando juntos para a vila. Perguntou ao velho como ele se chamava.
— Chamo-me Custódio — respondeu.

Para não deixar de perguntar, falou nas doze palavras ditas e retornadas. E o velho Custódio lhe disse:
— Eu sei as doze palavras ditas e retornadas.

O homem ficou tão satisfeito que abraçou o velho, dando graças a Deus e dizendo que aquilo era um milagre do Anjo da Guarda, sua devoção antiga.

— Como são as doze palavras ditas e retornadas? Qual é a primeira, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! A primeira palavra dita e retornada é a Santa Casa de Belém, onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, para nos remir e salvar.

— E as duas palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As duas palavras ditas e retornadas são as duas tábuas de Moisés, em que Nosso Senhor pôs seus divinos pés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as três palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo não! As três palavras ditas e retornadas são as três pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as duas tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

São Miguel Arcanjo. Fragmento de um Gradual. Cracóvia, Polônia
— E as quatro palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As quatro palavras ditas e retornadas são os quatro evangelistas, as três são as pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as cinco palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As cinco palavras ditas e retornadas são as cinco chagas de Nosso Senhor.

— E as seis palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As seis palavras ditas e retornadas são as seis velas bentas que estão no altar-mor de Jerusalém.

— E as sete palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As sete palavras ditas e retornadas são os Sete Sacramentos.

— E as oito palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As oito palavras ditas e retornadas são as oito bem-aventuranças pregadas por Nosso Senhor Jesus Cristo.

— E as nove palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As nove palavras são os nove meses que a Virgem Mãe trouxe Nosso Senhor.

— E as dez, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As dez palavras ditas e retornadas são os Mandamentos da Lei de Deus.

São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
— E as onze palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As onze palavras são as onze mil virgens.

— E as doze, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As doze palavras ditas e retornadas são os doze apóstolos, as onze são as onze mil virgens, as dez os Mandamentos, as nove os meses de Nossa Senhora, as oito as bem-aventuranças, as sete os Sacramentos, as seis as velas bentas, as cinco as chagas, as quatro os evangelistas, as três a Santíssima Trindade, as duas as tábuas de Moisés, a primeira a Santa Casa de Belém, onde nasceu quem nos salvou. Amém! Estas são as doze palavras ditas e retornadas.

— De joelhos te agradeço, amigo Custódio, essa esmola, a qual há de salvar-me do demônio!

— Custódio, sim, e teu amigo. Sou o Anjo da Guarda que vem perdoar-te pelo arrependimento e pela penitência.

E sumiu-se. O homem, quando chegou o prazo para prestar contas ao diabo, disse as doze palavras ditas e retornadas, e o maldito rebentou como uma bola de fogo, espalhando cheiro de enxofre.

O homem viveu santamente seus dias, e acabou na paz de Deus, salvando-se graças ao seu Anjo da Guarda.

(Fonte: “Maravilhas do conto popular” - Cultrix, SP, 1960)



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