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domingo, 19 de maio de 2013

O conde Fernán Gonzales, o califa e o ermitão

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzales
Estava o conde Fernán Gonzales caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal. O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta. Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar. Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado. Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

— Vinde em paz, conde! A caçada te trouxe até aqui, mas prepara já as montarias, pois te aguarda o Rei Almanzor, o terrível inimigo dos cristãos. Dura batalha te aguarda, pois o mouro traz muitos guerreiros. Mas alcançarás grande vitória. E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros. Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória.

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida. Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque. Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate. O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados. Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

Apenas galopou um pouco, e a terra se abriu, tragando o cavaleiro. Depois se fechou, e tudo ficou como antes. Grande terror se difundiu pelo exército cristão, mas Fernán Gonzales, que sabia que esse era o temeroso sinal anunciado pelo monge da ermida, disse em alta voz a seus cavaleiros:
— Não temais! Se a terra não é capaz de suportar-nos, quem poderá conosco? Vamos para o ataque!

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de CastelaE se lançaram contra os mouros, que já galopavam também, prontos para o encontro. O choque dos exércitos foi terrível. Os cristãos, apesar de serem poucos, conseguiram resistir ao primeiro ataque dos mouros, e logo estes começaram a retroceder.

O conde, que havia sido quem dera as primeiras baixas no adversário, animava seus guerreiros, e era o mais valente de todos. Ao cabo de algumas horas os mouros fugiram, deixando todos os despojos em poder das hostes do conde. Grande vitória para os cristãos, que retornaram cheios de alegria.

O conde separou uma parte dos despojos e foi à ermida, para entregá-la ao monge que lhe profetizara a vitória. E o encarregou de erguer uma igreja, que foi logo o famoso Mosteiro de São Pedro de Arlanza.

O califa Abderramán recebia dos cristãos um tributo a cada ano. Mas em determinada ocasião os reis D. Ramiro de Castela e D. Garcia de Navarra, e Fernán Gonzales, que era o conde tributário de Castela, se negaram a pagar o vergonhoso tributo. E não só se negaram a pagar, mas mataram os insolentes mensageiros que o califa mouro enviara para reclamar o tributo.

Quando isto chegou aos ouvidos de Abderramán, este se enfureceu, e com seu exército entrou no território dos castelhanos, destruindo os campos e fazendo cruel vingança contra os habitantes daquelas terras.

O Rei D. Ramiro, recebendo o aviso da proximidade do exército mouro, preparou seus guerreiros, que esforçadamente saíram ao encontro do inimigo. Disseram-lhe que os muçulmanos vinham em grande número, mas ele não deu muito crédito. Mas quando viu chegar a enorme hoste sarracena, voltou até Simancas, e dali enviou cartas a Fernán Gonzales e ao Rei Garcia.

Acudiram os dois ao mesmo tempo. Mas todo o exército cristão não chegava a alcançar nem a metade dos muçulmanos. Então o Rei Ramiro disse:
— Não tenho nenhum conselho que possa servir-nos. Grande é a hoste dos infiéis mouros e minguada a nossa. Mas temos a proteção de São Tiago, que está enterrado em terras galegas. Por ele obra Nosso Senhor grandes milagres, e a ele quero me encomendar, e prometo dar-lhe meu reino se nos ajudar nesse apuro.

Fernán Gonzales e D. Garcia responderam:
— Em nossa terra há o corpo de Sto. Millán, que também opera grandes milagres. A ele nos entregamos, e juramos dar-lhe tributo.

No outro dia de manhã saíram da fortaleza e se dispuseram para o combate. Antes de começar, todos os cristãos se ajoelharam para rezar.

Os mouros, vendo seus inimigos nesta posição, pensaram que estes, aterrorizados, queriam se entregar. Lançaram-se contra eles, mas os fiéis de Cristo montaram em seus corcéis rapidamente e detiveram o ímpeto de seus inimigos. Grande fúria foi a dos castelhanos, leoneses e navarros.

E ainda aumentaram seu valor quando, em meio ao combate, viram aparecer dois desconhecidos cavaleiros que, montados em formosos corcéis brancos, se puseram à frente dos exércitos cristãos.

E destroçaram os mouros de tal modo, que eles acreditavam que, em vez de dois, havia dois mil cavaleiros sobre os corcéis. Atrás dos dois avançavam os cristãos, e desde Simancas até Aza perseguiram os mouros, que fugiram vencidos.

Grande foi a alegria dos católicos. Quando procuraram os dois cavaleiros, que tanto contribuíram para a vitória, não puderam encontrá-los, e compreenderam que eram os dois santos a quem haviam prometido pagar tributo, se os ajudassem.

E desde então esse tributo foi pago.

(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 27)


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AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 5 de maio de 2013

Daquele santo frade ao qual a Mãe de Cristo apareceu quando estava enfermo, e lhe trouxe três caixas de eletuário

No sobredito convento de Soffiano viveu antigamente um frade menor de tão grande santidade e graça, que parecia todo divino e freqüentes vezes ficava arrebatado em Deus.

Estando certa vez este frade todo absorto em Deus e enlevado; porque tinha notavelmente a graça da contemplação, vinham ter com ele passarinhos de diversas espécies e domesticamente pousavam-lhe nas espáduas e na cabeça, nos braços e nas mãos e cantavam maravilhosamente.

Era ele solitário e raras vezes falava; mas quando lhe perguntavam alguma coisa, respondia tão graciosamente e tão sabiamente, que mais parecia anjo do que homem e era de grandíssima oração e contemplação, e os frades o tinham em grande reverência.

Acabando este frade o curso de sua vida virtuosa, segundo a disposição divina enfermou de morte, de modo que nenhuma coisa podia tomar, e com isto não queria receber nenhuma medicina carnal, mas toda a sua confiança era no médico celestial Jesus Cristo bendito e na sua bendita Mãe; da qual ele mereceu pela divina demência de ser misericordiosamente visitado e consolado.

Pelo que, estando uma vez no leito e dispondo-se à morte com todo o coração e com toda a devoção, apareceu-lhe a gloriosa Virgem Maria, mãe de Cristo, com grandíssima multidão de anjos e de santas virgens com maravilhoso esplendor e se aproximou do seu leito.

E ele, olhando-a, recebeu grandíssimo conforto e alegria quanto à alma e quanto ao corpo; e começou a pedir-lhe humildemente que ela pedisse ao seu dileto filho para que, pelos seus méritos, o tirasse da prisão da mísera carne.

domingo, 21 de abril de 2013

A fidelidade do leão de Godofredo de Tours


Entre os nobres cavaleiros de Provença que partiram para as Cruzadas contra os infiéis, havia um senhor chamado Godofredo de Tours, de grande valor, guerreiro tão heroico como jamais se conheceu.

Nos combates era o primeiro a se lançar sem se preocupar em cobrir seu corpo contra os dardos e as pedras. Galopava até os esquadrões árabes invocando a proteção do Senhor. Tal era sua fama que em todos os exércitos era conhecido e admirado o seu heroísmo!

Um dia cavalgava ele numa clareira, com outros cavaleiros, seguido de numerosos pajens.

De repente ouviram uns terríveis rugidos de leão. Todos, exceto Godofredo, tomados de pânico, fugiram com medo de cair nas garras da fera.

Mas Godofredo, vendo que seu cavalo não lhe obedecia, pegou sua espada, desceu do cavalo e dirigiu-se à floresta onde estava o leão.

Avançou disposto a lutar contra a fera, mas quando penetrou na mata, viu assombrado um terrível espetáculo.

Não eram rugidos de cólera do leão, senão de muita dor.

Uma serpente havia habilmente aprisionado o leão enquanto este dormia, de maneira tal que ele não podia esboçar nenhuma reação.

A serpente apertava-o com o propósito de matá-lo a fim de enguli-lo depois.

domingo, 7 de abril de 2013

“Não queiras para os outros o que não queres para ti”

Ermida de San Ferreol
Entre os lavradores e viajantes da Catalunha, o nome de Ferreol era muito temido.

Nas noites de tempestade quando a agua bate com fúria nas rochas, o bandido Ferreol e seus companheiros aguardavam em seus postos para assaltar qualquer infeliz e roubar-lhe a bolsa e quiçá deixá-lo estendido sem vida em um matagal.

Por todas as partes se narravam as novas do bando que levava o terror a todos os que tinham que passar pelos montes e bosques, que eram os lugares preferidos de Ferreol e seus companheiros.

Um dia, ao por do sol, em que o crepúsculo enchia de sombras as proximidades das montanhas, um frade caminhava a passos largos.

Ia rezando com devoção suas orações. Assim não percebeu a aparição de dois homens no meio do caminho. Estes pararam o bom religioso, dizendo-lhe:

– Ei irmão, passe-nos a bolsa!

O frade, surpreendido, lhes respondeu, dizendo que não levava nada consigo.

Bandidos como eram, o conduziram então, com os olhos vendados à cova onde o bando estava reunido.

domingo, 24 de março de 2013

Don Galcerán De Pinós, o cruzado liberado por Santo Estevão

Santo Estevão, Salamanca
Santo Estevão, Salamanca

No século XII, Afonso, Imperador de Castela, sustinha renhidas batalhas contra o rei mouro de Granada.

O Conde de Barcelona acudiu em sua ajuda, fretando naves catalãs e genovesas.

Era almirante das primeiras, Galcerán Guerras de Pinós. Em seu afã das vitórias, se adiantou demasiado no território mouro e caiu prisioneiro.

Seus pais, os senhores de Bagá, estavam desesperados. O Conde de Barcelona se pôs em tratos com o Rei de Granada, para ver que resgate pedia pelo almirante Galcerán.

O Rei de Granada, enfurecido por ter perdido Almería, pediu um resgate exorbitante: cem mil dobles, cem cavalos brancos, cem vacas bragadas, cem panos de ouro de Tanis, e o que era pior de tudo, mais cem donzelas.

Os senhores de Bagá se aterrorizaram ante a última condição e decidiram que, apesar de muita dor que lhes causava ter o filho cativo dos mouros, não podiam consentir, para que ele fosse devolvido, que tantos pais sofressem a dor de ver perdidas para sempre suas filhas.

Não obstante, foram muitos os argumentos dos poderosos senhores que opinaram que o povo devia sacrificar-se, e que o almirante representava uma grande ajuda para a Cristandade. Aquele que tivesse quatro filhas, devia entregar duas; o que tivesse duas, daria uma, e o que tivesse uma seria sorteado com outro que tivesse uma também.

domingo, 10 de março de 2013

Como Frei Pacífico, estando em oração, viu a alma de Frei Humilde, seu irmão, subir ao Céu

São Francisco, Benozzo Gozzoli
Na província da Marca, depois da morte de São Francisco, entraram dois irmãos na Ordem; um teve por nome Frei Humilde e o outro Frei Pacífico, os quais foram homens de grandíssima santidade e perfeição.

E um, isto é, Frei Humilde, estava no convento de Soffiano e ali morreu; o outro estava de família em um convento assaz afastado dele.

Como prouve a Deus, Frei Pacífico, estando um dia em oração num lugar solitário, foi arrebatado em êxtase e viu a alma do seu irmão Frei Humilde subir diretamente ao céu, sem demora nem impedimento, na mesma hora em que deixava o corpo - Sucedeu que, depois de muitos anos, este Frei Pacífico foi posto em família no dito convento de Soffiano, onde seu irmão tinha morrido.






Nesse tempo os frades, a pedido dos senhores de Brunforte, mudaram o convento para um outro lugar; pelo que, entre outras coisas trasladaram as relíquias dos santos frades que haviam morrido naquele convento.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A ponte de Ledea

Puente de Burgui, Navarra
Puente de Burgui, Navarra

O rei mouro Abderramam tinha que passar pela Navarra, de regresso da França. O rei Dom Sancho ao saber disso, enviou mensageiros aos vales de Roncal, Salazar e Aezoa, com ordem de que reunissem todos os homens disponíveis e lutassem contra os mouros.

Os roncaleses e os de Salazar dispuseram-se a cumprir a ordem do monarca. Ao toque de sinos dos povoados, os homens deixaram suas ocupações e tomando as armas que podiam dispor, foram atacar Abderramam.

Mas os aezoanos disseram que eles não eram homens de guerra, e que sua obrigação consistia em cultivar e guardar as terras. Mas, se Abderramam aparecesse por aí, o receberiam com fogo.

Assim foram os de Roncal e os de Salazar, que se dirigiram ao encontro da hoste moura. Iam cheios de fúria. Decididos a vencer os inimigos da Fé.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As quatro barras catalunhas

Escudo da Catalunha
Escudo da Catalunha
Os normandos invadiram a França, no reinado de Carlos I.

O Imperador enviou a seu sobrinho Vifredo, o Veloso, Conde de Barcelona, uma carta, na qual pedia-lhe que o socorresse com os seus guerreiros.

O Conde marchou imediatamente com seu exército que entrou na batalha, vencendo os normandos, que se retiraram vencidos.

Uma flecha acertou o peito de Vifredo, no coração. Foi retirado a uma tenda, onde o visitou o Imperador.

O tio quis recompensar a seu sobrinho por esta lançada dando-lhe riquezas e bens.

Mas ele recusou toda recompensa, lamentando apenas que, apesar das muitas vitórias que havia obtido, em diversas batalhas nas quais havia tomado parte, seu escudo de armas ainda era liso: campo dourado, sem insígnias que revelava as suas muitas gestas.

O Imperador Carlos molhou, então, na ferida de Vifredo os quatro dedos de sua mão direita, e os passou de cima para baixo no escudo, marcando nele as quatro barras de sangue que ainda hoje adornam o escudo de Catalunha, Valencia e Aragão.

(Fonte: V. Garcia de Diego, Antologia de Leyendas de la Literatura Universal, Editorial Labor S.A., Madrid-Espanha, 1ª edição, 1953).

domingo, 27 de janeiro de 2013

As façanhas de Beuvon

Cavaleiro partindo para a guerra, anonimo frances
Os sarracenos ocupavam, em outros tempos, grande parte da Provença. A impiedade deles chegou a tal ponto, que Deus decidiu extirpá-los dali para sempre.

Escolheu como instrumento de sua santíssima vontade um herói chamado Beuvon. Educado no temor de Deus e no ódio aos infiéis, era um cavaleiro puro e piedoso, e seu coração estava cheio de valor.

Num dia de verão, cansado pelo calor, adormeceu à sombra de uma árvore. No sono, teve uma maravilhosa visão. Apareceu-lhe São Pedro, e lhe disse:

— Levanta-te, sem demora nem vacilação, e marcha contra os sarracenos, que por sua impiedade excitaram a ira de Deus. Tu os expulsarás de Peyrempi. Uma vez tomada essa fortaleza, não te será difícil persegui-los, até fazê-los desaparecer do país.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A conversão do príncipe muçulmano e a impotência do diabo

Iguzquiza
Nos dias de Garcia o Temerário, Rei de Navarra, aconteceu que Abderramán entrou em Navarra com seu exército, chegando até a terra de Estela.

Quando o monarca soube que o Rei de Córdoba viera ao seu reino com tão grande exército, pediu socorro a seu irmão, o Rei das Astúrias.

Abderramán ficou na vila de Logroño com o grosso de seu exército e enviou a Navarra um príncipe mouro, muito poderoso.

Este príncipe era secretamente devoto de Nossa Senhora, e tinha por costume rezar a Ave Maria.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mathiote, o limpa-chaminés que salvou o conde de Plessis-Morambert na Noite de Natal (conto de Natal)



O limpa-chaminés nunca esqueceu
o Natal passado no castelo do conde
(Na foto: Vaux-le-vicomte)

Naquela véspera de Natal, Mathiote, sem despir a roupa enfarruscada de limpa-chaminés, dirigia-se ao palácio de Plessis-Morambert.

Tinham-no chamado ali por acaso, três anos antes, para limpar uma chaminé, certa noite de Natal em que o conde dispunha na lareira uma enorme pirâmide de brinquedos e guloseimas, para fazer surpresa a seu filho Tiago, quando acordasse na manhã seguinte.

Mathiote era da idade do filho do conde. Ao surpreender o olhar de admiração que o pequeno limpa-chaminés lançava àquelas maravilhas, e seduzido ao mesmo tempo pelo seu ar inteligente e honesto, conversara alguns momentos com ele, dera-lhe uma moeda de ouro e mandara-o para a copa, onde lhe serviram um bom jantar.

A lembrança enternecida daquela festa inesperada levava ali todos os anos, na mesma data, o limpa-chaminés, que recebia sempre broas e sopa quente, para as quais o atraía não só o reconhecimento, mas também a gulodice e o interesse.

Ora, naquela noite, que era a de 24 de dezembro de 1793, o pequeno ficou surpreendido ao encontrar o palácio fechado. Nas janelas não brilhava uma luz.

domingo, 2 de dezembro de 2012

O que falavam a mula e o boi há dois mil anos – Conto de Natal

“Pobrezinho. Ele está numa situação bem pior do que a nossa.  Façamos a única coisa que podemos para ajudá-lo”, disseram a mula e o boi.  Presépio da abadia de Lorsch. Aquisgrão, Alemanha.
“Pobrezinho. Ele está numa situação bem pior do que a nossa.
Façamos a única coisa que podemos para ajudá-lo”, disseram a mula e o boi.
Presépio da abadia de Lorsch. Aquisgrão, Alemanha.


Há cerca de dois mil anos, estavam num estábulo uma mula e um boi. Como sempre acontece quando bons amigos estão juntos, comentavam notícias boas e más.

Um tema habitual era o tempo, particularmente frio naquele inverno, com as abundantes nevadas — pouco frequentes, mas não anormais — perto de Jerusalém.

Outro tema habitual entre eles era a quantidade de pessoas que afluíam à pequena cidade de Belém.

Nunca tinham visto antes tanta gente junta. A explicação era porque de Roma um edito de César Augusto mandara realizar um censo, em que as pessoas deveriam apresentar-se em seus lugares de origem.

Assim, numerosos judeus haviam se dirigido a este esquecido povoado para ali se inscrever. E embora alguns viessem a pé, outros se transportavam em cavalos ou camelos.

domingo, 25 de novembro de 2012

O exorcismo de Frei Garin e os artifícios do diabo para perdé-lo

Montserrat, panoramica
Em 859, sendo Conde de Barcelona Vifredo o Zeloso, havia na montanha de Montserrat um anacoreta chamado Garin, que possuía grande virtude e piedade.

Todas as manhãs subia nos picos das montanhas, para louvar a Deus em sua grandeza, e quando voltava à sua gruta o sino da igreja de São Acisdo tocava sozinho para saudá-lo. O demônio, muito contrariado, se propôs a perdê-lo, e para isto empregou todas as suas armas.

Uma manhã, Frei Garin subiu a São Jerônimo, o pico mais alto de Montserrat, com o afã de ver mais de perto o céu, de sentir-se mais próximo de Deus. Porém, naquele dia, pela primeira vez, o demônio o tentou a olhar para o lindo campo, em vez de olhar para o céu.

domingo, 18 de novembro de 2012

O rapaz que foi estrangulado pelo demônio

Demônio e Anjo da Guarda no Juízo Final, Notre Dame
Dois estudantes, dando-se mais à vadiação do que aos estudos, resolveram ir passar a noite numa casa suspeita. Por um resto de pudor, porém, um deles desistiu e ficou na pensão, indo só o outro.

Na hora de deitar-se, segundo o seu hábito, o primeiro rezou ao pé da cama três Ave-Marias. Era um costume de família, que manteve no colégio onde fez seus preparatórios.

Logo que se deitou, ouviu umas pancadas na porta, e o seu infeliz companheiro apareceu no quarto. Que mudança! Que rosto lívido!
— Que lhe aconteceu? — perguntou.

domingo, 23 de setembro de 2012

Cantiga de Nossa Senhora de Castro Marim

Nossa Senhora dos Mártires, Castro Marim
Nossa Senhora dos Mártires, Castro Marim
Esta cantiga refere-se ao surgimento da devoção a Nossa Senhora de Castro Marim (Algarve, século XII), especial protetora dos portugueses cativos dos mouros.

Captivo de um pêrro moiro
Em terras de moiraria
Debaixo de duros ferros,
Um pobre cristão vivia.

Negro pão e água turva
Só lhe davam por medida
De manhã até à tarde
A um moinho moia;
E à noite o perro infiel,
Com medo que lhe fugisse,
N’um caixão grande o fechava,
Muito forte em demasia.

Depois, em cima deitado,
Em tom de mofa dizia,
Como quem Deus não conhece,
Esta horrível heresia:
- Livre-se d’aqui agora
A tua Virgem Maria!

domingo, 9 de setembro de 2012

Do milagre que Deus fez quando Santo Antônio, estando em Rímini, pregou aos peixes do mar

Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos, escola de Girolamo Tessari, 1518
Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos.
Escola de Girolamo Tessari, 1518
Querendo Cristo bendito demonstrar a grande santidade do seu fidelíssimo servo Santo Antônio, e como devotamente devia ser ouvida sua pregação e sua doutrina santa, pelos animais irracionais, uma vez entre outras, isto é, pelos peixes, repreendeu a insensatez dos infiéis heréticos, como antigamente no Antigo Testamento, pela boca da jumenta, repreendera a ignorância de Balaão.

Pelo que, estando uma vez Santo Antônio em Rímini, onde havia grande multidão de heréticos, querendo reduzi-los ao lume da verdadeira fé e ao caminho da verdade, por muitos dias lhes pregou e disputou sobre a fé cristã e a santa Escritura.

No entanto eles não consentindo em suas santas palavras, e mesmo como endurecidos e obstinados não querendo ouvi-lo, Santo Antônio um dia por divina inspiração dirigiu-se à foz do rio, junto do mar, e estando assim na praia entre o mar e o rio, começou a dizer a modo de prédica, da parte de Deus, aos peixes:

domingo, 26 de agosto de 2012

Encontro da Cruz de Monjardin

Cruz miraculosa, Villamayor de Monjardin, Igreja de Santo André
Na igreja de Monjardin guarda-se uma preciosa cruz do século XII, quiçá a mais antiga de quantas cruzes paroquiais possui a Navarra. Sua origem se acha revestida de legendas.

A cruz apareceu ao Rei Sancho Garcés, quando conquistou dos mouros o castelo de Monjardin. O monarca a ocultou, para evitar que os mouros a profanassem. Assim esteve muito tempo.

Ao norte de Monjardin há um lugar denominado Egusquiza (nome que significa "lugar do sol"), onde está situado o palácio dos Medranos, ricos homens de Navarra.

Certo dia um pastor desta casa apascentava seu rebanho no sopé do monte. Quando se dispunha a conduzir o rebanho a pastos melhores, viu que uma cabra permanecia quieta em seu lugar, ao pé de uma árvore.

domingo, 12 de agosto de 2012

Lenda de Tentúgal “Tem-te-igual” face à moraima

Igreja de Tentúgal
Igreja de Tentúgal
Entre a cidade de Coimbra e a Vila de Montemor-o-Velho fica a aldeia de Tentúgal que hoje é uma pequena povoação mas que nos tempos de primeira dinastia era uma posição fortificada bastante importante, defendendo a passagem do Mondego.

Os mouros tinham sido escurraçados até ao Algarve, mas os dois sucessores do conquistador de Silves não foram lutadores como os dois primeiros reis portugueses e eram freqüentes as incursões sarracenas que, vindas da Andaluzia, atravessavam o Guadiana e vinham assolar as terras reconquistadas.

Os portugueses eram senhores dos castelos e quando os mouros faziam os seus fossados, as populações rurais, ainda mozárabes, isto é mistas de católicos e árabes convertidos, refugiavam-se atrás das ameias.

Os mouros faziam correrias até o Tejo, passando pelos campos e montes entre as praças-fortes e apoderavam-se das colheitas e do gado que podiam recolher. Depois, voltavam para o seu reino da Andaluzia com os despojos.

domingo, 29 de julho de 2012

Como São Francisco pôs Frei Masseo no ofício de porteiro, de esmoleiro e de cozinheiro e depois o dispensou


São Francisco, querendo humilhar Frei Masseo, a fim de que, pelos muitos dons e graças que Deus lhe dava, não chegasse à vanglória, mas pela virtude da humildade crescesse de virtude em virtude, numa ocasião em que ele vivia em um convento solitário com aqueles seus primeiros companheiros verdadeiramente santos, dos quais um era Frei Masseo, disse um dia a Frei Masseo diante de todos os companheiros:

– “O Frei Masseo, todos estes teus companheiros têm a graça da contemplação e da oração; mas tu possuís a graça da pregação da palavra de Deus, para satisfazer o povo: e, portanto, quero, a fim de que os outros se possam entregar à contemplação, que faças ofício de porteiro, de esmoleiro e de cozinheiro; e quando os outros irmãos comerem, comerás fora da porta do convento, de sorte que os que chegarem ao convento, antes de baterem, os satisfaças com algumas boas palavras de Deus; de sorte que não haja necessidade de outra pessoa ir à porta a não ser tu: e isto o faças pelo merecimento da santa obediência”.

domingo, 15 de julho de 2012

Tudo o que Deus faz é pelo melhor

O Rei e o médico
Havia um médico, homem bom e sem malícia, na corte de um poderoso rei. Visitando Sua Alteza, ainda que o achasse afligido com qualquer trabalho ou dor, não mostrava entristecer-se.

Aplicava os remédios que entendia lhe eram necessários, e consolava o rei, dizendo que não se agastasse e sofresse seu trabalho com paciência, porque tudo o que Deus faz é pelo melhor.

Aconteceu de morrer o príncipe herdeiro do reino, pelo que o rei ficou muito triste.

 Querendo o médico visitá-lo e consolá-lo, como todos faziam, o fez com as palavras de seu costume, dizendo-lhe:
— Senhor, não vos agasteis tanto, a ponto de prejudicar a vossa pessoa. Tudo que Deus faz é pelo melhor.

O rei não teve paciência ao ouvir este dito em tal ocasião, e pensou:
— O que poderia ser pior para o príncipe meu filho, do que morrer? Vou me vingar deste médico insolente. Vejamos se lhe será melhor a morte que lhe mandarei dar do que deixá-lo viver.

Chamou dois homens, e ordenou:
— Ide atrás do médico que acabou de sair, e dizei-lhe que quereis dar um recado meu. Quando estiverdes diante dele, matai-o, por ordem minha.

domingo, 1 de julho de 2012

A janela do eremita


Um piedoso eremita, que Deus tinha provado com longos e penosos sofrimentos, foi visitado em sua cela por alguns de seus amigos.

Maravilhados da suma tranqüilidade e alegria que em seu rosto transparecia, perguntaram-lhe como se mostrava tão alegre e paciente em meio de tantos padecimentos.

Sorrindo, o eremita apontou para a janela da sua cela e disse:

— Aquela janela torna-me suportável e leve toda a dor.

— Como pode ser isto? — perguntou um dos visitantes.

— Por meio daquela janela eu vejo o Céu, e esta vista me conforta e anima a padecer por Jesus Cristo todos os meus sofrimentos.

A vista do Céu torna leves os mais duros sofrimentos.


(Fonte: Pe. Alexandrino Monteiro, S.J., "A Moral em Exemplos" - Mensageiro da Fé, Bahia, 1955, vol. II, p. 184)

domingo, 17 de junho de 2012

O escorpião de frei Anselmo


D. Lourenço de Baena, homem bondoso e simples, possuía uma considerável fortuna. Um dia, porém, aconteceu que a má sorte entrou em sua casa, e desde então as calamidades se sucederam numa série ininterrupta.

Um de seus barcos, que regressava com tecidos da China, foi saqueado pelos piratas. Naufragou outra caravela de mercadorias, que D. Lourenço havia comprado.

Enviou um comboio de prata às províncias do Ocidente, e os índios o assaltaram. Mas não foi isto o pior.

Seu filho único, que ia neste comboio, foi escalpelado pelos índios. Sua esposa, esgotada pela dor, morreu algum tempo depois.

domingo, 3 de junho de 2012

O cavaleiro e o pacto com o diabo

Um cavaleiro nobre, poderoso e rico despendeu todos os seus bens e caiu em muito grande miséria. Tinha uma esposa muito casta e devota da Santíssima Virgem Maria.

Havendo uma grande festa na cidade, o cavaleiro queria fazer muitas despesas, mas não tinha mais dinheiro. Por vergonha, foi se esconder numa mata até que passasse a festa.

Estando ele naquele lugar, apareceu-lhe uma criatura muito espantosa em um cavalo espantoso, e perguntou-lhe por que estava assim tão triste. O cavaleiro contou-lhe toda sua história. E a criatura espantosa lhe disse:
— Se quiseres fazer o que eu te mandar, eu te farei ter mais riquezas e mais honras que antes.

O cavaleiro lhe prometeu que faria tudo o que ele quisesse, se ele cumprisse o que estava prometendo. E o demônio lhe disse:
— Vai à tua casa e cava um lugar. Acharás muito ouro. E promete-me que tal dia trarás aqui a tua mulher.
O cavaleiro prometeu. Foi para casa e achou muita riqueza, segundo lhe dissera o diabo, e começou a viver como antes.

domingo, 20 de maio de 2012

Um olho por minha Mãe


Um menino órfão que vivia aos cuidados dos padres da Catedral de Notre Dame, começou a andar um pouco triste e pensativo.

O padre vendo a tristeza no rosto inocente se aproximou e perguntou-lhe:

– O que está acontecendo? Por que tens andado pensativo e tão triste?

– É que eu vejo que muitos meninos tem uma mãe para poderem abraçar, mas eu não tenho nenhuma – respondeu o menino.

O padre se compadecendo da situação daquele menino inocente, lhe falou com um sorriso caridoso:

– Meu filho, você não sabe que você tem a Mãe mais bonita de todas as Mães? Para as crianças órfãs, Nossa Senhora assume uma maternidade toda especial.

Todo contente e já confortado, saiu de lá com a convicção alegre de que sua Mãe era a mais bonita de todas as Mães…

Toda a vez que ia à Catedral, rezava de modo mais especial, porém com um pedido inesperado: o menino queria ver sua Mãe pessoalmente.

Para isso não só rezava, mas fazia sacrifícios também.

Num desses dias maravilhosos do mês de maio, Paris estava toda florida. A Catedral estava toda ornada com flores.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Como Frei João do Alverne conheceu toda a ordem da santa Trindade


O Frei João do Alverne, porque perfeitamente havia renunciado a todo deleite e consolação mundana e temporal, e em Deus havia posto todo o seu deleite e toda a sua esperança, a divina bondade lhe dera maravilhosas consolações e revelações, especialmente nas solenidades de Cristo.

Pelo que, aproximando-se uma vez a solenidade da Natividade de Cristo, na qual esperava de certo consolação pela doce humanidade de Jesus, o Espírito Santo pôs-lhe na alma tão grande e excessivo amor e fervor da caridade de Cristo, pela qual ele se tinha humilhado, tomando a nossa humanidade, que verdadeiramente lhe parecia ter sido tirada sua alma ao corpo e arder como uma fornalha.

O qual ardor não podendo suportar se agoniava e se derretia inteiramente e gritava em altas vozes; porque, pelo ímpeto do Espírito Santo e pelo excessivo fervor do amor, ele não se podia conter de gritar.

E na hora em que aquele desmesurado fervor lhe vinha, com ele lhe vinha tão forte e certa a esperança de sua salvação, que por nada deste mundo acreditara que se então morresse devesse passar pelas penas do purgatório.