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domingo, 22 de fevereiro de 2015

A cotovia




Existe na Polônia uma bela e comovente lenda sobre a criação da cotovia.

Quando Deus viu que os primeiros homens, expulsos do paraíso, trabalhavam duramente, e durante trabalho inclinavam tristemente a cabeça para o solo, tomou um punhado de terra e lançou-a ao ar...

E este punhado de terra assim lançado por Deus, transformou-se num passarinho, a primeira cotovia, cujo canto faz elevar para o céu a cabeça do homem e conforta o lavrador banhado em suor.

A cotovia da nossa vida terrestre é a nossa fé inquebrantável em Deus. Quando nossa cabeça fatigada se inclina para a terra, a fé levanta-a para as alturas.

Quando as ondas do sofrimento quase nos sepultam; a fé nos alenta. E quando o sofrimento da existência nos crava na cruz, a fé nos dá de novo consolação e alívio.

A lenda continua. A pequena cotovia quis mostrar-se reconhecida para com Deus e enquanto o Salvador percorria, pregando, a Palestina, todos os dias pousava na janela da Virgem Maria.

Na Cruz a cotovia pousou numa das mãos ensanguentadas e às bicadas procurou arrancar o cravo pontiagudo.

Tentou..., mas não pode consegui-lo. Baixou então para junto da Mãe Dolorosa e com seu canto enternecedor consolou-a da sua imensa amargura...

La Grande Pietà. Jean Malouel (1365 - 1415), Museu do Louvre, Paris.
A nossa fé em Deus e os nossos olhos postos em Jesus Crucificado não podem arrancar os cravos da nossa cruz; mas, pelo menos, falam-nos da outra vida, da eterna felicidade, cujas portas se nos abrem por meio do sofrimento suportado com paciência.

Por isso, ainda que sejamos envolvidos pela noite negra da dor e pela escuridão mais densa do que a do Egito, a nossa alma receberá os raios consoladores da eterna felicidade.

Homens, irmãos, todos os que estais crucificados pela dor: Ouvis o canto consolador da cotovia, da nossa Fé?...

‒ Quero o que Deus quer.

(Fonte: Mons. Thamer Tóth, O Redentor, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1ª edição - 1952, pp. 191 e 192)


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domingo, 11 de janeiro de 2015

O ermitão e o ladrão



Numa ermida morava um virtuoso ermitão, ao qual se chegou um salteador de caminhos, dizendo-lhe:
— Vós rogais a Deus por todos. Rogai-Lhe que me tire deste mau ofício que trago, senão eu vos hei de matar.

Saindo dali, tornava a fazer o mesmo que dantes, e outra vez tornava a vir ao eremita, dizendo:
— Vós não quereis rogar a Deus por mim, pois hei de vos matar.

Tantas vezes fez isto, que uma vez veio decidido a matar o eremita. Diante dessa decisão, o eremita propôs:
— Já que me queres matar, tiremos primeiro ambos uma pedra que tenho sobre minha sepultura. Depois de morto, lançar-me-ás dentro sem muito trabalho.

Ele aceitou, e assim foram ambos erguer a pedra. Porém, enquanto o salteador trabalhava quanto podia para erguê-la, o ermitão trabalhava para que ela não se erguesse. E desta maneira não faziam nenhuma mudança na posição da pedra.

O salteador deu pela coisa, e disse:
— Do modo como vós me ajudais, como posso eu erguê-la? Eu levanto a minha parte, mas vós inutilizais o meu esforço.

Antes que ele prosseguisse, o ermitão explicou:
— E agora vamos ao que nos interessa. Que me adianta rogar a Deus por ti, pedindo-lhe que te tire do pecado e mau ofício que trazes, se tu não te queres tirar e estás muito de propósito perseverando nele?

(Theophilo Braga, "Contos tradicionais do Povo Português" - Magalhães e Moniz Editores, Porto) 



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domingo, 14 de dezembro de 2014

O Martim Procelária



Existe em certas regiões marítimas um tipo de pássaro tão branco quanto a neve, cujo prazer é andar na crista das ondas dos mares convulsionados.

Deparando-se com algo dentro d’água, mergulha inesperadamente, saindo do outro lado triunfante e com altaneria da bravura cometida, portando no bico o fruto da sua ousadia: um peixe.

Daí vem o seu nome, que é Procelária — pássaro que luta contra as procelas (procelas são as cristas brancas das ondas do mar).

Muito tempo atrás, na época em que os homens sabiam admirar, existia ao lado do paraíso uma região de tal maneira bela, que, segundo os mais famosos sábios, era o espelho da beleza divina.

A fim de evitar a invasão das forças do mal, Deus criou em sua volta cordilheiras tão majestosas e tão grandiosas, que nenhum inimigo ousava delas se aproximar. Evidentemente a paisagem não seria tão perfeita se a ela não fosse acrescentado o grandioso panorama marítimo. Sendo assim, no lado da região que dava para o mar, Deus não criou montanhas, mas fabulosas palmeiras imperiais. Nesse pequeno paraíso, os animais mais belos foram criados, não existindo cobras, nem lagartos, nem mosquitos e aranhas. Tudo era maravilha, tudo era encanto.

domingo, 30 de novembro de 2014

O ferreiro, Nosso Senhor Jesus Cristo e o demônio

Ferreiros medievais. Vitral da catedral de Chartres, França.
Ferreiros medievais. Vitral da catedral de Chartres, França.
Luis Dufaur


Um ferreiro fez um trato com o demônio, adquirindo este o direito de levar-lhe a alma para o inferno sete anos depois.

Durante os sete anos, entretanto, o diabo faria com que o ferreiro se tornasse o melhor artista do ramo no mundo inteiro.

Nosso Senhor Jesus Cristo, entrando com São Pedro na oficina do ferreiro, pôs-se a conversar com ele.

De repente entrou um freguês que desejava mandar ferrar o cavalo.
— Permites-me que eu me desempenhe dessa tarefa? — perguntou Jesus.
— Faze como quiseres — respondeu com superioridade o ferreiro. — Se trabalhares mal, sempre hei de poder reparar o erro, visto que sou o melhor ferreiro do mundo.

Sorriu Jesus, e pegando uma das patas do animal, cortou-a. Em seguida, colocando-a na bigorna, ferrou-a com toda a perfeição. Terminado o trabalho, reuniu a pata à perna do cavalo. Cortou a segunda pata e repetiu a operação. Fez a mesma coisa com as outras duas, e recolocou tudo no devido lugar.

O ferreiro, assombrado, fitava-o com os olhos esbugalhados. Nunca vira método mais rápido e original.

Passado algum tempo, entrou na oficina a mãe do ferreiro, uma velhinha corcunda, retorcida, cheia de rugas.
— Queres ver o que sou capaz de fazer? — perguntou Nosso Senhor Jesus Cristo ao ferreiro.

domingo, 16 de novembro de 2014

Os sete dons que Deus dá, os deu antes à sua Mãe

Nossa Senhora, Menino Jesus e Santos. Simone dei Crocefissi (Bolonha c. 1330 - 1399) Museu do Louvre
Nossa Senhora, Menino Jesus e Santos.
Simone dei Crocefissi (Bolonha c. 1330 - 1399)
Museu do Louvre

Os sete dons que Deus dá, à sua Mãe os deu já.

É desses sete dons que vos quero falar, e de como os deu à sua Mãe, de acordo com todos os que ouvi, para que sejam dispostos a servi-la, se guardem de pecar, que assim fazendo o bem fazem.

Os sete dons que Deus dá, à sua Mãe os deu já.

O primeiro destes sete dons é para saber como a Deus causar prazer; Àquele que Santa Maria teve em si, para Deus assumir n’Ela a carne com a qual nos julgará.

Os sete dons que Deus dá, à sua Mãe os deu já.

De entendimento muito grande é o segundo; mas esse Santa Maria teve em si, porque Deus fez d’Ela sua Mãe, e por meio d’Ele desde os céus sua graça nos envia a nós cá.

Os sete dons que Deus dá, à sua Mãe os deu já.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

São Longino: a narração medieval do centurião que cravou a lança no costado de Jesus


São Longino no momento supremamente trágico de cravar a lança no Coração de Jesus
Procissão em Sevilha, Espanha

Longino foi o centurião (=chefe de cem homens) que, estando de pé com seus soldados perto da Cruz, furou o lado do Salvador com uma lança por ordem de Pilatos.

Mas vendo o sol se obscurecer e o terremoto, ele acreditou.

Passou a acreditar ainda mais quando, segundo relatam alguns autores, esfregando os olhos com o sangue de Nosso Senhor que corria pela lança, estes voltaram logo a enxergar.

Renunciou então à condição militar e, instruído pelos Apóstolos, passou vinte e oito anos na vida monástica em Cesárea de Capadocia, convertendo muitas pessoas à fé com sua palavra e seus exemplos.

Recusando-se sacrificar aos ídolos quando feito prisioneiro pelo governador, este mandou arrancar-lhe todos os dentes e a língua.

Longino, contudo, não perdeu o uso da palavra, e pegando num machado quebrou todos os ídolos dizendo:

domingo, 19 de outubro de 2014

A espada de São Martinho

São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.
São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.

O Conde de Besalu era um valente que derrotou os mouros em muitas batalhas. Onde havia perigo, lá estava ele com seu exército, e não tardava em dar boa conta das turbas infiéis.

Um dia, estando em seu castelo, veio um de seus guardas dizer-lhe que sabia de boa fonte que os mouros subiam de Bañolas em direção a Santa Pau. Imediatamente o Conde reuniu os seus leais, e saiu para enfrentar os mouros e impedir-lhes o avanço.

Quando os encontrou, no mesmo instante arremeteu contra eles com o ímpeto que lhe era peculiar. Mas em pleno combate sua espada se quebrou. Não era o Conde homem que se conformasse vendo pelejar seus soldados, mas não lhe era possível seguir lutando desarmado.

Recordou-se então de que muito perto daquele lugar encontrava-se uma ermida dedicada a São Martinho. Abandonou o combate uns momentos, para dirigir-se a esse lugar. Uma vez ali, ajoelhou-se aos pés do Santo e lhe pediu, com todo o fervor, que ele o livrasse do apuro em que se encontrava.

Estava de joelhos, absorto na oração ao Santo, quando viu que a imagem deste se movia, e São Martinho, sacando sua espada, ofereceu-a ao Conde.

Levantou-se o cavaleiro, todo jubiloso, e para certificar-se do que seus olhos estavam vendo, esticou a mão para pegar a espada. Com firmeza a tomou, e depois de dar graças a Deus de todo o coração, saiu depressa em auxílio de seus homens, que estavam perdendo terreno.

domingo, 5 de outubro de 2014

Quem bem servir a Virgem irá ao Paraíso

Madonna, Lorenzo da Viterbo
Esta cantiga mostra como Santa Maria fez passar 300 anos ao monge depois do canto de um passarinho, pois acabava de pedir lhe fosse mostrado o bem que sentem as almas que estão no Paraíso.



“Quem bem servir à Virgem, irá ao Paraíso.”

Sobre isso quero vos contar agora um grande milagre que fez Santa Maria a um monge que sempre lhe pedia para ver o bem que há no Paraíso, e que ele o visse antes de morrer.

Veja o foi capaz de fazer a Gloriosa; fê-lo entrar num jardim já muitas vezes percorrido. Mas naquele dia fez que descobrisse uma fonte muito pura e formosa, e ele se sentou junto a ela.

E depois de lavar muito bem as suas mãos, disse: “Ah! Virgem, quando acontecerá de eu poder ver um pouco do gáudio do Paraíso que tanto Vos tenho pedido, antes de sair desta terra e assim eu saiba o galardão que teria aquele que pratica o bem?”

Assim que o monge acabou a oração, ouviu logo um passarinho que cantava tão belamente, que se esqueceu de tudo, e ficou ali a ouvir aquele maravilhoso som.

domingo, 21 de setembro de 2014

Réveillon tumultuado no castelo


Na manhã de Natal do ano de graça de 1212, a fortaleza de Vergy, situada sobre esta célebre e fantástica montanha, estava recoberta com um espesso manto de neve que lhe ficava muito bem.

No vasto pátio, a guarnição tinha aberto caminhos que conduziam às torres de defesa, aos prédios de serviço e aos grandes salões. Estas passagens conferiam à neve o ar de uma renda.

Do alto desse ninho de águia, a paisagem se mostra suntuosa. Os harmoniosos vales apareciam ainda mais suaves pela neve. Por todos os lados se viam aldeiazinhas feéricas de cujas chaminés se desprendiam dezenas de colunas fantasiosas de fumaça azulada e prazenteira.

Uma floresta de altas árvores rodeia o bastião, cada uma das quais se assemelhava a um grande candelabro de prata aceso para a festa.

Pelos caminhos que levam a Vergy grupos de cavalheiros e damas a cavalo chegavam dos castelos vizinhos. Eles pareciam quase desaparecidos entre suas roupagens de lã e seus veludos forrados com pele de raposa.

Seus narizes estavam vermelhos de frio, mas seus olhares brilhavam de alegria. Eram os convidados do Duque Eudes III e da duquesa Alix, que haviam decidido celebrar nesse Natal uma missa de ação de graças pelo nascimento de seu filho Hugo IV, acontecido na primavera.

domingo, 7 de setembro de 2014

A catedral submersa

A "catedral submersa" na baía de Douarnenez
Na sua História da Liga na Bretanha, de fins do século XVI, um certo cônego Moreau escrevia sobre a baía de Douarnenez:

“Encontram-se ainda hoje pessoas antigas que, estando a pescar, sustentam ter visto com frequência, nas baixas marés, velhas ruínas de muralhas”. Segundo essas testemunhas, tratar-se-ia de “grande obra de que nunca se ouviu falar”.

Algumas ruínas parecem indicar construções dos tempos dos romanos, que dominaram a região antes dos celtas.

Por outro lado, em dias de mar calmo, pescadores de Douarnenez diziam ter ouvido muitas vezes soar os sinos sob as águas da baía. E de vez em quando suas redes ou linhas apanhavam curiosos objetos.

Entre a lenda e a história real há sempre uma zona nebulosa, de incerteza. O fato é que Ys sublimou-se na atraente figura de uma bela cidade submersa, com uma catedral magnífica cujos sinos tangem ao sabor das ondas… ou dos anjos!

A beleza dessa lenda excita as imaginações, descrevendo Ys como a mais bela capital do mundo de então. Mais tarde Paris teria ocupado o seu lugar.

domingo, 24 de agosto de 2014

A pedra do Beuvray

É uma grande pedra, um penhasco, uma pedra colossal que todos os anos, na noite de Natal, durante a Missa do Galo, gira sobre si mesma.

Existe na Borgonha um grande número dessas pedras misteriosas que giram, abrem-se e deixam ver grutas ou cavidades.

Uma delas está no topo do morro de Beuvray, onde é protegida por um ente estranho: a Wivre.

Esta é uma serpente fabulosa – uma espécie de dragão demoníaco coberto de escamas brilhantes amarelas e verdes quase luminosas, que ao entrechocarem-se produzem um ruído especial e silvam enquanto a Wivre voa e reluz no ar.

Se a pedra de Beuvray requer tão terrível proteção é porque encerra um tesouro. E esse tesouro só é acessível num momento do ano, durante alguns instantes da noite de Natal.

Na hora da Missa, como que incomodado pela celebração dos santos mistérios, o dragão se afasta e – dizem— a pedra se mexe e deixa entrever o a atração sedutora do ouro, das joias resplandecendo discretamente sob a luz das estrelas.

Aqueles que abandonam o dever sagrado da Missa poderiam então entrar na gruta e pegar o que puderem antes de a Wivre voltar.

O atrativo do espetáculo e o apetite do lucro, não se importando em pecar contra Deus, tentaram a mais de um temerário. Porém, ninguém voltou a ver aqueles que pretenderam enganar a Wivre.

Uma viúva morava na aldeia mais próxima do lugar. Ela era muito pobre e tinha em filho muito engraçadinho para criar.

domingo, 10 de agosto de 2014

A cidade de Ys, no fundo da “baía dos mortos”

Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França
Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França

Entre a lenda e a história real há sempre uma zona nebulosa de incerteza. O fato é que a figura de uma cidade submersa, com uma catedral magnífica cujos sinos tangem ao sabor das ondas, ainda hoje excita as imaginações.

A misteriosa Bretanha é uma das mais interessantes regiões da França. Imensa plataforma que avança sobre o Atlântico, ao sul da Grã-Bretanha, ela é castigada por toda espécie de ventos e marés, como também o foi por invasões, ao longo de sua história milenar.

Os primeiros celtas chamaram-na Armor — “Terra voltada para o mar”. Daí o nome de Península Armórica, que ainda hoje a designa.

Na sua extremidade sul formou-se a Cornualha, nome que parece vir da Cornwall britânica, a península mais ocidental da Inglaterra.

Ocupada por gauleses, romanos, celtas, várias vezes saqueada pelos normandos, a Bretanha constituiu-se em reino até o século X, e depois em poderoso ducado, antes de ser incorporada definitivamente à França com os casamentos sucessivos de Ana de Bretanha com Carlos VIII e Luís XII, ambos filhos do astuto Luís XI.

Cheia de mistérios, é uma terra fértil em lendas e tradições imemoriais.

domingo, 27 de julho de 2014

“De muitas formas Santa Maria favorece àqueles que são dEla”

Nossa Senhora de Cluny Abadia Saint Denis, Paris
Nossa Senhora de Cluny
Abadia Saint Denis, Paris
Cantiga 299 do rei de Leão e Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
Como Santa Maria apareceu a um frade e lhe ordenou dar ao rei a imagem dEla que ele levava

Sobre isso eu queria vos mostrar um milagre, e vos peço ouvir-me com boa atenção, pois por meio dele vos ensinarei a servir Àquela que é um prodígio de bem.

Isto aconteceu a um rei que servia a essa Senhora em tudo quanto podia e se aprazia grandemente louvando-A: por isso lhe aconteceu quanto vos narrarei.

Um frade da Ordem da Estrela levava em seu peito uma imagem em marfim da Virgem que nos guia com seu Filho nos braços (Santa Maria de Espanha), na qual ele tinha muita fé.

Uma noite, deitado em seu leito e já adormecido, viu vir a Mãe de Deus que lhe dizia:

— ”Por que é que levas essa imagem, é um disparate levá-la; vai procurar o rei e a dá a ele de presente; isso me aprazeria muito e farias muito bem nessa obra”.

Tendo dito isso, Ela se afastou, e o frade contou o fato aos outros irmãos que replicaram:

— “Isso é um sonho que não faz sentido”.

Mas ele, ouvindo isso, ficava cada vez mais decidido a dá-la ao rei, e após se repetir o fato três vezes, Ela veio lhe dizer com grande despeito:

— ”Como ousas não dar ao rei aquilo que Eu te mandei dar, e que Eu te agradeceria? Dá a ele, se não sairás prejudicado”.

domingo, 20 de julho de 2014

As lendas medievais apresentam o verdadeiro aspecto de Nossa Senhora: a bondade sem limites de uma Mãe

Os devocionários medievais e as lendas sobre a devoção a Nossa Senhora na Idade Média, incluem algumas verdadeiras e outras imaginadas.

Mas todas elas apresentam a graça e a gentileza especial de Maria Santíssima no trato com as almas, de modo indizivelmente ameno e interessante.

Então, não nos interessa saber se o fato narrado é verdadeiro no que se refere à parte dos homens, porque a verdade está naquilo que o conto mostra de verdadeiro a respeito de Nossa Senhora.

Portanto, embora sejam lendas, como são teológicas e mariais, fazem-nos sentir bem quem é Nossa Senhora.

Por exemplo, a história de um menino órfão da Idade Média que tinha uma vontade enorme de ver Nossa Senhora e dava tudo para obter isto, ainda que tivesse de ficar cego.

Então, Nossa Senhora lhe fez saber que obteria a graça de vê-lA se ele aceitasse ficar cego de um olho.

domingo, 29 de junho de 2014

O violinista pobre de Cracóvia

A igreja de São Salvador, em Cracóvia, Polônia.
A igreja de São Salvador, em Cracóvia, Polônia.

A igreja de São Salvador, no bairro de Zwierzyniec de Cracóvia, existe há 900 anos.

Ela teria sido construída pelo príncipe soberano Piotr Wlast, fundador legendário de 77 igrejas.

O arcebispo de Cracóvia lhe havia predito que ele recuperaria a visão, caso fundasse sete igrejas e três conventos.

Cheio de presunção, o soberano decidiu construir 70 igrejas e 30 conventos, dez vezes mais do que pediu o arcebispo. Porém, não recuperou a vista.

Ele recapitulou o que tinha feito e compreendeu seu pecado de orgulho.

E começou então a construir as sete igrejas e três mosteiros ordenados, entre os quais a igreja de São Salvador, fundada por volta do ano 1148.

Lá há um velho quadro que representa a Crucifixão. O singular é que o Crucificado está vestido com longas roupagens suntuosas e calçado com ricas sandálias.

Um dia viu-se um pobre violinista se ajoelhar, com as mãos elevadas ao alto, aos pés do Crucificado.

Ele rezava com fervor e, pegando seu filho, o alçava até o crucifixo. Ele não podia sair para trabalhar, pois criava sozinho seu filho e não podia deixá-lo sem companhia.

Os dois viviam na miséria, mas eram felizes. Até o dia que a criança adoeceu gravemente.

O violinista não tinha dinheiro para curar o menino. Voltou então até a Cruz, ajoelhou-se, e tocando seu violino com emoção, contou a Jesus seu desespero.

domingo, 15 de junho de 2014

O anel de Santa Cunegunda

Santa Cunegunda, capela de Nossa Senhora, Budapest, Hungria
Santa Cunegunda, capela de Nossa Senhora, Budapest, Hungria
O príncipe Boleslau V o Casto procurava uma esposa em algum país vizinho.

Tinha que ser uma princesa e o casamento se decidia na base de cálculos políticos.

Foi assim que ele decidiu casar-se com a princesa Kinga, ou Cunegunda (1224-1292), filha do rei da Hungria.

Ela era a filha bem-amada do rei Bela IV e de Santa Isabel da Hungria, e irmã de Santa Margarida da Hungria.

A bela princesa húngara deu sua mão ao príncipe polonês.

Ela tinha um espírito fino e esclarecido, e pediu a seu pai um dote fora do comum. Contudo não pediu ouro nem dinheiro, nem belos panos, mas um presente que contribuiria muito para a prosperidade de sua nova pátria.

Naquela época o sal era um elemento raríssimo e o rei Bela ofereceu à filha uma das minas de sal que faziam a riqueza da Hungria.

Porém, a mina ficava muito longe da Polônia e a princesa percebia que seria difícil tirar proveito dela.

Ela foi, então, visitar a mina e decidiu levá-la consigo até sua futura pátria.

Para isso, arrancou inesperadamente um anel precioso de sua mão e jogou-o no poço mais fundo da mina, invocando São Francisco e Santa Clara de Assis.

Pouco tempo depois Cunegunda partiu para a Polônia escoltada por cavaleiros poloneses e húngaros.

domingo, 1 de junho de 2014

O pífaro dos Reis, e Natan o lenhador


Gaspar, Belchior e Baltazar iam seguindo a estrela que os conduzia a Belém.

Acamparam, uma noite, perto de uma cabana e pediram hospedagem.

Natan disse-lhes que apenas tinha para sua família, mas que lhes causava pena vê-los expostos ao mau tempo.

Mandou que entrassem, em seguida trouxe-lhes umas braçadas de capim seco para que lhes servissem de cama.

No outro dia, ao despedirem-se de Natan, disseram-lhe os Magos:

— Olha! Não temos dinheiro, mas deixamos-te esta singela lembrança.

E Baltazar entregou-lhe um pífaro (pequena flauta), dizendo:
— Toca-o, e os teus desejos se cumprirão. Será para ti uma fonte de riquezas enquanto tratares bem os pobres.

Tendo partido os Reis, disse Natan à esposa:
— Disseram que não tinham dinheiro, e eu o vi em tamanha abundância! E ainda me pagaram com uma flauta.
— Mas eles não te disseram que a tocasse, que se cumpririam os teus desejos?
— Ah! Isso é verdade! Vamos experimentar.

domingo, 18 de maio de 2014

Os pombos da Praça do Mercado


A Praça do Mercado é o coração palpitante de atividade de Cracóvia.

Sua história é milenar e transcorre aos pés da grande igreja de Nossa Senhora.

Entre igrejas, palácios, casas burguesas, lojas populares e carruagens puxadas por cavalos, voam pombas em quantidades notáveis.

De onde vieram? Como chegaram até lá? Por que ficam nessa praça? Aguardam alguma coisa?

Os habitantes de Cracóvia os amam especialmente. Por quê?

No fim do século XIII, o príncipe Henrique IV, o Probo, estava instalado no trono de Cracóvia.

Porém, ele não era rei, uma vez que a Polônia estava dividida em vários principados autônomos sem um monarca que os reunisse.

O príncipe Henrique queria reuni-los todos de novo sob um só soberano.

domingo, 4 de maio de 2014

Os três pássaros de argila

Santa Maria dos Reis, Laguardia, Espanha
Santa Maria dos Reis, Laguardia, Espanha

Antigamente o lago de Tiberíades não tinha esse nome. Foi somente algum tempo depois do fato que eu vou contar, que o filho do cruel Herodes construiu às suas margens a cidade que ele chamou Tiberíades, para fazer a sua corte.

O belo lago chamava-se Kinnereth, que quer dizer harpa, porque seus contornos harmoniosos dão exatamente a forma do instrumento musical tão familiar ao rei David.

Naqueles dias, após uma grande tempestade na montanha, caía a tarde e o vento levava a última nuvem. O lago retomava sua calma habitual, e os numerosos pássaros que o visitam freqüentemente — corvos-marinhos, pelicanos, gaivotas, alciões, martins-pescadores — haviam, do modo mais belo, começado seus vôos e seus cânticos.

Na aldeiazinha de Nazaré, três crianças brincavam numa estrada, muito ocupadas em construir uma parede ou barragem para conter a água do caminho. Depois, assim que esboçaram um pequeno lago parecido com o Kinnereth, tiveram a idéia de povoá-lo também de pássaros — pássaros de argila, claro.

Um deles fez qualquer coisa disforme, que tinha a pretensão de assemelhar-se a esses belos corvos-marinhos de grandes asas, que vêm de longe para caçar seus peixes. O outro procurava transformar seu barro em pelicano, e fazia grande esforço para manter equilibrada a cabeça enorme e a bolsa suspensa ao pescoço. O terceiro aperfeiçoava, com a delicadeza de suas mãozinhas, uma gaivota colocada na margem.

Entretanto anoiteceu. A Lua já se fazia ver, e as primeiras luzes se acendiam na aldeia. Indiferentes à escuridão que os envolvia, os meninos prosseguiam seus delicados trabalhos, Mas de repente ouviu-se uma voz chamando alguém:
— Lucas!
Lucas, que pela segunda vez tentava equilibrar o bico do corvo-marinho sobre o bastão que lhe servia de pescoço, estava muito entretido em seu trabalho, para responder ao chamado.
— Lucas! Lucas! Lucas! — repetiu a voz.

domingo, 20 de abril de 2014

A ponte e a haste da Cruz


Conta-nos uma lenda de antanho que, a um homem que deveria fazer grande jornada, deram a carregar pesada cruz, dizendo-lhe que ela o levaria à salvação.

Tendo feito pequena parte do trajeto, vencido e desanimado pelo cansaço, deliberou ele cortar um pedaço da longa haste de sua carga.

Mais aliviado, pôs-se de novo a caminho, e jornadeou até o ponto em que a estrada subia por uma encosta longa e pedregosa.

Ali sentiu mais o peso da cruz.

Doíam-lhe os ombros, tinha as pernas trôpegas, arfava e suava.

Na irreflexão da impaciência, pôs o seu fardo no chão, e outra vez o mutilou.

Partiu. Alcançou o sopé do outeiro, e se viu às margens de um rio sem ponte.

Só então observou que outros viajantes ali chegados levavam também pesadas cruzes de longas hastes.

domingo, 6 de abril de 2014

O trombeteiro de Nossa Senhora

Igreja de Nossa Senhora, Cracóvia, Polônia
Conta-se até no longínquo Cazaquistão uma história ligada à mais alta torre da igreja de Nossa Senhora em Cracóvia.

Com 81 metros de altura, ela é conhecida como a Torre da Guarda. Ainda hoje é o ponto mais alto da cidade.

A vida nunca foi fácil em nenhuma parte, mas era especialmente difícil nos inícios da Polônia.

As cidades da Europa Central eram atacadas por hordas de bárbaros pagãos vindos da Mongólia, acumpliciados por vezes com aliados locais.

Em face do perigo, os conselheiros municipais de Cracóvia decidiram que um guarda ficaria sempre a postos no alto da torre de Nossa Senhora.

Do alto, ele alertaria os habitantes tão logo visse os mongóis se aproximarem.

Durante muitos anos, os guardas cumpriram sua missão a contento, alertando os habitantes da cidade diante das ameaças.

domingo, 23 de março de 2014

Santa Maria, Senhor

Nossa Senhora com o Menino Jesus, Rottenbuch, Alemanha
Nossa Senhora com o Menino Jesus, Rottenbuch, Alemanha
Cantiga 350 do rei de Leão e Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
ESTA É EM LOUVOR DE SANTA MARIA

Santa Maria, Senhor,
valei-nos onde mister for.

E valei-nos, Santa Maria,
pois precisamos que nos valhas,
pois tu por nos noite e dia
com o diabo disputas
e ainda penas
para encobrir nossas faltas,
e por nos dar alegria
com Deus sempre trabalhas,
pois tu es advogada
do povo pecador.
Santa Maria, Senhor,
valei-nos onde mister for.

domingo, 9 de março de 2014

O cavalo Lajkonik

A parada de Lajkonik se repete todos os anos em lembrança do épico feito
A parada de Lajkonik se repete todos os anos em lembrança do épico feito

Durante a Idade Média, a cidade polonesa de Cracóvia foi ficando cada vez mais bela e brilhante. Para ela se voltavam os povos vizinhos.

Foram assim nascendo em torno dela aldeias e cidadezinhas que viviam dependentes de sua riqueza, arte e comércio.

Uma dessas cidadezinhas que deitou raízes na beira esquerda do rio Vístula chamava-se Zwierzyniec.

Ela era habitada por barqueiros que transportavam mercadorias e toras pelo rio.

O trabalho não era fácil e pedia muito sacrifício, coragem, força e resistência nas dificuldades.

Eles não sabiam, mas certa vez uma horda tártara planejou atacar Cracóvia, aproveitando que durante o dia suas portas ficavam abertas.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Como a mãe de Cristo, São João Evangelista e São Francisco disseram a Frei Conrado qual deles sofreu maior dor da paixão de Cristo

Ordem Terceira de São Francisco, São Paulo, altar mor.
Ordem Terceira de São Francisco, São Paulo, altar mor.
No tempo em que moravam juntos na custódia de Ancona, no convento de Forano, Frei Conrado e Frei Pedro os quais eram duas luzentes estrelas na província da Marca e dois homens celestiais.

Entre os dois havia tanto amor e tanta caridade, que parecia terem ambos o mesmo coração e uma mesma alma.

E se ligaram por este pacto: que qualquer consolação que a misericórdia de Deus lhes desse, deviam revelar um ao outro por caridade.

Firmado entre ambos este pacto, sucedeu que um dia estava Frei Pedro em oração e pensando devotamente na paixão de Cristo.

E como a Beatíssima Mãe de Cristo e São João, diletíssimo discípulo, e São Francisco estivessem pintados ao pé da cruz, pela dor mental crucificados com Cristo, teve ele o desejo de saber qual dos três tinha sofrido dor maior com a paixão de Cristo.

Se a mãe, que o tinha gerado, ou o discípulo, o qual havia dormido sobre o peito, ou São Francisco, que com ele estava crucificado.

E permanecendo nesse devoto pensamento, aparece-lhe a Virgem Maria com São João Evangelista e com São Francisco, vestidos de nobilíssimas vestes de glória bem-aventurada; mas São Francisco parecia vestido de vestes mais belas do que S. João.

E estando Frei Pedro todo espantado com esta visão, S. João o confortou e disse-lhe:

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A espada de Cracóvia

As duas torres da igreja de Nossa Senhora
As duas torres da igreja de Nossa Senhora
Na praça central de Cracóvia, Polônia, ergue-se rumo aos céus a suntuosa igreja de Nossa Senhora.

Ela é tão bela, tão grande e tão bem localizada, que muitos ficam convencidos de que é a catedral da cidade.

Entretanto a catedral, também magnífica, fica na cidadela de Cracóvia, conhecida como Wawel, junto ao Palácio Real e outros prédios históricos admiráveis.

A igreja de Nossa Senhora começou a ser construída por volta de 1220 sobre os fundamentos de um antigo templo em estilo românico várias vezes reformado e que era a igreja principal da Praça do Mercado.

Ela apresenta duas torres de altura vertiginosa, coroadas por dois maravilhosos conjuntos de torrezinhas e agulhas muito diferentes, aliás, em cada torre principal.

A mais alta é conhecida como Torre da Guarda e do alto dela trombeteiros que se revezam anunciam ininterruptamente a hora, de dia e de noite, em direção dos quatro cantos principais da cidade.

A menos alta é chamada a Torre dos Sinos, pois nela há um imenso sino que, segundo uma outra lenda, no século XV foi levado até o topo por Stanislas Ciolek, um homem de força inaudita.

Por que as duas torres têm alturas diferentes?

Quando as autoridades municipais de Cracóvia decidiram reformar a igreja e elevar duas torres colossais, escolheram dois irmãos.