domingo, 24 de julho de 2016

Da maravilhosa prédica, a qual fez Santo Antônio de Pádua, ou Lisboa, em consistório

Santo Antônio, Sevilha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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O maravilhoso vaso do Espírito Santo, meu senhor Santo Antônio de Pádua, também de Lisboa, um dos discípulos escolhidos e companheiros de São Francisco, ao qual São Francisco chamava seu vigário.

Pregando uma vez em consistório diante do Papa e dos cardeais (no qual consistório havia homens de diversas nações.

Isto é, gregos, latinos, franceses, alemães, eslavos e ingleses e de outras diversas línguas do mundo).

Inflamado do Espírito Santo tão eficazmente, tão devotamente, tão sutilmente, tão docemente e tão claramente e intuitivamente expôs e falou a palavra de Deus, que todos os que estavam em consistório, conquanto usassem línguas diversas, claramente lhe entendiam as palavras distintamente como se ele tivesse falado na língua de cada um.

Santo Antônio, Ambrose Benson, catedral de Segovia
E todos estavam estupefatos e lhes parecia que se havia renovado o antigo milagre dos apóstolos no tempo de Pentecostes, os quais falavam por virtude do Espírito Santo em todas as línguas.

E diziam juntos um para o outro com admiração:

‒ “Não é de Espanha este que prega? E como ouvimos nós em seu falar o nosso idioma?”

O papa semelhantemente considerando e maravilhando-se da profundeza das palavras dele, disse:

‒ “Este é verdadeiramente arca do Testamento e armário da Escritura divina”.

Em louvor de Cristo. Amém.



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domingo, 10 de julho de 2016

O santo, o noviço e o asno

A maledicência. Detalhe de 'Cristo ante Pilatos', Hieronymus Bosch (1450 — 1516)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Houve um santo religioso que conhecia bem as coisas do mundo e havia percebido que nele não se podia encontrar quem não falasse mal dos outros.

Um dia, disse a um noviço:

— “Meu filho, pega nosso burrinho e vem comigo”.

O obediente mongezinho pegou o asno. Nele o velho religioso montou, seguido pelo jovem, que caminhava atrás. Enquanto iam entre as pessoas, atravessaram um local cheio de lama.

Então, alguém disse:

— “Olha isso! Quanta crueldade contra esse mongezinho que vai a pé. Deixá-lo andar entre tanta lama! E o velho vai a cavalo!”

Assim que o santo ouviu essas palavras, desceu logo do animal e pôs sobre ele o jovem monge. E andaram mais um pouco, com ele por trás guiando o asno no meio do barro.

Então apareceu outro que disse:

— “Olha que coisa estranha esse homem no animal! É o velho que deixa o jovem andar no cavalo sem se cuidar da fatiga e da lama. Você não acha que é uma loucura? Até que os dois poderiam ir sobre esse asno, se quisessem. Agiriam melhor!”

Então o santo religioso montou na garupa. E assim prosseguiram até aparecer outro e dizer:

— “Mas olha, esses que vão acima do pobre burrinho! Os dois montaram nele? Você não acha que eles não têm pena do coitado do burrinho, e que não seria estranho que ele acabasse desmaiando?”

Ouvindo isso, o santo sacerdote desceu logo e fez desmontar o jovem, e os dois seguiram a pé dizendo:

— “Vamos lá!”

Tendo andado mais um pouco, outro falou:

— “Meu Deus! Olha a loucura desses dois, que têm o asno, mas vão caminhando pelo lodo!”

E tendo o santo religioso visto isto e percebido que no mundo não havia pessoa que não ficasse murmurando, disse ao jovem monge:

— “Chega! Voltemos para a nossa morada”.

E tendo chegado até suas celas, o santo disse:

— “Vem cá, meu filho, você pensou na lição do asno?”

E o jovem monge disse:

— ”No quê?”

São Bernardino de Siena, autor de muitos contos morais. Pintor anônimo espanhol
São Bernardino de Siena, autor de muitos contos morais.
Pintor anônimo espanhol
— “Não viste que de qualquer jeito que nós fôssemos falavam mal de nós? Se eu ia montado e você a pé, falavam mal de nós porque você é jovem e eu devia te proteger.

“Desci, coloquei-te na sela e outro também falou mal de nós, dizendo que eu sou velho e devia montar, e tu, que és jovem, devias caminhar.

“Também montamos os dois e ainda falaram mal, dizendo que éramos cruéis com o burrinho pelo excesso de carga. E ainda quando nós dois descemos, também murmuraram porque era loucura nossa andar a pé em vez de montar o jumento.

“Meu filho, guarda bem o que eu te vou dizer.

“Saibas que aquele que está no mundo fazendo todo o bem que pode fazer e que se empenha em fazer tudo o que lhe é possível de bom, não pode evitar que falem mal dele.

“Então, meu filho, não te incomodes com eles, nem ouças o que dizem, nem tenhas vontade de andar no meio deles, porque, seja como for, sempre se acaba perdendo, porque deles não sai senão pecado.

“Mas, não te incomodes com eles e faz sempre o bem. Deixa-os dizer o que bem entendem, falem bem ou falem mal”.



(Autor: São Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext). 


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domingo, 26 de junho de 2016

As lendas da Torre Sem Veneno

Luis Dufaur
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Acima de Grenoble, no pé das montanhas de Vercors, um pedaço de muro vigia o vale de Grésivaudan.

Essa ruína tem uma história, a dos senhores de Seyssinet. Aliás, sobre ela corre não uma lenda, mas muitas.



Terra de Jerusalém

Para que seus senhores partissem na Cruzada, o Delfim prometeu conceder terra aos corajosos. O senhor de Pariset soube quais terras lhe seriam doadas.

Era um belo lugar para construir seu castelo. Mas, estava infestado de cobras!

Tendo concluído vitoriosamente sua Cruzada, ele trouxe uma sacola com terra recolhida junto ao Santo Sepulcro em Jerusalém.

Ele lembrava que no jardim do Paraíso, o diabo entrou dentro da serpente e que desde então esse animal rasteiro infestava a terra. Ele achou que só uma terra que tocou em Nosso Senhor poderia expulsá-lo.

Voltando, espalhou a preciosa terra e o milagre aconteceu. Ele pôs em fuga todos os répteis venenosos que infestavam a região.

E um fabuloso castelo foi levantado naquele local antigamente amaldiçoado.



O mistério da mulher

Uma outra lenda conta que há muito tempo uma mulher curava as pessoas das picadas de serpentes.

Pois havia muitas cobras que moravam nas pedras de Vercors.

Os camponeses eram picados durante as colheitas, e as crianças se faziam morder reunindo feixes de galhos infestados com esse animal venenoso.

Todos eram curados por essa mulher de cabelos em desordem e mal penteados, e que agia secretamente.

Ela morava longe da aldeia, perto dos contrafortes de Vercors.

Com todo esse segredo e afastamento, a voz correu rapidamente: é uma bruxa! Pois uma mulher que se esconde para curar as picadas do diabo só pode recorrer à magia negra!

Foi ameaçada de ser levada à Justiça e punida com a morte. Então ela revelou seu segredo.

Ela tinha descoberto, um dia que foi picada por esse animal do diabo, que aplicando a terra do local misturada com ervas, a febre ia embora.

Desde então, ela virou a médica oficial da aldeia e a região ganhou o nome de SANS VENIN (SEM VENENO).



O senhor feudal bom

Mas, há ainda uma outra lenda: a do senhor feudal pacífico.

Houve um nobre senhor de Pariset, descendente do cruzado, que não era nada belicoso.

Ele sempre achava um jeito de arranjar as coisas sem usar violência.

Não era um homem covarde ou moleirão, nem mesmo carente de coragem.

Acontecia que ele tinha visto tantas guerras e tantos mortos que ele adotou o costume de sempre procurar um arranjo salutar para o bem de todos.

Foi assim que o povo dizia que ele não fazia mal, e que tudo o que falava era SANS VENIN.




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domingo, 12 de junho de 2016

O que aconteceu com o rei Ricardo da Inglaterra
quando pulou no mar para lutar contra os mouros

El Conde Lucanor, ilustração Víctor G. Ambrus
El Conde Lucanor, ilustração Víctor G. Ambrus.
Luis Dufaur
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Certa feita, o conde Lucanor afastou-se com seu conselheiro Patronio e lhe falou assim:

– Patronio, eu confio muito em seu juízo. E sei que você sabe aconselhar como nenhuma outra pessoa no mundo. Por isso vos peço aconselhar-me como melhor sabes no que vou dizer agora.

Você sabe muito bem que não sou mais jovem e, desde que nasci até agora, cresci e vivi sempre envolvido em guerras, às vezes contra os mouros, outras vezes com os cristãos, e na maioria delas contra reis, senhores, ou vizinhos.

Em minhas lutas com meus irmãos cristãos, embora eu tentasse que a culpa não fosse minha, foi inevitável que muitos inocentes recebessem um grande dano.

Fiz penitência por isso e por outros pecados que cometi contra Deus Nosso Senhor. Porém, vejo que nada nem ninguém neste mundo pode ter certeza de que hoje não vai morrer.

E tenho certeza de que, posta a minha idade, não vou viver muito mais tempo e sei que devo comparecer diante de Deus, que é juiz que não se deixa enganar por palavras.

É um Juiz que julga cada um por suas boas ou más ações. E eu tenho certeza de que, se Deus achar em mim pecados que merecem o castigo eterno, não poderei evitar as dores do inferno, e não há nada de bom neste mundo que possa aliviar a dor eterna.

domingo, 29 de maio de 2016

Por que Deus quis ser Filho da Virgem

Igreja de Fuentidueña, Segovia, Espanha.
Igreja de Fuentidueña, Segovia, Espanha.
Luis Dufaur
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Cantiga 38 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga conta como a imagem de Santa Maria estendeu o braço e segurou seu Filho, que ia cair devido à pedrada que Lhe jogou um saltimbanco.




Posto que Deus quisesse ser Filho da Virgem, para nos salvar a nós pecadores, por isso eu não me maravilho que Lhe doa ver quem O faz sofrer.

Porque Ela e seu Filho se acham unidos pelo amor, de maneira que nunca ninguém por nada poderá separá-los. Portanto, dão prova de serem muito néscios aqueles que vão contra Ela, acreditando que Ele não se sente concernido.

Isso fazem os malvados, que não querem compreender esse amor, e que a Mãe e o Filho estão de acordo em fazer o bem e castigar o mal.

domingo, 15 de maio de 2016

Frei Pacômio, o monge que voltou 400 anos depois

Luis Dufaur
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Em princípios do século décimo, vivia num convento de beneditinos um santo religioso, chamado frei Pacômio, que não podia compreender como os bem-aventurados não se cansam de contemplar por toda a eternidade as mesmas belezas e gozar dos mesmos gozos.

Um dia mandou-o o Prior a um bosque vizinho, para recolher alguma lenha. Foi com gosto, mas mesmo no trabalho não o largavam as dúvidas.

De repente ouviu a voz de uma avezinha que cantava maravilhosamente entre os ramos. Ergueu-se e viu um animalzinho tão encantador, como jamais vira em sua vida. Saltava de um ramo para outro, cantando, brincando e internando-se na selva.

Seguiu-o frei Pacômio, todo enlevado, sem dar-se conta do tempo nem do lugar.

A certa altura a avezinha atirou aos ares o último e mais doce gorjeio e desapareceu. Lembrando-se então de seu trabalho, frei Pacômio procurou o machado para voltar ao convento.

Mas — coisa estranha! — achou-o enferrujado. Quis pegar o feixe de lenha que ajuntara, mas não o encontrou.

— Alguém mo terá roubado? — pensou.

Pôs-se a andar, mas não encontrava o caminho. Chegou, afinal, à beira do bosque, mas não encontrou o mato que tão bem conhecia. Ali estava agora um campo de trigo, em que trabalhavam homens desconhecidos.

domingo, 1 de maio de 2016

O ladrão e o luar

Luis Dufaur
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E aconteceu assim: durante a noite um ladrão tentou entrar na casa de um homem rico. Era lua cheia e levou compinchas com ele.

Na casa havia uma janela através da qual entrava o luar. Mas o bom homem dono da casa acordou, ouvindo passos de alguém caminhando pelo telhado e achou que só podiam ser ladrões.

Ele então acordou sua mulher e lhe disse:

– “Fala baixinho: eu escutei passos de ladrões que andam pelo nosso telhado. Quando você ouvir que estão chegando perto, me pergunte em voz clara:

– “Ah, meu marido como é que você conseguiu tanta riqueza como nós temos?”

“E enquanto eu não responder, você continue me perguntando até que eu diga”.

E quando ela ouviu o ladrão, começou a pedir ao marido o que lhe ordenara, e o ladrão começou a ouvir o que eles falavam.

O marido não respondia o que ela lhe perguntava, e ela insistiu várias vezes até que ele disse:

– “Vou te dizer, porque você quer muito saber. Não se reúne tantas riquezas sem ladroeira”.

E a mulher então disse:

– “Como é que pode ser uma coisa dessas? Porque as pessoas que você conhece te têm em conta de homem bom” ...

E ele replicou:

– “É que eu encontrei uma sabedoria para roubar. É uma coisa muito secreta. E muito sutil! De maneira que nunca ninguém suspeitou de mim tal coisa”.

E a mulher disse:

– “Como é que você fez?”

domingo, 17 de abril de 2016

“Como Deus, fez vinho da água”
(Cantiga 23)

As bodas de Caná. Gerard David (1460 — 1523), Museu do Louvre, Paris
As bodas de Caná.
Gerard David (1460 — 1523), Museu do Louvre, Paris
Luis Dufaur
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Cantiga 342 & 127 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta Cantiga conta como Santa Maria mudou o vinho num tonel, por amor à boa dama da Bretanha.


“Da mesma maneira que Deus fez vinho da água nas Bodas de Caná, assim também depois Sua Mãe multiplicou bem o vinho”.

Sobre isto vos contarei um milagre que Ela fez na Bretanha, para uma dona muito sem mal, que Deus tinha dotado de bons costumes e habilidades, e que quis ficar na amizade d’Ela como um bom vizinho.

Dentre todas as bondades que essa dona tinha, sobressaía que confiava muito em Santa Maria, a qual por causa disso a impediu que passasse vergonha ante o rei que, no meio de uma viagem, parava em sua casa.

A dona, querendo servi-lo, esteve muito ocupada e deu-lhe carne e peixe, pão e cevada, mas estava muito desprovida de bom vinho e só tinha um pouquinho num pequeno barril.

Sua preocupação redobrava, porque embora ela quisesse comprar em sua região, não havia quem tivesse, nem que o vendesse por dinheiro ou por qualquer outra coisa que lhe oferecessem.

domingo, 3 de abril de 2016

Como o demônio em forma de crucificado apareceu a Frei Rufino, e São Francisco desvendou a mentira do diabo

São Francisco, frei Silvestro e o exorcismo de Arezzo., Giotto
São Francisco, frei Silvestro e o exorcismo de Arezzo., Giotto
Luis Dufaur
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Frei Rufino, um dos mais nobres homens de Assis e companheiro de São Francisco, homem de grande santidade, foi um tempo fortissimamente combatido e tentado na alma, pelo demônio, sobre a predestinação, de que ele estava todo melancólico e triste.

Porque o demônio lhe tinha posto no coração que estava danado e não era dos predestinados à vida eterna, e que se perdia o que ele fazia na Ordem.

Durando aquela tentação muitos dias, e ele por vergonha não a revelando a São Francisco, sem deixar todavia de fazer as orações e a abstinência de costume; porque o inimigo lhe começou a juntar tristeza sobre tristeza, além da batalha interior, combatendo-o ainda exteriormente com falsas aparições.

Pelo que de uma vez lhe apareceu em forma de crucifixo e disse-lhe:

“Ó Frei Rufino, por que te afliges com penitências e orações se não és dos predestinados à vida eterna?

“E crê em mim, porque sei a quem escolhi e predestinei, e não creias no filho de Pedro Bernardone, se ele te disser o contrário, nada lhe perguntes sobre isso, porque nem ele nem ninguém mais o sabe, senão eu, que sou o filho de Deus.

“Portanto crê-me com certeza que és do número dos danados; e o filho de Pedro Bernardone, teu pai, e ainda o pai dele são danados e todo aquele que o seguir está danado e enganado”.

domingo, 27 de março de 2016

O senhor feudal criminoso, o ermitão piedoso
e o misterioso barrilzinho

Luis Dufaur
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Habitava nos confins da Normandia um destemido cavaleiro, cujo nome causava terror na região. De seu castelo fortificado junto ao mar, não receava nem mesmo o rei.

De grande estatura e belo porte, era no entanto vaidoso, desleal e cruel, não temendo a Deus nem aos homens.

Não fazia jejum nem abstinência, não assistia à Missa nem ouvia sermões. Não se conhecia homem tão mau.

Numa Sexta-feira Santa, bradou ele aos cozinheiros:
— Aprontai-me para o almoço a peça que cacei ontem.

Ouvindo isto, seus vassalos exclamaram:
— Senhor, hoje é Sexta-feira Santa. Todos jejuam, e vós quereis comer carne? Crede-nos: Deus acabará por vos punir.
— Até que tal aconteça, terei enforcado e roubado muita gente.
— Estais seguro de que Deus tolerará mais isso? Vós devíeis arrepender-vos sem demora. Em um bosque vizinho há um padre eremita, varão de grande santidade. Vamos até lá e confessemo-nos — insistiram os vassalos.
— Confessar-me? Aos diabos! — respondeu com desprezo o senhor.
— Vinde ao menos fazer-nos companhia.
— Para me divertir, concedo. Por Deus, nada farei.

domingo, 6 de março de 2016

O milagre de Santa Cecília para o violinista ambulante

Gmund, na Suábia, Baviera, Alemanha
Luis Dufaur
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Outrora, os habitantes de Gmund, na Suábia (Baviera, Alemanha), construíram magnífica igreja sob a invocação de Santa Cecília, a padroeira dos músicos.

Lírios de prata brilhavam como raios de luar em torno da santa, e rosas de ouro, como o resplendor da aurora, enfeitavam-lhe o altar.

Trajava a santa vestido de prata e calçava riquíssimos sapatos de ouro, porque naquele tempo, não somente na Alemanha, mas no mundo inteiro, os ourives de Gmund eram célebres pelo seu trabalho.