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domingo, 19 de outubro de 2014

A espada de São Martinho

São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.
São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.

O Conde de Besalu era um valente que derrotou os mouros em muitas batalhas. Onde havia perigo, lá estava ele com seu exército, e não tardava em dar boa conta das turbas infiéis.

Um dia, estando em seu castelo, veio um de seus guardas dizer-lhe que sabia de boa fonte que os mouros subiam de Bañolas em direção a Santa Pau. Imediatamente o Conde reuniu os seus leais, e saiu para enfrentar os mouros e impedir-lhes o avanço.

Quando os encontrou, no mesmo instante arremeteu contra eles com o ímpeto que lhe era peculiar. Mas em pleno combate sua espada se quebrou. Não era o Conde homem que se conformasse vendo pelejar seus soldados, mas não lhe era possível seguir lutando desarmado.

Recordou-se então de que muito perto daquele lugar encontrava-se uma ermida dedicada a São Martinho. Abandonou o combate uns momentos, para dirigir-se a esse lugar. Uma vez ali, ajoelhou-se aos pés do Santo e lhe pediu, com todo o fervor, que ele o livrasse do apuro em que se encontrava.

Estava de joelhos, absorto na oração ao Santo, quando viu que a imagem deste se movia, e São Martinho, sacando sua espada, ofereceu-a ao Conde.

Levantou-se o cavaleiro, todo jubiloso, e para certificar-se do que seus olhos estavam vendo, esticou a mão para pegar a espada. Com firmeza a tomou, e depois de dar graças a Deus de todo o coração, saiu depressa em auxílio de seus homens, que estavam perdendo terreno.

Besalú, a cidade do milagre da espada de São Martinho de Tours
Besalú, a cidade do milagre da espada de São Martinho de Tours
Começou a distribuir golpes com sua espada à direita e à esquerda. Seus homens recobraram o valor que haviam perdido momentaneamente, e redobraram seus esforços. Em poucas horas jaziam mortos todos os mouros que haviam iniciado o combate contra a Santa Fé.

Os cristãos subiram então até Besalu. Quando chegaram a Colsatrapa, sentaram-se para descansar, enquanto contemplavam o panorama de Mirana y Mor. Os soldados elogiaram o Conde pelo seu valor.

Ele porém contestou, dizendo que São Martinho lhe emprestara a espada. Seus homens duvidaram, e ele, para provar a força da espada, deu um forte golpe numa pedra que havia ali, partindo-a em dois.

Essa pedra ainda existe. Hoje é conhecida por "Pedra Cortada".

(V. Garcia de Diego, "Antologia de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 92)


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domingo, 5 de outubro de 2014

Quem bem servir a Virgem irá ao Paraíso

Madonna, Lorenzo da Viterbo
Cantiga 103 do rei de Leão e Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María 
Esta cantiga mostra como Santa Maria fez passar 300 anos ao monge depois do canto de um passarinho, pois acabava de pedir lhe fosse mostrado o bem que sentem as almas que estão no Paraíso.



“Quem bem servir à Virgem, irá ao Paraíso.”

Sobre isso quero vos contar agora um grande milagre que fez Santa Maria a um monge que sempre lhe pedia para ver o bem que há no Paraíso, e que ele o visse antes de morrer.

Veja o foi capaz de fazer a Gloriosa; fê-lo entrar num jardim já muitas vezes percorrido. Mas naquele dia fez que descobrisse uma fonte muito pura e formosa, e ele se sentou junto a ela.

E depois de lavar muito bem as suas mãos, disse: “Ah! Virgem, quando acontecerá de eu poder ver um pouco do gáudio do Paraíso que tanto Vos tenho pedido, antes de sair desta terra e assim eu saiba o galardão que teria aquele que pratica o bem?”

Assim que o monge acabou a oração, ouviu logo um passarinho que cantava tão belamente, que se esqueceu de tudo, e ficou ali a ouvir aquele maravilhoso som.

Ele encontrara tão grande prazer naquele canto e naquela canção que se passaram 300 anos ou mais, acreditando ter ficado por muito pouco tempo, como acontece com os monges quando visitam periodicamente o vergel.

Voou depois o passarinho, fato que lhe causou muita pena, e pensou: “Tenho de sair daqui, pois os meus irmãos de hábito vão querer saber onde eu estou”.

E assim tomou a trilha que o conduzia ao mosteiro. Ei que se depara com um grande pórtico que jamais tinha visto, e exclamou: “Valha-me Santa Maria!” É este o meu mosteiro? O que será de mim?

Em seguida entrou na igreja e grande foi o pavor que tiveram os monges quando o viram. O prior se dirige a ele e lhe pergunta: “Amigo, quem és tu e o que procuras aqui?”

Disse ele: “Procuro meu abade, que há pouco deixei e ao prior e aos frades dos quais me separei quando fui ao jardim; quem me poderá dizer onde estão?”

Quando o abade ouviu isso pensou tratar-se de um louco, mas ao saber bem o que tinha acontecido, disse: Quem ouviu tão grande maravilha como a que Deus fez a ele pelos rogos de sua Mãe, a Virgem de incomensurável valor?

E A louvemos por isto, pois quem A louvar, não louvará mais coisa alguma criada. “Por Deus que é muito justo fazê-lo, pois a garantia de tudo o que pedimos, Ele nos concede, e aqui ficou demonstrado o que nos há de ser dado”.

Video: Quem bem servir a Virgem irá ao Paraíso






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domingo, 21 de setembro de 2014

Réveillon tumultuado no castelo


Na manhã de Natal do ano de graça de 1212, a fortaleza de Vergy, situada sobre esta célebre e fantástica montanha, estava recoberta com um espesso manto de neve que lhe ficava muito bem.

No vasto pátio, a guarnição tinha aberto caminhos que conduziam às torres de defesa, aos prédios de serviço e aos grandes salões. Estas passagens conferiam à neve o ar de uma renda.

Do alto desse ninho de águia, a paisagem se mostra suntuosa. Os harmoniosos vales apareciam ainda mais suaves pela neve. Por todos os lados se viam aldeiazinhas feéricas de cujas chaminés se desprendiam dezenas de colunas fantasiosas de fumaça azulada e prazenteira.

Uma floresta de altas árvores rodeia o bastião, cada uma das quais se assemelhava a um grande candelabro de prata aceso para a festa.

Pelos caminhos que levam a Vergy grupos de cavalheiros e damas a cavalo chegavam dos castelos vizinhos. Eles pareciam quase desaparecidos entre suas roupagens de lã e seus veludos forrados com pele de raposa.

Seus narizes estavam vermelhos de frio, mas seus olhares brilhavam de alegria. Eram os convidados do Duque Eudes III e da duquesa Alix, que haviam decidido celebrar nesse Natal uma missa de ação de graças pelo nascimento de seu filho Hugo IV, acontecido na primavera.

Entre os visitantes que se dirigiam a Vergy havia um cortejo particularmente destacado: era o de Dom Arnaud II, abade de Cîteaux, grande personagem a quem o Duque pedira que prestigiasse com sua presença a cerimônia e celebrasse a missa pelo bebê.

Dom Arnaud aceitou. Uma escolta de cavaleiros e homens de armas deixou então a fortaleza para ir a seu encontro e trazê-lo por um bom caminho, garantindo ao mesmo tempo sua segurança contra os percalços de uma terra onde abundam os lobos e os bandidos de estrada.

Familiares e amigos começaram a se reunir. Assistidos por suas respectivas mães e sogras, Eudes e Alix acolhiam os convidados na grande sala do castelo.

Tudo estava previsto para que e o frio e as fadigas da viagem se desfizessem junto ao grande fogo da lareira. Vinhos quentes e calorosas palavras de boas-vindas faziam o resto.

Cada um tinha um quarto reservado segundo sua condição, tendo Dom Arnaud recebido a mais bela peça do alojamento destinado aos cônegos.

O crepúsculo foi deslumbrante. Os convidados subiram em grande número nas muralhas e para ver o disco vermelho desaparecer por trás das densas florestas da serra de Bruant. O pôr do sol de inverno naquela região é sempre feérico.

O céu transparente da noite deixou brilhar uma constelação de estrelas. O ambiente ficou sobrenatural, os portadores de tocheiros iam e viam, lançando suas sombras em movimento sobre as pedras e fazendo faiscar os cristais de neve.

Tocheiros foram instalados ao longo de todo o caminho que conduzia à capela, as velas foram acesas. Naquela noite, a pequena igreja românica ia estar cheia como jamais esteve.

Abriram-se as portas e o personagem mais importante entrou primeiro: o abade de Cîteaux, sem dúvida, seguido pelo Duque e a Duquesa, depois pelas babás Mahaut e Adeline que levavam o berço do futuro Hugo IV. Logo em seguida vinham a família, os amigos e os convidados. No fim as portas foram fechadas.

O clero e os coroinhas estavam reunidos detrás do altar. Os olhos de toda a assistência estavam postos naquele que era chamado na época de “Papa dos cistercienses”.

Ninguém prestou atenção num monge de hábito escuro escondido atrás de uma coluna da capela lateral. Um grande capuz ocultava-lhe a cabeça, mas um observador atento teria ficado surpreso contemplando na sombra seus olhares negros desprovidos de amenidade.

Ele tinha essas silhuetas flexíveis que permitem passar despercebido e parecia absorto em fervorosa oração.

O abade subiu ao altar e começou o Introito da Missa de meia-noite: “Dominus dixit ad me; filius meus es tu...”

No momento em que ele pronunciava essas palavras, uma rajada de ar quente apagou velas e candeias, inclusive a lâmpada a óleo que ardia dia e noite junto ao Santíssimo Sacramento.

Um murmúrio de surpresa percorreu a nave da igreja, mas o oficiante não perdeu seu sangue frio e continuou como se nada tivesse acontecido, enquanto o bedel reacendia os pavios.

Depois, precedido pela cruz processional e pelos coroinhas, o oficiante deixou o presbitério em direção à nave, cantando o Kyrie com os fiéis.

Mas, a meio-caminho suas pernas se recusaram ir mais longe, como se tivessem ficado de chumbo. Ele já não mais podia fingir desconhecer este segundo fenômeno.

Seu canto ficou afogado em sua garganta. Os fiéis estavam profundamente perturbados vendo nesses fatos maus presságios para o futuro Duque.

Não podendo avançar, o abade se viu obrigado a voltar para o altar. Ninguém observou que o abade tinha se detido exatamente à altura onde estava aquele monge em oração.

Porém, a Missa continuou, com os cantos gregorianos mais emocionantes que de costume. Não era para menos, pois entre os presentes havia valorosos cavaleiros que deram prova de sua bravura no sítio de São João d’Acre, por ocasião da Cruzada.

Chegada a hora da Elevação, todo mundo aguardava o toque da sineta para se ajoelhar sobre o chão de pedra. Mas por mais que o coroinha tocasse a sineta, som algum se ouvia!

Todos receberam a comunhão. Chegara por fim o momento de o bebê ser consagrado a Deus.

Contudo, uma trovoada interrompeu o abade, um relâmpago iluminou a igreja, e todas as lâmpadas apagaram-se de novo. Uma luminosidade amarela e um odor de enxofre escaparam da capela lateral.

Desta vez a desordem atingiu um auge: os guardas abriram as portas, e a multidão, que não mais aguentava, precipitou-se para fora.

Vários guardas foram atropelados e jogados por terra por um ser impetuoso cuja sombra gigantesca enveredou pelo caminho do Grande Rochedo.

Como anfitrião cônscio de seus deveres, o duque Eudes deu ordens para que os convidados fossem conduzidos logo para a grande sala de jantar onde o festim estava preparado.

Entretanto ninguém tinha fome, nem ousava levantar o olhar ou romper o silêncio.

Por fim, Dom Arnaud se animou a falar: com sua voz forte e sempre calma, ele explicou o que tinha acontecido, não sem antes dar sua bênção.

Ele disse que essas manifestações provinham de Lúcifer, o qual durante muito tempo viveu em Vergy disfarçado no triste cavaleiro Rodolfo, aquele que dizia vir das margens do Reno e que tentara seduzir em vão Margarita de Vergy.

Desde então ele manifesta seu despeito agindo em torno da fortaleza.

Dom Arnaud prometeu celebrar uma Missa de exorcismo no dia seguinte.

Novamente aberta a capela, descobriu-se que as lajes da capela lateral estavam completamente carbonizadas.

Nos anos que se seguiram os visitantes vinham vê-las, com um misto de curiosidade e temor.

Essa estranha noite de Natal continuou a correr de boca em boca durante muito tempo na Borgonha.

Mas o demônio achava que não tinha desabafado todo seu ódio contra a poderosa fortaleza de Vergy.

E encontrou um instrumento no rei Henrique IV, que foi um caudilho protestante nas guerras de religião.

Esse rei ordenou destruir o castelo. Ao canteiro da demolição viu-se então chegar um homem extremamente alto, de força hercúlea, que assumia trabalhos desmesurados; destruía com tanto zelo que nem olhava para as horas suplementares.

Até se comenta no vale de Vergy que em todos os anos, durante a noite de Natal, estranhos fogos faiscantes e espectros de sans-culottes fazem uma sarabanda por cima das ruínas do castelo.

Mas ninguém foi tão louco para ir verificar se isso é verdade.

(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 55-58)



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domingo, 7 de setembro de 2014

A catedral submersa

A "catedral submersa" na baía de Douarnenez
Na sua História da Liga na Bretanha, de fins do século XVI, um certo cônego Moreau escrevia sobre a baía de Douarnenez:

“Encontram-se ainda hoje pessoas antigas que, estando a pescar, sustentam ter visto com frequência, nas baixas marés, velhas ruínas de muralhas”. Segundo essas testemunhas, tratar-se-ia de “grande obra de que nunca se ouviu falar”.

Algumas ruínas parecem indicar construções dos tempos dos romanos, que dominaram a região antes dos celtas.

Por outro lado, em dias de mar calmo, pescadores de Douarnenez diziam ter ouvido muitas vezes soar os sinos sob as águas da baía. E de vez em quando suas redes ou linhas apanhavam curiosos objetos.

Entre a lenda e a história real há sempre uma zona nebulosa, de incerteza. O fato é que Ys sublimou-se na atraente figura de uma bela cidade submersa, com uma catedral magnífica cujos sinos tangem ao sabor das ondas… ou dos anjos!

A beleza dessa lenda excita as imaginações, descrevendo Ys como a mais bela capital do mundo de então. Mais tarde Paris teria ocupado o seu lugar.

Um provérbio em língua bretã diz: “Depois que se inundou a cidade de Ys / Nada de mais belo se encontrou igual a Paris”.

Então a roda do destino deverá inverter-se, porque outro refrão diz: “Quando Paris for submersa, / A cidade de Ys ressurgirá”.

Ao tomar conhecimento de um sucinto relato dessa lenda, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira fez uma linda aplicação à fase da vida em que as pessoas ainda não perderam a sua inocência primaveril.

Teoricamente, todo católico que seja inteiramente fiel à graça sobrenatural poderia conservar a inocência até o final de sua vida. Na realidade, porém, a debilidade humana dificilmente o alcança.

Mas é possível! Muitos santos e santas conservaram a inocência mesmo em meio aos mais violentos combates, exteriores ou interiores, no anonimato de uma cela de convento como na vida pública ou familiar de um leigo. Assim uma Santa Teresinha do Menino Jesus, um São Francisco de Assis e tantos outros.

E quanto mais avançam os anos, tanto mais é pungente essa luta. É nessa fase que a pessoa, se não resolver ser santa, pode tornar-se cética, pragmática, materialista, sensual, ou simplesmente perder a fé!

Entretanto, se ela conservou um fundo de fidelidade à virtude, de religiosidade, de honestidade, de vergonha, ela poderá ainda ser tocada pelo eco dos sinos de uma catedral submersa no seu mar interior!

As infidelidades, pecados e omissões poderão ter obscurecido a visão maravilhosa da vida eterna, que afirmamos no Credo. Então nos sentimos num mundo em que a nossa Ys ideal está sepultada no mar dos nossos crimes ou da nossa vida banal sem Deus!

Entretanto, como os pescadores bretões, de vez em quando ouvimos o tanger de sinos que das profundezas nos traz à memória o mundo ideal para o qual fomos criados.

É o apelo da graça, ou da inocência! Em qualquer idade podemos abraçá-la e estabelecer com ela um conúbio para a eternidade. Creio ser bem esta a relação da lendária catedral submersa de Ys com a reconquista da inocência, na consideração de Plinio Corrêa de Oliveira.

(Autor: Gabriel José Wilson. Catolicismo, março 2014).

Um escritor virulentamente anticristão nos fornece um exemplo da persistência dos apelos dessa inocência apesar de uma vida ostensivamente pecaminosa. Trata-se de Ernest Renan que abandonou o seminário para viver atacando a Igreja no século XIX.

No livro “Lembranças da infância e da juventude” (“Souvenirs d'enfance et de jeunesse” Calmann Lévy Éditeur, 1897) escreveu:

“Uma das lendas mais espalhadas na Bretanha fala de uma pretensa cidade de Ys, que numa época desconhecida, teria sida engolida pelo mar.

“Mostra-se em diversos pontos da costa, o local dessa cidade fabulosa e os pescadores vos apresentam estranhas narrações.

“Nos dias de tempestade, garantem eles, vê-se em meio às ondas a ponta das agulhas de suas igrejas. Nos dias de calmaria, ouve-se subir do fundo dos abismos marítimos o toque dos sinos, modulando o ritmo do dia.

“Com frequência me parece que eu tenho no fundo do coração uma cidade de Ys que toca ainda sinos que obstinadamente convocam para os ofícios sacros uns fiéis que já não ouvem mais.

“Por vezes eu me detenho para prestar ouvidos a essas trêmulas vibrações, que me parecem provir de profundezas infinitas, como se fossem vozes vindas de outro mundo. Na medida em que eu me aproximo da velhice, sobretudo, eu me deleito durante o repouso do verão prestando atenção nesses rumores longínquos de uma Atlântida desaparecida”.

Era o apelo da graça, da inocência, que ainda se fazia ouvir num coração empedernido no mal!





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domingo, 24 de agosto de 2014

A pedra do Beuvray

É uma grande pedra, um penhasco, uma pedra colossal que todos os anos, na noite de Natal, durante a Missa do Galo, gira sobre si mesma.

Existe na Borgonha um grande número dessas pedras misteriosas que giram, abrem-se e deixam ver grutas ou cavidades.

Uma delas está no topo do morro de Beuvray, onde é protegida por um ente estranho: a Wivre.

Esta é uma serpente fabulosa – uma espécie de dragão demoníaco coberto de escamas brilhantes amarelas e verdes quase luminosas, que ao entrechocarem-se produzem um ruído especial e silvam enquanto a Wivre voa e reluz no ar.

Se a pedra de Beuvray requer tão terrível proteção é porque encerra um tesouro. E esse tesouro só é acessível num momento do ano, durante alguns instantes da noite de Natal.

Na hora da Missa, como que incomodado pela celebração dos santos mistérios, o dragão se afasta e – dizem— a pedra se mexe e deixa entrever o a atração sedutora do ouro, das joias resplandecendo discretamente sob a luz das estrelas.

Aqueles que abandonam o dever sagrado da Missa poderiam então entrar na gruta e pegar o que puderem antes de a Wivre voltar.

O atrativo do espetáculo e o apetite do lucro, não se importando em pecar contra Deus, tentaram a mais de um temerário. Porém, ninguém voltou a ver aqueles que pretenderam enganar a Wivre.

Uma viúva morava na aldeia mais próxima do lugar. Ela era muito pobre e tinha em filho muito engraçadinho para criar.

Todos os anos, no Natal, ela queria tratá-lo muito especialmente e dar-lhe presentes na proporção de seu amor. Mas como o dinheiro lhe faltava cruelmente, ela precisava antes de tudo lutar para dar-lhe de comer e aquecer sua pobre casa.

Subitamente, a pobre mulher começou a sonhar com o tesouro de Beuvray: “Algumas peças de ouro – pensava ela – seriam suficientes para nos fazer viver durante anos. Isso não seria nada para a Wivre...”

E ela tanto sonhou que um dia começou a transformar essas quimeras numa firme decisão.

Ao fazer certa vez o caminho da igreja, ela se afastou das vizinhas que iam com ela à Missa de Galo.

Ela levava consigo seu filho, que a escuridão da noite e a sofreguidão da mãe enchiam de terror. Ele se pendurava na saia da mãe, dificultando a cada vez mais empinada ascensão; lá encima a neve tinha virado gelo.

A mulher deu os últimos passos com o menino nos braços, quase correndo, e sua esperança lhe multiplicava as forças.

Por fim, ela chegou ofegante ao topo. A lenda não mentira, a pedra havia mudado de lugar. A mãe e o menino entraram na cavidade aberta e viram brilhar o ouro, as pedras preciosas, a prata, as joias, o tesouro completo.

Ela sabia que não tinha um instante a perder: tirou sua capa e, em sucessivas viagens, começou a depositar nela tudo quanto suas mãos endurecidas pelo frio podiam pegar.

O menino esquecera seus temores diante da beleza de todas essas coisas que brilhavam.

Enquanto carregava um último punhado de riquezas, a mãe ouviu um ruído surdo que a assustou, mal tendo tempo de reagir.

Um assobio espantoso anunciava que o dragão infernal voltava. Era preciso sair logo do local. Ela tentou pegar a mão de seu filho, mas sua saia ficou presa num espinheiro. E a pedra se fechou.

Ela começou a chamá-lo baixinho, para não atrair a serpente, depois falou seu nome cada vez mais alto, e no fim berrava e chorava, clamando por ele sem cessar.

A mãe compreendeu que o menino tinha ficado prisioneiro da pedra de Beuvray.

Só no amanhecer teve coragem de voltar ao lar. A casa estava silenciosa, sem os risos e as brincadeiras que faziam sua felicidade e que para ela, na realidade, valiam mais que todos os tesouros da Terra.

Todos os dias pela tarde ela voltava a subir o morro, e gemendo, suplicando, regando-a com suas lágrimas, girava em torno da pedra achando que com isso poderia apiedar a sinistra guardiã. As estações do ano passaram, mas ela não desanimava.

Veio por fim a noite de Natal, e uma esperança louca a fez como que voar: ela voltou ao topo do morro durante a Missa de Galo e viu que a pedra tinha girado mais uma vez.

Ela teve muito medo, pois na hora de aproximar-se da gruta aberta imaginava encontrar apenas uma comovedora pequena ossada.

Pedra do morro de Beuvray
Mas com sua pele rosada e as bochechas bem cheias, o menino estava sempre ali, brincando. Ele tinha crescido um pouco mais e não parecia em nada atemorizado. Tão logo viu a mãe, pulou em seu pescoço.

Ela o levou e deixou o buraco fechar-se, nada temendo quando ouviu a Wivre voltar. Lembrou-se apenas de que no ano anterior se esquecera de pegar a capa, que ela encontrou exatamente no local onde deixara; mas esta só continha pedras de cor cinza.

Ela percebeu então que não se podia roubar impunemente o ouro da Wivre, pois essa serpente trocava por pedra o ouro de alguém que lhe tocasse.

A mãe compreendeu ainda que a criança lhe fora devolvida porque sua perda a tinha feito esquecer o botim...

No ano seguinte, os dois foram cumprir a Lei de Deus e assistir à Missa da meia-noite. Dois anos sem Natal na vida de um menino é muita coisa.

As mães da Borgonha contam esta história a seus filhos para ensinar-lhes que o amor materno vale mais do que todas as riquezas deste mundo.

É por isso que elas os chamam de “meu tesouro”.

(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 38-42)



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