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domingo, 6 de abril de 2014

O trombeteiro de Nossa Senhora de Cracóvia

Igreja de Nossa Senhora, Cracóvia, Polônia
Conta-se até no longínquo Cazaquistão uma história ligada à mais alta torre da igreja de Nossa Senhora em Cracóvia.

Com 81 metros de altura, ela é conhecida como a Torre da Guarda. Ainda hoje é o ponto mais alto da cidade.

A vida nunca foi fácil em nenhuma parte, mas era especialmente difícil nos inícios da Polônia.

As cidades da Europa Central eram atacadas por hordas de bárbaros pagãos vindos da Mongólia, acumpliciados por vezes com aliados locais.

Em face do perigo, os conselheiros municipais de Cracóvia decidiram que um guarda ficaria sempre a postos no alto da torre de Nossa Senhora e alertaria os habitantes tão logo visse os mongóis se aproximarem.

Durante muitos anos, os guardas cumpriram sua missão a contento, alertando os habitantes da cidade diante das ameaças.

Por isso, fazer a guarda no topo da torre era tido como um privilégio reservado aos homens mais honrados e respeitáveis da cidade.

Cracóvia não somente era bela, mas também rica e as hordas de Tártaros a cobiçavam perpetuamente.

De início esparsos, bandos de Tártaros que pilhavam aldeais e cidadezinhas para roubar e sequestrar os habitantes começaram a se reunir.

Eles sonhavam estender seu império, conquistar a Polônia e a Hungria e seguir rumo ao Ocidente.

Em 1241, o príncipe polonês Henrique o Piedoso tinha detido a sua expansão e lhes infringiu uma pesada derrota em Legnica.

Porém, o príncipe pagou caro pela façanha: ele morreu no campo de batalha juntamente com a maioria de seus guerreiros e dos cavaleiros templários.

Pouco antes dessa formidável batalha, a horda tártara tentou conquistar Cracóvia.

No amanhecer de um dia do ano 1240, enquanto a cidade dormia, apareceu no horizonte a silhueta sinistra de um exército pagão que avançava envolto nas trevas matutinas.

O sentinela da Torre da Guarda foi o único que os viu chegar. Imediatamente começou a tocar a trombeta para dar o alarme e acordar o exército e os habitantes.

Ele tocou sem interrupção em direção dos quatro cantos da cidade.

Os tártaros apressaram o assalto. Porém, o guarda havia dado tempo à cidade para preparar a defesa.

Então um tártaro, povo muito hábil no uso do arco e flecha, jogou um dardo contra o guarda que lhe atravessou a garganta e interrompeu o toque de alerta.

Contudo, era muito tarde para pilhar Cracóvia, pois os soldados já estavam no alto das muralhas jogando flechas e pedras contra os assaltantes.

Altar mor da igreja de Nossa Senhora, Cracovia ©Luis Dufaur.
Altar mor da igreja de Nossa Senhora, Cracóvia
Os tártaros acabaram sendo repelidos.

O guarda que deu sua vida para salvar a cidade foi enterrado com todas as honras. Seu devotamento e seu sacrifício são lembrados até os nossos dias.

Desde então, a cada hora, um trompetista toca do alto da Torre da Guarda de Nossa Senhora em direção de todos os cantos da cidade, detendo-se abruptamente no momento correspondente àquele em que a flecha tártara cortou a vida do herói, há 800 anos.

De início ele toca em direção do Wawel – castelo real e cidadela da cidade. Depois se vira para a Torre da Prefeitura, a fim de avisar os conselheiros.

Em seguida toca em direção da Porta de Florian – entrada da cidade – e, por fim, em direção da Praça do Pequeno Mercado, bairro de mercadores e populares.

Ao meio-dia, ainda hoje a rádio polonesa transmite para todo o país o toque da Torre de Nossa Senhora de Cracóvia.

Nem sequer a longa opressão comunista conseguiu impedir a perpetuação do costume.

As reuniões solenes do Conselho Municipal começam ouvindo o toque.

No Cazaquistão e na Mongólia esta história é conhecida como “a lenda do trompete de ouro”.

(Fonte: “Légendes de Cracovie”, Wydawnictwo Wam, Cracóvia, 1972, p. 15 a 17)


Video: O trombeteiro de Nossa Senhora de Cracóvia




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domingo, 23 de março de 2014

Santa Maria, Senhor

Nossa Senhora com o Menino Jesus, Rottenbuch, Alemanha
Nossa Senhora com o Menino Jesus, Rottenbuch, Alemanha
Cantiga 350 do rei de Leão e Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
ESTA É EM LOUVOR DE SANTA MARIA 

Santa Maria, Senhor,
valei-nos onde mister for.

E valei-nos, Santa Maria,
pois precisamos que nos valhas,
pois tu por nos noite e dia
com o diabo disputas
e ainda penas
para encobrir nossas faltas,
e por nos dar alegria
com Deus sempre trabalhas,
pois tu es advogada
do povo pecador.
Santa Maria, Senhor,
valei-nos onde mister for.

domingo, 9 de março de 2014

O cavalo Lajkonik

A parada de Lajkonik se repete todos os anos em lembrança do épico feito
A parada de Lajkonik se repete todos os anos em lembrança do épico feito

Durante a Idade Média, a cidade polonesa de Cracóvia foi ficando cada vez mais bela e brilhante. Para ela se voltavam os povos vizinhos.

Foram assim nascendo em torno dela aldeias e cidadezinhas que viviam dependentes de sua riqueza, arte e comércio.

Uma dessas cidadezinhas que deitou raízes na beira esquerda do rio Vístula chamava-se Zwierzyniec.

Ela era habitada por barqueiros que transportavam mercadorias e toras pelo rio.

O trabalho não era fácil e pedia muito sacrifício, coragem, força e resistência nas dificuldades.

Eles não sabiam, mas certa vez uma horda tártara planejou atacar Cracóvia, aproveitando que durante o dia suas portas ficavam abertas.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Como a mãe de Cristo, São João Evangelista e São Francisco disseram a Frei Conrado qual deles sofreu maior dor da paixão de Cristo

Ordem Terceira de São Francisco, São Paulo, altar mor.
Ordem Terceira de São Francisco, São Paulo, altar mor.
No tempo em que moravam juntos na custódia de Ancona, no convento de Forano, Frei Conrado e Frei Pedro os quais eram duas luzentes estrelas na província da Marca e dois homens celestiais.

Entre os dois havia tanto amor e tanta caridade, que parecia terem ambos o mesmo coração e uma mesma alma.

E se ligaram por este pacto: que qualquer consolação que a misericórdia de Deus lhes desse, deviam revelar um ao outro por caridade.

Firmado entre ambos este pacto, sucedeu que um dia estava Frei Pedro em oração e pensando devotamente na paixão de Cristo.

E como a Beatíssima Mãe de Cristo e São João, diletíssimo discípulo, e São Francisco estivessem pintados ao pé da cruz, pela dor mental crucificados com Cristo, teve ele o desejo de saber qual dos três tinha sofrido dor maior com a paixão de Cristo.

Se a mãe, que o tinha gerado, ou o discípulo, o qual havia dormido sobre o peito, ou São Francisco, que com ele estava crucificado.

E permanecendo nesse devoto pensamento, aparece-lhe a Virgem Maria com São João Evangelista e com São Francisco, vestidos de nobilíssimas vestes de glória bem-aventurada; mas São Francisco parecia vestido de vestes mais belas do que S. João.

E estando Frei Pedro todo espantado com esta visão, S. João o confortou e disse-lhe:

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A espada de Cracóvia

As duas torres da igreja de Nossa Senhora
As duas torres da igreja de Nossa Senhora
Na praça central de Cracóvia, Polônia, ergue-se rumo aos céus a suntuosa igreja de Nossa Senhora.

Ela é tão bela, tão grande e tão bem localizada, que muitos ficam convencidos de que é a catedral da cidade.

Entretanto a catedral, também magnífica, fica na cidadela de Cracóvia, conhecida como Wawel, junto ao Palácio Real e outros prédios históricos admiráveis.

A igreja de Nossa Senhora começou a ser construída por volta de 1220 sobre os fundamentos de um antigo templo em estilo românico várias vezes reformado e que era a igreja principal da Praça do Mercado.

Ela apresenta duas torres de altura vertiginosa, coroadas por dois maravilhosos conjuntos de torrezinhas e agulhas muito diferentes, aliás, em cada torre principal.

A mais alta é conhecida como Torre da Guarda e do alto dela trombeteiros que se revezam anunciam ininterruptamente a hora, de dia e de noite, em direção dos quatro cantos principais da cidade.

A menos alta é chamada a Torre dos Sinos, pois nela há um imenso sino que, segundo uma outra lenda, no século XV foi levado até o topo por Stanislas Ciolek, um homem de força inaudita.

Por que as duas torres têm alturas diferentes?

Quando as autoridades municipais de Cracóvia decidiram reformar a igreja e elevar duas torres colossais, escolheram dois irmãos.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Santa Maria Estrela do dia

Nossa Senhora de Covadonga. Covadonga, Astúrias, Espanha.
Cantiga 100 do rei de Leão e Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
Santa Maria, estrela do dia, mostre-nos a via para se chegar a Deus, e guie-nos.

Porque fazes ver aos errados que se perderam em razão de seus pecados, e lhes fazes compreender que são culpados.

Mas Tu perdoas a ousadia que os levou a fazer loucuras que não deviam.

Tu deves nos mostrar o caminho para ganhar totalmente a luz sem igual e verdadeira que só Tu podes nos dar; pois a Ti Deus a concedeu, e quer dá-la a nós por meio de Ti, e há de nos dar.

Teu juízo pode nos guiar, mais do que ninguém, até o Paraíso onde Deus reina sempre jubilosamente e sorri para quem acredita n’Ele.

E agradar-me-á, se te agrada, que minha alma fique sempre na tua companhia.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Quem quer que confie na Virgem

Virgen de la Majestad, Espanha
Virgen de la Majestad, Espanha
Cantiga 167 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga conta como aconteceu que uma moura de Borja levou seu filho morto a Santa Maria de Salas, e como Ela o ressuscitou.

“Quem quer que na Virgem confie e roga veemente, Ela vai ser de seu auxílio ainda que tenha outra crença”.

Foi em razão disto que Santa Maria de Salas fez um milagre formoso e piedoso a uma moura de Borja cujo filho estava muito vigoroso, mas morreu o pobre coitado de uma forte doença.

Ela não sabia o que fazer pela dor que sentia pelo filho, mas via que as católicas iam a Santa Maria de Salas e ouviu falar dos milagres que Ela fazia; e teve a grande ousadia de depositar sua confiança na Virgem e encomendou-lhe o filho e apresentou oferendas.

Mas, às outras mouras que brigavam muito com ela por causa disto, ela lhes disse:

domingo, 24 de novembro de 2013

“Os 12 dias de Natal”

São Gabriel, Rodez, França
São Gabriel, Rodez, França

Há uma bela canção de Natal inglesa intitulada Twelve Days of Christmas (Os 12 dias do Natal), pouco conhecida entre nós.

Ela surgiu durante a época da perseguição anglicana contra os católicos naquele país, no século XVI.

Com a pseudo-reforma protestante, países como a Inglaterra, ao abandonarem o regaço da Santa Igreja e caírem na heresia, começaram a perseguir os católicos, tornando quase impossível a prática da verdadeira Religião.

Para comunicar aos fiéis a sã doutrina e poderem celebrar sem medo de represálias o Natal do Salvador, segundo a tradição da Santa Igreja, católicos ingleses compuseram tal música, que é um catecismo secreto, porquanto expressa em símbolos a realidade de nossa fé.

Ela foi também utilizada muitas vezes pelos católicos durante as perseguições anticristãs e anti-monárquicas da Revolução Francesa.

domingo, 17 de novembro de 2013

Os sarcófagos vazios de Quarré-les-Tombes

São Jorge, catedral de Estocolmo
São Jorge, catedral de Estocolmo

No coração da região de Morvan, na Borgonha (França), entre os límpidos rios Cure e Cousin, uma aldeia tem um nome curioso: Quarré-les-Tombes, algo como o Cercado das Tumbas.

O nome vem da presença sempre inexplicável de grande número de sarcófagos vazios – lá chamados de “pierres carrées”.

A concentração nesse local de milhares de túmulos sem os respectivos restos sempre excitou a imaginação popular.

A história começa no século nono da era cristã. Os normandos – ou vikings – que naquela época eram pagãos, invadiam a França e remontavam os rios a bordo de seus grandes barcos, os drakkar.

Eles não somente matavam, pilhavam e queimavam tudo na sua passagem, mas também arrasavam as igrejas e dispersavam as santas relíquias.

Lutar contra os normandos equivalia não somente libertar o território, mas também partir em cruzada e, por essa via, conquistar o Paraíso.

domingo, 10 de novembro de 2013

A fonte de Santa Reine

A fonte de Santa Reine, Alise, Borgonha
A fonte de Santa Reine, Alise, Borgonha

Havia pouco que a Gália se tornara cristã e os romanos já a atravessavam com estradas retas e seguras, templos de mármore e tijolo, fazendas bem ordenadas que eles chamavam de ‘vila’.

Em Alésia, César havia dado fim a Vercingétorix, acabando com a resistência dos gauleses.

Apesar da lembrança dos dias do sítio implacável, os nobres e os dirigentes empenhavam sua boa vontade em aplainar as dificuldades que podiam eclodir entre os novos senhores que pretendiam ser pacificadores, e os habitantes que povoavam os morros desde tempos imemoriais.

Os pontos de encontro eram a boa acolhida, o bom trato, a paciência, como também o comércio e os casamentos.

Romanos e gauleses trabalhavam para dar coesão ao país.

Porém, os romanos tinham um novo inimigo para combater: a religião cristã que se espalhava de modo cada vez mais rápido e profundo.

Foi nesse momento que um dia chegou a Alésia um certo Olibrius, prefeito do imperador, enviado para combater a nova religião.

Os nobres do burgo fizeram questão de recebê-lo bem. Visitando a casa de um deles, Olibrius deitou o olho em Reine.

domingo, 3 de novembro de 2013

De muitas formas Santa Maria nos protege do mal

Nossa Senhora com o Menino Jesus
Cantiga 258 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
Esta história conta como Santa Maria fez crescer a massa que uma boa mulher preparou para fazer pão.

“Aquela que viu como seu Filho saciava cinco mil homens com cinco pães pode multiplicar o que quiser”.

Por essa mesma razão vou contar-vos um milagre que fez Santa Maria em Provence, assim como eu o encontrei escrito entre muitos outros assim vo-lo contarei, pois sei que vos satisfará grandemente se o escutardes.

Naquela terra, segundo ouvi, houve um ano de muita escassez. Uma mulher muito boa que amava a Virgem Santa Maria mais do que a si mesma e, pelo que sei, dava por amor a Ela muitas esmolas a quem pedia de boa vontade e, segundo suas possibilidades, aos pobres a comida que tinha.

Por causa disso mandava vir muita farinha para poder assar mais tarde pão até fartá-los. Mas, naquele mau ano, consumiu logo todo o pão, inclusive aqueles que assou por conta da colheita, e quando tudo tinha esgotado acudiram até ela pobres muito famintos para pedir-lhe esmola como de costume.

Nesse momento ela estava amassando pão, e sem titubear deu-lhes toda a massa que havia preparado, sem ficar com nada para si.

Entrementes um dos filhos, a quem ela pedira para aquecer bem o forno, disse à sua mãe que podia levar os pães, pois o mesmo estava bem quente.

Envergonhada, ela confessou ao filho: “Por Deus, toda a massa que eu tinha dei para os pobres por amor da Santa Virgem, que é a luz destes meus olhos, para que obtenha que Deus perdoe meus pecados.”

Ouvindo isto, o filho queixou-se abertamente. Muito atrapalhada, a mãe voltou correndo para onde estava a massa que havia doado e verificou que a mesma não tinha sido usada nem estava estragada em nada.

domingo, 27 de outubro de 2013

Frei Conrado converte um jovem frade
e o livra das penas grandíssimas do purgatório


Frei Conrado de Offida, admirável zelador da pobreza evangélica e da Regra de São Francisco, foi de tão religiosa vida e de tanto mérito para com Deus, que Cristo bendito em vida e na morte o honrou com muitos milagres.

Entre os quais uma vez tendo ido como forasteiro ao convento de Offida, os frades pediram-lhe pelo amor de Deus e da caridade que admoestasse um frade jovem que havia naquele convento.

Esse jovem procedia tão infantilmente e desordenadamente que perturbava os velhos e os jovens daquela família.

E do oficio divino e das outras regulares observâncias pouco ou nada se importava.

Pelo que Frei Conrado, por compaixão daquele jovem e pelos pedidos dos frades, chamou à parte o dito jovem.

domingo, 20 de outubro de 2013

Aquela que abriu as portas do céu para nos salvar

Marienleuchter, Aldekerk
Marienleuchter, Aldekerk
Cantiga 246 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

“Aquela que abriu as portas do céu para nos salvar tem poder para abrir e fechar as portas deste mundo”.

Eu vos contarei um milagre sobre isso. Pelo que li e acreditei – aconteceu no Alcácer, onde uma muito boa cristã vivia e confiava na Virgem mais do que tudo.

Por amor a Nossa Senhora, sempre ia aos sábados a uma igreja para rezar e levar uma oferenda.

Em meio a muitas ocupações, um dia ela se esqueceu de que era sábado e ao se dar conta do ocorrido, já era demasiado tarde.

Arrependida, ela foi à igreja com o intuito de entrar, mas como o povoado ficasse longe da igreja, encontrou suas portas já fechadas ao chegar, e se pôs a rezar e a chorar do lado de fora.

Terminada a sua oração, viu as portas abertas, e, maravilhada, pois ninguém as abrira, dirigiu-se ao altar e depositou ali a sua oferenda.

Ao deixar os umbrais da igreja, percebeu as portas se fecharem por si mesmas e, pasmada, tomou às presas o caminho de volta ao povoado.

domingo, 13 de outubro de 2013

Como São Francisco livrou o frade
que estava em pecado aberto ao demônio

Estando uma vez São Francisco em oração no convento da Porciúncula, viu, por divina revelação, todo o convento cercado e assediado pelos demônios, como se fosse por um grande exército.

Mas nenhum podia, aliás, entrar dentro do convento; porque aqueles frades eram de tanta santidade, que os demônios não tinham meios de entrar neles.

Mas, perseverando todavia assim, um dia um daqueles frades se escandalizou com um outro, e pensava no seu coração como poderia acusá-lo e vingar-se dele.

Pelo que, continuando ele com este mau pensamento, o demônio, achando a porta aberta, entrou no convento e montou no pescoço daquele frade.

Vendo isto o piedoso e solícito pastor, o qual velava sempre por seus rebanhos, que o lobo entrara para devorar sua ovelha: mandou imediatamente chamar à sua presença aquele frade.

Então lhe ordenou que logo deveria descobrir o veneno do ódio concebido contra o próximo, pelo qual estava nas mãos do inimigo.

domingo, 6 de outubro de 2013

O campanário das fadas – ou dos anjos?

Dijon, a cidade dos cem campanários: a catedral no fundo, São Filiberto na esquerda

“Dijon é a cidade dos cem campanários!”

Esta exclamação histórica foi pronunciada no topo da fortaleza de Talant pelo rei Francisco I assim que ele descobriu a seus pés o espetáculo inesquecível da capital da Borgonha – França – emergindo da bruma matinal.

Foi numa manhã de 1515. Grande mecenas das artes durante o Renascimento, Francisco I partia com um exército rumo à Itália.

domingo, 22 de setembro de 2013

Muito devemos amar a Nossa Senhora

Nossa Senhora dos Bons Ares. Buenos Aires, Argentina
Nossa Senhora dos Bons Ares. Buenos Aires, Argentina
Esta cantiga conta como Santa Maria apareceu numa noite no mastro de uma nave que ia para Bretanha e libertou-a do perigo.

“Muito devemos amar com todo nosso coração a Senhora que afasta de nós males e tempestades.”

Disso deu prova a Virgem no mar da Bretanha, onde fez uma maravilha tão grande como nenhum outro santo pode realizar, quando Ela foi salvar uma nave que levava um mundo de homens procurando a boa fortuna que todos procuramos.

domingo, 15 de setembro de 2013

O demônio que virou roda

São Bernardo de Claraval. Heiligenkreuz, Áustria
São Bernardo voltou certa vez à sua aldeia natal – Fontaine, perto de Dijon – para encontrar junto à lagoa de sua infância toda a calma e toda a força de que necessitava.

Com efeito, através de sua eloquência e da força de convicção de sua fé, ele deveria arrastar para a segunda Cruzada tudo quanto na Europa havia de melhor na nobreza e nas classes populares de boa vontade.

Por isso ele precisava de um momento de contemplação e repouso em sua terra natal.

Tanto mais quanto havia tempo que inquietações e dúvidas o assaltavam e atormentavam, dando a impressão de que uma diabólica mão pesava-lhe sobre as costas, queimando-a.

Uma voz lhe murmurava palavras desencorajadoras e anunciava que seu projeto iria fracassar.

Imagens ora tentadoras, ora aterrorizantes desfilavam diante de seus olhos.

São Bernardo lutava contra o demônio com todo o poder da oração, sendo nisso ajudado pela tranquilizadora paisagem de seus jovens anos.

domingo, 8 de setembro de 2013

São Vicente, o vinho e o gelo

Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha
Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha

Na Idade Média, os monges cistercienses exploravam a quase totalidade do célebre vinhedo da Borgonha.

E isso com toda justiça, pois foram eles que desbravaram suas terras e plantaram as vinhas.

Pesados comboios saíam regularmente das vinícolas e adegas da região para irem prover as abadias das cidades.

Numa jornada muito fria de dezembro, num desses comboios que seguia para Dijon, dois monges bem agasalhados conduziam as charretes, que a todo o momento escorregavam sobre o gelo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Quem a Santa Maria algo der ou prometer

Esta cantiga conta como Santa Maria fez que se queimasse a lã dos mercadores que haviam oferecido algo à sua imagem, e pegaram tudo logo de volta.

Conta esta Cantiga o poder das relíquias e o castigo daqueles que não cumprem suas promessas à Virgem.

Um incêndio destruiu uma igreja de Laon (Leão do Ródano), onde se guardavam relíquias de Santa Maria numa arca de ouro (leite e cabelos da Virgem).

domingo, 11 de agosto de 2013

A penitência que fez florir o galho seco

Catedral de Sens, imagem da fachada
Catedral de Sens, imagem da fachada
São Bond foi um rico mercador espanhol que se estabeleceu na cidade francesa de Sens há bem mais de 13 séculos.

Os espanhóis têm fama de serem muito ciumentos e ele o era em excesso.

Não se saberia descrever o sofrimento de sua mulher pelos ciúmes do marido. Esses foram tais que acabaram virando doença.

O comerciante viajava com muita frequência e deixava sua casa para fazer os negócios, os quais, aliás, ele conduzia perfeitamente.

Porém, durante toda a sua ausência, devoram-no a desconfiança e a dúvida.

E quando voltava à casa já chegava com os nervos na flor de pele, prestes a explodir numa cólera tão violenta quanto injustificada.

Sua infeliz esposa era a que menos justificava esse tratamento.

Ela não recebia ninguém na ausência do marido, nunca saía e vivia sozinha na companhia de seus filhos e de algumas domésticas.

domingo, 28 de julho de 2013

Como Nossa Senhora salvou Constantinopla da sanha dos turcos




Esta cantiga [Cantiga 28 "Todo logar mui ben pode"] conta como Santa Maria defendeu Constantinopla dos mouros que a combatiam e acreditavam poder tomá-la.

Todo lugar que tem a Santa Maria como escudo pode muito bem ser defendido.

Disso eu vos quero contar, do fundo de meu coração, um milagre dos maiores que fez a Virgem sem par, que não quis se perdesse e fosse vencido o povo que Ela tinha que conservar.

Segundo o escrito que eu mesmo pude achar, após Constantinopla ter sido tomada pelos cristãos, veio um rei pagão para sitiar a vila, com uma hoste de pagãos, muito bravo e sanhudo ele, para tomar a cidade pela força e tornar-se o homem mais temido.

domingo, 14 de julho de 2013

A pergunta do anjo ao frade cheio de soberba
e o que aconteceu depois

E o jovem bateu na porta fortemente
E o jovem bateu na porta fortemente.
Fundo: viela de Assis

No princípio e fundação da Ordem, quando havia poucos irmãos e não havia conventos estabelecidos, São Francisco, por devoção, se foi a Santiago de Galícia, e levou consigo alguns irmãos, entre os quais um foi Frei Bernardo.

E seguindo assim juntos pelo caminho, acharam numa terra um pobre enfermo, do qual tendo compaixão, disse a Frei Bernardo: “Filho, quero que fiques aqui servindo a este enfermo”.

E Frei Bernardo, ajoelhando-se humildemente e inclinando a cabeça, recebeu a obediência do santo pai e ficou naquele lugar; e São Francisco com os outros companheiros foi a Santiago.

Ali ficando reunidos e estando de noite em oração na igreja de Santiago, foi por Deus revelado a São Francisco que ele devia fundar muitos conventos pelo mundo.

Porque sua Ordem se devia dilatar e crescer em grande multidão de frades; e por esta revelação começou São Francisco a estabelecer conventos naquela região.

E, voltando São Francisco pelo mesmo caminho, encontrou Frei Bernardo mais o enfermo com o qual o havia deixado, e que estava inteiramente curado.

E no ano seguinte permitiu a Frei Bernardo que fosse a Santiago; e assim São Francisco voltou ao vale de Espoleto; e aí ficaram em lugar deserto ele e Frei Masseo e Frei Elias e alguns outros, os quais tinham muito cuidado em não aborrecer ou perturbar São Francisco em sua oração.

domingo, 30 de junho de 2013

Nossa Senhora não deixou sair o ladrão



Cantiga de Santa Maria 302 “A Mãe de Jesus Cristo”; Cantiga 424 “Pois que dos Reis é Nosso Senhor”, de Affonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela (1221-1284)

Esta cantiga é do homem que furtou a seu companheiro o dinheiro da esmola em Santa Maria de Montserrat e não conseguiu sair da igreja enquanto não o devolveu.

A Mãe de Jesus Cristo, que é Senhora de nobreza, não consente que na sua casa se cometam furtos nem vilanias.

E sobre isto eu vou vos contar um grande milagre que homens de confiança me contaram como sendo muito verdadeiro, e juraram ter sido feito por Santa Maria de Montserrat, incluindo o que fez um homem ruim para manifestar sua vileza.

domingo, 16 de junho de 2013

Como o arcebispo Turpin soube
da partida de Carlos Magno para o Céu

"Eu Turpin, arcebispo de Reims, estando em Viena, após ter celebrado a Missa em minha capela, como estava só para dizer minhas horas, tendo começado o Deus, in adjutorium meum, ouvi passar sob minhas janelas um grande bando que atraiu minha atenção; ele marchava em meio a muito barulho e clamores.

Abri a vidraça para ver o que causava esse tumulto; e, adiantando a cabeça, reconheci que era uma legião de demônios, mas tão numerosos que não era possível contá-la.

Ainda que eles fossem a grandes passos, percebi entre eles um demônio menos alto que os outros, cujo aspecto, contudo, era horrível.

Ele era precedido por um primeiro grupo, e marchava na liderança do segundo, que se entrelaçava após ele, a alguns passos de distância.

Eu o conjurei, no nome do Criador e pela fé cristã, de me declarar in loco aonde ele ia com esses grupos.

– Nós vamos, me respondeu ele, nos aproveitar da alma de Carlos Magno, que, nesse momento, parte desse mundo.

– Ides, eu lhe disse; e, pela mesma ordem que já vos destes, eu vos adjuro de passar novamente por aqui para me relatar o que tereis feito.

domingo, 2 de junho de 2013

O sobrenatural e o maravilhoso na vida do medieval

Junto ao mar, numa península com forma de cruz, um santo eremita construiu um mosteiro nos tempos que a Gália, ainda não era a França.

Mas o mosteiro foi derrubado. Algum tempo depois, um outro veio e construiu outro mosteiro.

E esse mosteiro foi derrubado, se minha memória não me trai, por ocasião da Revolução Francesa.

Se no Reino de Maria se mandar construir um mosteiro em louvor a Nossa Senhora nessa península, com sentido reparador, etc., vai ser muito bonito.

Há um certo lugar na França onde se tornou lendária a presença de um homem que teria vivido lá pela alta Idade Média, conhecido como “o louco da floresta”.

Esse homem era doido, e ele apenas sabia dizer "Ave Maria!". Com todas as pessoas que ele encontrava ele só dizia "Ave Maria!"