domingo, 26 de junho de 2016

As lendas da Torre Sem Veneno

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Acima de Grenoble, no pé das montanhas de Vercors, um pedaço de muro vigia o vale de Grésivaudan.

Essa ruína tem uma história, a dos senhores de Seyssinet. Aliás, sobre ela corre não uma lenda, mas muitas.



Terra de Jerusalém

Para que seus senhores partissem na Cruzada, o Delfim prometeu conceder terra aos corajosos. O senhor de Pariset soube quais terras lhe seriam doadas.

Era um belo lugar para construir seu castelo. Mas, estava infestado de cobras!

Tendo concluído vitoriosamente sua Cruzada, ele trouxe uma sacola com terra recolhida junto ao Santo Sepulcro em Jerusalém.

Ele lembrava que no jardim do Paraíso, o diabo entrou dentro da serpente e que desde então esse animal rasteiro infestava a terra. Ele achou que só uma terra que tocou em Nosso Senhor poderia expulsá-lo.

Voltando, espalhou a preciosa terra e o milagre aconteceu. Ele pôs em fuga todos os répteis venenosos que infestavam a região.

E um fabuloso castelo foi levantado naquele local antigamente amaldiçoado.



O mistério da mulher

Uma outra lenda conta que há muito tempo uma mulher curava as pessoas das picadas de serpentes.

Pois havia muitas cobras que moravam nas pedras de Vercors.

Os camponeses eram picados durante as colheitas, e as crianças se faziam morder reunindo feixes de galhos infestados com esse animal venenoso.

Todos eram curados por essa mulher de cabelos em desordem e mal penteados, e que agia secretamente.

Ela morava longe da aldeia, perto dos contrafortes de Vercors.

Com todo esse segredo e afastamento, a voz correu rapidamente: é uma bruxa! Pois uma mulher que se esconde para curar as picadas do diabo só pode recorrer à magia negra!

Foi ameaçada de ser levada à Justiça e punida com a morte. Então ela revelou seu segredo.

Ela tinha descoberto, um dia que foi picada por esse animal do diabo, que aplicando a terra do local misturada com ervas, a febre ia embora.

Desde então, ela virou a médica oficial da aldeia e a região ganhou o nome de SANS VENIN (SEM VENENO).



O senhor feudal bom

Mas, há ainda uma outra lenda: a do senhor feudal pacífico.

Houve um nobre senhor de Pariset, descendente do cruzado, que não era nada belicoso.

Ele sempre achava um jeito de arranjar as coisas sem usar violência.

Não era um homem covarde ou moleirão, nem mesmo carente de coragem.

Acontecia que ele tinha visto tantas guerras e tantos mortos que ele adotou o costume de sempre procurar um arranjo salutar para o bem de todos.

Foi assim que o povo dizia que ele não fazia mal, e que tudo o que falava era SANS VENIN.




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domingo, 12 de junho de 2016

O que aconteceu com o rei Ricardo da Inglaterra
quando pulou no mar para lutar contra os mouros

El Conde Lucanor, ilustração Víctor G. Ambrus
El Conde Lucanor, ilustração Víctor G. Ambrus.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Certa feita, o conde Lucanor afastou-se com seu conselheiro Patronio e lhe falou assim:

– Patronio, eu confio muito em seu juízo. E sei que você sabe aconselhar como nenhuma outra pessoa no mundo. Por isso vos peço aconselhar-me como melhor sabes no que vou dizer agora.

Você sabe muito bem que não sou mais jovem e, desde que nasci até agora, cresci e vivi sempre envolvido em guerras, às vezes contra os mouros, outras vezes com os cristãos, e na maioria delas contra reis, senhores, ou vizinhos.

Em minhas lutas com meus irmãos cristãos, embora eu tentasse que a culpa não fosse minha, foi inevitável que muitos inocentes recebessem um grande dano.

Fiz penitência por isso e por outros pecados que cometi contra Deus Nosso Senhor. Porém, vejo que nada nem ninguém neste mundo pode ter certeza de que hoje não vai morrer.

E tenho certeza de que, posta a minha idade, não vou viver muito mais tempo e sei que devo comparecer diante de Deus, que é juiz que não se deixa enganar por palavras.

É um Juiz que julga cada um por suas boas ou más ações. E eu tenho certeza de que, se Deus achar em mim pecados que merecem o castigo eterno, não poderei evitar as dores do inferno, e não há nada de bom neste mundo que possa aliviar a dor eterna.

No entanto, também sei que se Deus se mostrar misericordioso e me incluir no número dos seus no Paraíso, não há prazer ou alegria deste mundo que possa se igualar a essa.

E, como Céu ou no inferno já não há como mudar de lugar nem fazendo obras, peço-vos que, de acordo com o meu estado e dignidade, você me aconselhe a melhor maneira de fazer penitência por meus pecados e obter a graça diante de Deus.

– Senhor Conde, disse Patronio, muito me agradam vossas razões. E especialmente porque vos aconselhais de acordo com o vosso estado. Agrada-me muito ver vosso desejo de fazer penitência pelos vossos pecados, de acordo com o vosso estado e dignidade.

Tende como certo que se vós, Conde Lucanor, quisésseis deixar vosso estado e entrar em religião ou fazer vida retirada, não poderíeis evitar que vos acontecesse uma destas duas coisas:

A primeira é que seríeis muito mal julgado pelas pessoas, pois todos diriam que vós fazeis isso por pobreza de espírito e porque não vos apraz viver entre os bons;

A segunda, é que vos seria muito difícil suportar as asperezas e sacrifícios da vida conventual, e que se tivésseis de abandoná-la ou vivê-la sem respeitar a Regra como se deve, causar-vos-ia grande dano à alma e muita vergonha e perda de vossa boa fama.

Como vejo que vós tendes muito boas intenções, contar-vos-ei o que Deus revelou em vida a um santo eremita sobre o que aconteceria com ele e com o Rei Ricardo da Inglaterra.

O conde pediu-lhe então para lhe dizer o que aconteceu.

– Senhor Conde, disse Patronio, houve um eremita que teve vida muito santa, que era muito bom e fez muitas penitências para alcançar a graça de Deus.

E o Senhor foi misericordioso para com ele e lhe prometeu entrar no reino dos céus.

O eremita estava muito grato por essa revelação divina e, como estava certo de sua salvação, implorou a Deus mostrar-lhe quem seria seu companheiro no Paraíso.

Nosso Senhor lhe tinha dito pelo intermédio de um anjo que não deveria pedir uma coisa dessas, mas tanto insistiu o eremita que o Senhor concordou em lhe dar uma resposta.

Dessa maneira lhe fez saber por um anjo que o rei da Inglaterra e ele estariam juntos no Paraíso.

Tal resposta não foi do agrado do eremita, pois este bem sabia que o rei estava sempre em guerras e tinha matado, roubado e deserdado muitos, e levado uma vida oposta à sua, parecendo muito distante do caminho da salvação.

Por tudo isso o eremita ficou muito chateado.

Quando Deus nosso Senhor viu isso, enviou-lhe uma mensagem por meio do anjo para não reclamar ou ficar surpreso com o que Deus tinha dito, e que tivesse certeza de que o Rei Ricardo conquistou mais honra e mais prêmio diante de Deus com um só salto de cavalo do que o eremita com todas as suas boas ações.

O eremita ficou surpreso e perguntou ao anjo como podia ser.

O anjo então lhe contou que os reis da França, da Inglaterra e da Navarra tinham ido para a Terra Santa. E quando chegaram ao ponto do desembarque, todos armados para empreender a conquista, viram nas margens tantos mouros que duvidavam em descer.

Então o rei da França pediu ao rei da Inglaterra para vir a seu navio a fim de decidirem o que fariam.

O rei da Inglaterra, que estava a cavalo, após ouvir o mensageiro, mandou responder ao rei da França que, como infelizmente tinha injustiçado e ofendido a Deus muitas vezes em sua vida e sempre Lhe tinha pedido a oportunidade de fazer as pazes e apresentar desculpas, via que, graças a Deus, tinha chegado o dia que tanto esperava.

Porque, se morria, como havia feito penitência antes de deixar sua terra e tinha muitos remorsos, estava certo que Deus teria piedade de sua alma, e se os mouros fossem derrotados, seria para honra de Deus, e como bons cristãos eles só se poderiam se sentir muito ditosos.

Ricardo III, Coração de Leão. Estátua frente ao Parlamento de Londres. Inglaterra.
Ricardo III, Coração de Leão. Estátua frente ao Parlamento de Londres. Inglaterra.
E assim que disse isso, confiou seu corpo e sua alma a Deus, O invocou em sua ajuda fazendo o sinal da cruz, e convidou seus soldados a segui-lo.

E picando seu cavalo com as esporas, saltou para o mar em direção à costa onde os mouros estavam.

Embora tudo acontecesse muito perto do porto, o mar no local era muito profundo, de modo que o rei e seu cavalo foram cobertos pela água e pareciam não ter salvação.

Porém Deus, que é onipotente e muito piedoso, lembrando do que prometeu nos Evangelhos de que não procura a morte do pecador, mas que este se arrependa e viva, ajudou nesse perigo o rei da Inglaterra, impedindo sua morte carnal, concedendo-lhe vida eterna e salvando-o do afogamento.

O Rei, em seguida, atirou-se contra os mouros.

Quando os ingleses viram seu rei em combate, pularam todos no mar e correram para ajudá-lo contra os inimigos.

Vendo isso, como não suportam a desonra, os franceses acharam que seria uma afronta não se envolver no combate e pularam todos no mar e lutaram contra os mouros.

Mas estes, quando viram os cristãos iniciar seu ataque sem medo de morrer e tão bem-humorados, recusaram-se a enfrentá-los e, abandonando a fortaleza, fugiram em desordem.

Pondo pé em terra, os cristãos mataram quantos puderam alcançar e obtiveram a vitória, prestando grande serviço à causa de Deus. Tão grande vitória começou com o salto ao mar do rei de Inglaterra.

Ouvindo isto, o eremita ficou muito contente e compreendeu que Deus lhe concedia uma grande honra pondo-o como companheiro no Paraíso de um homem que O havia servido dessa maneira e que tinha glorificado a fé católica.

– E vós, Senhor Conde, acrescentou Patronio, se quiserdes servir a Deus e fazer penitência pelos vossos pecados, reparai os danos que podeis ter feito nesta terra.

Fazei penitência pelos vossos pecados sem ouvirdes as elegâncias do mundo, que é tudo vaidade.

E, posto que Deus vos entregou terras onde O poderíeis servir lutando contra os mouros por mar e por terra, fazei quanto possais para garantir o que já tendes.

Ricardo Coração de Leão socorre os cristãos sitiados em Jaffa. Gravura de Gustave Doré.
Ricardo Coração de Leão socorre os cristãos sitiados em Jaffa.
Gravura de Gustave Doré (1832 — 1883).
E deixando em paz vossos senhorios e tendo pedido perdão por vossas culpas, para fazer a devida penitência e para que todos bendigam vossas boas obras, podereis abandonar tudo, ficando sempre ao serviço de Deus e assim terminar vossa vida.

Esta é, na minha opinião, a melhor maneira de salvar vossa alma de acordo com vosso estado e dignidade. Por esta razão vós deveis acreditar que, pelo fato de servir a Deus desta maneira, não ireis morrer antes nem viver mais tempo na terra.

Se morrerdes servindo a Deus, vivendo como eu disse, sereis contado entre os mártires e estareis junto da Bem-aventurada Virgem Maria.

Embora possais não morrer em combate, a boa vontade e as boas obras farão de vós um mártir, e aqueles que quereriam vos criticar não poderão fazê-lo, pois todos verão que não abandonais a cavalaria, mas desejais ser cavaleiro de Deus e deixais de ser cavaleiro do diabo e das vaidades do mundo, que são perecedouras.

Agora, oh conde!, eu vos tenho aconselhado, como me pedistes, para que possais salvar vossa alma permanecendo em vosso estado. E assim vós imitareis o Rei Ricardo da Inglaterra, quando pulou no mar para iniciar uma ação gloriosa.

O Conde realmente gostou do conselho que lhe deu Patronio e pediu a Deus para ajudá-lo a pô-lo em prática, como seu conselheiro desejava.

E vendo o Infante Don Juan que esta era uma história exemplar, mandou incluí-la neste livro e compôs alguns versos que a resumem. E eles dizem assim:

Quem se acha cavaleiro
Esse salto deve imitar,
E não encerrado em mosteiro
por trás de altos muros ficar.


El conde Lucanor
El conde Lucanor é um livro narrativo da literatura de Castela medieval, escrito entre 1330 e 1335 pelo infante Don Juan Manuel, Príncipe de Villena.
O título completo e original em castelhano medieval é Libro de los enxiemplos del Conde Lucanor et de Patronio (Livro dos exemplos do conde Lucanor e de Patronio).
O livro compõe-se de cinco partes, sendo a série de 51 exempla ou contos moralizantes a mais conhecida.



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domingo, 29 de maio de 2016

Por que Deus quis ser Filho da Virgem

Igreja de Fuentidueña, Segovia, Espanha.
Igreja de Fuentidueña, Segovia, Espanha.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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Cantiga 38 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga conta como a imagem de Santa Maria estendeu o braço e segurou seu Filho, que ia cair devido à pedrada que Lhe jogou um saltimbanco.




Posto que Deus quisesse ser Filho da Virgem, para nos salvar a nós pecadores, por isso eu não me maravilho que Lhe doa ver quem O faz sofrer.

Porque Ela e seu Filho se acham unidos pelo amor, de maneira que nunca ninguém por nada poderá separá-los. Portanto, dão prova de serem muito néscios aqueles que vão contra Ela, acreditando que Ele não se sente concernido.

Isso fazem os malvados, que não querem compreender esse amor, e que a Mãe e o Filho estão de acordo em fazer o bem e castigar o mal.

Foi por isso que, há já muito tempo, aconteceu de o conde de Poitiers querer entabular batalha contra o rei da França, reunindo suas tropas em Chateauroux, num mosteiro de monges enclaustrados, que o conde mandou dispersar porque suspeitava que fossem entrega-lo aos franceses.

Enquanto os monges estavam sendo expulsos, pessoas muito más foram se meter no mosteiro: vagabundos, jogadores de dados, e outros, que levavam vinho para vender. E entre esses desventurados havia um que, quando começava a perder, injuriava os santos e a Rainha sem igual.

Mas uma mulher, que havia entrado na igreja por causa de seus pecados, foi até a sacristia onde os monges costumavam revestir-se dos sagrados ornamentos quando iam dizer as missas, porque ali estavam bem entalhados na pedra Deus e sua Mãe, logo se ajoelhou diante deles e começou a se culpar de seus pecados.

Virgem das Cruzadas, Puy-de-Dome, França.
Virgem das Cruzadas, Puy-de-Dome, França.
Quando o saltimbanco a viu, voltou-se com olhar irado e começou a maltratá-la, dizendo:

– “Velha, estão muito enganados os que querem acreditar nas imagens de pedra; e para que vejas quão enganados estão, eu vou espancar esses ídolos pintados.”

E logo foi lhes jogar uma pedra, que acertou no Filho, que tinha os dois braças alçados em atitude de bênção. E embora não tenha quebrado os dois, um logo caiu. Mas a Mãe pôs sobre ele os braços para levantá-lo, deixando cair a flor que tinha entre os dedos.

Maiores milagres ainda Deus mostrou ali, porque fez correr sangue brilhante da ferida do Menino Jesus sobre os panos dourados que vestiam a Mãe, que ficou com o busto nu.

Embora Ela não gritasse, começou a chorar e voltou os olhos tão irados, que todos os que podiam vê-la ficaram tão espantados que nem ousavam olhá-la.

E os demônios se reuniram logo contra aquele que tinha feito essa coisa, e porque eram homicidas bem pagos foram logo por cima dele e o mataram.

Outros dois saltimbancos endemoninhados que estavam ali tentaram esconder o corpo do facínora morto.

Sem embargo, os endiabrados com grande raiva começaram a ser todos consumidos e se afogaram no rio, porque o demônio não lhes deu trégua, para que fossem escarmentados todos quantos disto ouvissem falar.

Quando o conde soube o que tinha acontecido, acompanhado de cavaleiros armados foi se apear diante da igreja, e um desses cavaleiros mais atrevidos falou assim:

“Isto me faz doer o coração; ide procurar a pedra e trazei-ma, para ver se Ela quererá me sarar da pedra que entrou, rachando meu queixo, e por cujo conserto tive que pagar muitos dinheiros em vão”.

Quando isso falou, pôs sob a imagem suas pernas, lados e cabeça, e logo seus ossos ficaram bem soldados e ele expeliu uma pedra pela boca.

Vendo isso todos ficaram maravilhados, e ele colocou a pedra diante da imagem sobre o altar, sendo testemunhado por homens honrados.






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domingo, 15 de maio de 2016

Frei Pacômio, o monge que voltou 400 anos depois

Luis Dufaur
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Em princípios do século décimo, vivia num convento de beneditinos um santo religioso, chamado frei Pacômio, que não podia compreender como os bem-aventurados não se cansam de contemplar por toda a eternidade as mesmas belezas e gozar dos mesmos gozos.

Um dia mandou-o o Prior a um bosque vizinho, para recolher alguma lenha. Foi com gosto, mas mesmo no trabalho não o largavam as dúvidas.

De repente ouviu a voz de uma avezinha que cantava maravilhosamente entre os ramos. Ergueu-se e viu um animalzinho tão encantador, como jamais vira em sua vida. Saltava de um ramo para outro, cantando, brincando e internando-se na selva.

Seguiu-o frei Pacômio, todo enlevado, sem dar-se conta do tempo nem do lugar.

A certa altura a avezinha atirou aos ares o último e mais doce gorjeio e desapareceu. Lembrando-se então de seu trabalho, frei Pacômio procurou o machado para voltar ao convento.

Mas — coisa estranha! — achou-o enferrujado. Quis pegar o feixe de lenha que ajuntara, mas não o encontrou.

— Alguém mo terá roubado? — pensou.

Pôs-se a andar, mas não encontrava o caminho. Chegou, afinal, à beira do bosque, mas não encontrou o mato que tão bem conhecia. Ali estava agora um campo de trigo, em que trabalhavam homens desconhecidos.

Perguntou a um deles o caminho do mosteiro, pois de certo se havia extraviado. Todos olharam para ele com surpresa, e em seguida indicaram-lhe o mosteiro.

Chegou afinal ao mosteiro. Mas — grande Deus! — como estava mudado! Em lugar da casa modesta de sempre, viu um edifício magnífico ao lado de uma grandiosa capela. Intrigado, bateu à porta; um irmão desconhecido veio abrir.

— Sois novo aqui — disse-lhe Pacômio. — Eu venho do bosque aonde me mandou esta manhã o Prior D. Anselmo, para buscar lenha.

Admirado, o porteiro deixou ali o hóspede e foi avisar o Prior que estava na portaria um monge com hábito velho, barba e cabelos brancos como a neve, perguntando pelo Prior Anselmo.

O caso era curioso. O Prior, abrindo os registros do convento, descobriu o nome do Prior Anselmo, que ali vivera quatrocentos anos antes.

Continuou a ler, e achou nos anais daquele tempo o seguinte:

— Esta manhã frei Pacômio foi mandado buscar lenha no bosque e desapareceu.

Chamaram o hóspede e fizeram-no entrar e contar a sua história.

Frei Pacômio narrou o caso de suas dúvidas sobre a felicidade do paraíso, e o Prior começou a compreender o mistério.

Deus quis mostrar ao pio religioso que, se o canto de uma avezinha era capaz de encantar-lhe a alma por séculos inteiros, quanto mais a formosura de Deus há de embevecer os bem-aventurados por toda a eternidade, sem que eles jamais se cansem.


(Pe. Francisco Alves, C.SS.R., "Tesouro de Exemplos" - Vozes, Petrópolis, 1953)


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domingo, 1 de maio de 2016

O ladrão e o luar

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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E aconteceu assim: durante a noite um ladrão tentou entrar na casa de um homem rico. Era lua cheia e levou compinchas com ele.

Na casa havia uma janela através da qual entrava o luar. Mas o bom homem dono da casa acordou, ouvindo passos de alguém caminhando pelo telhado e achou que só podiam ser ladrões.

Ele então acordou sua mulher e lhe disse:

– “Fala baixinho: eu escutei passos de ladrões que andam pelo nosso telhado. Quando você ouvir que estão chegando perto, me pergunte em voz clara:

– “Ah, meu marido como é que você conseguiu tanta riqueza como nós temos?”

“E enquanto eu não responder, você continue me perguntando até que eu diga”.

E quando ela ouviu o ladrão, começou a pedir ao marido o que lhe ordenara, e o ladrão começou a ouvir o que eles falavam.

O marido não respondia o que ela lhe perguntava, e ela insistiu várias vezes até que ele disse:

– “Vou te dizer, porque você quer muito saber. Não se reúne tantas riquezas sem ladroeira”.

E a mulher então disse:

– “Como é que pode ser uma coisa dessas? Porque as pessoas que você conhece te têm em conta de homem bom” ...

E ele replicou:

– “É que eu encontrei uma sabedoria para roubar. É uma coisa muito secreta. E muito sutil! De maneira que nunca ninguém suspeitou de mim tal coisa”.

E a mulher disse:

– “Como é que você fez?”

domingo, 17 de abril de 2016

“Como Deus, fez vinho da água”
(Cantiga 23)

As bodas de Caná. Gerard David (1460 — 1523), Museu do Louvre, Paris
As bodas de Caná.
Gerard David (1460 — 1523), Museu do Louvre, Paris
Luis Dufaur
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Cantiga 342 & 127 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta Cantiga conta como Santa Maria mudou o vinho num tonel, por amor à boa dama da Bretanha.


“Da mesma maneira que Deus fez vinho da água nas Bodas de Caná, assim também depois Sua Mãe multiplicou bem o vinho”.

Sobre isto vos contarei um milagre que Ela fez na Bretanha, para uma dona muito sem mal, que Deus tinha dotado de bons costumes e habilidades, e que quis ficar na amizade d’Ela como um bom vizinho.

Dentre todas as bondades que essa dona tinha, sobressaía que confiava muito em Santa Maria, a qual por causa disso a impediu que passasse vergonha ante o rei que, no meio de uma viagem, parava em sua casa.

A dona, querendo servi-lo, esteve muito ocupada e deu-lhe carne e peixe, pão e cevada, mas estava muito desprovida de bom vinho e só tinha um pouquinho num pequeno barril.

Sua preocupação redobrava, porque embora ela quisesse comprar em sua região, não havia quem tivesse, nem que o vendesse por dinheiro ou por qualquer outra coisa que lhe oferecessem.