domingo, 28 de junho de 2015

A Cidade do Pavão




A umas léguas de Paleacate, porto da costa de Coromandel, no meio das brenhas da vegetação tropical, encontrava-se no século de quinhentos uma cidade morta e deserta.

[Nota: Costa de Coromandel é o nome dado à faixa marítima de Tamil Nadu, no sudeste da Índia, banhada pelo oceano Índico. Em Chenai, antiga Madrás se venera o túmulo de São Tomé Apóstolo]

Grande cidade, evidentemente, a julgar pelos montões de pedras, ricamente esculpidas, e colunas ornadas de finos lavores, que se viam espalhadas pelo matagal – ruínas de templos, palácios e outros edifícios imponentes, agora a esboroar-se debaixo do sol escaldante do Estio e chuvas da monção.

Cidade destruída pela invasão das hordas muçulmanas – diziam alguns –, devassada por uma incursão catastrófica do mar que tragou a população e arrasou as casas – opinavam outros.

Fosse como fosse, muito se contava do esplendor antigo de Meliapor, dos seus trezentos templos e maravilhosos paços.

O seu nome significava Cidade do Pavão, porque entre as aves outra não há mais formosa do que o pavão.

Não era todavia para contemplar restos de glórias transactas, que os viajantes ainda visitavam a Cidade do Pavão. Era que sobre estas ruínas pairava uma auréola de santidade.

Corria fama por todo o Oriente de que a extinta Meliapor guardava as relíquias dum santo.

Diziam-no gentios e muçulmanos com a mesma convicção, e os cristãos das antigas igrejas da Ásia afirmavam, como sabido e certo, que aqui veio, pregou, e morreu martirizado, o Bem-aventurado Apóstolo São Tomé.

Imaginemos pois o alvoroço sentido por meia dúzia de portugueses, quando, em 1517, tendo desembarcado em Paleacate, uns armênios ali residentes se ofereceram para guiá-los à sepultura de São Tomé.

Catedral de São Tomé Apóstolo, Chennai (ex-Madrás), Índia
Catedral de São Tomé Apóstolo, Chennai (ex-Madrás), Índia
Partiram todos a pé, e andaram seis jornadas até chegar à cidade abandonada.

No meio das ruínas, foi-lhes apontado um modesto edifício – o único ainda de pé, antigo e danificado, apresentando a forma de igreja cristã com abóbada alta e coruchéu, e tendo três portas de madeira lavrada.

Aí, encontraram um velho indiano, meio cego, e evidentemente pobre. Era – dizia – o guardião desta casa, quem a varria e limpava, como o tinham já feito seus pais e avós e granjeava algumas esmolas para pagar o azeite da candeia, que acendia quando chegavam peregrinos.

Alumiados por esta, os portugueses penetraram no interior cheio de sombras, entre as quais descortinaram três naves e uma capela-mor, com cinco pavões esculpidos e cruzes gravadas nas paredes circundantes.

Em duas capelas laterais, viam-se duas sepulturas, cada qual do tamanho do corpo de um homem. Do lado direito, informaram os armênios, jazia o Apóstolo Bem-aventurado, e, à esquerda, estava enterrado o companheiro, São Matias.

Rogaram então ao velho que lhes narrasse tudo quanto sabia da história estranha deste lugar sagrado, e ele, de boa vontade, anuiu.

Havia muitos e muitos anos – talvez uns mil e quinhentos –, dizia o seu pai, que o ouvira de seus bisavós, os quais por sua vez o tinham ouvido aos antepassados, e o mesmo contavam os mais antigos desta terra – que em Paleacate desembarcaram dois estrangeiros, oriundos de terras remotas e então chegados da China.

Andando na praia, eles viram os elefantes do rei a puxarem com toda a força um pau enorme, lançado pelo mar, sem que o conseguissem. O principal dos recém-vindos pediu ao rei que lhes desse o lenho.

“Leva-o – respondeu ele, a rir – se puderes com o peso!”

Então, perante o espanto de todos, o homem desapertou o cinto, amarrou-o ao pau, que primeiro benzeu, e, tranquilamente, sem o menor esforço, foi-o levando atrás de si umas doze léguas, sertão dentro.


São Tomé toca nas chagas de Cristo. Museu The Cloisters, New York. Originário de Carinthia, Áustria.
São Tomé toca nas chagas de Cristo.
Museu The Cloisters, New York. Originário de Carinthia, Áustria.
Um santo, sem dúvida nenhuma! clamou a multidão, e onde parou com o lenho, o rei deu-lhe licença para fazer casa.

Todo o povo acorreu a ajudar. Queriam ser pagos em dinheiro ou em mantimentos? – perguntou o santo.

Aos que diziam dinheiro ele dava cavacos da obra, que se tornavam moedas; aos que optavam por comida, enchia as abas de areia, que logo se transformavam em arroz!

Assim a casa ergueu-se depressa, o santo ficou lá a viver, pregou o Evangelho e fez grandes milagres na terra.

O próprio rei converteu-se e foi baptizado com toda a família e muitos dos súbditos, apesar da oposição furiosa dos brâmanes.

Estes conseguiram provocar um motim contra o pregador das novas doutrinas, fazendo-o apedrejar e atravessar por uma lança. Isto conforme os mais entendidos.

O povo, todavia, contava a coisa de outra maneira!

O santo costumava ir rezar para o ermo da serra e – certamente para que não o incomodassem – transformava-se muitas vezes num pavão.

Ora aconteceu, certo dia, que um caçador, deparando com um grupo de lindos pavões no cume da montanha, atirou com a lança ao mais formoso.

Qual não foi o seu espanto quando viu a bela ave tomar a forma de homem – de um homem ferido de morte!

Quisera fugir, mas o santo deteve-o. que não se assustasse – pois a sua morte era da vontade do Senhor.

Que chamasse mesmo os seus discípulos para que o enterrassem na sua casa.

Assim se cumpriu e, desde então, todo o povo venerava esta sepultura, onde achava cura milagrosa para os seus males.


(Autor: Elaine Sanceau, “Recortes de pequena história”)


O túmulo de São Tomé Apóstolo em Chennai, ex-Madrás, Índia
O túmulo de São Tomé Apóstolo em Chennai, ex-Madrás, Índia
Nota: quando do tsunami de dezembro de 2004 que devastou toda aquela região, o templo que guarda supostas relíquias ficou imune às ondas gigantescas que destruíram todas as construções adjacentes.

Uma antiga tradição afirmava que um poste fixado pelo apóstolo limitaria até o fim dos tempos as águas, que jamais o ultrapassariam.

Este poste existe até os dias atuais e se localiza exatamente na porta principal da igreja que guarda suas relíquias.

Isto deixou os sacerdotes hindus desconcertados e os mesmos prometeram não mais perseguir e discriminar os cristãos daquelas plagas. Fonte: Wikipedia, verbete São Tomé.



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domingo, 14 de junho de 2015

Nossa Senhora e a monja fugitiva do mosteiro




Num antigo e austero mosteiro habitava uma monja muito jovem, chamada Beatriz, de grande piedade em sua vida religiosa e profundamente devota de Santa Maria, a quem consagrara a metade de sua vida.

Continuamente a viam de joelhos diante do seu altar, em fervorosa veneração, oferecendo sua esplêndida juventude e angélica pureza à sua Santíssima Mãe.

A abadessa e todas as irmãs do convento lhe professavam grande carinho, por sua bondade e doçura, e a nomearam para o cargo de sacristã da igreja, que ela desempenhava com grande zelo.

Porém, sendo Beatriz extraordinariamente bela, despertou a paixão de um clérigo que freqüentava o mosteiro. Tentou convencê-la a fugir do convento com ele. Mas Beatriz, que a princípio resistia com firmeza, sentia desfalecer suas forças ante os embates daquela forte tentação.

Procurava rezar, porém sua devoção se havia convertido em aridez de espírito, e sua imaginação voava muito longe, sentindo fastio na oração. Numa ocasião em que a igreja estava deserta, o enamorado conseguiu enfim que a monja consentisse em fugir com ele.

Antes de partir, ela se prostrou de joelhos ante a Virgem, dizendo:
— Soberana Senhora, eu te servi honestamente durante a vida toda, até hoje, e não posso conter esta força que me arrasta longe de ti. Entrego-te e te encomendo as chaves desta igreja.

E depositando as chaves sobre o altar, fugiu com o clérigo.

Transcorreu pouco tempo, e o clérigo, uma vez satisfeita sua paixão, abandonou Beatriz, que caiu com a alma desgarrada e grande confusão de espírito.

Sem atrever-se a voltar ao convento, transformou-se numa mulher pública, levando vida ímpia e vergonhosa durante quinze anos, torturada pelos remorsos de sua consciência e conservando uma vaga esperança de perdão.

Passava um dia diante do mosteiro, e sentiu o desejo de parar, para saber o que pensavam da irmã sacristã.

Aproximou-se da porteira do convento, e perguntou:
— Diga-me, irmã, como está Beatriz, a sacristã?

A porteira respondeu:
— Vai muito bem, tão santa e devota como sempre, desempenhando maravilhosamente seu ofício de sacristia. Todas as religiosas a admiram. Já está no convento há vinte e seis anos, demonstrando grande piedade.

Beatriz ficou pensando nas misteriosas palavras que acabava de ouvir, mas sem poder compreendê-las. Então lhe apareceu a gloriosa Virgem, dizendo:
— Beatriz, minha filha, durante quinze anos, em figura tua, Eu desempenho o ofício de sacristã. Volta ao mosteiro, e continua servindo como se nunca tivesses saído, porque nada sabem de teu pecado. Crêem que continuas em teu posto. Faze penitência para alcançar o perdão de teus muitos pecados.

E nesse momento desapareceu. Beatriz regressou ao convento, e voltando a tomar seus hábitos e as chaves, continuou o ofício de sacristã, sem que ninguém chegasse a se dar conta de sua volta.

Unicamente o confessor, a quem revelou sua vida e seus pecados, era conhecedor daquele milagre.

Impôs-lhe severas penitências, que Beatriz cumpriu com rigor, edificando suas companheiras com o exemplo de suas virtudes heróicas e sua santa vida cheia de sacrifícios, para expiar suas culpas.

Chegada sua última hora, Beatriz chamou toda a comunidade, que a rodeou em seu leito de morte, e em alta voz confessou seu pecado, descobrindo o prodígio de misericórdia operado por Nossa Senhora, que durante quinze anos desempenhou por ela o cargo de sacristã. Foi tudo isso atestado pelo confessor.

E morreu santamente naquele instante.

Todas as monjas ficaram admiradas daquele portento, e deram graças à sua Mãe Celestial, que havia feito aquele favor para a religiosa.



(V. Garcia de Diego, Antología de Leyendas de la Literatura Universal - Labor, Madrid, 1953)


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domingo, 31 de maio de 2015

As doze palavras ditas e retornadas

Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.
Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.



Era uma vez um homem muito trabalhador e honrado, mas infeliz em todo negócio em que se metia. Tinha ele devoção ao Anjo da Guarda, rezando todos os dias em sua intenção.

Cada vez mais pobre, o homem perdeu a paciência, e um dia gritou, desesperado com sua triste sina:
— Acuda-me o diabo, que o Anjo da Guarda não me quer ajudar!

Apareceu um sujeito alto, todo vestido de preto, barbudo e feio, com uma voz roufenha e desagradável:
— Aqui estou! Aqui estou! Que é que queres de mim?
— Quero ficar rico.

O diabo indicou uma gruta onde havia um tesouro enterrado, e disse:
— Daqui a vinte anos voltarei para buscar-te. Se não disseres as doze palavras ditas e retornadas, serás meu para toda a eternidade.

O homem começou a viver folgadamente, em festas e alegrias, cercado de amigos e de mulheres.

O tempo foi passando, e uma noite ele lembrou-se de que estava condenado às penas do inferno. Só se soubesse as doze palavras ditas e retornadas...
— Isso deve ser fácil — disse ele consigo. — Todo mundo deve saber.

No dia seguinte perguntou aos amigos, aos vizinhos e a todos os moradores da cidade, e não havia quem soubesse o que vinha a ser o que ele lhes perguntava.

O homem afligiu-se muito. Cada vez mais o tempo passava, e ninguém sabia o segredo das doze palavras ditas e retornadas. Largou ele a vida má que levava, fez penitência e saiu pelo mundo, perguntando. Todos diziam:

São Miguel Arcanjo. Pacino di Buonaguida (1280 – 1340).
— Não sei, nunca ouvi falar...

O homem só faltava morrer, com o pavor da ideia de ter de encontrar-se com o diabo e ser carregado para o fogo eterno.

Já correra muito tempo desde que deixara o folguedo dos ricos, vestindo com modéstia e dando esmolas.

Uma tarde, ia por um bosque na hora da "Ave-Maria". Ajoelhou-se para rezar, e ao terminar viu um velho que se aproximava dele.

Cumprimentou-o, e foram andando juntos para a vila. Perguntou ao velho como ele se chamava.
— Chamo-me Custódio — respondeu.

Para não deixar de perguntar, falou nas doze palavras ditas e retornadas. E o velho Custódio lhe disse:
— Eu sei as doze palavras ditas e retornadas.

O homem ficou tão satisfeito que abraçou o velho, dando graças a Deus e dizendo que aquilo era um milagre do Anjo da Guarda, sua devoção antiga.

— Como são as doze palavras ditas e retornadas? Qual é a primeira, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! A primeira palavra dita e retornada é a Santa Casa de Belém, onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, para nos remir e salvar.

— E as duas palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As duas palavras ditas e retornadas são as duas tábuas de Moisés, em que Nosso Senhor pôs seus divinos pés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as três palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo não! As três palavras ditas e retornadas são as três pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as duas tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

São Miguel Arcanjo. Fragmento de um Gradual. Cracóvia, Polônia
— E as quatro palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As quatro palavras ditas e retornadas são os quatro evangelistas, as três são as pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as cinco palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As cinco palavras ditas e retornadas são as cinco chagas de Nosso Senhor.

— E as seis palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As seis palavras ditas e retornadas são as seis velas bentas que estão no altar-mor de Jerusalém.

— E as sete palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As sete palavras ditas e retornadas são os Sete Sacramentos.

— E as oito palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As oito palavras ditas e retornadas são as oito bem-aventuranças pregadas por Nosso Senhor Jesus Cristo.

— E as nove palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As nove palavras são os nove meses que a Virgem Mãe trouxe Nosso Senhor.

— E as dez, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As dez palavras ditas e retornadas são os Mandamentos da Lei de Deus.

São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
— E as onze palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As onze palavras são as onze mil virgens.

— E as doze, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As doze palavras ditas e retornadas são os doze apóstolos, as onze são as onze mil virgens, as dez os Mandamentos, as nove os meses de Nossa Senhora, as oito as bem-aventuranças, as sete os Sacramentos, as seis as velas bentas, as cinco as chagas, as quatro os evangelistas, as três a Santíssima Trindade, as duas as tábuas de Moisés, a primeira a Santa Casa de Belém, onde nasceu quem nos salvou. Amém! Estas são as doze palavras ditas e retornadas.

— De joelhos te agradeço, amigo Custódio, essa esmola, a qual há de salvar-me do demônio!

— Custódio, sim, e teu amigo. Sou o Anjo da Guarda que vem perdoar-te pelo arrependimento e pela penitência.

E sumiu-se. O homem, quando chegou o prazo para prestar contas ao diabo, disse as doze palavras ditas e retornadas, e o maldito rebentou como uma bola de fogo, espalhando cheiro de enxofre.

O homem viveu santamente seus dias, e acabou na paz de Deus, salvando-se graças ao seu Anjo da Guarda.

(Fonte: “Maravilhas do conto popular” - Cultrix, SP, 1960)



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domingo, 17 de maio de 2015

A lenda de São Goar e o colar de Carlos Magno

São Goar




São Goar foi sacerdote e confessor na cidade de Tréveris (Trier). Sua festa litúrgica, inscrita no Martírológio Romano, comemora-se a 6 de julho. Exerceu grande influência moral na região que vai desde Estrasburgo, na França, até Nimega, na Holanda.

Uma pequena cidade situada às margens do Reno, na Alemanha, leva o nome do Santo. É aí que se pode ouvir o relato de sua lenda.

São Goar era contemporâneo de Carlos Magno, e em consequência assistiu à luta do grande Imperador contra os infiéis. Portanto muito tempo o Santo lamentava amargamente não poder ajudar o filho de Pepino de outro modo, a não ser com suas orações.

São Goar era não somente eremita, mas também barqueiro. Ele estava tomado por essa pena ao ir recolher um viajante na margem direita do Reno, que lhe tinha feito sinais para vir erguê-lo. Nisso, subitamente, veio-lhe uma ideia que lhe pareceu ser de tal maneira uma inspiração do Céu, que resolveu colocá-la em execução no mesmo instante.

Com efeito, assim que São Goar chegou com o viajante ao meio do Reno, ou seja ao ponto onde o rio é mais rápido e profundo, parou de remar e perguntou a seu passageiro de que religião era.

domingo, 3 de maio de 2015

O Rei Midas: o avarento que morreu de fome

Tudo o que tocava virava ouro... até morrer de fome!!!
Tudo o que tocava virava ouro... até morrer de fome!!!



Narra a mitologia que o rei Midas era muito avarento.

Por ter tratado bem a Sileno, seu prisioneiro, recebeu dos deuses a grande recompensa de converter em ouro tudo quanto sua mão tocasse. Uma bela fortuna, não é verdade?

Fora de si de contente, aquele rei tocou seu bastão, e o bastão se converteu em ouro cintilante.

Tocou a parede, e a parede tornou-se num bloco de ouro preciosíssimo. No palácio real, tudo agora era ouro.

O rei assentou-se à mesa para o jantar. A sopa, apenas lhe tocou os lábios, tornou-se ouro. O pão, a carne, tudo ouro.

De sorte que Midas não pôde tomar alimento algum, e depois de alguns dias ia morrendo de fome, embora rodeado de ouro.

Assim diz a fábula. Mas eu vos digo, em outro sentido, que também nós possuímos um meio de converter em ouro — isto é, em mérito preciosíssimo — todas as nossas obras.

Esse meio é: conformar sempre e em tudo a nossa vontade com a vontade de Deus.

domingo, 5 de abril de 2015

A catedral de Lund




Em Zchonen, cidade universitária e primeiro arcebispado da Escandinávia, ergue-se formosa catedral romana.

Debaixo do coro, abre-se grande e bela cripta. Dizem todos que a igreja nunca será terminada, que sempre faltará alguma coisa, e que o motivo é este:

Quando São Lourenço chegou a Lund, a fim de pregar o Catolicismo, desejou construir uma igreja, mas carecia dos meios necessários e não sabia onde arranjá-los.

Pensando constantemente no seu objetivo, teve um dia a surpresa de ver na sua frente um gigante, que se ofereceu para em pouco tempo erguer o templo, contanto que São Lourenço adivinhasse o seu nome antes do fim.

Se não o conseguisse, o gigante receberia como prêmio da aposta o Sol, a Lua ou os olhos do santo. Este, confiando em Nossa Senhora, não teve o menor receio e aceitou a imposição.

Iniciou-se a construção, e dentro em pouco o templo estava quase pronto.

domingo, 22 de março de 2015

O grão de trigo

Germinação do trigo



Num dia de outono, triste e frio, saiu um homem a semear. Levando no braço esquerdo o saco de grãos, caminhava lentamente. A cada passo lançava um dos grãos — belo trigo, sadio e redondo — e os grãos caíam, rolavam e se escondiam na terra negra e arejada.

Aconteceu que um grão de trigo se achou de repente sozinho, entre dois torrões de terra preta e úmida. E o grãozinho ficou muito, muito triste. Tudo estava escuro e úmido, e a escuridão e a umidade aumentavam cada vez mais, pois o nevoeiro se transformara numa chuvinha enfadonha, ao aproximar-se a noite. Dava à gente vontade de se entregar ao desespero.

E foi o que fez o grãozinho de trigo. Começou a esquadrinhar a memória, procurando lembrar-se dos bons tempos que haviam ficado para trás.

quarta-feira, 18 de março de 2015

A morte de São José

São José em agonia, igreja de São José, Rio de Janeiro
São José em agonia, igreja de São José, Rio de Janeiro

Gregório Vivanco Lopes

No dia 19 de março comemora-se a festa de São José. A propósito, é oportuno reproduzir o Conto inspirado no conjunto escultural representando São José em agonia (foto), que se venera na igreja de São José, no centro do Rio de Janeiro, ao lado da Assembleia Legislativa.

São José chegara ao fim de seus dias. Ninguém como ele, entre tantos varões veneráveis que o precederam na santidade, fora incumbido de missão tão alta. Ele era o guarda e protetor do Filho de Deus feito homem e de sua Mãe santíssima.

Deus Pai o escolhera pessoalmente para esse mister elevado entre todos. E São José cumprira sua missão com tanta perfeição, tanta dignidade, tanta humildade junto a seus inefáveis protegidos, tanta força e astúcia contra os inimigos de Jesus, insuflados por toda parte pelo demônio, que esteve inteiramente à altura dos desígnios divinos.

domingo, 8 de março de 2015

Os caminhos da vida




Encaminhavam-se três viajantes para um país longínquo, em busca de honras e fortunas.
Por algum tempo, andaram juntos, consultando o mesmo roteiro, comendo do mesmo pão e dormindo sob a mesma tenda.

Apesar de ser o rumo determinado com relativa facilidade pelas constelações, começaram eles a preocupar-se com os acidentes do terreno e bem cedo suas opiniões se dividiram.

Por esse tempo, atravessavam uma vasta zona deserta e sentiram-se aflitos ao ver quase terminada a provisão de água.

Temendo as torturas da sede, depois de acalorada discussão, resolveram separar-se dois deles, tomando caminhos que lhes pareciam mais razoáveis.

O primeiro, desprezando o mapa, que levavam, saiu sozinho pelo areial ardente, ansioso por achar uma fonte e depois o país remoto. Andou dias e dias, até se esgotarem todos os recursos para a longa viagem.

Em meio de sua angústia, entreviu, ao longe, um córrego de águas cristalinas. Correu para ele, fazendo os derradeiros esforços para chegar à margem. Mas tombou moribundo e sem esperanças, quando verificou que a corrente era apenas uma enganadora miragem.

O segundo viajante também desprezou o roteiro e seguiu o rumo aconselhado por outros, antes da partida, homens que jamais quiseram arriscar-se a empreender a perigosa jornada. Após alguns dias de inauditas canseiras, viu, à distância, o que lhe pareceu um lago. Estugou o passo até chegar à margem e exultou de alegria ao ver que tinha água fresca à disposição.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A cotovia




Existe na Polônia uma bela e comovente lenda sobre a criação da cotovia.

Quando Deus viu que os primeiros homens, expulsos do paraíso, trabalhavam duramente, e durante trabalho inclinavam tristemente a cabeça para o solo, tomou um punhado de terra e lançou-a ao ar...

E este punhado de terra assim lançado por Deus, transformou-se num passarinho, a primeira cotovia, cujo canto faz elevar para o céu a cabeça do homem e conforta o lavrador banhado em suor.

A cotovia da nossa vida terrestre é a nossa fé inquebrantável em Deus. Quando nossa cabeça fatigada se inclina para a terra, a fé levanta-a para as alturas.

Quando as ondas do sofrimento quase nos sepultam; a fé nos alenta. E quando o sofrimento da existência nos crava na cruz, a fé nos dá de novo consolação e alívio.

A lenda continua. A pequena cotovia quis mostrar-se reconhecida para com Deus e enquanto o Salvador percorria, pregando, a Palestina, todos os dias pousava na janela da Virgem Maria.