domingo, 29 de setembro de 2019

O jogral da Virgem


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Muitos peregrinos, vindos dos mais remotos confins da Cristandade, iam à romaria do Santuário de Nossa Senhora de Rocamadour.

Era gente de toda espécie, desde mendigos ou empestados até fidalgos e grandes dignitários da Igreja.

Frequentemente misturavam-se àquela turba alguns indivíduos aloucados, galhofeiros ou poetas, que tanto entoavam uma canção, acompanhando-a com qualquer instrumento, como embasbacavam o povo com malabarismos e trabalhos de saltimbancos.

Singlar era um desses. Jovem, espalhafatoso, tagarela, mas de caráter doce, excelente no uso dos instrumentos musicais e dulcíssimo no cantar.

Alto poeta, encontrava sempre, no momento exato, a palavra mais viva, mais colorida e musical para dizer as coisas.

Além disso, era devoto fiel da Virgem, e por isso fora a Rocamadour.

Rezou diante da imagem. Sabia, porém, que jamais poderia, com orações, dizer-lhe os sentimentos que transbordavam de seu coração.

Uma canção subia-lhe à flor dos lábios, e as pontas de seus dedos formigavam nervosamente, desejosos do instrumento.

Não pôde conter-se: apanhou o alaúde e cantou uma loa suave e ingênua.

O jogral estava emocionado, enlevado, e prostrou-se diante da imagem. Nela, os olhos e as pedrarias do traje fulguravam.

— Senhora — disse-lhe o cantor — estais vendo que eu canto para vós com todo o meu coração. Desejaria saber se meus louvores são recebidos com agrado.

O santuário estava cheio de gente, naquele momento. Todas as pessoas puderam ver um dos círios, saindo do candelabro em que estava colocado, descer até junto do poeta.

Houve um coro de exclamações. Gente corria de todos os cantos, para colocar-se ao lado do jovem:

— Milagre! Milagre!

Depressa chegou a notícia à clausura dos monges, que desceram todos para a igreja.

Os demais ajoelharam-se, confundidos com o povo que elevava fervorosas preces a Nossa Senhora.

Fazendo aquele prodígio, como prêmio ao canto ingênuo e sincero de um simples jogral, acabava Ela de dar a toda aquela gente uma lição de humildade.

Só um homem permanecia em pé.

Fez caminho entre os que estavam ajoelhados, e colocando-se diante do jogral, disse, em voz muito alta:

— Não vos deixeis enganar! Aqui não houve milagre!

Acreditais que a Rainha dos Céus desperdiçaria suas graças numa tolice como esta?

Levantai-vos! Não houve milagre, e sim mistificação deste velhaco, ou talvez sortilégio, arte do diabo.

Primeiro os monges, depois os peregrinos, foram pondo-se todos de pé, e depois afastando-se cautelosamente, um pouco encabulados, como que tomados de vergonha.

Muitos procuravam lugar atrás das colunas ou em algum canto pouco iluminado.

Entretanto, ninguém saiu do templo.

Por sua vez, Singlar ali continuava, ajoelhado diante da Virgem.

Na frente dele, repreendendo-o, um monge tornara a colocar o círio no candelabro.

Os pescoços esticavam-se, gente se punha em pontas de pés.

Todos os olhos estavam fixos no jogral, que pela segunda vez tirava notas dulcíssimas do alaúde e tornava a improvisar um cântico de louvor.

O círio tornou a descer para junto do poeta.

Gritos atroadores do monge retiveram a meio caminho as pessoas que se apressavam para o altar:

— Não vos aproximeis! Isto é obra de bruxaria!

Este homem é um mágico que veio afrontar Nossa Senhora!

Tem pacto com Satanás!

Em vão Singlar negava, os olhos cheios de lágrimas:

— Senhora, não me abandoneis!

O monge tinha apanhado o círio, e retinha-o com força entre as mãos, enquanto dizia:

— Estrela Matutina, Torre de Davi, Mãe do Salvador, não permitas que ante tua imagem o inferno possa agir como deseja!

A canção de Singlar entrava como alfinetadas de gozo no coração de todos.

Subia, retilínea, pura, clara, até a Virgem de Rocamadour...

O círio deu um salto, e das mãos do monge foi ter à mão direita do jogral.

Mesmo aquele monge tombou de joelhos.

Um "Ave!" espontâneo, vibrante, maravilhoso, brotou de todas as gargantas.



(Maravilhas do conto popular - Cultrix, SP, 1960)



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domingo, 15 de setembro de 2019

Cantiga 97: “Sempre acorrer a Nossa Senhora”

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Esta cantiga nos conta como Santa Maria protegeu da morte a um súdito do rei que havia sido caluniado.

“Nossa Senhora vem sempre nos socorrer, nos socorrer e salvar, e salvar ao coitado”.

Sobre isso, vos contarei um milagre que a Virgem fez em Cañete a um pobre servidor do rei. Os caluniadores inimizaram o rei contra ele, como eu bem sei, e queriam fazê-lo morrer.

De tal maneira o caluniavam que o rei o fez vir ante ele. E ele, com grande pesar e angústia, começou a chorar a rezou à Virgem tudo quanto podia.

Além do mais, doou à Igreja um rico pano, e se fez escravo de Nossa Senhora. Ele tinha por nome Mateus, e bem facilmente era conhecido na casa do rei.

Na igreja, após depositar seu dom, fez chorando sua oração e empreendeu o caminho para o castelo com grande medo no coração, pois temia ser punido ou morrer por causa da calúnia.

Quando chegou diante do rei, este enviou seus homens prende-lo. Mas ele encomendou-se intensamente a Nossa Senhora.

Isso feito, entrou no salão, tomou posição, e na presença do rei começou a falar assim:

‒ “Senhor, vos tendes me mandado procurar, e assim que eu vi vossa carta, eu vim aqui logo que pode e eis que eu estou aqui.”

O rei, respondeu-lhe assim, segundo ouvi:

‒ “Eu quereria saber uma coisa de vós, se é verdade que fizeste, como dizem, tanto mal e tão descomunal.”

Veja vídeo
Nossa Senhora
vem sempre nos socorrer
Respondeu ele:

‒ “Qual?”

O rei respondeu:

‒ “Tal e de tal maneira.”

Então disse ele:

‒ “Valha-me, Santa Maria, com teu poder! Isso que vos disseram Senhor, é mentira, e não há maior. Se Vossa Mercê dispõe, enviai ali um inquisidor vosso e melhor podereis ouvir os fatos por meio dele.”

Respondeu o rei:

‒ “Isso me apraz, e julgo que cumpres bem, e sempre quero agir assim, salvo em caso extremo.”

O monarca mandou um homem de paz para que fosse sem demora se informar da verdade dos fatos.

Esse homem partiu logo, e fez vir as pessoas da região para que expusessem a verdade dos fatos.

E assim percebeu quanto tinham mentido e enganado ao rei.

Tudo o que ele ouviu, fez escrever e enviou ao rei.

E quando o monarca abriu a carta e viu que desvendava a verdade, então lamentou todo o acontecido e julgou a falsidade daqueles que tinham caluniado aquele homem.

E logo o perdoou e lhe fez grandes dons.

Aos intrigantes desprezou e nunca mais deu nada por eles, e desde aquele fato nunca quis mais acreditar em nada vindo deles.


Vídeo: Nossa Senhora vem sempre nos socorrer




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domingo, 1 de setembro de 2019

O velho abade cruzado e o jovem traidor

Montemor o Velho, lenda do abade de Montemor, ©Rui Ornelas

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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Numa fria noite de Natal, em pleno século IX, o abade Dom João de Montemor, superior de todos os abades de Portugal, regressava à sua casa depois de haver celebrado.

Ao passar por uma das igrejas que havia no caminho, ia persignar-se devotamente, quando o pranto de um menino o deixou surpreso.

Aproximou-se da porta de igreja, e viu que na entrada havia uma criatura que tremia de frio.

Com muita compaixão, tomou o menino, arrumou-o bem e o levou consigo ao seu palácio.

Grande foi a admiração de todos os familiares e serventes do abade, ao vê-lo aparecer com uma criança nos braços.

Explicou o ocorrido, e ordenou ao seu mordomo que dispusesse todo o necessário para que o menino abandonado fosse atendido devidamente.

Com efeito, tudo de que necessitava foi-lhe proporcionado. E assim foi crescendo o menino, que recebeu o nome de Garcia.

O bom abade Dom João de Montemor, que havia já passado os umbrais da ancianidade, via com júbilo que aquele menino abandonado ia se fazendo galhardo mancebo, e certos temores que havia alentado se desvaneceram. Sucedia que o menino havia sido fruto do pecado, e o abade tinha medo de que no rapaz se demonstrasse a perversidade da sua origem.

Montemor o Velho, contos e lendas medievais. ©Rui Ornelas
Mas Garcia era galhardo e nobre, ainda que às vezes fosse um tanto vingativo e soberbo. Porém esses efeitos vinham do natural fogo da juventude e pelo mimo que havia recebido de todos.

Logo se viu, no entanto, que a incerta origem do mancebo ia germinar em frutos de traição para com aqueles que lhe salvaram a vida e lhe deram nome e lugar.

Por aqueles anos, as conquistas de Almazor e as vitórias que obtinha contra os cristãos haviam dado grande nomeada ao caudilho mouro.

Até Montemor chegara a fama do inimigo da Cristandade, e essa fama seduziu Garcia.

Crendo que por sua origem não chegaria ao que ambicionava, e movido também por um torpe desejo de traição, saiu à noite do palácio do abade.

Tomando o caminho das terras dos mouros, apresentou-se a Almazor e ofereceu sua espada e seus serviços. Almazor aceitou comprazido, e desde então o traidor tomou o nome de Dom Zulema. E bem se distinguiu o renegado!

Como impelido pelas forças infra-humanas do ódio, era sempre ele quem rompia com mais impetuosidade as fileiras dos cristãos, não tendo repouso até que, depois das batalhas, por suas próprias mãos dava morte aos sobreviventes.

E assim foi Garcia tão amado de Almazor, que este o levou consigo à grande expedição em que o guerreiro mouro conquistou e arrasou Santiago de Compostela.

Dom Zulema entrou também em Santiago, arrasando a casa de Deus. Na volta se dirigiu por conta própria contra Coimbra, que também destruiu.

Montemor o Velho, Igreja da MisericordiaTinha tomado a secreta resolução de voltar a Montemor e ali fazer um terrível saque. Sua alma perversa e endurecida odiava todos os que o ampararam durante sua infância.

E sua consciência não suportava que houvesse resquícios que lembrassem sua traição.

Com efeito, depois da tomada de Coimbra deu ordem a sua gente de dirigir-se a Montemor.

Chegou à vila, e a contemplação dos lugares onde havia passado sua infância, longe de apaziguar seu ânimo, o irritou mais e mais, aumentando seu torpe desejo de destruir sua pátria natal.

E destacando seus esquadrões de infantes, pôs cerco a Montemor, cujos habitantes, já postos em alerta, se preparavam para a defesa.

Porém esta era difícil, dada a enorme quantidade de mouros que tinham tomado as saídas, perdendo-se assim todas as esperanças de ajuda de fora que pudesse vir.

Os sitiados davam grande mostra de valor, infligindo enormes perdas aos assaltantes.

Dom Zulema, no entanto, não cessava seu empenho, e ordenava assaltos e mais assaltos, que iam destruindo as minguadas defesas da vila, diminuindo assim o número de habitantes que podiam empunhar armas.

Montemor o velho, Igreja de Sta. Maria da AlcáçovaO abade Dom João de Montemor, vendo que tudo estava perdido e que não havia possibilidade de salvação, reuniu os chefes dos guerreiros e os homens de idade madura, e lhes disse:

— É chegada a nossa última hora. A cidade não tardará a cair nas mãos desses cães de Satanás. Temos de temer sobretudo pelas vergonhas e torturas que podem causar às mulheres e meninos.

 Eu proponho que demos morte a umas e outros, e que façamos uma suprema saída para não voltar, e em todo caso vender bem caro as nossas vidas.

E assim o fizeram. Derramando lágrimas de dor e de ira, cada homem deu morte a sua esposa e a seus filhos de mais tenra idade.

Dom João degolou sua irmã, Dona Urraca, e seus cinco meninos.

Depois reuniram todas as riquezas e fizeram com elas uma enorme fogueira, cuja fumaça subia, escurecendo o céu.

Montemor o velho, Igreja de Sta. Maria da AlcáçovaComo uma manada de leões, saíram os cristãos de Montemor.

Lançaram-se contra a mourisma, e o desespero duplicou suas forças.

O abade parecia um leão em meio de fraco rebanho, de tal maneira sua espada fendia a quem o enfrentava.

Chegou aonde estava Dom Zulema e se lançou contra ele, derrubando-o e cortando-lhe a cabeça.

Ao ver caído seu caudilho, os inimigos fugiram em desordem, e lamentando o sítio, deixaram esparsas suas tendas e armas.

Voltaram à vila seus moradores, cheios de alvoroço pelo triunfo, porém também com grande tristeza de recordar aqueles a quem eles mesmos antes haviam dado morte.

Mas quando entraram pelas portas, ouviram gritos de júbilo e ação de graças.

Ao desembarcar os guerreiros na praça, viram ali todas as mulheres e os meninos, que agitando ramos e palmas, gritavam:

— Vitória! Vitória! Glória a Deus!

Por milagre divino haviam ressuscitado, e dessa maneira se salvaram todos pela vontade de Deus e pela bravura do abade Dom João de Montemor.


(Fonte: V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)


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