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domingo, 13 de abril de 2025

O “ócio” dos frades

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Havia uns trabalhadores que diziam:

“Nós somos os que suportamos as dificuldades: sofremos tanto que somos como mártires o ano todo. Trabalhamos, trabalhamos, trabalhamos e nunca descansamos.

“Se o sol está quente, ele nos queima. Queiramos ou não, temos que sofrer enquanto serramos, debulhamos e colhemos.

“E seguimos trabalhando no inverno, com a neve, o frio, o vento; porque se não fizéssemos assim, não poderíamos colher.

“Mas, vocês, frades, têm o ambiente mais gostoso do mundo: no verão vocês estão no frescor, e no inverno no sol.”

Para! para ai! eu quero te responder.

Se a vida do frade fosse tão agradável como você diz, me surpreende muito que mais pessoas não venham viver em tanto conforto.

Não há muitas pessoas se interessando por esta vida tão saborosa.

Você diz que reúne o trigo no celeiro e enche os barris de vinho.

E para quem?

Para você e para nós também.

Tu falas a verdade; mas sossega um pouco, e ouve um exemplo que eu vou te contar, e então falarás o que queiras.

O fato aconteceu em um dos nossos conventos.

Um homem que morava perto e ia conversar com nossos frades disse a um deles:

“Não sei quem passa melhor do que você”. E deu suas razões:

“Nós vamos trabalhar com a enxada ou a pá, no frio ou no calor, nos ventos ou na neve, no granizo ou nas tempestades. O ano todo nós trabalhamos duro, suportamos dificuldades, ganhamos com suor o pão e o vinho.

“Vocês ficam aqui descansando: leem, escrevem. Quando faz calor vocês estão no frescor; quando faz frio vocês estão perto do fogo.

“Se vocês querem pão, o têm fresco todos os dias; da mesma forma o vinho e tudo o demais que vocês precisam.”

Quando esse homem disse tudo o que queria, o irmão porteiro respondeu:

“Você quer provar o trabalho que fazemos e escolher o mais agradável?”

O fazendeiro disse: “Sim, claro.”

O guarda diz: “então, qual vida experimentaremos primeiro, a tua ou a nossa?”

Ele respondeu: “Ah! Vamos experimentar a tua primeiro!”

O frade disse: “Trato feito: tu virás esta noite e tentarás prová-la por oito dias”.

Ele ficou feliz e à noite chegou à Ordem, e lhe ofereceram um jantar. Ele comeu o que lhe deram.

Então foi levado a dormir completamente vestido sobre um saco de palha sobre o qual não havia nada além de um pequeno cobertor, e talvez estivesse cheio de pulgas.

À meia-noite, o frade foi bater no quarto deste homem no mesmo horário que os outros frades e disse:

“Vamos, vamos, bom dia, meu camarada, vamos.”

Ele se levantou e foi à igreja com os frades.

O guardião lhe disse: “Você não conhece o Ofício divino: mas fica aqui dizendo Pai-Nossos enquanto nós rezamos as Matinas. Quando nos sentarmos, você sentará; e quando nos levantarmos, você se levantará.”

“A nós nos ensinaram começar pela manhã rezando: Domine, labia mea aperies”.

O homem não estava acostumado a ficar acordado na noite e começou a se curvar para a frente.

E o frade lhe dizia: “Fica acordado, irmão, fica acordado; não durma”.

Ele acordava atônito e começava a recitar Pai Nossos novamente.

Ele ficava parado um pouco, se inclinava para trás e caia dormido.

O frade insistia: “Levanta logo, reza alguns Pater Nosters; não no chão!”.

Em suma, o homem não conseguia e tinha que ser acordado muitas vezes.

Então disse ao irmão: “Oh, é isso que vocês fazem toda noite?”

O monge respondeu: “É isso que devemos fazer todas as noites”.

O fazendeiro respondeu: “Pelos evangelhos, que eu não quero passar mais noite alguma aqui!”

E ele ficou tão saciado em uma noite com a vida tão maravilhosa que tem os monges, que se levantou e disse:

“Abri a porta para mim, pois eu quero ir embora”.


São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras. Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
São Bernardino de Siena
fez sermões e fábulas moralizadoras.



(Autor: São Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext)

(São Bernardino de Siena (1380 — 1444) pregador e missionário franciscano, conhecido como "Apóstolo da Itália". Famoso já em seu próprio tempo por suas fortes pregações em praças e igrejas, principalmente contra a homossexualidade, infanticídio, bruxaria, feitiçaria, apostas, judeus e usuras. Foi um dos maiores propagadores da devoção ao Santíssimo Nome de Jesus e sistematizador da economia escolástica. Fonte: Wikipedia).



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domingo, 25 de agosto de 2024

A visão de frei Rufino

Diabo tentando ao bom religioso
Diabo tentando ao bom religioso
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Eis mais um conto edificante de São Bernardino de Siena:

(São Bernardino de Siena (1380 — 1444) pregador e missionário franciscano, conhecido como "Apóstolo da Itália". Famoso já em seu próprio tempo por suas fortes pregações em praças e igrejas, principalmente contra a homossexualidade, infanticídio, bruxaria, feitiçaria, apostas, judeus e usuras. Foi um dos maiores propagadores da devoção ao Santíssimo Nome de Jesus e sistematizador da economia escolástica. Fonte: Wikipedia).


Quantas mulheres conheço que dizem:

“Oh! Que bela visão tive esta noite. Eu vi assim e assim e me foi dito que ganharei tal coisa e tal outra!”

A outra diz: “Para mim me apareceu a Virgem Maria”.

Mais uma diz: “Para mim apareceu um anjo”.

Mulher medieval tendo visões
Mulher medieval tendo visões
E a outra diz: “Para mim apareceu a lua”.

Porém, para outra foi o sol.

E ainda outra: “para mim foi uma estrela que entrou em meu quarto que ficou todo iluminado”.

Sabeis o que eu vos digo:

“Tudo isso é doidice que te entrou na cabeça ou tal vez é nada, mas pensar nisso vai te fazer mal, se tu não sabes te resguardar.

“Sabes por que? Porque eu não acredito que sejas melhor do que Frei Rufino, companheiro de São Francisco, para quem apareceu o diabo com forma de crucificado e lhe disse: ‘Podes estar certo que esse teu Francisco é um hipócrita’.

Frei Rufino, entretanto, era santo, e de tal maneira soube dominar esse maldito diabo, que recusou tudo pela devoção que tinha a São Francisco.

E o espírito das trevas disfarçado teve que voltar muitas vezes.

São Francisco percebeu as mudanças em Frei Rufino e foi saber as razões até que lhe perguntou: “Não tiveste alguma visão?”

Mas Rufino não queria contar o acontecido, por isso São Francisco voltou a interrogá-lo muitas vezes.

Até que por fim, ele contou que tivera uma visão nobilíssima. E contou que o Crucifixo lhe falava.

Então, São Francisco, imaginando o que tinha acontecido, lhe disse: “Olha, não acredites porque te fará mal pensar nisso, porque é o diabo que faz isso”.

Santa Hildegarda de Bingen
Santa Hildegarda de Bingen
“Sim, sim, é o diabo que se transforma com forma de crucificado. Ele que se afastava da Cruz nos tempos de Cristo, agora monta na Cruz de Cristo!”

São Francisco então lhe ensinou: “Sabes o que fazer quando ele te atacar? Sabei que ele odeia muito a humildade. Quando aparecer cuspe em seu rosto. Se é o diabo, ele fugirá. Mas se for Deus, receberá isso como um bem considerando que ages com boa razão.

“Se for o diabo, fugirá logo, porque ele não pode ter humildade suficiente para sofrer qualquer injúria”.

Frei Rufino agiu assim e quando o diabo voltou a lhe aparecer da mesma forma, imediatamente o frade lhe cuspiu no rosto.

O demônio fugiu na hora deixando um mal cheiro terrível a ponto de não poder se ficar no local.

Tudo o que fez o pai da mentira foi para enganar aquele frade.

“Por isso te digo: presta atenção no que fazes. Quando te vier uma visão ou coisa do gênero, não acredites muito rapidamente no que te mostra.

“Antes de acreditar verifica primeiro se o que diz está demonstrado”.




São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras. Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
São Bernardino de Siena
compôs fábulas moralizadoras.





(Autor: São Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext)


(São Bernardino de Siena (1380 — 1444) pregador e missionário franciscano, conhecido como "Apóstolo da Itália". Famoso já em seu próprio tempo por suas fortes pregações em praças e igrejas, principalmente contra a homossexualidade, infanticídio, bruxaria, feitiçaria, apostas, judeus e usuras. Foi um dos maiores propagadores da devoção ao Santíssimo Nome de Jesus e sistematizador da economia escolástica. Fonte: Wikipedia).



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domingo, 27 de agosto de 2023

O santo, o noviço e o asno

A maledicência. Detalhe de 'Cristo ante Pilatos', Hieronymus Bosch (1450 — 1516)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Houve um santo religioso que conhecia bem as coisas do mundo e havia percebido que nele não se podia encontrar quem não falasse mal dos outros.

Um dia, disse a um noviço:

— “Meu filho, pega nosso burrinho e vem comigo”.

O obediente mongezinho pegou o asno. Nele o velho religioso montou, seguido pelo jovem, que caminhava atrás. Enquanto iam entre as pessoas, atravessaram um local cheio de lama.

Então, alguém disse:

— “Olha isso! Quanta crueldade contra esse mongezinho que vai a pé. Deixá-lo andar entre tanta lama! E o velho vai a cavalo!”

Assim que o santo ouviu essas palavras, desceu logo do animal e pôs sobre ele o jovem monge. E andaram mais um pouco, com ele por trás guiando o asno no meio do barro.

Então apareceu outro que disse:

— “Olha que coisa estranha esse homem no animal! É o velho que deixa o jovem andar no cavalo sem se cuidar da fatiga e da lama. Você não acha que é uma loucura? Até que os dois poderiam ir sobre esse asno, se quisessem. Agiriam melhor!”

Então o santo religioso montou na garupa. E assim prosseguiram até aparecer outro e dizer:


— “Mas olha, esses que vão acima do pobre burrinho! Os dois montaram nele? Você não acha que eles não têm pena do coitado do burrinho, e que não seria estranho que ele acabasse desmaiando?”

Ouvindo isso, o santo sacerdote desceu logo e fez desmontar o jovem, e os dois seguiram a pé dizendo:

— “Vamos lá!”

Tendo andado mais um pouco, outro falou:

— “Meu Deus! Olha a loucura desses dois, que têm o asno, mas vão caminhando pelo lodo!”

E tendo o santo religioso visto isto e percebido que no mundo não havia pessoa que não ficasse murmurando, disse ao jovem monge:

— “Chega! Voltemos para a nossa morada”.

E tendo chegado até suas celas, o santo disse:

— “Vem cá, meu filho, você pensou na lição do asno?”

E o jovem monge disse:

— ”No quê?”

São Bernardino de Siena, autor de muitos contos morais. Pintor anônimo espanhol
São Bernardino de Siena, autor de muitos contos morais.
Pintor anônimo espanhol
— “Não viste que de qualquer jeito que nós fôssemos falavam mal de nós? Se eu ia montado e você a pé, falavam mal de nós porque você é jovem e eu devia te proteger.

“Desci, coloquei-te na sela e outro também falou mal de nós, dizendo que eu sou velho e devia montar, e tu, que és jovem, devias caminhar.

“Também montamos os dois e ainda falaram mal, dizendo que éramos cruéis com o burrinho pelo excesso de carga. E ainda quando nós dois descemos, também murmuraram porque era loucura nossa andar a pé em vez de montar o jumento.

“Meu filho, guarda bem o que eu te vou dizer.

“Saibas que aquele que está no mundo fazendo todo o bem que pode fazer e que se empenha em fazer tudo o que lhe é possível de bom, não pode evitar que falem mal dele.

“Então, meu filho, não te incomodes com eles, nem ouças o que dizem, nem tenhas vontade de andar no meio deles, porque, seja como for, sempre se acaba perdendo, porque deles não sai senão pecado.

“Mas, não te incomodes com eles e faz sempre o bem. Deixa-os dizer o que bem entendem, falem bem ou falem mal”.



São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras. Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
São Bernardino de Siena
compôs fábulas moralizadoras.




(Autor: São Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext). 



(São Bernardino de Siena (1380 — 1444) pregador e missionário franciscano, conhecido como "Apóstolo da Itália". Famoso já em seu próprio tempo por suas fortes pregações em praças e igrejas, principalmente contra a homossexualidade, infanticídio, bruxaria, feitiçaria, apostas, judeus e usuras. Foi um dos maiores propagadores da devoção ao Santíssimo Nome de Jesus e sistematizador da economia escolástica. Fonte: Wikipedia).



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domingo, 25 de junho de 2023

O monge que voltou 400 anos depois

Luis Dufaur
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Em princípios do século décimo, vivia num convento de beneditinos um santo religioso, chamado frei Pacômio, que não podia compreender como os bem-aventurados não se cansam de contemplar por toda a eternidade as mesmas belezas e gozar dos mesmos gozos.

Um dia mandou-o o Prior a um bosque vizinho, para recolher alguma lenha.

Foi com gosto, mas mesmo no trabalho não o largavam as dúvidas.

De repente ouviu a voz de uma avezinha que cantava maravilhosamente entre os ramos.

Ergueu-se e viu um animalzinho tão encantador, como jamais vira em sua vida.

Saltava de um ramo para outro, cantando, brincando e internando-se na selva.

Seguiu-o frei Pacômio, todo enlevado, sem dar-se conta do tempo nem do lugar.

A certa altura a avezinha atirou aos ares o último e mais doce gorjeio e desapareceu.

Lembrando-se então de seu trabalho, frei Pacômio procurou o machado para voltar ao convento.

Mas — coisa estranha! — achou-o enferrujado. Quis pegar o feixe de lenha que ajuntara, mas não o encontrou.

— Alguém mo terá roubado? — pensou.

Pôs-se a andar, mas não encontrava o caminho. Chegou, afinal, à beira do bosque, mas não encontrou o mato que tão bem conhecia.

Ali estava agora um campo de trigo, em que trabalhavam homens desconhecidos.

Perguntou a um deles o caminho do mosteiro, pois de certo se havia extraviado.

Todos olharam para ele com surpresa, e em seguida indicaram-lhe o mosteiro.

Chegou afinal ao mosteiro. Mas — grande Deus! — como estava mudado!

Em lugar da casa modesta de sempre, viu um edifício magnífico ao lado de uma grandiosa capela. Intrigado, bateu à porta; um irmão desconhecido veio abrir.

— Sois novo aqui — disse-lhe Pacômio. — Eu venho do bosque aonde me mandou esta manhã o Prior D. Anselmo, para buscar lenha.

Admirado, o porteiro deixou ali o hóspede e foi avisar o Prior que estava na portaria um monge com hábito velho, barba e cabelos brancos como a neve, perguntando pelo Prior Anselmo.

O caso era curioso. O Prior, abrindo os registros do convento, descobriu o nome do Prior Anselmo, que ali vivera quatrocentos anos antes.

Continuou a ler, e achou nos anais daquele tempo o seguinte:

— Esta manhã frei Pacômio foi mandado buscar lenha no bosque e desapareceu.

Chamaram o hóspede e fizeram-no entrar e contar a sua história.

Frei Pacômio narrou o caso de suas dúvidas sobre a felicidade do paraíso, e o Prior começou a compreender o mistério.

Deus quis mostrar ao pio religioso que, se o canto de uma avezinha era capaz de encantar-lhe a alma por séculos inteiros, quanto mais a formosura de Deus há de embevecer os bem-aventurados por toda a eternidade, sem que eles jamais se cansem.


(Pe. Francisco Alves, C.SS.R., "Tesouro de Exemplos" - Vozes, Petrópolis, 1953)


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