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domingo, 20 de outubro de 2024

O combate contra o gigante Ferragut


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Terminada a conquista da região de Monjardin, anunciaram a Carlos Magno que em Najera havia um gigante da raça de Golias, chamado Ferragut.

Tinha vindo da Síria, enviado pelo emir de Babilônia com 20.000 turcos, para combater o monarca franco. Possuía o vigor de quarenta homens fortes. Media uns sete pés.

Quando o gigante se inteirou da chegada do Imperador, saiu alegre ao seu encontro e lhe propôs um combate singular. Um cavaleiro devia lutar contra ele.

Saiu primeiro Ojeros até Ferragut, e o gigante pegou-o com sua mão direita e o levou como uma ovelha até a cidade. Carlos mandou Reinaldo de Montalbán.

Tomando-o pelo braço, Ferragut o encerrou no cárcere da cidade. Tiveram idêntica sorte vários guerreiros. Carlos desistiu então da idéia de prosseguir a luta.

Roland pediu permissão ao Rei para medir as suas forças com o gigante.

O David franco se acercou de seu rival. Ferragut, tomando-o pela direita, o pôs ante si sobre o cavalo, conduzindo-o até a cidade para prendê-lo com seus compatriotas cristãos.

O franco, porém, com rapidez, conseguiu derrubar o gigante ao chão. Levantou-se com presteza e montou de novo em seu cavalo. Roland brandiu sua espada e descarregou um forte golpe para matar o seu adversário.

A força da espada partiu em dois o cavalo, e Ferragut proferia terríveis ameaças contra o franco. Começaram a lutar com a espada. Porém Roland conseguiu desarmá-lo.

O Golias sarraceno intentou matar Roland com um murro, mas a mão cerrada caiu sobre a cabeça do cavalo de Roland, matando-o e deixando o cristão em posição parecida com a de seu inimigo. Perdida a cavalgadura, a luta continuou durante toda a tarde. Fizeram uma trégua, e os dois prometeram continuar a luta no dia seguinte, sem cavalos nem lanças.

No dia seguinte nada pôde conseguir Roland em seus intentos, para ferir com paus e pedras o seu invulnerável inimigo. Fizeram novas tréguas. Ferragut caiu, dormindo no próprio campo de batalha.

Roland, como bom cavaleiro, pôs uma pedra sob a cabeça do gigante, para lhe servir de almofada e assim poder descansar melhor. As tréguas eram tempos sagrados.

Capitel do palácio dos reis de Navarra em Estella: momento em que Roland clava sua lança no umbigo do gigante islâmico Ferragut
Capitel do palácio dos reis de Navarra em Estella:
momento em que Roland clava sua lança no umbigo do gigante islâmico Ferragut
Quando Ferragut despertou, Roland sentou-se ao seu lado. Perguntou qual era a razão de sua invulnerabilidade, não sendo ele atingido por espadas, bastões ou pedras.
— Porque tan solo por el ombligo puedo ser herido — confessou o gigante, falando em espanhol.

Continuaram conversando longo tempo, interessando-se o gigante pela origem e religião do franco, que aproveitou a ocasião para evangelizar o pagão, fazendo uma minuciosa exposição dos dogmas cristãos.

A discussão teológica terminou com uma reação normal naqueles tempos: a verdade religiosa e a aceitação da fé ficou submetida ao resultado da batalha entre os dois campeões.
— Lutarei contigo — disse Ferragut — com a condição de que, se é verdadeira essa fé que sustentas, seja eu o vencido. E se é falsa, o sejas tu.

O cristão aceitou. O duelo feroz se iniciou logo depois. Um golpe de espada de Ferragut partiu em dois a arma de Roland. Ao vê-lo desarmado, o gigante avançou sobre ele, aplastando-o sob o peso de seu corpo.

Compreendeu Roland que não podia fugir, e invocando a Virgem, revolveu sob o ventre do opressor. Tomando então o punhal, cravou-lho no umbigo, fugindo imediatamente. Aos gritos do gigante invocando Maomé, acudiram os sarracenos, levando seu capitão a Najera.

Então as hostes cristãs atacaram os mouros perto do castelo que domina a povoação, conquistando a cidade e a fortaleza e pondo em liberdade os prisioneiros cristãos.

(José Maria Jimeno Jurio, "Leyendas del Camino de Santiago" - Diputación Foral de Navarra, 1977)


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domingo, 5 de maio de 2024

Como o arcebispo Turpin soube
da partida de Carlos Magno para o Céu

Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno
levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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"Eu Turpin, arcebispo de Reims, estando em Viena, após ter celebrado a Missa em minha capela, como estava só para dizer minhas horas, tendo começado o Deus, in adjutorium meum, ouvi passar sob minhas janelas um grande bando que atraiu minha atenção; ele marchava em meio a muito barulho e clamores.

Abri a vidraça para ver o que causava esse tumulto; e, adiantando a cabeça, reconheci que era uma legião de demônios, mas tão numerosos que não era possível contá-la.

Ainda que eles fossem a grandes passos, percebi entre eles um demônio menos alto que os outros, cujo aspecto, contudo, era horrível.

Ele era precedido por um primeiro grupo, e marchava na liderança do segundo, que se entrelaçava após ele, a alguns passos de distância.

Eu o conjurei, no nome do Criador e pela fé cristã, de me declarar in loco aonde ele ia com esses grupos.

– Nós vamos, me respondeu ele, nos aproveitar da alma de Carlos Magno, que, nesse momento, parte desse mundo.

– Ides, eu lhe disse; e, pela mesma ordem que já vos destes, eu vos adjuro de passar novamente por aqui para me relatar o que tereis feito.

Ele se afastou. Desde que ele desapareceu com os seus, me coloquei a recitar o primeiro salmo da terça.

Mal havia terminado, quando ouvi todos esses demônios que retornavam.

A história de Turpin, manuscrito medieval
A história de Turpin, manuscrito medieval
Seu tumulto me obrigou a ir até a mesma janela, de onde eu os vi tristes, inquietos e abatidos.

Perguntei àquele que tinha falado comigo, para me declarar o que eles tinham feito e qual tinha sido o resultado de sua marcha.

– Muito mal, respondeu ele. Mal tínhamos chegado ao encontro, quando nos vimos intimados, com o arcanjo Miguel vindo até nós com suas falanges; estávamos, contudo, próximos de nos apoderar da alma de Carlos.

Mas dois homens sem cabeça, São Tiago da Galícia e São Dionísio de França, patronos do império dos Francos, estavam presentes na hora da morte de Carlos.

Eles colocaram, em um dos pratos de uma balança, todas as boas obras do príncipe que acabava de falecer.

Eles reuniram ali as igrejas, as abadias e os outros monumentos piedosos que ele tinha edificado, com os ornamentos e os diversos acessórios do culto do qual ele os tinha dotado.

Carlos Magno.Albrecht Dürer 1471 – 1528).
Não pudemos reunir muitos pecados para levantar o outro prato; e tão logo, as falanges de Miguel, felizes com nossa confusão e alegres por ter elevado a alma do monarca, nos flagelaram tão vivamente que eles agravaram a aflição de nosso insucesso.

Eu, Turpin, fui assegurado que a alma do príncipe, meu mestre, tinha sido elevada ao céu pelas mãos dos anjos bem-aventurados, pelo peso de suas boas obras, e pela proteção dos santos que reverenciou e serviu durante sua vida.

Logo, fiz vir meus clérigos, ordenei que soassem todos os sinos da cidade; e fiz dizer missas; distribui esmolas aos pobres; enfim, orei pela alma de Carlos, na esperança fundada de aliviar o peso de sua purificação.

Ao mesmo tempo, testemunhei a todos aqueles o que vira e que estava certo da morte do Imperador.

Dez dias depois, recebi uma carta que me trazia todos os detalhes do ocorrido, e me instruía que o santo monarca tinha sido enterrado na igreja que ele mesmo tinha fundado, em Aix-la-Chapelle."




(Autor: J. Collin de Plancy, “Légendes de l'autre monde”, Paris, Henri Plon, p.69, apud Annales Historiae).


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domingo, 21 de abril de 2024

A origem da “Casa do Anjo” em Ingelheim

Luis Dufaur
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Carlos Magno, tendo notado a excelente disposição do terreno de Ingelheim, fez transplantar para ali as cepas do melhor vinho de Orléans. A vinha ganhou o cêntuplo com o transplante.

Foi uma grande alegria para o Imperador, tê-lo tão bem conseguido, tanto que, depois de Aix-la-Chapelle, sua residência preferida era Ingelheim, ou Casa do Anjo.

É muito curiosa a origem do nome poético e celeste com que foi batizado o castelo.

Pelo ano de 768, Carlos Magno decidiu construir um palácio que dominasse o Reno, e em 774 ele já estava edificado. Era um prédio magnífico, metade fortaleza, metade palácio, sustentado por cinqüenta colunas de mármore e cinqüenta de granito.

As de mármore foram-lhe enviadas de Roma e de Ravena pelo Papa Estêvão III, e as de granito foram extraídas do Adenwald. Assim, vendo sua nova morada imperial tão felizmente concluída, determinou ali reunir uma dieta.

Em consequência, os príncipes e senhores dos arredores foram convocados para aquela grande solenidade.

Quando o Imperador acabara de adormecer, na noite que precedeu o dia em que a dieta devia se realizar, um anjo lhe apareceu e disse: “Carlos, levanta-te e rouba”.

Carlos Magno logo acordou, e sentiu um celeste perfume no seu quarto. Mas, como as palavras que o anjo lhe dissera não pareciam concordar com os Mandamentos de Deus e da Igreja, pensou ter tido um sonho, e tornou a dormir.

Mal havia fechado os olhos, a mesma visão apareceu-lhe de novo. Com semblante severo como o de um mensageiro que tem o direito de se surpreender de não ser obedecido, o anjo repetiu com voz severa as palavras que já tinha dito, e que o Imperador julgara ter ouvido mal.

Ele abriu em seguida os olhos e viu o aposento cheio de uma luz celestial, que foi se extinguindo pouco a pouco, e finalmente desapareceu por completo.

Entretanto, a ordem era tão estranha que Carlos Magno hesitou ainda em obedecer. Repousando a cabeça sobre o travesseiro, tornou a adormecer uma terceira vez.

Ainda desta vez o mesmo anjo lhe apareceu, mas com fisionomia tão ameaçadora, e reiterou a mesma ordem com voz tão imperiosa, que o Imperador — que entretanto não era nada fácil de atemorizar — estremeceu de medo e acordou sobressaltado.

Desta vez, não somente o mesmo aroma celeste estava difundido e a mesma luz refulgente brilhava, mas ainda o anjo estava de pé junto ao seu leito.

Somente quando teve certeza de que o Imperador não poderia mais duvidar da realidade da sua presença, estendeu suas asas de ouro e desapareceu.

Então Carlos Magno não teve mais dúvida de que a ordem vinha do Céu, pois o mensageiro era demasiadamente belo para ser um enviado do inferno.

Carlos Magno não hesitou mais. Imediatamente levantou-se e vestiu-se às apalpadelas, deplorando um mandamento do Céu que lhe ordenava começar tão tarde uma ação tão infame.

Mas o Imperador estava, como Abraão, decidido a tudo sacrificar por Deus, inclusive sua honra.

Vestiu sua couraça, cingiu a espada e tomou seu elmo à mão, como se fosse comandar uma daquelas expedições guerreiras, pelas quais tinha tanta simpatia quanto por esta tinha repugnância.

Enfim saiu de seu quarto, e detendo-se numa galeria da qual podia-se divisar toda a região, fez uma pausa para decidir por que lado iria cometer esse roubo tão embaraçante de executar.

A noite era sombria, como convinha a semelhante expedição. Mas, por sugestiva que fosse a escuridão, o Imperador era completamente alheio à nova arte que deveria exercer.

Se bem que andasse de um lado a outro por cerca de uma hora, não lhe havia ocorrido a menor idéia.

De repente percebeu que lhe tinham roubado o elmo, que deixara sobre a balaustrada da galeria. O Imperador procurou por todos os lados, olhou dentro e fora, mas toda a busca foi inútil: o elmo tinha desaparecido.

O roubo era tanto mais ousado quanto o ladrão era hábil. E se o ladrão era hábil, em tais circunstâncias poderia dar um bom conselho ao Imperador.

Assim, pareceu-lhe que esse era um novo favor do Céu, que, vendo seu embaraço, tinha tido pena dele. Em conseqüência, elevando a voz, exclamou:

— Aquele que roubou meu elmo apresente-se diante de mim, e por minha palavra real, em vez de ser punido, receberá uma recompensa de cem ducados.

Ato contínuo uma risada aguda reboou na galeria, e debaixo da tapeçaria que cobria uma mesa Carlos Magno viu sair o seu anão, que se aproximou dele e estendeu-lhe o elmo para que nele jogasse a soma prometida.

— Ah! És tu o infame ladrão — disse Carlos Magno. — Deveria ter suspeitado que só tu serias capaz de aplicar um tal golpe, e deveria ordenar que te dessem cem varadas, em vez de prometer cem ducados tão imprudentemente como o fiz.

— Sim, meu Senhor — disse o anão. — Teria sido mais econômico, é verdade, mas um nobre tem apenas uma palavra. Eis vosso elmo. Onde estão os cem ducados?

— Tu os terás em seguida, depois de me teres dado um bom conselho.

— Os cem ducados foram prometidos pelo elmo, e não pelo conselho. Dai-me os cem ducados pelo elmo, e tereis o conselho grátis.

Carlos Magno estendeu a mão, para agarrar o patife que lhe falava com tanta impertinência, mas o anão viu o movimento e saltou rápido sobre a balaustrada, pôs-se a galgar uma das colunas e só parou quando estava sobre uma das folhas do capitel.

Pôs-se a cantar uma canção, da qual compunha ao mesmo tempo a música e as palavras:

— Tenho já um elmo, um belo elmo, um elmo encimado por uma coroa real, um elmo que me custa cem ducados.

E tratarei de ter pelo mesmo preço uma couraça e uma espada, e então me farei armar cavaleiro por algum imperador que não tenha jamais faltado à sua palavra.

Depois, quando for armado cavaleiro, quando eu tiver uma grande espada e uma boa lâmina, irei por vales e montes, fazendo justiça, porque nos feudos da Germânia e da França muita justiça precisa ser feita. Mas — ai de mim! — onde encontrarei, para me armar cavaleiro, um rei que jamais tenha faltado à sua palavra?

O barulho de uma bolsa que caía nas lajes interrompeu a improvisação do cantor. O anão compreendeu que sua canção havia produzido efeito, desceu da cornija e foi apanhar a bolsa, com um olho sobre ela e outro sobre o Imperador.

— Vamos, vem cá, patife, e não temas nada — disse Carlos Magno. — Tenho necessidade de ti.

— Oh! Então, se tendes necessidade de mim, é outra coisa, e não tenho mais medo.

— Eu estou precisando de roubar.

— Péssima profissão, sobretudo porque se trata de pessoas que prometem e não mantêm a palavra. Assim — podeis crer-me, — uma vez que tendes a desventura de ter nascido honesto, é melhor permanecer honesto.

— Eu te digo que quero roubar — disse Carlos Magno num tom que indicava estar começando a cansar-se das reflexões filosóficas de seu interlocutor.

— Bem, se é uma vocação decidida, então não há mais nada a acrescentar. Que quereis roubar?

— Eis o que eu não sei. Mas quero roubar alguém, e logo, nesta noite.

— Raios! Está bem, roubemos.

— Mas a quem vamos roubar?

— Vejamos... Estais vendo aquela pobre cabana?

— Sim.

— Há ali um bom golpe a dar. Por mais pobre que pareça, o dono dela hoje tem cem florins.

Há cerca de dez anos aquele camponês trabalha todos os dias, de cinco horas da madrugada até às oito horas da noite, e conseguiu guardar todo esse dinheiro. A porta fecha mal e o bom homem tem o sono pesado, por isso é fácil roubá-lo.

— Miserável! Queres que eu vá pegar de um infeliz o fruto de dez anos de trabalho, um dinheiro ganho com o suor de seu rosto!

— Eu não quero nada. Vós é que me pedistes um conselho, e eu o dou. É só isso.

— Vamos a outra coisa, então.

— Vedes aquela casa de campo?

— Sim, vejo.

— Pertence a um rico comerciante. Nela não achareis florins, mas ducados; e não às centenas, mas aos milhares.

— Sem dúvida foi com pesos adulterados e com usura que ele adquiriu tal fortuna.

— Não. Pelo contrário, foi fazendo cálculos de tal maneira exatos, para si como para os outros, que sua probidade tornou-se proverbial. A probidade trouxe a ele o que a velhacaria traz a outros.

— E queres então que eu arruíne um homem que possui fortuna tão honrada?

— Eu não quero nada. Sois vós, ao contrário, que desejais roubar. Digo-vos somente quem são os que têm dinheiro.

— Sim, sem dúvida quero roubar, mas não ao pobre lavrador, não ao comerciante esforçado e honesto. Quereria roubar a algum desses maus cavaleiros, que vivem de pilhagem e rapinas, que traem aqueles que deveriam servir, e que oprimem aqueles que deveriam defender.

— Ah! Então é outra coisa! Por que não vos explicastes logo? Tenho então a solução. Aquele castelo pertence ao senhor Harderic, o maior bandido que a Terra tenha produzido depois do falso profeta Maomé.

— Tanto melhor!

— Mas não será coisa fácil. Ele tem o sono leve e a mão pesada. Haverá golpes a dar.

— Tanto melhor! Tanto melhor!

— Então ide colocar outra couraça, escura como a noite na qual é preciso que nos esgueiremos. Pegai um punhal curto, em lugar dessa longa espada.

A espada é uma arma diurna, para ferir de longe. À noite só se golpeia o que se toca. Tem-se os olhos nas mãos, e é preciso que os olhos não estejam demasiado longe da lâmina. Ide e voltai, eu vos espero aqui, contando os ducados.

O Imperador não precisou ouvir duas vezes. Foi e voltou coberto de uma cota de malhas de aço opaco, que lhe cobria o corpo como um gibão e envolvia a cabeça como um capuz.

Levava na cintura um punhal largo, curto e cortante como o gládio romano. O anão examinou-o dos pés à cabeça, fez um sinal de aprovação e os dois saíram do palácio. Pelo caminho mais direto, ou seja, através do campo, avançaram rumo ao castelo de Harderic.

Chegados à porta do castelo, o anão fez um sinal a Carlos Magno para ficar o mais perto possível da porta. Lançando-se sobre uma figueira que crescia no fosso, e da figueira agarrando-se à muralha, galgou-a, enfiando sucessivamente as mãos e os pés nos interstícios das pedras, até chegar às ameias, e desapareceu.

Um instante depois Carlos Magno ouviu ranger a chave na fechadura. A porta mexeu-se pesadamente, mas sem fazer ruído, depois entreabriu-se o necessário para deixar passar um homem. Carlos Magno passou, o anão empurrou a porta com as mesmas precauções que tomara para abri-la, e assim encontraram-se no pátio do castelo.

— Eis o vosso caminho — disse o anão, mostrando a escada que conduzia aos apartamentos do castelo; e mostrando a cavalariça, acrescentou: — e aqui está o meu.

— Por que não vens comigo?

— Porque tenho também um golpe a dar.

Pondo-se a correr de quatro, como um cachorro, para não ser reconhecido como criatura humana no caso de ser visto, atravessou o pátio e entrou na cavalariça. Carlos Magno subiu a escada o mais silenciosamente que pôde, e entrou nos apartamentos.

Graças a um raio de luar, que apareceu no céu naquele momento, conseguiu chegar ao quarto que precedia aquele onde Harderic e sua esposa dormiam. Aí estendeu a mão, para ver se achava algo para pegar, e tocou num cofre fechado sobre a mesa, que imaginou conter dinheiro ou jóias. Nesse momento o cavalo do castelão relinchou tão fortemente que Carlos Magno estremeceu.

— Heim! — esclamou Harderic, acordando em sobressalto. — Que se passa na minha cavalariça?

— Nada — respondeu a esposa. — É teu cavalo que relincha.

— Meu cavalo não costuma relinchar assim, a não ser quando alguém que ele não conhece tenta desatá-lo.

— E quem pensas que tenta desatar teu cavalo?

— Um ladrão, ora essa!

Harderic desceu do leito e pegou a espada. Carlos Magno então recuou, escondendo-se e mantendo a mão na empunhadura da arma, e viu Harderic passar. Ao cabo de um momento o castelão voltou.

— O que havia na cavalariça? — perguntou-lhe a mulher.

— Nada. Mas há três ou quatro noites não consigo dormir.

— Não consegues dormir porque certamente planejas alguma coisa.

— É verdade.

— E o que planejas?

— Posso te dizer agora, pois o momento de nosso projeto cumprir-se já praticamente chegou.

Amanhã, eu e onze outros condes, barões e senhores deveremos matar o Rei Carlos, que nos impede sermos senhores em nossas terras. Estamos fartos disso, e não queremos mais suportá-lo.

— Oh! meu Deus, meu Deus! E se vosso complô fracassar? Estareis todos perdidos.

— Impossível. Estamos ligados entre nós pelos juramentos mais terríveis.

Amanhã, convocados para a Dieta como todos os outros, entraremos no palácio sem despertar nenhuma suspeita. Estaremos bem armados, mas ele não estará. Cercaremos seu trono e o mataremos.

— E quem são os conjurados?

— Isso é o que não posso dizer nem a ti. Mas o engajamento deles já está assinado com sangue, e fechado no cofre que está aí ao lado.

— Deus queira que tudo isso termine bem.

O castelão voltou a dormir. Durante algum tempo ainda se ouviram os suspiros da castelã, mas logo depois sua respiração suave confundiu-se com os roncos do seu marido.

Então Carlos Magno tomou o cofre, colocou-o debaixo do braço, atravessou os apartamentos, desceu a escada e chegou ao pátio. Lá viu o anão, que se debatia sobre o cavalo de guerra do castelão.

O Imperador saltou sobre o cavalo, que logo compreendeu tratar-se de cavaleiro experiente, e tornou-se dócil como um cordeiro.

Carlos colocou o anão na garupa e partiu a galope.

Chegando ao castelo, Carlos Magno abriu o cofre que tinha roubado, e nele achou os compromissos dos doze conjurados, assinados com sangue.

Fez acordar sua gente, e mandou que levantassem, num dos pátios do palácio, onze forcas de tamanho comum e uma mais alta que as outras.

Em cima de cada uma das doze forcas, fez pregar um rótulo com o nome de cada conjurado, e sobre a forca mais alta o nome do chefe deles, Harderic.

Depois, como havia duas entradas no palácio, ordenou receberem todos os outros barões convocados por uma outra porta e em outro pátio, e receberem os conjurados pela porta e no pátio das forcas.

As instruções foram rigorosamente seguidas.

Quando viu todos os barões reunidos, Carlos Magno narrou-lhes o complô tramado contra ele, mostrou-lhes o compromisso assinado com sangue dos doze conjurados, e perguntou-lhes que pena mereciam.

Todos, a uma voz, disseram que mereciam a morte. Então Carlos Magno fez abrir as janelas que davam para o segundo pátio, e os barões viram os doze conjurados suspensos nos doze postes.

Em memória da aparição celeste à qual devia a vida, Carlos Magno chamou o palácio de Ingelheim, ou Casa do Anjo.



(Autor : Alexandre Dumas, « Excursions sur les bords du Rhin – Impressions de voyage » – Calmann-Lévy, Paris)


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domingo, 8 de outubro de 2023

A lenda de São Goar e o colar de Carlos Magno

São Goar
Luis Dufaur
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São Goar foi sacerdote e confessor na cidade de Tréveris (Trier). Sua festa litúrgica, inscrita no Martírológio Romano, comemora-se a 6 de julho. Exerceu grande influência moral na região que vai desde Estrasburgo, na França, até Nimega, na Holanda.

Uma pequena cidade situada às margens do Reno, na Alemanha, leva o nome do Santo. É aí que se pode ouvir o relato de sua lenda.

São Goar era contemporâneo de Carlos Magno, e em consequência assistiu à luta do grande Imperador contra os infiéis. Portanto muito tempo o Santo lamentava amargamente não poder ajudar o filho de Pepino de outro modo, a não ser com suas orações.

São Goar era não somente eremita, mas também barqueiro. Ele estava tomado por essa pena ao ir recolher um viajante na margem direita do Reno, que lhe tinha feito sinais para vir erguê-lo. Nisso, subitamente, veio-lhe uma ideia que lhe pareceu ser de tal maneira uma inspiração do Céu, que resolveu colocá-la em execução no mesmo instante.

Com efeito, assim que São Goar chegou com o viajante ao meio do Reno, ou seja ao ponto onde o rio é mais rápido e profundo, parou de remar e perguntou a seu passageiro de que religião era.

Tendo tomado conhecimento de que estava diante de um herege, deixou o remo, jogou-se sobre ele, batizou-o de uma vez em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Em seguida, de medo de que um Batismo assim ministrado perdesse seu efeito salutar, jogou o novo convertido no rio, que o conduziu diretamente ao Paraíso.

O rio Reno na altura de São Goar
O rio Reno na altura de São Goar
Na mesma noite, a alma do afogado apareceu a São Goar e, em vez de lhe fazer censuras sobre a maneira um pouco brutal pela qual o havia forçado a sair deste mundo, agradeceu por haver-lhe alcançado a felicidade eterna.

Não foi preciso mais ao Santo, dadas suas disposições naturais, para lançá-lo nesta nova via apostólica. Assim, a partir daquele memento, poucos dias não foram marcados por alguma nova conversão.

Quando prestava serviço a um católico, pelo contrário, São Goar não se contentava em fazê-lo atravessar o Reno, conduzia-o a sua ermida e lá partilhava com ele os dons que a piedade dos fiéis ali deixava com uma prodigalidade que, aumentando de hora em hora, provava que a reputação do Santo crescia a olhos vistos.

Ora, aconteceu que essa grande reputação chegou até Carlos Magno, que apreciou o meio de conversão adotado por São Goar, e resolveu não deixar um tão poderoso auxiliar sem recompensa.

Ele foi, então, como simples forasteiro para passar o Reno, e tendo feito o sinal de costume, viu chegar até ele o bom eremita. Mas seu desejo de passar o rio incógnito ficou sem resultado, pois Deus tinha gravado em sua fisionomia uma tal majestade, que São Goar reconheceu-o antes mesmo que tivesse posto o pó na barca.

Semelhante hóspede devia deixar marca de sua passagem. Assim, chegando à outra margem, e tendo bebido um vinho que lhe pareceu agradável, Carlos Magno pediu informações sobre a terra que o produzia, e, tomando conhecimento que estava à venda, comprou-a e fez dela presente para o eremita, prometendo enviar-lhe também um barril e um colar.

Efetivamente, algumas semanas depois da passagem do Imperador, São Goar recebeu os dois objetos prometidos. Ambos eram milagrosos e cada um tinha uma propriedade peculiar. O barril permanecia, sempre cheio, contanto que não se tirasse vinho a não ser pela torneira.

Carlos Magno
Quanto ao colar, era algo bem diferente. Na expansão do contacto pessoal, São Goar se tinha queixado a Carlos Magno da má fé dos infiéis, que agora, sabendo dos hábitos de São Goar, em vez de confessarem sua heresia, respondiam pura e simplesmente que eram católicos, atravessavam o rio protegidos por este titulo e, quando estavam na outra margem, bebiam seu vinho e iam embora zombando dele. Não havia remédio para isso, sendo que nada se assemelhava tanto a um católico como um infiel que fazia o sinal da Cruz .

Era este inconveniente que o Imperador Carlos havia prometido obviar, e foi para cumprir sua promessa que enviou o colar.

Com efeito, o colar tinha uma virtude peculiar: apenas tocava a pele, sentia de quem se tratava:
– Se era um católico, permanecia no seu statu quo, e deixava passar tranquilamente o vinho da boca ao estômago;
– Se era um infiel, apertava-se imediatamente até ficar reduzido à metade, de sorte que o bebedor soltava o copo, punha a língua e revirava os olhos. Então, São Goar, que ficava perto dele com uma taça cheia d'água, batizava-o prontamente, e o sistema voltava ao que era antes.

Eram portanto dois presentes inapreciáveis e bem pensados para estarem juntos: o barril e o colar.

São Goar percebeu o valor desse dom. Assim, não só durante toda a sua vida fez uso dele, mas ainda ordenou aos monges ― que se tinham reunido em torno dele, e que ainda em sua vida haviam fundado uma abadia, da qual ele era o superior ‒ de fazerem uso dele depois de sua morte.

Os monges não se omitiram, e o colar e o barril milagrosos atravessaram séculos conservando seu poder.


(Autor: Alexandre Dumas, « Excursions sur lés bords du Rhin - Impressions de Voyage », Calmann-Levy Editeurs, Paris, Tomo II, pp. 49 a 56).


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