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domingo, 18 de maio de 2025

A alma penada de Castelbouc

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Nas gargantas do rio Tarn, do lado esquerdo para quem vai rumo a Santa Enimia, um curioso castelo expõe suas ruínas fantasmais sobre um rochedo quase inacessível.

O seu deplorável estado liga-se à lembrança lendária de um nobre que não quis ir às Cruzadas e, caindo numa extrema moleza, teve o coração corrompido pelas mulheres.

Desde então um animal estranho – dizem – volta de tempos em tempos ao local e solta misteriosos gemidos.

Os remotos fatos aconteceram no século XIII. Nessa época São Luís rei da França, bispos, barões, senhores e servos partiam para as Cruzadas.

Foram procurar a Raymond, Senhor do castelo, para ir defender a Terra Santa. Porém, desde o alto de sua poderosa torre, ele berrou:

‒ “Eu fico!”

‒ “Mas como, senhor? Todo o mundo vai para a Cruzada!”

‒ “A mim, o elmo me afoga, e o casco me esmaga.”

‒ “Mas, senhor, nós ...”

‒ “Chega! Vão embora. Eu não fui feito para carregar armas ou armaduras, mas antes bem para cantar poesias”, afirmou fortemente e se encerrou na fortaleza.

É verdade que Raymond parecia ser um bom trovador e não um guerreiro.

O tempo passou. Todos partiram para a Cruzada. A vergonha e o remorso começaram a tomar conta de Raymond.

A vergonha de se sentir inútil, de ficar só no seu castelo como um urso na sua toca.

Por fim, chegou a primavera, e com ela seu coração sentimental e mole desbordava de melúrias.

Uma manhã, ele desceu até a aldeia achando que mesmo andando fora da estrada a vida era muito bela e valia a pena gozá-la.

As camponesas vendo que seu senhor aproximava-se o rodearam dizendo:

‒ “Ah, como nós estamos tristes, mulheres e moças ...”

‒ “Mas, por que diabos?”, interrogou Raymond.

‒ “... é que nós ficamos sem nossos noivos, esposos, e pior ... sem os homens nossos dias são tediosos e nossas noites são muito longas!”

‒ “Pois bem, ... sim ... quer dizer ...” balbuciou Raymond. Mas, ouvindo essas lamentações seu coração derreteu como a cera sob o sol.

‒ “O Sr. é nosso nobre ... ajude-nos ...”, acrescentaram as mulheres.

‒ “Creio conhecer o remédio para vossos males e eu vos consolarei todas se o Céu me ajudar ...”, respondeu Raymond.

Foi assim que o castelo do senhor-trovador virou ponto de “romaria” para todas as mulheres tristes ou sofrendo mal de amores.

Um dia, uma velha mulher lhe disse:

‒ “Isso vai acabar mal. Abusando desse jeito, o animal morre”.

Raymond não prestou, ou fingiu não prestar, atenção. Cada mulher da cidade tirou dele até a última gota do festim que ele lhes ofereceu.

Assim, o senhor que com seus versos distribuía chamas de sentimentos, uma noite, como um fogo que não é cuidado, morreu ... e entregou a própria alma ... mas, a quem?

O sacerdote da cidade não quis benzer o corpo desse senhor pecador, e as cinzas desse fogo extinto foram jogadas no fundo do túmulo sem cerimônia religiosa.

Não se sabia se sua alma fora levada pelo diabo.

Porém, todas as mulheres do local acharam que no dia seguinte, um estranho animal cabeludo, chifrudo e cor de pele levantou voo por trás do rochedo do castelo.

Algumas garantiam ser um grande bode da montanha que soltava balidos infames olhando para a aldeia.

A velha senhora deu a palavra final dizendo:

‒ “É a alma do Senhor Raymond!”

Desde aquele triste dia pode se ouvir, por vezes, nas noites de lua cheia, no topo das ruínas, um balido cheio de lamentos acompanhado de estranhos murmúrios de vozes femininas.

Os mais ousados insistem que é algo como um bode que esvoaça em torno do castelo ...

Por isso o local ficou chamado: Castelbouc, ou o castelo do bode.




(Fonte: site Le Chevalier Dauphinois, conto "La Légende de Castelbouc", recolhido em 01.06.2018)


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domingo, 5 de novembro de 2023

Rico sem trabalhar

O tesouro do castelo de Hohenstein
O tesouro do castelo de Hohenstein
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Ainda sobram umas ruínas do castelo de Hohenstein, na Alemanha.

Elas não dão ideia da grandeza daquela cidadela medieval, e da riqueza de seu senhor.

Mas, em volta dela, corre ma lenda. Ela conta que:

“Há já muito tempo, naquela densa floresta, um lenhador trabalhava duramente perto da cidadela.

“O lenhador, entretanto, acariciava um sonho. Ele até falava em alta voz, quando ninguém o ouvia:

‒ “Que tal ficar rico sem trabalhar? Uma sorte, um inesperado, e a gente acha um tesouro. Ah! Nunca mais trabalhar... que bom!

“O diabo que andava por ali perto pegou a coisa no ar e aprontou uma das dele.

“Quando os últimos raios de sol desapareceram por trás da colina, o lenhador parou seu serviço e pegou o caminho de volta.

“O demônio tinha ali montado uma arapuca.

“Como de pura sorte o lenhador julgou perceber entre as ruínas do castelo uma curiosa pilha de materiais transparentes e desconhecidos.

“Pareciam com asas de besouros, insetos que havia em grande quantidade naquele bosque.

“Ele achou estranho, mas ele estava certo que ninguém acreditaria se contava ter achado isso.

Ruínas do castelo de Hohenstein
Ruínas do castelo de Hohenstein
“De fato, os besouros não se reúnem nesse número para morrerem juntos.

“Ele, então coletou a mancheia essa estranha matéria e a colocou delicadamente na sua bolsa.

“Mas, eis que se afastando das ruínas, a matéria começou a pesar cada vez mais.

“Sem dúvida, a fadiga de uma jornada particularmente difícil e longa fazia sentir seus efeitos.

“Ele já não conseguia caminhar mais com aquele peso todo. Não podia mais!

“Se livrar desse peso tornou-se sua maior preocupação.

“Perto do fosso da antiga muralha, ele jogou todo o conteúdo de sua bolsa.

“Nessa hora, em lugar de asas de besouro caíram belas moedas de oro que sumiram entre as pedras e as fendas do fosso.

“Os olhos do lenhador abriram-se enormes, ele estava fascinado pela descoberta!

“Ouro! Rico... riquíssimo... sem trabalhar... por um simples acaso... um mero achado...!

“Ele tentou tudo o que podia para recuperar as moedas, remexeu a terra, levantou as pedras, arrancou o capim...

Ruínas do castelo de Hohenstein
“Mas tudo foi em vão! As moedas se escondiam entre as ruínas do castelo.

“Ele então lembrou aquela pilha esquisita ao lado do caminho e voltou.

“Ele ficaria rico... para sempre... moedas de ouro.... muitas moedas... muito ouro...

“Ele voltou a procurar as asas de besouro. Mas, ... não ficava nada.

“Tudo havia desaparecido.

“Ele não quis acreditar.

“O sonho dele era mais forte do que tudo.

“Começou a procurar, procurar, procurar...

“Desde aquele dia, quando a noite começa a descer perto das ruínas fantasmais do castelo, os passeantes perdidos contam que uma figura estranha remexe o fosso da velha praça forte.

“Eles não sabem, mas é o lenhador que sonhava de olhos abertos em ficar rico sem trabalhar e que há séculos escava as ruínas à procura de seu cobiçado tesouro.”





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domingo, 9 de abril de 2023

O tanoeiro de Arnsbourg

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Há muito, muito tempo, um lenhador atravessava a floresta de Arnsbourg, entre Niederbronn e Mühltal, na Alsácia, França.

O calor estava insuportável e a seca ia longe, fazendo o pobre homem sofrer terrivelmente de sede.

Para a infelicidade do corajoso homem não havia córrego algum para dessedentá-lo.

Passando perto das ruínas de um antigo castelo, ele julgou sentir um bom odor de vinho, e pensou:

“Se houvesse pelo menos alguém que pudesse dar-me um pouco de vinho!”

Nessa hora, apareceu subitamente no meio das ruínas um homenzinho de longa barba branca, com um avental de couro e um maço de chaves no cinto, que lhe fez sinais amistosos e convidou-o a acompanhá-lo.

O lenhador decidiu seguir a mesma direção do tanoeiro sem fazer perguntas, e juntos pularam cada vez mais açodadamente de degrau a outro, em boa parte derruídos e cobertos de musgo.

Escadaria nas atuais ruínas do castelo de Arnsbourg
Escadaria nas atuais ruínas do castelo de Arnsbourg
Era essa a descida para o inferno?

O lenhador desconfiou, mas queria vinho. Sim, o vinho cujo perfume embriagante ele tinha farejado.

E quanto mais se afundava por essa escadaria desconhecida, mais crescia nele o desejo devorador de sorver o líquido da perdição.

De repente, o misterioso tanoeiro se deteve diante de uma imensa e sólida porta, e pegando uma gigantesca chave enferrujada que estava em seu maço, abriu-a.

Eles entraram numa grande adega com o teto em arcos, muito fresca e com um pequeno odor inebriante, forte e suave: o vinho!

Ruínas atuais do castelo de Arnsbourg.
Ruínas atuais do castelo de Arnsbourg.
O velho tanoeiro encheu com um líquido de maravilhosa cor sangue um copo de cristal finamente trabalhado, e oferecendo-o ao lenhador, disse:

– “Pega, bebe, é o mesmo vinho que bebia o senhor de Arnsbourg e que eu só podia lhe servir nos dias de festa. Eu fui seu tanoeiro, mas fui condenado a ficar aqui durante mais duzentos anos, sem poder gozar da paz eterna, porque quando estava vivo eu punha água no vinho dos servidores”.

O lenhador bebeu com grandes goles. Jamais havia provado um vinho tão bom. Nunca ficara com tanta energia, juventude e alegria.

E após agradecer ao tanoeiro com um sorriso, voltou para casa animado e com novas forças.

De volta à aldeia, ele contou toda a história, que se espalhou pela região.

Mas ninguém acreditou, pois as pessoas percebiam que ele tinha perdido o juízo.

Passou-se o tempo e muitos “pais da vida” e beberrões quiseram visitar as ruínas do castelo de Arnsbourg.

Mas o tanoeiro nunca mais voltou a aparecer.

Desde aquela época, em determinados anos, durante a floração dos vinhedos, os vinhateiros afirmam que um perfume agradável e subtil sai do chão e envolve todas as ruínas do castelo.

A tradição popular diz que nesses anos “haverá abundantes colheitas de uva na Alsácia, e que no outono as adegas se encherão de um vinho generoso”.

Mas, em são juízo, ninguém quer saber mais sobre o misterioso tanoeiro que enche os outros de vinho, mas lhes tira a razão.



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domingo, 5 de março de 2023

A fada do castelo de Gratot

E o jovem senhor ficou louco pela moça
que só tinha uma coisa esquisita.
Très Riches Heures du duc de Berry, Museu de Chantilly
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No antigo Condado de Normandia, perto da cidade de Coutances, morava um jovem da nobre família de Argouges.

Esse forte e brilhante cavalheiro adorava passear a cavalo horas a fio.

Um belo dia, próximo de um pequeno lago, ele ouviu um canto melodioso que provinha de uma voz doce.

Avançando lentamente, encontrou uma bela dama junto às águas límpidas.

Tão suaves eram seus gestos, tão charmosa sua voz, e tão rara e irreal sua beleza, que o jovem foi logo conquistado por ela.

– “Bom dia... eh ... bela senhorita.

– “Oh, o senhor me pegou de surpresa.

– “Quer dizer... por favor...

– “Não vos escuseis, meu senhor, eu não deixo de cumprir todas as regras. Bom dia, nobre senhor.

– “Bom... eu diria...

– “Hi hi hi hi, o senhor me faz rir com os seus tartamudeios.

– “Bela senhorita, quereis casar comigo?

– “Antes de vos dizer SIM, quero um favor.

– “Farei tudo o que seja de vosso prazer, minha amiga.

– “Eu vos peço de jamais pronunciar na minha presença esta palavras: M.O.R.T.E.

– “Mas por quê?

– “Prometei-me isso e eu me casarei com o senhor.

– “Vossos desejos são ordens!

O castelo de Gratot hoje está em ruínas.
O castelo de Gratot hoje está em ruínas.
Ambos viveram sete anos na maior das felicidades.

Certa noite, eles organizaram uma festa no castelo.

A fada – pois era disso que se tratava – ficou demorando muito diante do espelho.

Perdendo a paciência e enfurecido pela demora da bela esposa, o senhor gritou, desde um dos extremos do corredor:

– “Minha Senhora, vós sois muito lenta nos vossos afazeres! Seríeis rápida em pedir a morte?

A fada soltou então um berro desgarrador, subiu na beira da janela e desapareceu, deixando impresso no muro a marca de seu pé e de sua mão.

No lago só se viam ondas circulares.

Se nas noites de tempestade, perto das antigas residências dos senhores de Argouges e do castelo de Gratot, ouvirdes uma voz murmurar “Morte... Morte...”, não fiqueis apavorados, pois é a fada a infestar aqueles locais.

E, sobretudo, antes de se casar, considerai fazê-lo com moças de famílias bem conhecidas, e não com qualquer uma, que seduz e depois se revela uma fada esquisita, ou uma bruxa.



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domingo, 16 de outubro de 2022

O mistério do castelo de Löwenstein

O mistério do castelo de Loewenstein, afinal não era tão complicado como parecia.
O mistério do castelo de Loewenstein, afinal não era tão complicado como parecia.
Luis Dufaur
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Na Idade Média vários castelos foram refúgio de bandidos.

Eis um dos que devastavam a Alsácia a partir do castelo de Löwenstein.

Ele ficou conhecido como o “Lindenschmitt”.

Por volta de 1380, um cavaleiro desafortunado e sem terra apoderou-se pela força do castelo de Löwenstein, pertencente à família Ochsenstein.

Para sobreviver, o cavaleiro, acompanhado por um bando de degoladores, sequestrava todos os viajantes e aqueles que circulavam pelo seu território.

Para fazer cessar as pilhagens e devolver a calma à região, formou-se um exército contra ele.

Os cavaleiros perseguiram e prenderam cada um dos malfeitores.

Mas, curiosamente, o chefe era impossível de ser achado.

Foram trazidos cães farejadores que seguiam as marcas deixadas pelo seu cavalo, mas eles não conseguiam descobrir a direção que tinha tomado.

Alguém disse que ele desaparecia dentro de uma pedra. Outro achava que se evaporava como uma nuvem.

Assim nasceu a lenda do cavaleiro.

O chefe dos criminosos fugia e ninguém sabia para onde tinha ido
O chefe dos criminosos fugia e ninguém sabia para onde tinha ido
Evidentemente, as discussões nas aldeias pegaram fogo.

— Alguns acharam que o cavaleiro tinha feito pacto com Satanás.

— Outros garantiam de fonte segura que ele era um fantasma.

Mas durante séculos ninguém soube a verdade.

O castelo foi amaldiçoado e a região ficou isolada do resto do mundo.

Mas hoje se conhece o que aconteceu.

Após muitos anos pesquisando no terreno, lendo escritos em bibliotecas poeirentas, consultando os bruxos, religiosos e druidas, se pode saber que:

Esse cavaleiro tinha um nome legendário: o “Lindenschmitt”.

Mas esse nome significa “o ferreiro que ferrava ao revés”.

Eis o segredo das desaparições: as marcas iam ao sentido inverso à direção que ele tinha tomado!




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