domingo, 22 de julho de 2018

A fonte milagrosa de Santa Enimia

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No atual departamento de Lozère, ao longo do rio Tarn, encontra-se a vila medieval de Santa Enimia encravada nas rochas. Seu nome está associado com uma princesa que não poderia deixar este lugar.

O seu estranho nome está ligado a uma legenda.

O fato aconteceu há muito tempo, por volta do ano de 615. Enimia foi uma princesa Merovíngia, irmã do rei Dagoberto.

Ela tinha uma beleza inigualável e atraia muitos pretendentes. Mas Enimia preferia se dedicar a Deus.

Infelizmente, como muitas vezes acontece, seu pai, o rei Clotário II decidiu em sentido contrário. Ele mandou-a chamar na sala e disse:

‒ “Filha, eu tenho observado que Você recusa todos os candidatos!”

‒ “Mas, pai, eu .......”

‒ “Deixe-me falar!”, disse o rei retorcendo seu belo bigode.

‒ “Sim, meu pai", respondeu a nossa Enimia olhando para baixo.

‒ “Desse jeito não haverá herdeiro para o reino!"

‒ “Mas, pai, eu ...”

‒ “Simplesmente, eu decido que você fique noiva de um dos meus barões. Assim seja!”

Apesar das lágrimas e dos repetidos pedidos para seu amado pai, ela não obteve a anulação da decisão real.

Desesperada, ela refugiou-se numa pequena capela e rezou a Deus para salvá-la de um casamento que ela não queria.

E eis que ela pegou uma praga, tal vez lepra, que a desfigurou e afastava dela todos os candidatos.

A doença era tão terrível que ela decidiu levar uma vida recolhida e deixar crescer o cabelo para esconder a doença.

Ela fechava-se numa sala escura, onde dormia e rezava.

Curiosamente, suas noites eram perturbadas por um sonho que voltava continuamente.

Uma voz aconselhou-lhe fazer abluções na água da fonte milagrosa de Burle.

Certa manhã, ela decidiu ir à procura dessa fonte maravilhosa.

Depois de uma longa viagem, ela encontrou-a no oco de um vale desconhecido e desabitado.

A princesa leprosa aproximou-se da beira da verde água e, apesar do frio da água, mergulhou inteiramente.

O milagre, então, aconteceu. Ela saiu da água resplandecendo beleza e recuperou o sorriso que tinha perdido havia tantos meses.

Enimia estava em condições de começar a viagem de volta.

Mas assim que ela se afastou do vale, a horrível doença reapareceu na sua branca pele.

Ela voltou à fonte e tomou banho muitas vezes.

Santa Enimia esmaga o dragão.
Santa Enimia esmaga o dragão.
Porém, cada vez que comparecia diante de seu pai, a horrenda doença voltava a cobrir seu corpo.

‒ “É um sinal divino”, pensou ela. “Eu devo morar junto à fonte”.

Foi assim que ela decidiu estabelecer-se perto da fonte de Burle.

Quando ela podia, ia rezar numa caverna que fica pouco acima da pequena aldeia.

Em torno da gruta da princesa começaram a acontecer prodígios e milagres.

E sua fama de santidade ficou tão grande que ainda muitos séculos depois, os romeiros vão até a aldeia para implorar suas bênçãos e mercês.



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domingo, 8 de julho de 2018

Como os corvos enganaram as corujas

Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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O Conde Lucanor falando com Patronio, seu fiel conselheiro, disse:

– Patronio, estou em luta contra um inimigo muito poderoso. Ele tinha em sua casa um parente criado junto com ele e a quem ele tinha favorecido muitas vezes.

Mas, por causa de uma disputa entre eles, meu inimigo causou graves danos e desonrou seu parente ao qual devia muitas coisas.

O parente, pensando em aquelas ofensas e procurando forma de se vingar, quer se aliar comigo.

Acredito que vai ser um homem muito útil, porque poderia me aconselhar o melhor modo de fazer dano a meu inimigo, sendo que o conhece muito bem.

Pela grande confiança que vós mereceis e pelo vosso bom senso, vos rogo que me aconselheis sobre o modo de resolver esta questão.

– Senhor Conde Lucanor – disse Patronio – o primeiro que vos devo dizer é que com certeza esse homem veio para vos enganar.

E para que saibas como tentará consegui-lo, gostaria que soubesses o que aconteceu entre os corvos e as corujas.

O conde quis saber do que tinha acontecido naquele caso.

– Senhor Conde Lucanor – começou Patronio – os corvos e as corujas estavam em guerra entre si e os corvos levavam a pior parte porque as corujas só voam pela noite e no dia ficam escondidas em locais muito ocultos.

Os corvos em guerra com as corujas
Os corvos em guerra com as corujas
Elas voavam ao amparo da escuridão até as árvores onde aninhavam os corvos, golpeando e ferindo a todos quantos podiam.

Os corvos sofriam demais. Um deles muito esperto, vendo o grave dano que padeciam os seus, falou com seus primos corvos e encontrou um meio para se vingar das inimigas corujas.

Eis o modo que ele imaginou e pôs na prática: os corvos lhe arrancaram as plumas, exceto de alguma das asas, e por isso voava muito pouco e mal.

Assim recoberto de feridas foi ter com as corujas. Contou-lhes o mal e o dano que lhe causaram os corvos porque ele não queria a guerra contra as corujas.

Propôs, então, às corujas que se elas o aceitavam como companheiro estava disposto a lhes revelar as melhores formas de se vingar dos corvos e lhes fazer muito estrago.

Ouvindo isso, as corujas ficaram contentes porque acharam que com esse aliado poderiam derrotar a seus adversários os corvos. Então começaram a trata-lo muito bem e o tornaram partícipe de seus planos secretos e de seus projetos para a luta.

Porém, entre as corujas havia uma muito velha e experiente. E quando ficou sabendo a história do corvo, descobriu o engano que aprontava.

Foi então a explicar a trama à cabecilha das corujas, afirmando com toda certeza que aquele corvo foi se juntar com elas para conhecer seus planos e preparar sua derrota. Por isso tinham que afasta-lo logo dentre elas.

Mas a coruja sabida não conseguiu que seus irmãos lhe fizessem caso. E, vendo que não acreditavam nela, se afastou de todos e foi viver num local onde os corvos não poderiam encontra-la.

E as corujas, pese a tudo, continuaram confiando no corvo.

Quando as plumas lhe cresceram mais uma vez, o corvo disse às corujas que podendo voar, iria procurar os corvos e voltando contaria para as corujas onde estavam.

Então, as corujas todas se reunindo poderiam acabar com seus inimigos. E as corujas ficaram muito contentes.

As corujas acharam mais gstoso acreditar na mentira do corvo.
As corujas acharam mais gostoso acreditar na mentira do corvo falso amigo.
Chegando o corvo onde estavam seus irmãos, ajuntaram-se todos e ficaram sabendo dos planos das corujas e as atacaram de dia, quando elas não voam e ficam tranquilas.

E sem nada temer, as destroçaram e mataram tantas corujas que os corvos ficaram como únicos vencedores.

Assim aconteceu às corujas por confiar no corvo que, por natureza, é inimigo delas.

Vós, senhor Conde Lucanor, sabeis que esse homem que quer se aliar convosco deve vassalagem a vosso inimigo. Por isso, ele e toda sua família são vossos inimigos também.

Aconselho-vos que o afasteis da vossa companhia porque é certo que pretende vos enganar e procura vosso mal.

Porém, se ele quiser vos servir desde fora de vossas terras, de maneira que nunca conheça vossos planos e não possa vos prejudicar e se verdadeiramente fizer tanto estrago àquele inimigo vosso de forma a nunca mais poder fazer as pazes com ele, então podereis confiar nesse parente despeitado, fazendo-o sempre com cautela para que não vos possa resultar perigoso.

O conde julgou que esse era um bom conselho, agiu de acordo com ele e lhe foi muito proveitoso.

O príncipe Dom João entendeu se tratar de um conto muito bom, mandou-o escrever neste livro e compôs estes versos que dizem assim:

“Aquele que antes costumava teu inimigo ser

Nem em nada nem nunca lhe deves crer”.

(Fonte: «El Conde Lucanor», Alicante, Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2004. Conto XIX, págs. 82-84) 



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domingo, 24 de junho de 2018

São Domingos no enterro do comerciante


Luis Dufaur
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Certa feita, o Conde Lucanor estava falando de seus assuntos com Patronio seu sapiente conselheiro, e disse:


– Patronio, alguns me aconselham reunir a maior quantidade possível de dinheiro. E dizem que o que mais convém, mais do que tudo.

Rogo-vos vossa opinião sobre esse assunto.

– Senhor conde – respondeu Patronio – é necessário os grandes senhores terem dinheiro em muitas ocasiões. Sobre tudo para nunca deixardes de cumprir vossos deveres por carência de pecúnia.

Mas não por isso podeis pensar só em reunir dinheiro esquecendo todas as obrigações que tendes com vossos vassalos. E as obrigações próprias de vosso estado e dignidade.

Porque se agísseis de outro modo vos poderia acontecer o mesmo que ao lombardo que morava em Bolonha.

O conde não conhecia a história e lhe perguntou sobre o acontecido.

– Senhor conde – contou Patronio – havia na cidade de Bolonha um homem nascido na Lombardia acumulador de grandes riquezas sem olhar de onde provinha. E só procurava acrescentá-las dia após dia.

Até que o lombardo adoeceu muito gravemente. Um de seus amigos, vendo-o tão perto da morte, lhe pediu que se confessasse com São Domingos, que na ocasião estava em Bolonha.

O lombardo acedeu a se confessar.

Mas quando chamaram ao Santo, esse viu ser vontade do Senhor que aquele homem ruim sofresse as penas merecidas por suas culpas.

Por isso não foi, mas mandou um frade para confessa-lo.

Quando os filhos do comerciante souberam que São Domingos fora chamado, se contristaram pensando que o bom santo mandaria a seu pai devolver todos os bens mal adquiridos em troca da salvação eterna da alma.

Dessa forma eles ficariam na miséria. Vendo chegar o frade, inventaram que seu pai estava com suores e chamá-lo-iam assim que passasse um pouco melhor.

São Domingos de Gusmão, igreja de Santo Estevão, Salamanca.
São Domingos de Gusmão,
igreja de Santo Estevão, Salamanca.
Logo o pai perdeu a fala e morreu sem poder fazer o mais precioso que havia para a salvação de sua alma.

No dia seguinte enquanto o preparavam para o cemitério, pediram a São Domingos pregar na cerimônia.

Assim fez o santo, mas quando falou do defunto, citou as palavras do Evangelho que dizem: “Ubi est thesaurus tuus, ibi est cor tuum”. Elas significam em língua vulgar: “Onde está teu tesouro, ali está teu coração”.

E após pronunciar isso, voltou-se para os presentes dirigindo estas palavras:

– Irmãos, para que vejais que o Evangelho diz sempre a verdade, procurai no coração deste homem já falecido. Mas vos advirto que não podereis encontra-lo dentro do corpo, mas sim na arca onde guardava seu tesouro.

Começaram a procurar o coração no corpo, mas não o acharam. Mas sim na arca, como tinha garantido o santo.

O coração estava cheio de gusanos e fedia pior que a coisa mais podre e hedionda do mundo.

Agora vós, senhor Conde Lucanor, embora o dinheiro, como vos disse, é bom procurai sempre duas coisas:

– consegui-lo por meios lícitos e honrados,

– e não deseja-lo tanto que vos vejais obrigado a fazer o que não é conveniente ou que vai em prejuízo de vossa honra e de vossos deveres.

Porque antes deveis tentar reunir um tesouro de boas obras para obter clemência diante de Deus e boa fama diante do mundo.

O conde ficou muito comprazido com este conselho de Patronio e agiu de acordo com ele. E lhe foi muito bem.

E tendo percebido o Infante Dom João que o conto era muito bom, mandou inclui-lo neste livro e acrescentou estes versos:

“Amarás sobre tudo o tesouro verdadeiro,

menosprezarás, por isso, o bem perecedouro”.


(Fonte: «El Conde Lucanor», Alicante, Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2004. Conto XIV, págs. 69-71)



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domingo, 10 de junho de 2018

O anjo e o cálice do ermitão

O anjo e o cálice do ermitão
Luis Dufaur
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Enquanto um peregrino perfazia sua longa romaria aconteceu de se aproximar um homem jovem, pobremente vestido, que lhe pediu licença para prosseguir na sua companhia.

No transcurso da viagem o peregrino ficou admirado vendo seu novo companheiro se afastar dos locais onde costumeiramente a juventude procura prazeres, como bailes e cabarés.

Em revanche, quando o novel viajante descobria um cadáver abandonado na floresta, se dava todos os cuidados para enterrá-lo.

Certa feita, no fim da jornada, foram surpresos pela noite precisamente numa floresta. Só conseguiram perceber uma pequena ermida.

Nela imploraram a hospitalidade de um santo homem que lhes ofereceu seu pão e seu leito.

Na manhã do dia seguinte, após apresentarem seus agradecimentos e se terem despedido, os caminhantes retomaram a estrada.

Mas, eis que o peregrino percebeu na sacola do jovem um belo cálice dourado que o ermitão usou para dizer a Missa.

– Como é possível que tu tenhas ousado roubar um homem que se mostrou tão bom conosco?, reprochou-o.

O jovem respondeu:

– Ele estava excessivamente apegado a esse objeto e era a única coisa que o separava de Deus. Eu vim para levá-lo.

E dizendo isso, seu rosto começou a brilhar como um sol, seus cabelos foram ficando mais belos que o arco-íris, suas roupas se assemelharam a um manto de estrelas.

Então estendeu umas assas refulgentes de luz e levantou voo para o Céu.




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domingo, 27 de maio de 2018

Como o camponês aprendeu o padre-nosso


Luis Dufaur
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Era uma vez um camponês que tinha um coração duro, e não era esmoler.

Foi-se confessar certo dia, e o confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre-Nosso.

— Não o sei, e nunca o pude aprender — respondeu o aldeão.
— Pois neste caso imponho-te por penitência emprestar um alqueire de trigo a todas as pessoas que te forem pedir, de minha parte.

No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
— Como te chamas? — perguntou-lhe o camponês.
— Padre-Nosso, que estais no céu — respondeu o pobre.
— E o teu sobrenome?
— Santificado seja o vosso nome.
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

No outro dia chegou um segundo pobre.
— Como te chamas?
— Venha a nós o vosso reino.
— E o teu sobrenome?
— Seja feita a vossa vontade.
E partiu com o seu alqueire de trigo.

Veio um terceiro pobre.
— Como te chamas?
— Assim na terra como no céu.
— E o teu sobrenome?
— O pão nosso de cada dia nos dai hoje.
E levou o seu alqueire.

Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma, até chegar ao "amém".

Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
— Então já sabes o Padre-Nosso?
— Não, senhor cura. Sei apenas os nomes completos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.
— Quais são?

E o aldeão enumerou-os a seguir, e pela ordem em que cada um se tinha apresentado.

— Já vês que não era muito difícil aprender o Padre-Nosso, porque já o sabes perfeitamente.




(Guerra Junqueiro, "Contos para a infância" - Lello & Irmão, Porto, 1953)


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