domingo, 11 de abril de 2021

Nossa Senhora e a monja fugitiva

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Num antigo e austero mosteiro habitava uma monja muito jovem, chamada Beatriz, de grande piedade em sua vida religiosa e profundamente devota de Santa Maria, a quem consagrara a metade de sua vida.

Continuamente a viam de joelhos diante do seu altar, em fervorosa veneração, oferecendo sua esplêndida juventude e angélica pureza à sua Santíssima Mãe.

A abadessa e todas as irmãs do convento lhe professavam grande carinho, por sua bondade e doçura, e a nomearam para o cargo de sacristã da igreja, que ela desempenhava com grande zelo.

Porém, sendo Beatriz extraordinariamente bela, despertou a paixão de um clérigo que freqüentava o mosteiro. Tentou convencê-la a fugir do convento com ele. Mas Beatriz, que a princípio resistia com firmeza, sentia desfalecer suas forças ante os embates daquela forte tentação.

Procurava rezar, porém sua devoção se havia convertido em aridez de espírito, e sua imaginação voava muito longe, sentindo fastio na oração. Numa ocasião em que a igreja estava deserta, o enamorado conseguiu enfim que a monja consentisse em fugir com ele.

Antes de partir, ela se prostrou de joelhos ante a Virgem, dizendo:

— Soberana Senhora, eu te servi honestamente durante a vida toda, até hoje, e não posso conter esta força que me arrasta longe de ti. Entrego-te e te encomendo as chaves desta igreja.

E depositando as chaves sobre o altar, fugiu com o clérigo.

Transcorreu pouco tempo, e o clérigo, uma vez satisfeita sua paixão, abandonou Beatriz, que caiu com a alma desgarrada e grande confusão de espírito.

Sem atrever-se a voltar ao convento, transformou-se numa mulher pública, levando vida ímpia e vergonhosa durante quinze anos, torturada pelos remorsos de sua consciência e conservando uma vaga esperança de perdão.

Passava um dia diante do mosteiro, e sentiu o desejo de parar, para saber o que pensavam da irmã sacristã.

Aproximou-se da porteira do convento, e perguntou:
— Diga-me, irmã, como está Beatriz, a sacristã?

A porteira respondeu:
— Vai muito bem, tão santa e devota como sempre, desempenhando maravilhosamente seu ofício de sacristia. Todas as religiosas a admiram. Já está no convento há vinte e seis anos, demonstrando grande piedade.

Beatriz ficou pensando nas misteriosas palavras que acabava de ouvir, mas sem poder compreendê-las. Então lhe apareceu a gloriosa Virgem, dizendo:
— Beatriz, minha filha, durante quinze anos, em figura tua, Eu desempenho o ofício de sacristã. 

Volta ao mosteiro, e continua servindo como se nunca tivesses saído, porque nada sabem de teu pecado. Crêem que continuas em teu posto. Faze penitência para alcançar o perdão de teus muitos pecados.

E nesse momento desapareceu. Beatriz regressou ao convento, e voltando a tomar seus hábitos e as chaves, continuou o ofício de sacristã, sem que ninguém chegasse a se dar conta de sua volta.

Unicamente o confessor, a quem revelou sua vida e seus pecados, era conhecedor daquele milagre.

Impôs-lhe severas penitências, que Beatriz cumpriu com rigor, edificando suas companheiras com o exemplo de suas virtudes heroicas e sua santa vida cheia de sacrifícios, para expiar suas culpas.

Chegada sua última hora, Beatriz chamou toda a comunidade, que a rodeou em seu leito de morte, e em alta voz confessou seu pecado, descobrindo o prodígio de misericórdia operado por Nossa Senhora, que durante quinze anos desempenhou por ela o cargo de sacristã. Foi tudo isso atestado pelo confessor.

E morreu santamente naquele instante.

Todas as monjas ficaram admiradas daquele portento, e deram graças à sua Mãe Celestial, que havia feito aquele favor para a religiosa.



(V. Garcia de Diego, Antología de Leyendas de la Literatura Universal - Labor, Madrid, 1953)
 


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domingo, 28 de março de 2021

Os sarcófagos vazios de Quarré-les-Tombes

São Jorge, catedral de Estocolmo
São Jorge, catedral de Estocolmo
Luis Dufaur
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No coração da região de Morvan, na Borgonha (França), entre os límpidos rios Cure e Cousin, uma aldeia tem um nome curioso: Quarré-les-Tombes, algo como o Cercado das Tumbas.

O nome vem da presença sempre inexplicável de grande número de sarcófagos vazios – lá chamados de “pierres carrées”.

A concentração nesse local de milhares de túmulos sem os respectivos restos sempre excitou a imaginação popular.

A história começa no século nono da era cristã. 

Os normandos – ou vikings – que naquela época eram pagãos, invadiam a França e remontavam os rios a bordo de seus grandes barcos, os drakkar.

Eles não somente matavam, pilhavam e queimavam tudo na sua passagem, mas também arrasavam as igrejas e dispersavam as santas relíquias.

O judeu enganado e convertido

Beato Jacques de Voragine predicando. Legenda dorada BNF Fr244 f1
Beato Jacques de Voragine pregando. Legenda duorada BNF Fr244 f1
Luis Dufaur
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Numa praça pública de alguma cidade italiana, em 1267, um frade mendicante faz seu sermão contando:

Um homem havia tomado emprestado de um judeu certa soma de dinheiro e na falta de outra garantia jurara sobre o altar de São Nicolau que a devolve¬ria assim que pudesse.

Muito tempo depois o judeu reclamou o dinheiro, mas o devedor alegou que já havia pago a dívida.

O judeu levou-o a juízo e exigiu que afirmasse sob juramento que havia devolvido o dinheiro.

Como se precisasse de apoio para andar, o homem ali compareceu com uma bengala, que era oca e que ele havia enchido de moedas de ouro.

Quando foi prestar juramento, pediu que o judeu a segurasse e jurou ter restituído mais do que havia recebido.

domingo, 14 de março de 2021

O santo que cravou a lança no costado de Jesus

São Longino no momento supremamente trágico de cravar a lança no Coração de Jesus Procissão em Sevilha, Espanha
São Longino no momento supremamente trágico de cravar a lança no Coração de Jesus
Procissão em Sevilha, Espanha
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Longino foi o centurião (=chefe de cem homens) que, estando de pé com seus soldados perto da Cruz, furou o lado do Salvador com uma lança por ordem de Pilatos.

Mas vendo o sol se obscurecer e o terremoto, ele acreditou.

Passou a acreditar ainda mais quando, segundo relatam alguns autores, esfregando os olhos com o sangue de Nosso Senhor que corria pela lança, estes voltaram logo a enxergar.

Renunciou então à condição militar e, instruído pelos Apóstolos, passou vinte e oito anos na vida monástica em Cesárea de Capadocia, convertendo muitas pessoas à fé com sua palavra e seus exemplos.

Recusando-se sacrificar aos ídolos quando feito prisioneiro pelo governador, este mandou arrancar-lhe todos os dentes e a língua.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Tudo o que Deus faz é pelo melhor

O Rei e o médico

Luis Dufaur
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Havia um médico, homem bom e sem malícia, na corte de um poderoso rei.

Visitando Sua Alteza, ainda que o achasse afligido com qualquer trabalho ou dor, não mostrava entristecer-se.

Aplicava os remédios que entendia lhe eram necessários, e consolava o rei, dizendo que não se agastasse e sofresse seu trabalho com paciência, porque tudo o que Deus faz é pelo melhor.

Aconteceu de morrer o príncipe herdeiro do reino, pelo que o rei ficou muito triste.

Querendo o médico visitá-lo e consolá-lo, como todos faziam, o fez com as palavras de seu costume, dizendo-lhe:

— Senhor, não vos agasteis tanto, a ponto de prejudicar a vossa pessoa. Tudo que Deus faz é pelo melhor.

O rei não teve paciência ao ouvir este dito em tal ocasião, e pensou:

— O que poderia ser pior para o príncipe meu filho, do que morrer? Vou me vingar deste médico insolente. Vejamos se lhe será melhor a morte que lhe mandarei dar do que deixá-lo viver.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O bom caminho

Entregue à sua sorte, Frederick Mccubbin (Art Gallery of Western Australia (Australia), detalhe
Entregue à sua sorte, Frederick Mccubbin
(Art Gallery of Western Australia (Australia), detalhe
Luis Dufaur
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Tu que durante tanto tempo pecaste contra Deus, sabes o que te convém fazer?

A primeira coisa é cessar de praticar o mal. Pois se queres fazer o bem deves deixar de fazer o mal.

Pega o exemplo de aquele que queria ir a Roma.

E visando ir a Roma pegou a estrada que sai da Porta Nova e conduz direto a Roma.

Mas não faças como muitos que dizem: “Eu quero ir a Roma” e vão direto para a Porta que conduz a Camollía e empreendem a viagem no sentido contrário.

E se alguém lhe pergunta: “Aonde vás?” responde: “Vou a Roma.”

Então lhe dizem:

domingo, 31 de janeiro de 2021

O milagre da Santa Mãe d’Aquele que andou sobre o mar

Luis Dufaur
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Esta é a história da mulher que passou grande perigo no mar levando seu filho pequenino nos braços, e Nossa Senhora Santa Maria a fez andar sobre as águas como se fosse sobre o chão...

“A Santa Mãe d’Aquele que caminhou sobre as águas pode obter do poder dEle que outro andasse sobre elas.

Isto mostrou Santa Maria num milagre muito grande a uma pobre mulher que achou que iria morrer no mar com o filho que carregava. Mas, salvou-a a Virgem, como agora ouvireis se prestais atenção.

Viajava a mulher numa galera de Marselha, que segundo tenho ouvido dizer pertence a um corsário chamado Pedro Bonifaz. Naquele dia, a galera bateu num recife e ficou desfeita.

domingo, 17 de janeiro de 2021

A vingança do macaco

A vingança do macaco
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Ai! Eu te quero dar um exemplo da Corte do rei da França, ou da Espanha.

Ele tinha um macaco e um urso, e se achava muito feliz.

Aconteceu que o macaco teve crias, e o urso matou uma delas e a comeu.

O macaco vendo o que o urso tinha feito, parecia que gritava por justiça e ia até cada um dos moradores da casa, e girava por aqui e por lá e ia junto a quem via.

Porém, vendo que não era compreendido, um dia decidiu fazer justiça e foi até onde estava o urso.

Parecia que queria dizer: “Posto que os outros não fazem justiça pelo crime deste urso, eu vou faze-la por minha própria mão”

No lugar onde estava o urso, havia muito feno.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Santo Antônio pregou aos peixes e converteu aos hereges

Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos, escola de Girolamo Tessari, 1518
Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos.
Escola de Girolamo Tessari, 1518
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Querendo Cristo bendito demonstrar a grande santidade do seu fidelíssimo servo Santo Antônio, e como devotamente devia ser ouvida sua pregação e sua doutrina santa, pelos animais irracionais, uma vez entre outras, isto é, pelos peixes, repreendeu a insensatez dos infiéis heréticos, como antigamente no Antigo Testamento, pela boca da jumenta, repreendera a ignorância de Balaão.

Pelo que, estando uma vez Santo Antônio em Rímini, onde havia grande multidão de heréticos, querendo reduzi-los ao lume da verdadeira fé e ao caminho da verdade, por muitos dias lhes pregou e disputou sobre a fé cristã e a santa Escritura.

No entanto eles não consentindo em suas santas palavras, e mesmo como endurecidos e obstinados não querendo ouvi-lo, Santo Antônio um dia por divina inspiração dirigiu-se à foz do rio, junto do mar, e estando assim na praia entre o mar e o rio, começou a dizer a modo de prédica, da parte de Deus, aos peixes: 

“Ouvi a palavra de Deus, vós, peixes do mar e do rio, pois que os infiéis heréticos esquivam-se de ouvi-la”.

domingo, 27 de dezembro de 2020

“Tem-te-igual” face à moraima

Igreja de Tentúgal
Igreja de Tentúgal
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Entre a cidade de Coimbra e a Vila de Montemor-o-Velho fica a aldeia de Tentúgal que hoje é uma pequena povoação mas que nos tempos de primeira dinastia era uma posição fortificada bastante importante, defendendo a passagem do Mondego.

Os mouros tinham sido escorraçados até ao Algarve.

Mas os dois sucessores do conquistador de Silves não foram lutadores como os dois primeiros reis portugueses e eram freqüentes as incursões sarracenas que, vindas da Andaluzia, atravessavam o Guadiana e vinham assolar as terras reconquistadas.

Os portugueses eram senhores dos castelos e quando os mouros faziam os seus fossados, as populações rurais, ainda mozárabes, isto é mistas de católicos e árabes convertidos, refugiavam-se atrás das ameias.

Os mouros faziam correrias até o Tejo, passando pelos campos e montes entre as praças-fortes e apoderavam-se das colheitas e do gado que podiam recolher. 

domingo, 13 de dezembro de 2020

São Nicolau: bispo inflexível que obteve o impossível

São Nicolau ressuscita um jovem, Ambrogio Lorenzetti.
Luis Dufaur
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QUANDO O SENHOR quis chamá-lo a Si, ele pediu-Lhe que lhe mandasse os seus anjos. 

Então, inclinou a cabeça, viu os anjos que se dirigiram a ele, e logo se deitou no chão, munindo-se com o crucifixo e, dizendo o Salmo “Em Ti, Senhor, esperei ...” até “nas tuas mãos”, e entregou o espírito, no ano do Senhor de 343, enquanto se ouvia a melodia dos coros celestes.

Foi sepultado num sepulcro de mármore; da cabeceira brotava uma fonte de azeite e dos pés uma fonte de água; e, até hoje, tem emanado dos seus membros um óleo sagrado que restituiu a saúde a muitos.

Sucedeu-lhe um homem bom que, por invejas, foi deposto da sua cátedra; desde que foi deposto, o azeite deixou de correr, voltando a fluir logo que para ela voltou a ser chamado.

Passado muito tempo, os turcos destruíram Mira, mas quarenta e dois soldados de Bari foram lá com quatro monges que lhes mostraram o túmulo de São Nicolau; abriram-no e levaram com toda a reverência os seus ossos, que nadavam em azeite, para a cidade de Bari, no ano do Senhor de 1087.

domingo, 6 de dezembro de 2020

São Nicolau padroeiro dos navegantes, inimigo do diabo e da idolatria, terror dos maus governantes

São Nicolau salva os marinheiros, Museu de San Marco, Florenca
Luis Dufaur
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CERTO DIA, alguns marinheiros que estavam em perigo, dirigiram-lhe por entre lágrimas esta oração:

‒ Nicolau, servo de Deus, se é verdade o que ouvimos a teu respeito, faz que agora o experimentemos.

Imediatamente lhes apareceu alguém parecido com ele, que lhes disse:

‒ Eis-me aqui, pois me chamastes!

E começou a ajudá-los nos mastros, nos cabos e nos outros aparelhos da nau, e logo a tempestade cessou. 

Depois, quando foram à sua igreja, reconheceram-no, embora nunca o tivessem visto nem alguém lho indicasse. Então deram graças a Deus e a ele pela sua salvação; o Santo, porém, ensinou-os a atribuir o milagre à misericórdia divina e à fé que haviam demonstrado, mas não aos seus méritos.

HOUVE TEMPO em que toda a região de São Nicolau foi assolada por uma fome tão grande que todos ficaram sem alimentos. 

Quando o homem de Deus ouviu que estavam no porto uns barcos carregados de trigo, foi logo lá e pediu aos marinheiros que lhe dessem, ao menos, cem moios [antiga unidade de medida] por cada nave, para matar a fome aos que estavam em perigo. Eles responderam-lhe:

domingo, 29 de novembro de 2020

São Nicolau: virtude heróica e senso do maravilhoso até hoje

São Nicolau sagrado bispo
Luis Dufaur
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Em 1993, uma equipe de arqueólogos descobriu na ilha de Gemile, Turquia, um centro de peregrinações composto de quatro igrejas, um caminho processional e uma quarentena de prédios em torno do primeiro túmulo de São Nicolau (+ 326).

O conjunto foi arrasado pelo furor maometano, mas as relíquias do santo foram salvas e levadas a Myra, e hoje se veneram em Bari (Itália).

É o famoso São Nicolau de Bari.

A história do santo bispo, que numa noite de Natal lançou pela janela os dotes a três moças pobres, possibilitando assim seu casamento, está na origem da tradição dos presentes natalinos.

A deturpação hodierna de São Nicolau deu no Papai Noel mas não desqualifica em nada essa bela tradição.

Enquanto o Natal se aproxima é proveitoso conhecermos mais da vida desse santo que marcou tão a fundo os costumes cristãos.

O Bem-aventurado Jacques de Voragine, arcebispo de Genova, escreveu uma história do Santo cheia de unção poética. A festa é o 6 de dezembro.

domingo, 22 de novembro de 2020

Como Frei João do Alverne conheceu toda a ordem da santa Trindade

Luis Dufaur
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O Frei João do Alverne, porque perfeitamente havia renunciado a todo deleite e consolação mundana e temporal, e em Deus havia posto todo o seu deleite e toda a sua esperança, a divina bondade lhe dera maravilhosas consolações e revelações, especialmente nas solenidades de Cristo.

Pelo que, aproximando-se uma vez a solenidade da Natividade de Cristo, na qual esperava de certo consolação pela doce humanidade de Jesus, o Espírito Santo pôs-lhe na alma tão grande e excessivo amor e fervor da caridade de Cristo, pela qual ele se tinha humilhado, tomando a nossa humanidade, que verdadeiramente lhe parecia ter sido tirada sua alma ao corpo e arder como uma fornalha.

O qual ardor não podendo suportar se agoniava e se derretia inteiramente e gritava em altas vozes; porque, pelo ímpeto do Espírito Santo e pelo excessivo fervor do amor, ele não se podia conter de gritar.

E na hora em que aquele desmesurado fervor lhe vinha, com ele lhe vinha tão forte e certa a esperança de sua salvação, que por nada deste mundo acreditara que se então morresse devesse passar pelas penas do purgatório. 

E aquele amor lhe durou bem um meio ano, ainda que aquele excessivo fervor não fosse continuado, mas lhe viesse em certas horas do dia.

domingo, 8 de novembro de 2020

O jovem frade que abominava a túnica

Luis Dufaur
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Um jovem muito nobre e delicado veio para a Ordem de São Francisco: o qual depois de alguns dias, por instigação do demônio, começou a ter tal abominação ao habito que vestia, que lhe parecia trazer um saco vilíssimo.

Tinha horror às mangas, abominava o capuz, e o comprimento e a grandeza lhe pareciam carga insuportável.

E crescendo-lhe assim o desgosto pela Ordem, deliberou finalmente deixar o hábito e voltar ao mundo.

Tomara por costume, conforme lhe ensinara seu mestre, todas as vezes que passavam em frente do altar do convento, no qual se conservava o corpo de Cristo, ajoelhar-se com grande reverência e tirar o capuz e inclinar-se com os braços em cruz.

Sucedeu que naquela noite, na qual devia partir e deixar a Ordem, foi-lhe preciso passar diante do altar do convento; e passando, segundo o costume, ajoelhou-se e fez reverência.

E subitamente arrebatado em espírito, foi-lhe mostrada por Deus uma maravilhosa visão: repentinamente viu diante de si passar quase infinita multidão de santos como em procissão, dois a dois, vestidos todos de belíssimo e precioso pano.

As faces deles e as mãos resplandeciam como o sol, e iam com cânticos e música de anjos, entre os quais santos havia dois mais nobremente vestidos e adornados do que todos os outros.

domingo, 25 de outubro de 2020

Um rei justo

Luis Dufaur
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Eu vos quero contar uma coisa que tal vez vos parecerá excecional.

Eu ouvi dizer que o rei [São] Luis foi um homem muito de Deus e foi muito sábio.

Houve então alguns homens que queriam lhe pedir uma absolvição.

Queriam lhe pedir por um fulano que estava na prisão por um homicídio.

Combinaram, então, ir lhe pedir a graça uma Sexta-feira Santa, e assim fizeram.

Se apresentaram, e falou um que já estava apalavrado com os outros, e disse:

“Santa Coroa, nós vos imploramos uma clemência por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, Quem num dia como o de hoje quis morrer pela salvação do gênero humano para libera-lo dos laços com que estava amarrado nas mãos de seu inimigo”.

Falou assim em grande e agradável discurso.

Por fim, quando chegou à conclusão, todos disseram:

“Entrega-nos a fulano que tendes trancafiado na prisão”.

São Luis, respondendo disse:

domingo, 11 de outubro de 2020

O cavaleiro e o pacto com o diabo

Gárgula, da catedral Notre Dame de Paris.
Gárgula, da catedral Notre Dame de Paris.
Luis Dufaur
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Um cavaleiro nobre, poderoso e rico despendeu todos os seus bens e caiu em muito grande miséria. Tinha uma esposa muito casta e devota da Santíssima Virgem Maria.

Havendo uma grande festa na cidade, o cavaleiro queria fazer muitas despesas, mas não tinha mais dinheiro. Por vergonha, foi se esconder numa mata até que passasse a festa.

Estando ele naquele lugar, apareceu-lhe uma criatura muito espantosa em um cavalo assustador, e perguntou-lhe por que estava assim tão triste.

O cavaleiro contou-lhe toda sua história. E a criatura espantosa lhe disse:
— Se quiseres fazer o que eu te mandar, eu te farei ter mais riquezas e mais honras que antes.

O cavaleiro lhe prometeu que faria tudo o que ele quisesse, se ele cumprisse o que estava prometendo. E o demônio lhe disse:
— Vai à tua casa e cava um lugar. Acharás muito ouro. E promete-me que tal dia trarás aqui a tua mulher.

O cavaleiro prometeu. Foi para casa e achou muita riqueza, segundo lhe dissera o diabo, e começou a viver como antes.

domingo, 27 de setembro de 2020

O camponês avarento

Cidade de Colmar, Alsácia, França, no Natal
Cidade de Colmar, Alsácia, França, no Natal
Luis Dufaur
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Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi surpreendido pela noite à entrada de uma aldeia. 

Procurou uma casa onde pudesse pedir pousada, mas as portas todas estavam fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas.

Tudo estava adormecido. 

Apenas no fim de um beco se ouvia o barulho de um mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequenina luz. 

 Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou rente ao muro de uma quinta e bateu à porta. 

Logo depois veio um camponês atender. 

domingo, 13 de setembro de 2020

Como Deus apareceu a São Francisco e companheiros enquanto falavam de Deus

São Francisco pregando aos pássaros. Benozzo Gozzoli (1421 - 1497) Capela de Capela de São Francisco, Montefalco, Itália
São Francisco pregando aos pássaros. Benozzo Gozzoli (1421 - 1497)
Capela de Capela de São Francisco, Montefalco, Itália
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Estando São Francisco uma vez, nos princípios da Ordem, recolhido com os seus companheiros a falar de Cristo, em um convento, no fervor de espírito mandou a um deles que em nome de Deus abrisse a boca e falasse de Deus o que o Espírito Santo lhe inspirasse.

Obedecendo o irmão à ordem e falando maravilhosamente de Deus, São Francisco lhe impôs silêncio e mandou a outro irmão que fizesse o mesmo.

Obedecendo este, e falando subtilissimamente Deus, São Francisco lhe impôs o silêncio e ordenou ao terceiro que falasse de Deus.

O qual semelhantemente começou a falar tão profundamente das coisas secretas de Deus, que certamente São Francisco conheceu que ele, como os dois outros, falava pelo Espírito Santo.

domingo, 30 de agosto de 2020

Legenda da fidelidade

Santa Ada, Giotto di Bondone
Luis Dufaur
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Conta-se que em tempos muito remotos havia um convento de monjas agostinianas, perto da cartuxa de Monte Alegre.

Havia entre elas — e era, por certo, a mais humilde — uma monja de família nobre, de alta linhagem e muito bela.

Numa tarde, um cavaleiro que habitava nos arredores do castelo desse lugar, por acaso viu-a no jardim, e de tal maneira impressionou-se por sua beleza, que não teve mais repouso.

Desde então o cavaleiro rondava todas as noites o jardim do convento, chegando ao extremo de escalar os muros e cantar em frente à cela da enclausurada.

Esta teve notícia dos padecimentos do jovem cavaleiro, e chorou amargamente por ser causa deles.

Sua humildade e sua religião não podiam suportar a situação que o cavaleiro lhe criava, rondando-a como se fosse do mundo.