domingo, 3 de janeiro de 2021

Santo Antônio pregou aos peixes e converteu aos hereges

Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos, escola de Girolamo Tessari, 1518
Santo Antônio prega aos peixes, mais sensíveis que os heréticos.
Escola de Girolamo Tessari, 1518
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Querendo Cristo bendito demonstrar a grande santidade do seu fidelíssimo servo Santo Antônio, e como devotamente devia ser ouvida sua pregação e sua doutrina santa, pelos animais irracionais, uma vez entre outras, isto é, pelos peixes, repreendeu a insensatez dos infiéis heréticos, como antigamente no Antigo Testamento, pela boca da jumenta, repreendera a ignorância de Balaão.

Pelo que, estando uma vez Santo Antônio em Rímini, onde havia grande multidão de heréticos, querendo reduzi-los ao lume da verdadeira fé e ao caminho da verdade, por muitos dias lhes pregou e disputou sobre a fé cristã e a santa Escritura.

No entanto eles não consentindo em suas santas palavras, e mesmo como endurecidos e obstinados não querendo ouvi-lo, Santo Antônio um dia por divina inspiração dirigiu-se à foz do rio, junto do mar, e estando assim na praia entre o mar e o rio, começou a dizer a modo de prédica, da parte de Deus, aos peixes: 

“Ouvi a palavra de Deus, vós, peixes do mar e do rio, pois que os infiéis heréticos esquivam-se de ouvi-la”.

E dito que foi, subitamente aproximou-se dele na praia tal multidão de peixes grandes, pequenos e médios, como nunca naquele mar e naquele rio foi vista outra multidão tão grande, e todos tinham a cabeça fora da água e todos estavam atentos para a face de Santo Antônio e todos em grandíssima paz e mansuetude e ordem: porque na frente e mais perto da praia estavam os peixinhos menores e atrás deles estavam os peixes médios; depois ainda mais atrás, onde era a água mais profunda, estavam os peixes maiores.

Santo Antônio, Ambrose Benson, catedral de Segovia
Santo Antônio, Ambrose Benson, catedral de Segovia

Estando pois em tal ordem e disposição colocados os peixes, Santo Antônio começou a pregar solenemente e a dizer assim:

“Meus irmãos peixes, muito obrigados estais, segundo a vossa possibilidade, de agradecer ao vosso Criador que vos deu tão nobre elemento para vossa habitação.

“Porque, como for do vosso agrado, tendes água doce e salgada; deu-vos muitos refúgios para fugirdes das tempestades; deu-vos ainda elemento claro e transparente e cibo pelo qual podeis viver.

“Deus vosso Criador cortês e benigno, quando vos criou, deu-vos como mandamento de crescerdes e multiplicardes, e deu-vos a sua bênção.

“Pois, quando foi do dilúvio geral, todos os outros animais morrendo, a vós somente Deus conservou sem dano. 

“E ainda vos deu barbatanas para irdes aonde for do vosso agrado.

“A vós foi concedido por ordem de Deus conservar Jonas e depois do terceiro dia lançá-lo em terra são e salvo.

“Oferecestes o censo a Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual como pobrezinho não tinha com que pagar. 

“Depois servistes de alimento ao eterno rei Jesus Cristo antes e depois da ressurreição, por singular mistério. 

“Pelas quais coisas todos muito deveis louvar e bendizer a Deus que vos deu tantos e tais benefícios, mais do que às outras criaturas”.


A tais e semelhantes palavras e ensinamentos de Santo Antônio começaram os peixes a abrir as bocas e inclinar as cabeças e com estes e outros sinais de reverência, segundo o modo que puderam, louvaram a Deus.

Então Santo Antônio, vendo tanta reverência dos peixes para com Deus Criador, rejubilando-se em espírito, em alta voz disse:

“Bendito seja Deus eterno, porque mais o honram os peixes aquáticos do que os homens heréticos e melhor escutam a sua palavra os animais do que os homens infiéis”.

Santo Antônio pregando aos peixes
Santo Antônio pregando aos peixes

E tanto Santo Antônio mais pregava quanto a multidão dos peixes mais crescia e nenhum se partia do lugar que ocupara. 

A este milagre começou a acorrer o povo da cidade, vieram mesmo os sobreditos heréticos.

Os quais, vendo milagre tão maravilhoso e manifesto, compungidos em seus corações, todos se lançaram aos pés de Santo Antônio para ouvir-lhe a prédica.

Então Santo Antônio começou a pregar sobre a fé católica, e tão nobremente pregou, que todos aqueles hereges converteu e os fez voltar à verdadeira fé cristã; e todos os fiéis ficaram com grandíssima alegria confortados e fortificados na fé.

E feito isto Santo Antônio despediu os peixes com a bênção de Deus e todos se partiram com maravilhosos atos de alegria e do mesmo modo o povo.

E depois Santo Antônio esteve em Rímini por muitos dias pregando e fazendo muito fruto espiritual de almas.

Em louvor de Cristo. Amém.



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domingo, 27 de dezembro de 2020

“Tem-te-igual” face à moraima

Igreja de Tentúgal
Igreja de Tentúgal
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Entre a cidade de Coimbra e a Vila de Montemor-o-Velho fica a aldeia de Tentúgal que hoje é uma pequena povoação mas que nos tempos de primeira dinastia era uma posição fortificada bastante importante, defendendo a passagem do Mondego.

Os mouros tinham sido escorraçados até ao Algarve.

Mas os dois sucessores do conquistador de Silves não foram lutadores como os dois primeiros reis portugueses e eram freqüentes as incursões sarracenas que, vindas da Andaluzia, atravessavam o Guadiana e vinham assolar as terras reconquistadas.

Os portugueses eram senhores dos castelos e quando os mouros faziam os seus fossados, as populações rurais, ainda mozárabes, isto é mistas de católicos e árabes convertidos, refugiavam-se atrás das ameias.

Os mouros faziam correrias até o Tejo, passando pelos campos e montes entre as praças-fortes e apoderavam-se das colheitas e do gado que podiam recolher. 

Depois, voltavam para o seu reino da Andaluzia com os despojos.

Montemor-o-velho
Mas uma das incursões era comandada por um grande mouro, uma figura gigantesca a que os portugueses chamavam “mourão”.

Este intrépido inimigo concebeu o plano de ir atacar e saquear Coimbra que era, então, onde a corte residia.

A cidade estava cheia de riquezas e como ficava longe da fronteira, as precauções de defesa não eram tão grandes como em Lisboa, Santarém ou Évora.

Os sarracenos passaram o Tejo entre Abrantes e Santarém, por terras da Golegã e, evitando Tomar, seguiram pelo vale de Nabão em demanda de Coimbra.

O plano consistia em ultrapassar a cidade para o lado Norte e atacá-la.

É claro que esse lado era o menos vigiado por não se esperar um ataque pelo lado em que os territórios eram há muito católicos e bastante povoados. Além disso, havia a defesa natural do Rio Mondego.

Mas os ousados sarracenos, passaram-no junto de Alfarelos e foram acampar na margem Norte, entre o Castelo de Montemor e o de Coimbra, junto da povoação que ali havia.

O seu acampamento ficava exatamente onde hoje se ergue a igreja matriz e ali mesmo ficava a tenda maior que era a do general, o “mourão” que comandava.

Mouros sitiam Montemor-o-Velho
Mouros sitiam Montemor-o-Velho
Por isso, o lugar ficou a ser conhecido por Mourão e ainda hoje tem esse nome.

Quando os católicos tiveram noticia da chegada das hostes mouras, reuniram tropas idas de Montemor, de Coimbra e até de Leiria.

Travaram-se muitos combates preliminares, como era uso da época, simples escaramuças para avaliação de forças de ambas as partes contendoras.

Finalmente, chegou o dia da peleja que se realizou em campo aberto com sorte vária para ambos os lados. Ora os portugueses eram repelidos ora avançavam impetuosamente, fazendo recuar os invasores.

A batalha ficou indecisa até à noite e recomeçou no dia seguinte com redobrado esforço.

Foi então que o gigante mouro resolveu entrar na luta com a sua guarda de escol para resolver a batalha a seu favor.

Logo que investiu com a sua força devastadora, o resultado do combate parecia decidido e os chefes portugueses já pensavam em retirar para Coimbra, quando um moço português resolveu enfrentar pessoalmente o “mourão”.

Abriu caminho até o mais aceso da luta e fez frente em duelo mortal ao inimigo invasor.

Brasão em Tentúgal
Brasão em Tentúgal

Então os portugueses ao verem o valoroso combate, resolveram suspender a manobra de retirada e recomeçar a luta em apoio do seu campeão.

Enquanto eram dadas as ordens para o efeito, os dois contendores digladiavam-se já isolados nas ruínas das fortificações que eram bastante frágeis, e estavam quase completamente desmoronadas, pois haviam ainda sido construídas pelos godos.

À medida que os católicos iam recuperando terreno, gritavam repetidas vezes para o seu valoroso campeão: Tem-te igual com o “mourão”! 

Tem-te igual com o “mourão”! Essa frase de português arcaico equivaleria hoje a bradarem: Aguenta-te com ele! Aguenta-o!

O valente guerreiro aguentou os golpes do alfange agareno com o seu montante até que os companheiros treparam às ruínas e rodearam o “mourão” por todos os lados. 

Em breve, a cabeça rolava pelas pedras envolvida no turbante ensanguentado.

Os mouros, vendo cair a seu general derrotado, começaram a render-se e a fugir. Como estavam longe das suas bases, em breve eram aprisionados, mesmo antes de chegarem a Tomar, porque os portugueses dessa cidade vieram ao seu encontro.

Foi esta a última arrancada mourisca pelo centro de Portugal para lhe atingir o coração. 

Nunca mais ousaram fazê-lo porque as perdas tinham sido muitas e verificaram que nem de surpresa conseguiam vencer os portugueses.

Brasão em Tentúgal
Brasão em Tentúgal
Muita coisa se perdeu nas brumas da História, como o nome do “mourão” e o do valoroso português que lhe fez frente.

Mas o lugar do acampamento mouro ficou para sempre recordado como lugar do “mourão” e ali foi construída uma igreja, já reedificada várias vezes.

Quanto à aldeia próxima, também já se não sabe o seu nome primitivo, anterior à batalha.

O castelo que ali foi construído recebeu o nome de castelo do “Tem-te-igual”, nome que, com o tempo, evoluiu para Tentúgal.

Hoje, Tentúgal é uma vilazinha sossegada e laboriosa, cuja fama já não é devida a memórias guerreiras, mas aos seus apreciados pastéis de finíssimo folhado com recheio de doce de ovos...

Quem viaja entre Coimbra e a Figueira da Foz não deixa de parar em Tentúgal para saborear os afamados pastéis.

Mas, se perguntar aos anciãos donde provém o nome, já ninguém sabe referir a tradição lendária...


(Autor: Álvaro Carlos, “Narrativas e Lendas de Portugal”, Edições Paulistas, Lisboa, 1987, pp. 43 a 46)




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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Santo Natal e Feliz Ano Novo!

Luis Dufaur
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domingo, 20 de dezembro de 2020

Algumas lendas natalinas antigas da França e da Inglaterra

Luis Dufaur
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Toque de sino exorcístico

“O momento em que o Maligno finalmente fica reduzido à impotência é o do tilintar do primeiro toque da meia-noite de Natal”.(1)

A raiva do demônio

“Um antigo conto de Natal nos apresenta uma descrição forte e ingênua da raiva do demônio pela vinda do Messias:

“'Eu me enraiveço'.

O demônio, certamente, dentro de seu coração se enraivece, porque Deus vem presentemente salvar os filhos de Adão e de Eva, de Eva, de Eva!

Ele reinava absolutamente sem nos dar trégua, mas esse santo acontecimento livra os filhos de Adão e de Eva, de Eva, de Eva!

Cantemos o Natal altamente, saiamos de nosso pesadelo, bendigamos a salvação de todos os filhos de Adão e de Eva, de Eva, de Eva”.(2)

domingo, 13 de dezembro de 2020

São Nicolau: bispo inflexível que obteve o impossível

São Nicolau ressuscita um jovem, Ambrogio Lorenzetti.
Luis Dufaur
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QUANDO O SENHOR quis chamá-lo a Si, ele pediu-Lhe que lhe mandasse os seus anjos. 

Então, inclinou a cabeça, viu os anjos que se dirigiram a ele, e logo se deitou no chão, munindo-se com o crucifixo e, dizendo o Salmo “Em Ti, Senhor, esperei ...” até “nas tuas mãos”, e entregou o espírito, no ano do Senhor de 343, enquanto se ouvia a melodia dos coros celestes.

Foi sepultado num sepulcro de mármore; da cabeceira brotava uma fonte de azeite e dos pés uma fonte de água; e, até hoje, tem emanado dos seus membros um óleo sagrado que restituiu a saúde a muitos.

Sucedeu-lhe um homem bom que, por invejas, foi deposto da sua cátedra; desde que foi deposto, o azeite deixou de correr, voltando a fluir logo que para ela voltou a ser chamado.

Passado muito tempo, os turcos destruíram Mira, mas quarenta e dois soldados de Bari foram lá com quatro monges que lhes mostraram o túmulo de São Nicolau; abriram-no e levaram com toda a reverência os seus ossos, que nadavam em azeite, para a cidade de Bari, no ano do Senhor de 1087.

domingo, 6 de dezembro de 2020

São Nicolau padroeiro dos navegantes, inimigo do diabo e da idolatria, terror dos maus governantes

São Nicolau salva os marinheiros, Museu de San Marco, Florenca
Luis Dufaur
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CERTO DIA, alguns marinheiros que estavam em perigo, dirigiram-lhe por entre lágrimas esta oração:

‒ Nicolau, servo de Deus, se é verdade o que ouvimos a teu respeito, faz que agora o experimentemos.

Imediatamente lhes apareceu alguém parecido com ele, que lhes disse:

‒ Eis-me aqui, pois me chamastes!

E começou a ajudá-los nos mastros, nos cabos e nos outros aparelhos da nau, e logo a tempestade cessou. 

Depois, quando foram à sua igreja, reconheceram-no, embora nunca o tivessem visto nem alguém lho indicasse. Então deram graças a Deus e a ele pela sua salvação; o Santo, porém, ensinou-os a atribuir o milagre à misericórdia divina e à fé que haviam demonstrado, mas não aos seus méritos.

HOUVE TEMPO em que toda a região de São Nicolau foi assolada por uma fome tão grande que todos ficaram sem alimentos. 

Quando o homem de Deus ouviu que estavam no porto uns barcos carregados de trigo, foi logo lá e pediu aos marinheiros que lhe dessem, ao menos, cem moios [antiga unidade de medida] por cada nave, para matar a fome aos que estavam em perigo. Eles responderam-lhe:

domingo, 29 de novembro de 2020

São Nicolau: virtude heróica e senso do maravilhoso até hoje

São Nicolau sagrado bispo
Luis Dufaur
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Em 1993, uma equipe de arqueólogos descobriu na ilha de Gemile, Turquia, um centro de peregrinações composto de quatro igrejas, um caminho processional e uma quarentena de prédios em torno do primeiro túmulo de São Nicolau (+ 326).

O conjunto foi arrasado pelo furor maometano, mas as relíquias do santo foram salvas e levadas a Myra, e hoje se veneram em Bari (Itália).

É o famoso São Nicolau de Bari.

A história do santo bispo, que numa noite de Natal lançou pela janela os dotes a três moças pobres, possibilitando assim seu casamento, está na origem da tradição dos presentes natalinos.

A deturpação hodierna de São Nicolau deu no Papai Noel mas não desqualifica em nada essa bela tradição.

Enquanto o Natal se aproxima é proveitoso conhecermos mais da vida desse santo que marcou tão a fundo os costumes cristãos.

O Bem-aventurado Jacques de Voragine, arcebispo de Genova, escreveu uma história do Santo cheia de unção poética. A festa é o 6 de dezembro.

domingo, 22 de novembro de 2020

Como Frei João do Alverne conheceu toda a ordem da santa Trindade

Luis Dufaur
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O Frei João do Alverne, porque perfeitamente havia renunciado a todo deleite e consolação mundana e temporal, e em Deus havia posto todo o seu deleite e toda a sua esperança, a divina bondade lhe dera maravilhosas consolações e revelações, especialmente nas solenidades de Cristo.

Pelo que, aproximando-se uma vez a solenidade da Natividade de Cristo, na qual esperava de certo consolação pela doce humanidade de Jesus, o Espírito Santo pôs-lhe na alma tão grande e excessivo amor e fervor da caridade de Cristo, pela qual ele se tinha humilhado, tomando a nossa humanidade, que verdadeiramente lhe parecia ter sido tirada sua alma ao corpo e arder como uma fornalha.

O qual ardor não podendo suportar se agoniava e se derretia inteiramente e gritava em altas vozes; porque, pelo ímpeto do Espírito Santo e pelo excessivo fervor do amor, ele não se podia conter de gritar.

E na hora em que aquele desmesurado fervor lhe vinha, com ele lhe vinha tão forte e certa a esperança de sua salvação, que por nada deste mundo acreditara que se então morresse devesse passar pelas penas do purgatório. 

E aquele amor lhe durou bem um meio ano, ainda que aquele excessivo fervor não fosse continuado, mas lhe viesse em certas horas do dia.

domingo, 8 de novembro de 2020

O jovem frade que abominava a túnica

Luis Dufaur
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Um jovem muito nobre e delicado veio para a Ordem de São Francisco: o qual depois de alguns dias, por instigação do demônio, começou a ter tal abominação ao habito que vestia, que lhe parecia trazer um saco vilíssimo.

Tinha horror às mangas, abominava o capuz, e o comprimento e a grandeza lhe pareciam carga insuportável.

E crescendo-lhe assim o desgosto pela Ordem, deliberou finalmente deixar o hábito e voltar ao mundo.

Tomara por costume, conforme lhe ensinara seu mestre, todas as vezes que passavam em frente do altar do convento, no qual se conservava o corpo de Cristo, ajoelhar-se com grande reverência e tirar o capuz e inclinar-se com os braços em cruz.

Sucedeu que naquela noite, na qual devia partir e deixar a Ordem, foi-lhe preciso passar diante do altar do convento; e passando, segundo o costume, ajoelhou-se e fez reverência.

E subitamente arrebatado em espírito, foi-lhe mostrada por Deus uma maravilhosa visão: repentinamente viu diante de si passar quase infinita multidão de santos como em procissão, dois a dois, vestidos todos de belíssimo e precioso pano.

As faces deles e as mãos resplandeciam como o sol, e iam com cânticos e música de anjos, entre os quais santos havia dois mais nobremente vestidos e adornados do que todos os outros.

domingo, 25 de outubro de 2020

Um rei justo

Luis Dufaur
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Eu vos quero contar uma coisa que tal vez vos parecerá excecional.

Eu ouvi dizer que o rei [São] Luis foi um homem muito de Deus e foi muito sábio.

Houve então alguns homens que queriam lhe pedir uma absolvição.

Queriam lhe pedir por um fulano que estava na prisão por um homicídio.

Combinaram, então, ir lhe pedir a graça uma Sexta-feira Santa, e assim fizeram.

Se apresentaram, e falou um que já estava apalavrado com os outros, e disse:

“Santa Coroa, nós vos imploramos uma clemência por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, Quem num dia como o de hoje quis morrer pela salvação do gênero humano para libera-lo dos laços com que estava amarrado nas mãos de seu inimigo”.

Falou assim em grande e agradável discurso.

Por fim, quando chegou à conclusão, todos disseram:

“Entrega-nos a fulano que tendes trancafiado na prisão”.

São Luis, respondendo disse:

domingo, 11 de outubro de 2020

O cavaleiro e o pacto com o diabo

Gárgula, da catedral Notre Dame de Paris.
Gárgula, da catedral Notre Dame de Paris.
Luis Dufaur
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Um cavaleiro nobre, poderoso e rico despendeu todos os seus bens e caiu em muito grande miséria. Tinha uma esposa muito casta e devota da Santíssima Virgem Maria.

Havendo uma grande festa na cidade, o cavaleiro queria fazer muitas despesas, mas não tinha mais dinheiro. Por vergonha, foi se esconder numa mata até que passasse a festa.

Estando ele naquele lugar, apareceu-lhe uma criatura muito espantosa em um cavalo assustador, e perguntou-lhe por que estava assim tão triste.

O cavaleiro contou-lhe toda sua história. E a criatura espantosa lhe disse:
— Se quiseres fazer o que eu te mandar, eu te farei ter mais riquezas e mais honras que antes.

O cavaleiro lhe prometeu que faria tudo o que ele quisesse, se ele cumprisse o que estava prometendo. E o demônio lhe disse:
— Vai à tua casa e cava um lugar. Acharás muito ouro. E promete-me que tal dia trarás aqui a tua mulher.

O cavaleiro prometeu. Foi para casa e achou muita riqueza, segundo lhe dissera o diabo, e começou a viver como antes.