domingo, 8 de fevereiro de 2026

O Martim Procelária

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Existe em certas regiões marítimas um tipo de pássaro tão branco quanto a neve, cujo prazer é andar na crista das ondas dos mares convulsionados.

Deparando-se com algo dentro d’água, mergulha inesperadamente, saindo do outro lado triunfante e com altaneria da bravura cometida, portando no bico o fruto da sua ousadia: um peixe.

Daí vem o seu nome, que é Procelária — pássaro que luta contra as procelas (procelas são as cristas brancas das ondas do mar).

Muito tempo atrás, na época em que os homens sabiam admirar, existia ao lado do paraíso uma região de tal maneira bela, que, segundo os mais famosos sábios, era o espelho da beleza divina.

A fim de evitar a invasão das forças do mal, Deus criou em sua volta cordilheiras tão majestosas e tão grandiosas, que nenhum inimigo ousava delas se aproximar. Evidentemente a paisagem não seria tão perfeita se a ela não fosse acrescentado o grandioso panorama marítimo.

Sendo assim, no lado da região que dava para o mar, Deus não criou montanhas, mas fabulosas palmeiras imperiais.

Nesse pequeno paraíso, os animais mais belos foram criados, não existindo cobras, nem lagartos, nem mosquitos e aranhas. Tudo era maravilha, tudo era encanto.

Como não poderia deixar de ser, as forças do mal, no mais profundo dos abismos, uivavam e se mordiam de ódio contra tal charme. Queriam, entre um ranger de dentes e outro, estraçalhar aquela maravilha.

Mas como?

Pelas montanhas, não lhes tinha sido dado o poder; pela praia lhes era impossível, pois a sublimidade da região era tal, que eles ficavam paralisados de terror. Até que se levantou o chefe das forças do mal, e disse:

— Vamos enfurecer os peixes do mar mais hediondos, dos mais profundos dos mares, e esperemos uma tempestade. Aí chegará a nossa hora, pois através dos monstros ajuntaremos grande quantidade de água, com a qual devastaremos a região.

São Francisco prega aos pássaros
São Francisco prega aos pássaros
Assim se fez. A tempestade veio e a tromba d’água assolou a região encantada. Foi uma desolação quase total. Muitos animais choravam sobre seus filhotes mortos. Os pássaros, apavorados, procuravam novas árvores para seu ninho. E caso houvesse outra borrasca como essa, a perda seria inevitável e irremediável.

Cientes do perigo, todos os animais se reuniram em torno do monárquico leão, a fim de tomar as medidas necessárias.

— Não temam — disse com rugido majestoso o nobre leão. — Isso é obra das forças do mal e seus seguidores. Deus está conosco. Ordeno aos pássaros, meus embaixadores, que vão até S. Francisco, patrono de todos os animais, e lá do céu tragam a solução.

Após sete dias de viagem, chegavam os pássaros junto a São Francisco. O problema foi de difícil solução. De início S. Francisco disse:

— Vamos construir montanhas, tão altas como as já existentes, isolando assim por completo a região terrestre da marítima.
— Isso não é possível — disse um pássaro amarelo com listras vermelhas.

— Não poderíamos assim fazer, porque perderíamos a grandiosa beleza do mar.
— De fato tens razão. Vamos até Nossa Senhora. É certo que ela nos ajudará.

Nossa Senhora dos pombos, Lu-Hung-Nien, século XX
Nossa Senhora dos pombos, Lu-Hung-Nien, século XX
Nossa Senhora, contente por terem recorrido a Ela, atendeu a todos prontamente:
— Uma das coisas que o mal mais teme é a minha vocação virginal. Você — disse, apontando para um pássaro cinzento que estava pousado no ombro do patrono S. Francisco — gostaria de ter a honra desse combate?

O pássaro, com muita humildade, voou até os pés da Virgem, beijou-os devotamente, e Ela lhe disse:
— A honra desse combate se estenderá a todos os seus descendentes.

Sempre que houver tempestade, e que as ondas atentarem contra a criação sublime de meu Filho, avancem corajosamente contra as malditas ondas, bradando "Ave Maria Puríssima!" Eu lhes garanto que o mal fugirá, e as vagas das ondas se tornarão inofensivas.

Terminado o conselho, a Mãe de Deus abençoou esse seu filho, enchendo sua alma de heroísmo e amor pelo combate. Imediatamente o pássaro mudou de cor, que era cinza, e tornou-se branco como as espumas do mar. Era o pássaro Procelária. Desse dia em diante, toda a paz dos animais da região ficou confiada à estirpe dos Procelárias.

Uma coisa sabemos: a toda honra concedida por Deus correspondem sacrifícios, que Nossa Senhora nos ajuda a suportar.

ortanto, o nosso Procelária teria também seus sacrifícios: não lhe foi dado o tempo de construir para si ninhos confortáveis e aconchegantes, como os demais pássaros.

O Procelária e seus descendentes teriam que viver em buracos nas pedras, enfrentando dia e noite o frio e a chuva, a fim de estarem a todo momento prontos para o combate.

Ao saber das boas novas, o bravo leão, junto com sua corte, rendeu graças à Virgem, Rainha dos Exércitos. Usando de sua astúcia militar, o rei dos animais não perdeu tempo: analisou o campo de batalha e indicou os pontos estratégicos.

AlbatrozÉ de chamar a atenção o que se passou com os Procelárias: nasceram muitos filhotes, porém nem todos nasciam brancos e reluzentes. Havia os que nasciam cinzentos, e esses, ao se tornarem adultos, iam para o vale e aí formavam seus ninhos confortáveis, constituindo uma família enorme de pássaros cinzentos.

Desses cinzentos, quando algum pássaro branco nascesse, desde jovem ia para as montanhas de pedras. Em suma, a honra do combate era somente para os portadores da bênção da Virgem.

Os Procelárias brancos eram em número de vinte. O vigésimo, em certa época, chamava-se Martim Procelária, e é aqui que começa a história.

Martim era o Procelária mais cândido, o que mais luz refletia. Tal era a sua alvura, que nenhum pássaro conseguia fitá-lo por muito tempo. Nos combates às forças do mal, Martim Procelária era o mais ousado, e no brado à Virgem ele era o mais harmonioso. O mal nunca sofrera tanto como estava sofrendo agora, com o Martim.

O chefe do mal, com seus uivos medonhos, rosnando, reuniu novamente seus asseclas para maquinarem planos de destruição do vale maravilhoso:
— Precisamos eliminar um dos Procelárias. Assim, com um ponto fraco, conseguiremos derrubar o vale. E temos que eliminar o mais importante deles: o Martim Procelária.

Era quase noite. O vento frio uivava violentamente por entre as pedras e cavernas da montanha. E lá, na vigésima guarita de pedra, estava o nosso bravo Martim. De repente entra um sopro frio, lentamente, como jamais se fizera sentir. Era o sopro da tentação. Nisso o Martim pensou: "Como é dura a minha vida! Nem tenho ninho confortável! Creio até que os animais, lá no vale, nem sabem que existo". Era o começo de uma tentação.

O dia seguinte amanheceu nublado, e o pobre Martim voava de maneira diferente. O que se passava? Talvez nem ele mesmo soubesse. Mas o que sentia era um vazio na alma. Para que estaria ele fazendo todo aquele sacrifício? Talvez sua vocação fosse outra... Era a força do mal, querendo destruí-lo.

Estava certo dia sobre uma pedra, tomando um agradável banho de sol, e seus pensamentos vagavam pelo vazio. Olhando para o alto, viu cortar o azul celeste um ponto negro. Sentiu o mesmo vento frio do outro dia. Sua alma, cheia de dúvidas, já estava preparada para ser atacada pelo inimigo.

UrubuAo se aproximar o horrível ponto negro, Martim notou que era um pássaro de vôo majestoso. Pela tranqüilidade aparente do vôo, parecia que jamais preocupação alguma cortava seu caminho, tudo era brincadeira. O misterioso pássaro contornava suavemente as brancas nuvens, que pareciam brincar com ele. Isso atraía a atenção de Martim, e Belzebu, o chefe das trevas, sorria com isso.

Instintivamente, quiçá levado pela admiração, Martim começou a voar. Subiu... subiu... até que teve um pequeno sobressalto: a aparência do misterioso voador não correspondia à majestade de seu vôo. Enquanto seguia rumo a ele, o monstro preto como urubu voltou sua cabeça despenada para Martim, e tentando ser agradável, disse:
— Oi!

Que diferença entre esse cumprimento e aquele do céu, "Ave Maria Puríssima"... Mas, já fraco pela tentação, o infeliz Martim teve vergonha de ser ridicularizado se respondesse como sabia. E então pensou: "Quem sabe se, para conquistar sua amizade, um outro ‘oi!’ não ajudasse..."

pobre Procelária não sabia que seu brado "Ave Maria Puríssima" espantaria o demônio ali encarnado.
— Oi! — respondeu o Martim, após muita hesitação.

A alma de Martim já estava inteiramente quebrada pela tentação do conforto, do sossego...

— Menelau é o meu nome — disse o urubu, já triunfante da primeira batalha. — A mim foi dado todo este panorama. Tenho liberdade de ir para onde eu quiser. Nada me detém. Comida não me falta. Tudo para mim é conforto: minha esposa, meus filhos, meu lar... E você, o que tem?

Coitado do Martim! Ficou com vergonha de dizer que só tinha a glória. Vendo sua hesitação, Menelau insistiu:
— Venha comigo! Repartiremos juntos minha felicidade, meus vôos e meus panoramas. Para mim é fácil dar tudo isso a você. Queres? É só me seguir.

O Martim ainda se lembrou:
— Mas se as ondas vierem e...
— Nada disso! — rugiu Menelau, cortando as palavras de Martim. E depois procurou ser suave:
— Estamos na primavera. Ondas, tempestades, só daqui a seis meses, no inverno. E além do mais, daqui a três meses você será substituído. Nesse ínterim você terá aquela felicidade...

UrubuSem esperar resposta, Menelau levou Martim para conhecer outros panoramas. Tudo era novidade para o pequeno Martim. Ele estava encantado, e nem mais lhe causava estranheza a feiúra e horror do seu novo amigo. De fato o mar estava calmo, não havia perigo. O infeliz Procelária resolveu seguir o asqueroso urubu. Voaram juntos por um bom tempo, e depois a fome começou a apertar.

— Onde está o alimento? — perguntou ingenuamente o Martim, olhando um pouco inquieto para Menelau.
— Logo o teremos. Veja lá em baixo, são todos os meus parentes que estão reunidos em torno de seu banquete. Vamos até lá.

E assim, em círculos cada vez mais baixos, suavemente começaram a se aproximar do festim. "Que será aquilo? — pensava Martim. — Qual será a surpresa? Parece ser boa, pois todos comem com tal avidez. Parece que nem respiram para comer".

Na realidade a surpresa lhe foi desagradável.
— Que mau cheiro!!
— Venha rápido — gritou Menelau, com a boca cheia de carniça. — Se não chegar logo, nada lhe sobrará.

Menelau, sem mesmo ter acabado de chegar, já se atolara na carniça.
— Mas isto é o meu alimento tão prometido? — perguntou Martim.
— Ora, a coisa não é tão ruim. É só uma questão de hábito.

Aproximando-se ainda mais da malcheirosa carniça, Martim titubeou.
— O que é isso? — perguntou o raivoso urubu. — Não quer ser um dos nossos? Então coma.

A fome era grande... e o Martim comeu. Imediatamente suas penas brancas e reluzentes tornaram-se negras e opacas como um carvão. Seu bico reto e agudo, próprios para os brados à Virgem, tornou-se curvo e ensebado como um anzol velho. Seu pescoço tornou-se despenado e cheio de pelancas. Sua voz harmoniosa tornou-se um hediondo grasnar rouco e desafinado.
O bando dos urubus caiu na gargalhada.
— Agora não adianta mais. Tu serás um dos nossos para todo o sempre.

E as gargalhadas no meio da comilança continuaram. "Já não sou mais um Procelária. Tornei-me um urubu" — pensou o degradado Martim, e afundou-se na carniça podre e purulenta.

GaivotasPassaram-se dois meses. Martim não conhecia mais a alegria. A nova amizade o enganara. Martim estava enfadado da vida. Começou a voar só e muito alto. Menelau, porém, o vigiava atentamente e à distância. Em seus vôos solitários, Martim olhava nostálgico para o azul do mar, sem todavia ter coragem de retornar.

"Como eu pude abandonar minha vocação? — pensava o Martim. — Que fraqueza a minha! Deixei de ser um eremita Procelária para ser o mais podre dos animais. Quando Nossa Senhora chama alguém para uma vocação tão alta, e esse alguém volta as costas para a vocação, o tombo é grande, e se afunda no mais profundo dos abismos. Quando se tira o peixe para fora d’água ele morre, porque foi feito para viver na água. Assim também, quando Deus cria alguém para uma vocação e este se afasta dela, morre como o peixe fora d’água".

Em tudo isso Martim pensava. E quando a saudade lhe batia na alma, o negro urubu Menelau logo intervinha com sarcasmo:
— Isso é coisa do passado... Nunca mais você voltará a ser um eremita Procelária. Aliás, vou lhe revelar um segredo. Olhe bem para o horizonte. Que está vendo?
— Vejo uma enorme nuvem escura, prenunciando uma borrasca.
— Pois é, dentro de pouco tempo uma tempestade virá, e seu vale será totalmente destruído.

E assim Menelau descreveu, entre gargalhadas, toda a terrível trama dos demônios e o seu pacto com Belzebu, pois este havia prometido que, se Menelau destruísse o Martim, o vale iria ser destruído e toda a carniça do vale seria dos urubus.
— Veja! — berrou o maldito.

As nuvens negras começaram a se unir, tornando o céu sem luz e de uma escuridão quase palpável. Os ventos começaram a se tornar violentíssimos. A tempestade desabou. Raios e relâmpagos cruzavam o céu.

Os dezenove Procelárias entoavam cânticos de guerra e formavam fileiras próximo às guaritas de pedra, preparando-se para o combate. Os Procelárias sabiam que este seria um terrível combate, pois uma guarita, a vigésima, estava vazia. O que teria acontecido com o bravo Martim? Dos dezenove Procelárias, nenhum sabia dizer.

Repentinamente um raio ensurdecedor deu início à batalha. Furacões gigantescos se batiam contra a arrojada defesa do pequeno paraíso, e os Procelárias, quase esgotados pela fadiga, não se rendiam, pois tinham de seu lado a promessa da Virgem.

Nossa Senhora, Sens, catedral St-EtienneO pequeno Martim já não mais ouvia o "fala-fala" do urubu carniceiro. Uma saudade imensa invadia sua alma. Tinha saudade do tempo em que ele era alvo e luminoso, tinha saudade do tempo em que Nossa Senhora o amava.

Menelau, com sua percepção diabólica, sabia o que se passava na alma de Martim, e procurava com todas as forças apagar o entusiasmo que crescia no coração dele:
— A perda de inocência é irreparável, você não tem mais salvação, você é negro como um urubu... O inimigo que ataca os Procelárias não é nada, perto do que vem agora.

Nisso, algo de assustador desponta no horizonte. Uma onda colossal, até então jamais vista, estava se avolumando e caminhando na direção da vigésima guarita, que estava vazia. Enquanto isso os outros Procelárias davam uma mostra de heroísmo sem igual, mas combatiam na outra extremidade, levados por um plano do inimigo, e nada percebiam.

A onda que se aproximava era um verdadeiro furacão devastador. A impressão que se tinha era que os demônios retiraram todas as águas do mundo e ali as concentravam, para a satânica investida.
— Seu paraíso está irreparavelmente perdido — gritou o urubu. — A investida será feita pela vigésima guarita. Você a conhece?

O Procelária, para desespero do urubu, já não se interessava mais pelo que estava ao seu redor. No mais profundo de sua alma, ele rogava a Nossa Senhora:
— Perdão, minha Mãe. Estou arrependido do que fiz. Dai-me forças novamente. Perdão, minha Mãe. Dai-me forças...
No fundo do seu coração, sentiu uma voz que dizia:
— Coragem! Vá, meu filho, vá! Estarei contigo!

Martim, com ar decidido, esticou as asas e lançou-se a toda velocidade contra a tromba d’água, sem perceber que aos poucos suas penas tornavam-se brancas novamente.

O maldito urubu, desesperado, agarrou as patas de Martim, tentando evitar a sua conversão, e os dois afundaram na gigantesca onda. Tudo se acalmou. Tudo estava acabado. O vale estava salvo. No mar, uma grande mancha de sangue em forma de cruz trazia o corpo de Martim para a praia.

GaivotasE até hoje, quando os eremitas Procelárias marcham entoando seus cânticos de guerra, contando seus feitos nas batalhas, nunca deixam de cantar um cântico dedicado a Martim Procelária, cuja letra é a seguinte:

"Certa vez, neste mar, uma grande guerra se travou entre os nobres Procelárias e o terrível poder das trevas. Mas quando tudo parecia perdido, eis que do céu veio uma luz de grande intensidade, e ouviu-se um brado como nunca se ouvira: AVE, MARIA PURÍSSIMA! Esse raio de luz, que era o Martim, penetrou junto com Menelau num grande furacão, e assim venceu-se a batalha.

Pôde-se ver então a Justiça Divina: Martim Procelária foi ao céu; e Belzebu fugiu acovardado, levando entre os dentes o precito urubu, que teve a mesma sorte de todos os que atentam contra os filhos da Virgem.

Passará a eternidade ao lado de Judas, continuamente triturados pelos dentes pútridos, mal cheirosos e incandescentes de Satanás".




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domingo, 25 de janeiro de 2026

A flauta do monge inocente

Igreja de Dégagnazès
Igreja de Dégagnazès
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Sabeis por que todos os anos multidões de peregrinos vão rezar em Dégagnazès? É que antigamente ocorreram lá as grandes coisas que eu vos contarei.

No bosque, no local em que os mercadores montam suas barracas no dia de peregrinação, havia um convento com trinta monges vestidos todos de branco.

Na realidade eram trinta e um, mas eu disse trinta, como todo mundo, porque o trigésimo primeiro não contava.

Era um mongezinho não maior que uma criança, todo corcunda e um tanto coxo, conhecido como ‘o inocente’, por causa da sua simplicidade.

Não falava com ninguém, mas sabia-se que era bom, porque tinha os olhos doces e os animais gostavam dele.

Era o pastor do convento, e todas as manhãs, ao raiar do dia, saía do estábulo, onde dormia ao lado das suas ovelhas, e com elas atravessava os bosques floridos, à procura dos locais de pastagem.

O monge amava suas ovelhas, mas amava ainda mais sua flauta. Era uma flauta de bambu, com seis orifícios, que ele mesmo fizera.

Quando ele a levava à boca e soprava, abrindo e fechando com seus dedos os orifícios, poder-se-ia dizer que ela falava. Eu não sei se de fato falava, mas o certo é que todos, homens e animais, a compreendiam.

A flauta punha ordem em todas as atividades da vizinhança.

De manhã, quando o monge saía do convento tocando alegremente, os galos que o ouviam compreendiam que era hora de cantar, e cantavam a plenos pulmões.

Os camponeses diziam:

‒ “Ouça a flauta do mongezinho. Está na hora de levantar”. E se levantavam.

As flores que se fecham durante a noite preparavam-se para abrir. O vento que dormia nos bosques começava a se mover e sacudir as árvores, para acordar os passarinhos.

Ao meio-dia, quando o monge tocava uma música faustosa, as ovelhas se deitavam sobre as patas cruzadas, para o descanso do meio-dia, e os camponeses interrompiam o trabalho para comer o pão.

Ao fim do dia, quando o monge voltava ao convento tocando uma música lenta e suave, as galinhas nos seus poleiros compreendiam que era hora de dormir, e também os camponeses cansados iam para suas camas.

Que faria a pobre Dégagnazès sem o monge? Não saberia viver conforme a ordem e o horário que agrada ao bom Deus.

Lobo e ovelhas, Contos e Lendas da era medieval
Um dia o monge não saiu do convento, e tudo ficou de pernas para o ar. É que os ingleses devastavam a região, e os camponeses se refugiaram no convento com todos os seus animais.

Mas como não era fortificado, os ingleses entraram, apreenderam os seus bois, suas ovelhas, as tapeçarias da igreja, os cálices de ouro e toda a prata do mosteiro.

Mas não ligaram para a flauta nem para as ovelhas do mongezinho.

Logo que os ingleses se foram, o monge recomeçou a sair no horário de costume, tocando sua flauta e acordando os galos na hora em que eles deviam ser acordados.

O prior do convento ficou furioso. Era um homem grande e vermelho, que queria ser sempre o mais forte, e que desprezava os simples e pequenos.

Como os ingleses estavam por perto e podiam voltar, ele decidiu fortificar o mosteiro.

Uma noite ele reuniu seus vinte e nove monges e lhes mandou porem mãos à obra, para trazer as pedras da montanha negra e quebrá-las, a fim de levantar um grande muro.

Mas os monges desataram a rir:

— Precisaríamos de cem anos para esse trabalho. Somos apenas homens, e o próprio diabo não o conseguiria.

— Veremos — disse o prior. — Voltai para vossas celas, seus desocupados, porque eu vou à procura do diabo.

O prior não sabia aonde ir e o que fazer para encontrar o diabo. Mas era tão orgulhoso, que estava certo de o diabo vir por si mesmo.

Compreendeis bem que nessas circunstâncias o diabo não se faria de rogado. E realmente ele apareceu ao prior em uma clareira do bosque, vestido com roupa cor de fogo e trazendo na mão um tridente.

O prior, que tremia um pouco, procurou dar a impressão de olhá-lo de cima.

— Então você está por aí, seu preguiçoso. Quer dizer que você me ouviu quando pronunciei seu nome!

— Fale com menos arrogância — respondeu o diabo. — Estamos sós, e é você que precisa de mim. E só o servirei se você me pagar bem. O que quer que eu faça?

— Eu quero um muro que contorne o convento, com 10 metros de altura e três de espessura, com cem seteiras e um grosso portão de ferro. E precisa ser construído durante a próxima noite, entre o pôr-do-sol e o primeiro canto do galo.

— Vejamos então a minha parte no negócio. Se eu construir o muro antes do canto do galo, você me dará sua alma e a de todos os monges que te pertencem por voto de obediência, e dos quais, portanto, você pode dispor... Mas o que é isto que eu estou ouvindo?

Era o som da flauta, porque o mongezinho corcunda tinha visto raiar a aurora, e começava a tocá-la enquanto saía do convento.

Como de costume, os galos acordados pela flauta se puseram a cantar, e toda a vizinhança começou a se movimentar.

O diabo ficou mal à vontade com todo esse bulício do trabalho honesto, e não sabia mais o que dizer.

Teve até desejo de fugir, quando viu aparecer na clareira o mongezinho entre suas ovelhas e cordeiros.

— Não gosto desse anão mal construído — disse enfim. — Ele está com jeito de quem quer nos espionar. Eu vou-me embora, Sr. Prior, e depois apareço na sua cela.

— Não se preocupe — disse o prior, que desprezava o mongezinho — Esse anão é um tolo, um fraco de espírito, mais ignorante que os próprios animais. Ele não ouve nada, não sabe nada e não compreende nada. Podemos concluir tranqüilamente o nosso negócio.

Parcialmente tranqüilizado, o diabo redigiu o contrato em um pergaminho e o leu em voz alta, fazendo-o assinar pelo prior, e em seguida desapareceu.

O mongezinho havia compreendido tudo, como bem o podeis imaginar, e ficou triste o dia todo.

Até se esqueceu de tocar a flauta ao meio-dia e à tarde, desorganizando novamente todas as atividades da vizinhança.

Quando o sol se pôs, ele viu chegar um batalhão de diabos. Havia milhares, de todas as cores.

Uns puxavam carroças carregadas de pedras, outros cavavam as fundações, outros assentavam as pedras.

Todos permaneciam em silêncio. Não se ouvia nada, mas o muro ia se erguendo, e o mestre dos diabos ia de um lado para outro, em uma nuvem de fogo, empurrando com um tridente aqueles que não trabalhavam rápido.

Chegou a meia-noite, o que significa que restavam ainda três horas para terminarem o trabalho antes do canto do galo. O muro estava quase concluído, e logo chegou a porta.

O diabo deu um assovio, e todos os outros diabos se aproximaram para assentá-la. Era um trabalho difícil, mas os diabos, numerosos e fortes, acabaram colocando-a nos gonzos.

O mongezinho compreendeu então que tudo estava perdido. Olhou para a flauta e chorou, pensando que no inferno ela não lhe valeria de nada.

Mas tanto olhou para a flauta através de suas lágrimas, que afinal teve uma idéia. Acordou sem ruído suas ovelhas e cordeiros, que o acompanharam enquanto saía de mansinho, com a flauta à mão.

Quando os diabos, lá no alto do muro, assentavam a última camada de pedras, ele começou a tocar a flauta, com toda sua força e toda sua fé.

As notas da flauta se espalharam pelos campos e chegaram até os galos, que acordaram sobressaltados.

E todos os galos de Dégagnazès, com medo de terem perdido a hora, puseram-se a cantar com todas as suas forças, e o seu canto chegou às muralhas ainda inacabadas do convento.

O diabo compreendeu que havia perdido, e fugiu com todos os seus operários, urrando, enquanto o monge, alegre, continuava a tocar sua flauta, como para agradecer ao bom Deus.

(Autor : Jean de Quercy, “Contes de la Vieille France”, Fernand Lanore, Paris, 1945)


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domingo, 11 de janeiro de 2026

Como os corvos enganaram as corujas

Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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O Conde Lucanor falando com Patronio, seu fiel conselheiro, disse:

– Patronio, estou em luta contra um inimigo muito poderoso. Ele tinha em sua casa um parente criado junto com ele e a quem ele tinha favorecido muitas vezes.

Mas, por causa de uma disputa entre eles, meu inimigo causou graves danos e desonrou seu parente ao qual devia muitas coisas.

O parente, pensando em aquelas ofensas e procurando forma de se vingar, quer se aliar comigo.

Acredito que vai ser um homem muito útil, porque poderia me aconselhar o melhor modo de fazer dano a meu inimigo, sendo que o conhece muito bem.

Pela grande confiança que vós mereceis e pelo vosso bom senso, vos rogo que me aconselheis sobre o modo de resolver esta questão.

– Senhor Conde Lucanor – disse Patronio – o primeiro que vos devo dizer é que com certeza esse homem veio para vos enganar.

E para que saibas como tentará consegui-lo, gostaria que soubesses o que aconteceu entre os corvos e as corujas.

O conde quis saber do que tinha acontecido naquele caso.

– Senhor Conde Lucanor – começou Patronio – os corvos e as corujas estavam em guerra entre si e os corvos levavam a pior parte porque as corujas só voam pela noite e no dia ficam escondidas em locais muito ocultos.
Os corvos em guerra com as corujas
Os corvos em guerra com as corujas
Elas voavam ao amparo da escuridão até as árvores onde aninhavam os corvos, golpeando e ferindo a todos quantos podiam.

Os corvos sofriam demais. Um deles muito esperto, vendo o grave dano que padeciam os seus, falou com seus primos corvos e encontrou um meio para se vingar das inimigas corujas.

Eis o modo que ele imaginou e pôs na prática: os corvos lhe arrancaram as plumas, exceto de alguma das asas, e por isso voava muito pouco e mal.

Assim recoberto de feridas foi ter com as corujas. Contou-lhes o mal e o dano que lhe causaram os corvos porque ele não queria a guerra contra as corujas.

Propôs, então, às corujas que se elas o aceitavam como companheiro estava disposto a lhes revelar as melhores formas de se vingar dos corvos e lhes fazer muito estrago.

Ouvindo isso, as corujas ficaram contentes porque acharam que com esse aliado poderiam derrotar a seus adversários os corvos. Então começaram a trata-lo muito bem e o tornaram partícipe de seus planos secretos e de seus projetos para a luta.

Porém, entre as corujas havia uma muito velha e experiente. E quando ficou sabendo a história do corvo, descobriu o engano que aprontava.

Foi então a explicar a trama à cabecilha das corujas, afirmando com toda certeza que aquele corvo foi se juntar com elas para conhecer seus planos e preparar sua derrota. Por isso tinham que afasta-lo logo dentre elas.

Mas a coruja sabida não conseguiu que seus irmãos lhe fizessem caso. E, vendo que não acreditavam nela, se afastou de todos e foi viver num local onde os corvos não poderiam encontra-la.

E as corujas, pese a tudo, continuaram confiando no corvo.

Quando as plumas lhe cresceram mais uma vez, o corvo disse às corujas que podendo voar, iria procurar os corvos e voltando contaria para as corujas onde estavam.

Então, as corujas todas se reunindo poderiam acabar com seus inimigos. E as corujas ficaram muito contentes.

As corujas acharam mais gstoso acreditar na mentira do corvo.
As corujas acharam mais gostoso acreditar na mentira do corvo falso amigo.
Chegando o corvo onde estavam seus irmãos, ajuntaram-se todos e ficaram sabendo dos planos das corujas e as atacaram de dia, quando elas não voam e ficam tranquilas.

E sem nada temer, as destroçaram e mataram tantas corujas que os corvos ficaram como únicos vencedores.

Assim aconteceu às corujas por confiar no corvo que, por natureza, é inimigo delas.

Vós, senhor Conde Lucanor, sabeis que esse homem que quer se aliar convosco deve vassalagem a vosso inimigo. Por isso, ele e toda sua família são vossos inimigos também.

Aconselho-vos que o afasteis da vossa companhia porque é certo que pretende vos enganar e procura vosso mal.

Porém, se ele quiser vos servir desde fora de vossas terras, de maneira que nunca conheça vossos planos e não possa vos prejudicar e se verdadeiramente fizer tanto estrago àquele inimigo vosso de forma a nunca mais poder fazer as pazes com ele, então podereis confiar nesse parente despeitado, fazendo-o sempre com cautela para que não vos possa resultar perigoso.

O conde julgou que esse era um bom conselho, agiu de acordo com ele e lhe foi muito proveitoso.

O príncipe Dom João entendeu se tratar de um conto muito bom, mandou-o escrever neste livro e compôs estes versos que dizem assim:

“Aquele que antes costumava teu inimigo ser

Nem em nada nem nunca lhe deves crer”.

(Fonte: «El Conde Lucanor», Alicante, Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2004. Conto XIX, págs. 82-84) 


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domingo, 28 de setembro de 2025

O jogral da Virgem


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Muitos peregrinos, vindos dos mais remotos confins da Cristandade, iam à romaria do Santuário de Nossa Senhora de Rocamadour.

Era gente de toda espécie, desde mendigos ou empestados até fidalgos e grandes dignitários da Igreja.

Frequentemente misturavam-se àquela turba alguns indivíduos aloucados, galhofeiros ou poetas, que tanto entoavam uma canção, acompanhando-a com qualquer instrumento, como embasbacavam o povo com malabarismos e trabalhos de saltimbancos.

Singlar era um desses. Jovem, espalhafatoso, tagarela, mas de caráter doce, excelente no uso dos instrumentos musicais e dulcíssimo no cantar.

Alto poeta, encontrava sempre, no momento exato, a palavra mais viva, mais colorida e musical para dizer as coisas.

Além disso, era devoto fiel da Virgem, e por isso fora a Rocamadour.

Rezou diante da imagem. Sabia, porém, que jamais poderia, com orações, dizer-lhe os sentimentos que transbordavam de seu coração.

Uma canção subia-lhe à flor dos lábios, e as pontas de seus dedos formigavam nervosamente, desejosos do instrumento.

Não pôde conter-se: apanhou o alaúde e cantou uma loa suave e ingênua.

O jogral estava emocionado, enlevado, e prostrou-se diante da imagem. Nela, os olhos e as pedrarias do traje fulguravam.

— Senhora — disse-lhe o cantor — estais vendo que eu canto para vós com todo o meu coração. Desejaria saber se meus louvores são recebidos com agrado.

O santuário estava cheio de gente, naquele momento. Todas as pessoas puderam ver um dos círios, saindo do candelabro em que estava colocado, descer até junto do poeta.

Houve um coro de exclamações. Gente corria de todos os cantos, para colocar-se ao lado do jovem:

— Milagre! Milagre!

Depressa chegou a notícia à clausura dos monges, que desceram todos para a igreja.

Os demais ajoelharam-se, confundidos com o povo que elevava fervorosas preces a Nossa Senhora.

Fazendo aquele prodígio, como prêmio ao canto ingênuo e sincero de um simples jogral, acabava Ela de dar a toda aquela gente uma lição de humildade.

Só um homem permanecia em pé.

Fez caminho entre os que estavam ajoelhados, e colocando-se diante do jogral, disse, em voz muito alta:

— Não vos deixeis enganar! Aqui não houve milagre!

Acreditais que a Rainha dos Céus desperdiçaria suas graças numa tolice como esta?

Levantai-vos! Não houve milagre, e sim mistificação deste velhaco, ou talvez sortilégio, arte do diabo.

Primeiro os monges, depois os peregrinos, foram pondo-se todos de pé, e depois afastando-se cautelosamente, um pouco encabulados, como que tomados de vergonha.

Muitos procuravam lugar atrás das colunas ou em algum canto pouco iluminado.

Entretanto, ninguém saiu do templo.

Por sua vez, Singlar ali continuava, ajoelhado diante da Virgem.

Na frente dele, repreendendo-o, um monge tornara a colocar o círio no candelabro.

Os pescoços esticavam-se, gente se punha em pontas de pés.

Todos os olhos estavam fixos no jogral, que pela segunda vez tirava notas dulcíssimas do alaúde e tornava a improvisar um cântico de louvor.

O círio tornou a descer para junto do poeta.

Gritos atroadores do monge retiveram a meio caminho as pessoas que se apressavam para o altar:

— Não vos aproximeis! Isto é obra de bruxaria!

Este homem é um mágico que veio afrontar Nossa Senhora!

Tem pacto com Satanás!

Em vão Singlar negava, os olhos cheios de lágrimas:

— Senhora, não me abandoneis!

O monge tinha apanhado o círio, e retinha-o com força entre as mãos, enquanto dizia:

— Estrela Matutina, Torre de Davi, Mãe do Salvador, não permitas que ante tua imagem o inferno possa agir como deseja!

A canção de Singlar entrava como alfinetadas de gozo no coração de todos.

Subia, retilínea, pura, clara, até a Virgem de Rocamadour...

O círio deu um salto, e das mãos do monge foi ter à mão direita do jogral.

Mesmo aquele monge tombou de joelhos.

Um "Ave!" espontâneo, vibrante, maravilhoso, brotou de todas as gargantas.



(Maravilhas do conto popular - Cultrix, SP, 1960)


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