domingo, 15 de abril de 2018

A alma penada de Castelbouc

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Nas gargantas do rio Tarn, do lado esquerdo para quem vai rumo a Santa Enimia, um curioso castelo expõe suas ruínas fantasmais sobre um rochedo quase inacessível.

O seu deplorável estado liga-se à lembrança lendária de um nobre que não quis ir às Cruzadas e, caindo numa extrema moleza, teve o coração corrompido pelas mulheres.

Desde então um animal estranho – dizem – volta de tempos em tempos ao local e solta misteriosos gemidos.

Os remotos fatos aconteceram no século XIII. Nessa época São Luís rei da França, bispos, barões, senhores e servos partiam para as Cruzadas.

Foram procurar a Raymond, Senhor do castelo, para ir defender a Terra Santa. Porém, desde o alto de sua poderosa torre, ele berrou:

‒ “Eu fico!”

‒ “Mas como, senhor? Todo o mundo vai para a Cruzada!”

‒ “A mim, o elmo me afoga, e o casco me esmaga.”

‒ “Mas, senhor, nós ...”

‒ “Chega! Vão embora. Eu não fui feito para carregar armas ou armaduras, mas antes bem para cantar poesias”, afirmou fortemente e se encerrou na fortaleza.

É verdade que Raymond parecia ser um bom trovador e não um guerreiro.

O tempo passou. Todos partiram para a Cruzada. A vergonha e o remorso começaram a tomar conta de Raymond.

A vergonha de se sentir inútil, de ficar só no seu castelo como um urso na sua toca.

Por fim, chegou a primavera, e com ela seu coração sentimental e mole desbordava de melúrias.

Uma manhã, ele desceu até a aldeia achando que mesmo andando fora da estrada a vida era muito bela e valia a pena gozá-la.

As camponesas vendo que seu senhor aproximava-se o rodearam dizendo:

‒ “Ah, como nós estamos tristes, mulheres e moças ...”

‒ “Mas, por que diabos?”, interrogou Raymond.

‒ “... é que nós ficamos sem nossos noivos, esposos, e pior ... sem os homens nossos dias são tediosos e nossas noites são muito longas!”

‒ “Pois bem, ... sim ... quer dizer ...” balbuciou Raymond. Mas, ouvindo essas lamentações seu coração derreteu como a cera sob o sol.

‒ “O Sr. é nosso nobre ... ajude-nos ...”, acrescentaram as mulheres.

‒ “Creio conhecer o remédio para vossos males e eu vos consolarei todas se o Céu me ajudar ...”, respondeu Raymond.

Foi assim que o castelo do senhor-trovador virou ponto de “romaria” para todas as mulheres tristes ou sofrendo mal de amores.

Um dia, uma velha mulher lhe disse:

‒ “Isso vai acabar mal. Abusando desse jeito, o animal morre”.

Raymond não prestou, ou fingiu não prestar, atenção. Cada mulher da cidade tirou dele até a última gota do festim que ele lhes ofereceu.

Assim, o senhor que com seus versos distribuía chamas de sentimentos, uma noite, como um fogo que não é cuidado, morreu ... e entregou a própria alma ... mas, a quem?

O sacerdote da cidade não quis benzer o corpo desse senhor pecador, e as cinzas desse fogo extinto foram jogadas no fundo do túmulo sem cerimônia religiosa.

Não se sabia se sua alma fora levada pelo diabo.

Porém, todas as mulheres do local acharam que no dia seguinte, um estranho animal cabeludo, chifrudo e cor de pele levantou voo por trás do rochedo do castelo.

Algumas garantiam ser um grande bode da montanha que soltava balidos infames olhando para a aldeia.

A velha senhora deu a palavra final dizendo:

‒ “É a alma do Senhor Raymond!”

Desde aquele triste dia pode se ouvir, por vezes, nas noites de lua cheia, no topo das ruínas, um balido cheio de lamentos acompanhado de estranhos murmúrios de vozes femininas.

Os mais ousados insistem que é algo como um bode que esvoaça em torno do castelo ...

Por isso o local ficou chamado: Castelbouc, ou o castelo do bode.



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segunda-feira, 2 de abril de 2018

O vinho derramado

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Havia na Normandia um fidalgo bastante pobre, que só podia dispor de umas poucas moedas para comprar diariamente seu alimento.

Uma certa manhã, verificou que só tinha em casa um pão, e decidiu comprar um pouco de vinho com algumas moedas de pouco valor.

Foi à taberna próxima e pediu vinho.

O taberneiro, que era um homem grosseiro e desagradável, serviu-lhe de má vontade um copo de vinho. Colocou-o na mesa tão bruscamente, que derramou quase a metade.

 Em vez de desculpar-se, disse com insolência:

— O senhor está com sorte. O vinho derramado significa alegria e riquezas.

O fidalgo não quis protestar contra aquele mal educado, pois seria trabalho perdido. Mas achou que de algum modo deveria ajustar essas contas, e pediu que o taberneiro lhe trouxesse um pedaço de queijo.

O homem apanhou a moeda bruscamente e foi ao andar de cima buscar o queijo.

Enquanto isso o fidalgo levantou-se, abriu a torneira do tonel de vinho e deixou que ele escoasse livremente, formando uma lagoa vermelha no meio da taberna.

Quando o taberneiro voltou e viu o que acontecera, avançou furiosamente sobre o fidalgo.

Este se defendeu e conseguiu lançá-lo de encontro ao tonel, que caiu ao chão junto com seu dono, entornando o que restava do vinho.

Acudiram vizinhos e soldados, separaram os contendores e os levaram junto ao rei.

O taberneiro falou primeiro e pediu uma indenização.

Antes de dar a sentença, o rei quis ouvir também o fidalgo, que narrou o sucedido com toda a veracidade, e acrescentou:

“Senhor, este homem me disse, quando entornou a metade do vinho que me vendera, que isso era sorte minha, pois vinho derramado significa alegria, e que eu me tornaria rico.

“Pensei então que, se eu me tornaria rico por ter derramado só meio copo de vinho, o bom taberneiro se tornaria muito mais rico e feliz se derramasse meio tonel.

“Cheio de reconhecimento e gratidão, resolvi então abrir a torneira do tonel, e o resto já conheceis”.

O rei e toda a corte se divertiram com a engenhosa justificativa, e o fidalgo foi dispensado sem pagar a pretendida indenização.



(Fonte: Jakes de Basin, in R. Menéndez Pidal, Antología de cuentos – Labor, Barcelona, 1953)


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domingo, 18 de março de 2018

Por que todo o mundo ia atrás de São Francisco

São Francisco, Mosteiro da Luz, São Paulo, pintura de teto realizado pelas freiras em clausura no mosteiro.jpg
São Francisco, Mosteiro da Luz, São Paulo,
pintura de teto realizado pelas freiras em clausura no mosteiro.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Estava uma vez São Francisco no convento da Porciúncula com Frei Masseo de Marignano, homem de grande santidade, discrição e graça em falar de Deus; pela qual coisa São Francisco o amava muito.

Um dia, voltando São Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade.

Foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse:

— “Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?”

São Francisco respondeu:

— “Que queres dizer?”

São Francisco, anônimo do século XIII.
Disse Frei Masseo:

— “Por que todo o mundo anda atrás de ti e toda a gente parece que deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te?

“Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre: donde vem, pois, que todo o mundo anda atrás de ti?”

Ouvindo isto, São Francisco, todo jubiloso em espírito, levantando a face para o céu por grande espaço de tempo, esteve com a mente enlevada em Deus.

E depois, voltando a si, ajoelhou-se e louvou e deu graças a Deus.

E depois, com grande fervor de espírito, voltou-se para Frei Masseo e disse:

— “Queres saber por que a mim? Queres saber por que a mim? Queres saber por que todo o mundo anda atrás de mim?

“Isto recebi dos olhos de Deus altíssimo, os quais em cada lugar contemplam os bons e os maus.

“Porque aqueles olhos santíssimos não encontraram entre os pecadores nenhum mais vil nem mais insuficiente nem maior pecador do que eu.

“E assim, para realizar esta operação maravilhosa, a qual entendeu de fazer, não achou outra criatura mais vil sobre a terra.

“E por isso me escolheu para confundir a nobreza, e a grandeza e a força e a beleza e a sabedoria do mundo.

“Para que se reconheça que toda a virtude, e todo o bem é dele e não da criatura, e para que ninguém se possa gloriar na presença dele.

“Mas quem se gloriar se glorie no Senhor, a quem pertence toda a honra e glória na eternidade”.




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domingo, 4 de março de 2018

O velho conde se fez ermitão


Luis Dufaur
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O velho conde Guy de Maience habitava um castelo às margens do Reno, lá adiante, perto da embocadura do rio, não longe do "mar salgado".

Era um infatigável caçador, e tivera em toda sua vida apenas duas belas paixões: a batalha e a caça do bosque.

Ora, um dia em que ele perseguia um veado pela floresta adentro, não foi pequena sua surpresa, e nem sua irritação, ao ver o animal se refugiar no pequeno quintal de uma ermida.

E logo o ermitão caiu a seus pés pedindo clemência pelo animal já sem fôlego:

— "Não, não! Não há clemência" — exclamou o conde.

E lançou no animal o grande dardo que tinha na mão.

Mas a flecha, mal dirigida, atingiu o eremita e lhe atravessou o coração.

Os anjos desceram do céu para recolher sua alma.

Nada pôde exprimir então a dor do assassino involuntário:

"Eu juro tomar o lugar deste que matei — diz ele — e viver nesta ermida até o fim de minha vida!"

E o nobre terminou seus dias como piedoso ermitão.


(Fonte: Léon Gautier, "La Chevalerie")



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domingo, 18 de fevereiro de 2018

O vilão que conquistou o Paraíso

Queda dos anjos rebeldes. Pieter Bruegel o Velho (1525-1569), Royal Museums of Fine Arts, Bruxelas
Queda dos anjos rebeldes. Pieter Bruegel o Velho (1525-1569),
Royal Museums of Fine Arts, Bruxelas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Um vilão morreu, e com ele aconteceu o que nunca havia acontecido antes e seguramente jamais voltará a acontecer: ninguém ficou sabendo da sua morte, nem no Céu nem no inferno.

Como pôde acontecer isso, não sei.

Sei com segurança é que, no momento em que a alma dele se separou do corpo, não havia por ali nem anjos nem diabos para recolhê-la, e com isso o pobre homem ficou sem guia.

E também não havia ninguém com atenção posta nele, para proibi-lo de fazer o que bem entendesse com a sua alma, de modo que resolveu por sua própria conta e risco tomar o caminho do paraíso.

São Miguel Arcanjo,  Jacopo Torriti  (1267-1292) Grenoble, Musée des Beaux Arts
São Miguel Arcanjo,
Jacopo Torriti  (1267-1292)
Grenoble, Musée des Beaux Arts
Não conhecia o caminho, mas viu de longe o arcanjo São Miguel conduzindo uma alma, e o seguiu despistadamente, como quem não quer nada.

Chegou à porta do Céu junto com São Miguel. São Pedro, ouvindo que o chamavam, abriu a porta e deixou que entrassem o anjo e seu convidado.

Quando viu do lado de fora o vilão sozinho, repreendeu-o:

— Aqui não se entra sem acompanhante, e além disso não queremos saber de vilões. Portanto, suma-se!

— Como ousais chamar-me de vilão? Vilão sois vós, e grandíssimo vilão. Depois de negar três vezes a Nosso Senhor, ainda vos acreditais com direito de impedir a entrada de um cidadão honrado num lugar onde nem deveríeis estar?

Isso é conduta para um apóstolo? Como é que Deus foi consentir em entregar a guarda do paraíso a quem age dessa maneira!

São Pedro não estava acostumado a ouvir sermões como esse, e ficou tão desnorteado que correu para dentro, sem nada responder.

Encontrou São Tomé e lhe contou a vergonha que acabara de passar.

— Deixe isso comigo — respondeu São Tomé. — Vou ver esse mendigo, e logo o despacharei.

Aproximou-se da porta e falou duramente ao vilão:

— Como ousas apresentar-te no lugar dos escolhidos, onde jamais entrou quem não fosse mártir ou confessor?

— Ah! É o senhor que vem me dizer isso? E o que está o senhor fazendo aí dentro?

Um homem sem fé, que não acreditou na Ressurreição do Senhor, duvidando da palavra de pessoas dignas de crédito.

E ainda precisou tocar nas chagas do Ressuscitado, para poder acreditar. Se gente tão descrente como o senhor entra aqui, por que não posso entrar eu, que sempre tive fé?

São Tomé baixou a cabeça, envergonhado, e voltou aonde estava São Pedro. São Paulo, que passava por ali, ouviu as lamentações dos dois apóstolos e se aproximou.

Fizeram-lhe um relato do acontecido, e então ele disse aos dois apóstolos desapontados:

— É que não sabeis fazer as coisas direito. Vou já acertar o passo desse vilão.

São Paulo, igreja de Santa Cecília, SP
São Paulo, igreja de Santa Cecília, SP
Foi até a porta com passo decidido, pegou o vilão pelo braço e quis forçá-lo a sair aos empurrões.

O vilão resistiu e lançou em rosto de São Paulo:

— Não me estranha nem um pouco essa brutalidade num homem como o senhor, perseguidor de cristãos que nunca escondeu sua tirania.

Para convertê-lo, foi necessário que Deus demonstrasse tudo o que sabe fazer, em matéria de milagres, e ainda assim o senhor foi um revoltoso, discutindo com um superior que era São Pedro.

Mesmo não sendo eu Santo Estêvão nem nenhum dos bons cristãos que o senhor torturou, deixe estar, que eu o conheço muito bem.

Apesar da segurança que São Paulo havia inicialmente demonstrado, desconcertou-se tanto quanto os outros.

Achou melhor juntar-se a eles, e combinaram de ir queixar-se a Deus.

Como chefe dos apóstolos, São Pedro tomou a palavra diante de Nosso Senhor, para pedir justiça.

Terminou dizendo que a insolência do vilão o deixara tão envergonhado, que não se atrevia a voltar ao seu posto enquanto o insolente se encontrasse ali.

— Eu mesmo irei falar com esse homem — disse Nosso Senhor.

Ao chegar diante da porta, Nosso Senhor perguntou ao vilão:

— Por que o senhor compareceu sem a companhia de um anjo? Aqui só se entra acompanhado, e além disso o senhor não tem o direito de insultar os meus apóstolos.

— Senhor, vossos apóstolos quiseram afastar-me, e eu acho que tenho tanto direito de entrar quanto eles, pois não vos reneguei, não duvidei da vossa Ressurreição nem apedrejei ninguém. Sei que ninguém é recebido aqui sem passar por um julgamento, e por isso quero me submeter ao vosso.

Juízo Final, catedral de Conques, França
Juízo Final, catedral de Conques, França
“Vós me fizestes nascer na pobreza, suportei minhas penas sem queixar-me e trabalhei toda a minha vida.

“Ensinaram-me a crer em vosso Evangelho, e eu acreditei. Fiz tudo o que me disseram que devia fazer.

“Dei esmolas aos que eram mais pobres do que eu e reparti o meu pão com eles.

“Confessei-me e comunguei quando o vigário mandou, e ele me disse que quem vive assim ganha o Céu.

“Por fim me fizestes entrar para ser interrogado, e aqui vou ficar, pois vós mesmo elogiastes no Evangelho uma que “escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”, e não podeis voltar vossa palavra atrás.

— Muito bem, podes ficar! Sem dúvida ganhaste o Céu pelos teus discursos, que enunciaste de modo convincente. Esta é a vantagem de ter frequentado boa escola.

(Fonte: Jakes de Basin, in R. Menéndez Pidal, Antología de cuentos – Labor, Barcelona, 1953)


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