domingo, 7 de julho de 2019

Como Jesus Cristo bendito,
fez fazer-se frade um rico e gentil cavaleiro

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






São Francisco, servo de Cristo, indo uma vez à tarde à casa de um grande gentil-homem poderoso, foi por ele recebido e hospedado, com o companheiro, como anjos do paraíso, com grandíssima cortesia e devoção.

Pelo que São Francisco lhe tomou grande amor, considerando que ao entrar em casa o tinha abraçado e beijado amigavelmente, e depois lhe havia lavado os pés e acendido um grande fogo e preparado a mesa com muito boas iguarias; e enquanto comiam, ele com semblante alegre os servia continuamente.

Ora, tendo acabado de comer São Francisco e o companheiro, disse este gentilhomem:

‒ “Eis, meu pai, ofereço-me a vós e as minhas coisas; quando precisardes de túnica ou de manto ou de outra coisa qualquer, comprai que eu pagarei; e vede que estou pronto a prover-vos em todas as vossas necessidades, porque pela graça de Deus eu o posso, porquanto tenho em abundância todos os bens temporais, e por amor a Deus que mos deu, eu os dou de boa vontade aos seus pobres”.

Pelo que, vendo São Francisco tanta cortesia e afabilidade nele e os grandes oferecimentos, concebeu tanto amor por ele que, tendo depois partido, ia dizendo ao seu companheiro:

‒ “Em verdade este gentil-homem seria bom para a nossa companhia, o qual é tão grato e reconhecido para com Deus e tão amorável e cortês para com o próximo e os pobres.

Deves saber, irmão caríssimo, que a cortesia é uma das propriedades de Deus, o qual dá seu sol e sua chuva aos justos e aos injustos por cortesia, e a cortesia é a irmã da caridade, a qual extingue o ódio e conserva o amor.

“E porque reconheci neste bom homem tanta virtude divina, de boa vontade o quereria por companheiro: por isso quero que tornemos um dia a ele, se talvez Deus lhe tocar o coração e ele quiser ser nosso companheiro no serviço de Deus.

“E entretanto pediremos a Deus que lhe ponha no coração este desejo e lhe dê a graça de pô-lo em prática”.

Admirável coisa! Daí a poucos dias, feita que foi a oração por São Francisco, Deus pôs o desejo no coração daquele gentil-homem; e disse São Francisco ao companheiro:

‒ “Vamos, irmão meu, ao homem cortês; porque tenho certa esperança em Deus de que, com a sua cortesia das coisas temporais, ele se dará a si mesmo para nosso companheiro”.

E foram, e chegando perto da casa dele, disse São Francisco ao companheiro:

‒ “Espera-me um pouco, porque quero primeiramente pedir a Deus que torne próspero nosso caminho; e que a nobre presa, a qual pensamos de arrancar ao mundo, seja por vontade de Cristo concedida a nós pobrezinhos e débeis pela virtude de sua santíssima paixão”.

E dito isto, pôs-se em oração, num lugar em que pudesse ser visto pelo dito homem cortês; de onde, como prouve a Deus, olhando ele distraído para aqui e para ali, viu São Francisco estar em oração devotíssimamente diante de Cristo, o qual com grande caridade lhe aparecera na dita oração e estava diante dele.

E via São Francisco ser por bom espaço de tempo levantado da terra corporalmente.

Pelo que ele foi tão tocado por Deus e inspirado para deixar o mundo, que no mesmo instante saiu do palácio e no fervor de espírito correu para São Francisco e, aproximando-se dele que estava em oração, ajoelhou-se-lhe aos pés e com grandíssima instância e devoção rogou-lhe que permitisse recebê-lo para fazer penitência juntamente com ele.

Então São Francisco, vendo que sua oração era atendida por Deus e o que ele desejava aquele gentil-homem pedia com instância, pôs-se em pé e em fervor e letícia de espírito o abraça e beija devotamente, agradecendo a Deus, o qual tinha aumentado sua companhia com um tão perfeito cavaleiro.

E dizia aquele gentil-homem a São Francisco:

‒ “Que ordenas que eu faça, pai meu? Eis, estou pronto para dar aos pobres, por tua ordem, o que possuo e a seguir contigo a Cristo, descarregado de todas as coisas temporais”.

E assim fez que, segundo a ordem de São Francisco, distribuiu seus bens aos pobres e entrou na Ordem e viveu em grande penitência e santidade de vida e conversação honesta.

Em louvor de Cristo. Amém.



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domingo, 23 de junho de 2019

O imperador e o bandido

Carlos Magno
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Carlos Magno estava uma noite dormindo em seu palácio, não longe de Frankfurt, quando viu em sonho um anjo rodeado de uma auréola brilhante de luz sobrenatural.

O anjo se colocou diante do Imperador, e o saudou com estas palavras:

— Levanta-te, grande Imperador, e escuta a voz de Deus que fala por meus lábios. É necessário que saias esta noite sem que ninguém te acompanhe, para fazer um roubo. Se queres viver, obedece.

Acordou Carlos Magno, estranhando muito o que havia visto no sonho. E adormeceu de novo com isto na cabeça. Outra vez viu o anjo, que diante dele ordenava:
— Levanta-te, ó rei, prepara-te para cumprir as ordens que te dei. É para o teu bem e salvação do Império. Deus se serve de mim para dar-te a conhecer a sua imutável vontade.

Carlos Magno acordou e ficou pensativo a respeito duas aparições, mas adormeceu de novo. O anjo do Senhor o despertou com redobrada insistência, e exigiu com energia que se levantasse e saísse para roubar.

Levantando-se, decidiu obedecer e sair do palácio para fazer o tal roubo.

Em vão se esforçou para descobrir o sentido das palavras do anjo, que mandava um Imperador honrado fazer uma ação tão desonrosa.

— Para que hei de roubar? — pensava Carlos Magno.

 — Eu, o homem mais poderoso, o dono absoluto das terras que se estendem desde o Danúbio até os extremos da Espanha, hei de passar por ladrão, como o mais miserável dos meus súditos? Que fiz eu? Desgraçado de mim! Que fiz, para merecer tal castigo da justiça divina?

Palácio de Carlos Magno, hoje catedral de Aquisgrão
Mas como a aparição falara três vezes de forma categórica, decidiu obedecer a ordem recebida.

— Bem, roubarei, serei um ladrão, serei enforcado, se for preciso, pois Deus assim o quer.

E o Imperador de barba florida se levantou, vestiu-se, tomou suas brilhantes armaduras e saiu do palácio.

Passou pelo dormitório e refeitório dos servidores e escudeiros, que não o perceberam, pois estavam tomados de um pesado sono.

Foi à estrebaria, selou seu cavalo favorito e saiu do castelo. Dirigiu-se à selva vizinha, e ia pensando:

— Sendo Deus que manifestou sua vontade, e quer que eu faça uma coisa que me causa horror desde minha infância, eu a farei. Mas não sei como fazê-la, por isso vou procurar o famoso ladrão Elbegasto, que eu persegui sem tréguas. Neste momento ele me será útil.

E se lembrou de como havia desterrado por uma pequena falta o nobre Elbegasto, e desde então se havia transformado num ladrão.

Seria então esta atitude para com Elbegasto, que fazia Carlos Magno estar pagando aquela expiação?

Então a alma de Carlos Magno se encheu de compaixão para com a desgraçada vítima de suas iras, e admirou com humildade a justiça e os desígnios de Deus.

Na pálida luz da lua, o Imperador viu vir em sua direção um cavaleiro solitário. Este parecia igualmente ter visto Carlos Magno, e avançou de maneira que prontamente se iriam encontrar.

 O cavaleiro estava com uma armadura toda negra, que o cobria da cabeça aos pés, e montava também um cavalo negro.

Chegou diante de Carlos Magno e o examinou com curiosa atenção, pois queria saber quem era este que cavalgava solitário pela floresta.

A cor negra do silencioso cavaleiro não parecia a Carlos Magno bom pressentimento. Tremia, pensando que poderia ser o próprio demônio, que tinha vindo ao seu encontro para perdê-lo. Por fim o misterioso cavaleiro falou com altaneria:

— Quem sois vós, coberto por branca armadura, que andais na noite, pelos caminhos sombrios da selva? Sois talvez um servidor do rei, que buscais neste bosque a pista de Elbegasto? Se cavalgais com esse objetivo, desisti, porque fracassareis. Mais rápido que o vento, mais astuto que os conselheiros do rei, esse homem conhece esconderijos e lugares selvagens, melhor que o veado e a raposa.

— Meu caminho não é o vosso — respondeu Carlos Magno.

— Somente o Imperador tem direito de pedir conta de minhas ações. E se o que disse não é de vosso gosto, estou disposto a sustentá-lo como convém a um cavaleiro.

Dizendo isto, tirou sua espada da bainha e se preparou para o combate. No mesmo instante o cavaleiro negro fez reluzir o branco aço de sua espada e começou a lutar.

O estrangeiro descarregou tão tremendo golpe no elmo de Carlos Magno, que a lâmina se quebrou em vários pedaços, e ele se encontrou indefeso. Carlos Magno ficou envergonhado de matar seu adversário desarmado, e lhe disse:

— Não quero vossa vida. Ficareis livre, se me disserdes quem sois e por que motivo andais por estes lugares.

— Eu sou Elbegasto — respondeu o outro. — Desde o dia em que perdi minha fortuna e Carlos Magno me expulsou do país, tenho procurado sobreviver por meio do roubo e do banditismo. Até aqui ninguém me venceu nesta minha humilhante carreira. Só vós o fizeste. E como me tratastes com generosidade e nobreza, dizei-me o que posso fazer para ajudar-vos, para testemunhar o meu agradecimento.

— Se sois o famoso bandido Elbegasto, cuja cabeça está a prêmio pelo Imperador, podeis testemunhar vosso reconhecimento se me ajudardes a cometer um roubo. Empreendi esta incursão noturna para roubar o Imperador. Vossa ajuda pode me ser útil para esse objetivo. Vinde pois comigo, e realizaremos um roubo juntos.

O bandido respondeu:

— Um momento! Jamais roubei a mínima coisa do rei. Se me tirou a fortuna e me desterrou, o fez por mentiras dos seus maus conselheiros. Longe de mim querer causar o menor dano ao meu senhor. Eu roubo somente aqueles que fizeram sua riqueza por meio do roubo, da cobiça ou do engano. Conheceis o conde Egerico de Egermonde? Vamos ao seu castelo. Ele tem arruinado homens honrados, e não vacilaria em roubar o Imperador de seu trono e tirar-lhe a vida, se tivesse meios para isto.

Carlos Magno se alegrou interiormente, descobrindo um profundo sentimento de fidelidade em Elbegasto, e lhe disse:

— Tu me acompanharás ao palácio de Egerico!

E juntos se dirigiram ao palácio do conde.

Palácio de Carlos Magno, abóveda, hoje catedral de Aquisgrão
Quando lá chegaram, Elbegasto descobriu um meio de entrar no palácio, fazendo uma escalada no muro. Entraram no quarto do conde, pois Elbegasto sabia abrir facilmente fechaduras sem fazer ruído. O conde, que tinha sono leve, disse à sua esposa:

— Deve haver ladrões no castelo, vou ver.

Levantou-se rapidamente, acendeu uma tocha e percorreu os corredores e os quartos. Carlos e Elbegasto tiveram tempo de se esconder atrás de uma cortina do quarto do conde, onde ele não podia imaginar que estivessem, e não foram descobertos. Egerico apagou a tocha e voltou para a cama.

Então sua esposa lhe disse:

— Egerico, é certo que ninguém entrou no palácio. Penso que alguma preocupação o aflige, e é isto que o impede de repousar. Sua alma está perturbada por algum perigo imaginário. Diga-me o que o preocupa, para eu o ajudar.

— Já que a execução de meus planos será amanhã, vou lhe dizer. Fiz uma combinação com doze cavaleiros, de assassinarmos o Imperador, pois ele nos proibiu de cobrar tributos aos viajantes pelo caminho real. Ninguém sabe deste propósito, e te peço que guardes silêncio, caso contrário nem tua vida estará segura.

O Imperador não perdeu nenhuma palavra desse diálogo.

Quando o conde e sua esposa adormeceram, os dois saíram silenciosamente de seu esconderijo, e fora do castelo combinaram que Elbegasto iria até o Imperador para avisá-lo, mesmo que corresse o risco de ser preso.

Carlos rapidamente regressou para o palácio.

No dia seguinte, muito cedo, apresentou-se Elbegasto no palácio e pediu para falar com o Imperador.

Trono de Carlos Magno
Este havia convocado todo o conselho, e foi ali que ouviu o relato do nobre.

Então Carlos Magno se pôs de pé e disse:

— Sonhei esta noite que o conde Egerico viria ao palácio com doze dos seus, com a intenção de assassinar-me, da mesma forma que o bandido Elbegasto descreveu. Sua ira contra mim tem por causa a proibição que fiz, de obrigar os viajantes do caminho real a que paguem impostos a esses cavaleiros, que têm a alma de ladrões. Cuidei, pois, de que houvesse suficiente número de soldados para intervir, se fosse necessário.

Pelo meio-dia Egerico chegou com seus homens, e no momento em que entraram na sala real foram presos pelos soldados.

Debaixo de suas roupas foram encontradas armas escondidas. Surpreendidos e desconcertados, os bandidos quiseram negar seus sinistros propósitos.

Mas Elbegasto desafiou o desleal vassalo a singular combate, para que Deus fizesse justiça, e a cabeça de Egerico rolou, justamente cortada pelo golpe vigoroso de Elbegasto.

O Imperador chamou Elbegasto e o perdoou publicamente, dando-lhe o cargo de conselheiro, com a condição de que renunciasse às suas atividades desleais.



(Fonte: V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)




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domingo, 9 de junho de 2019

Como Frei Leão só pode dizer o contrário do que São Francisco queria

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Estando uma vez São Francisco, no princípio da Ordem, com Frei Leão em um convento, onde não havia livro para rezar o ofício divino, ao chegar a hora de Matinas, disse São Francisco a Frei Leão:

“Caríssimo, não temos breviário, com que possamos rezar Matinas: mas, a fim de passarmos o tempo louvando a Deus, eu direi e tu me responderás como te ensinar; e toma cuidado, não digas as palavras de modo diverso do que te ensinar’.

Direi assim: ‘Õ irmão Francisco, praticaste tanto mal, tais pecados no século que és digno do inferno’; e tu, irmão Leão, responderás: ‘Verdadeira coisa é que mereces o inferno profundíssimo’

‒ E Frei Leão, com simplicidade columbina, respondeu: “Estou pronto, pai, começa em nome de Deus”.

Então São Francisco começou a dizer: “Ó irmão Francisco, praticaste tantos males e tantos pecados no século, que és digno do inferno”.

E Frei Leão respondeu:

‒ “Deus fará por ti tantos bens, que irás ao paraíso”.

Disse São Francisco: “Não digas assim, irmão Leão; mas quando eu disser: ‘Irmão Francisco, praticaste tanta coisa iníqua contra Deus, que és digno de ser maldito por Deus’, responderás: ‘Em verdade és digno de ficar mesmo entre os malditos”‘.

E Frei Leão respondeu: “De boa mente, pai”.

Então São Francisco, entre muitas lágrimas e suspiros e a bater no peito, disse em altas vozes: “Ó meu Senhor do céu e da terra; cometi contra ti tantas iniquidades e tantos pecados que por isso sou digno de ser amaldiçoado por ti”.

E Frei Leão respondeu:

‒ “Ó irmão Francisco, Deus te fará tal, que entre os benditos serás singularmente bendito”.

E São Francisco, maravilhando-se de Frei Leão responder sempre o contrário do que ele havia ordenado, repreendeu-o, dizendo: “Por que não respondes como te ensino? Ordeno-te, pela santa obediência, que respondas como te ensinar”.

Direi assim: ‘O irmão Francisco miserável, pensas tu que Deus há de ter misericórdia de ti; não é tão certo que tens cometido tantos pecados contra o Pai da misericórdia e o Deus de toda consolação, de modo que não és digno de encontrar misericórdia?’

E tu, irmão Leão, ovelhinha, responderás: ‘De nenhum modo és digno de alcançar misericórdia”‘.

Mas depois, quando São Francisco disse: “O irmão Francisco miserável”, etc., então Frei Leão respondeu:

‒ “Deus Pai, cuja misericórdia é infinita mais do que o teu pecado, fará em ti grande misericórdia e te encherá de muitas graças”.

A esta resposta São Francisco docemente irritado e pacientemente perturbado disse a Frei Leão: “Por que tiveste a presunção de ir contra a obediência, e por tantas vezes respondeste o contrário do que te impus?”

Respondeu Frei Leão muito humilde e reverentemente:

‒ “Deus o sabe, pai meu, que cada vez tive vontade de responder como me ordenaste: mas Deus me fez falar como quis e não como eu queria”.

Do que São Francisco se maravilhou e disse a Frei Leão: “Peço-te afetuosamente que desta vez me respondas como te disser”.

Respondeu Frei Leão: “Dize em nome de Deus, que por certo responderei desta vez como queres”.

E São Francisco, entre lágrimas, disse: “Ó irmão Francisco miserável, pensas que Deus terá misericórdia de ti?”

Responde Frei Leão:

‒ “Antes grandes graças receberás de Deus e serás exaltado e glorificado na eternidade, porque quem se humilha será exaltado: e eu não posso dizer de outro modo, porque Deus fala pela minha boca”.

E assim nesta humilde contenda, com muitas lágrimas e muita consolação espiritual, velaram até ao amanhecer.

Em louvor de Cristo. Amém.



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domingo, 26 de maio de 2019

Ladrão! Ladrão!


Luis Dufaur
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Um mercador voltava de uma feira, onde fizera grandes negócios. Colocara numa bolsa de couro toda a sua fortuna, em belas moedas de ouro. Ia assim por vales e montes.

Chegando à cidade de Amiens, passou diante de uma igreja. Como tinha por hábito, entrou para rezar diante da Mãe de Deus e pousou a bolsa ao lado. Quando se levantou, distraiu-se e partiu sem ela.

Havia na cidade um burguês que, ele também, tinha o costume de ir rezar aos pés da bendita Virgem.

Veio ele pouco depois ajoelhar-se no lugar que o outro acabara de deixar, e encontrou a bolsa, selada e guarnecida de um pequeno fecho. Compreendeu logo que devia conter moedas de ouro.

— Meu Deus! Que devo fazer? Se mando apregoar pela cidade o que encontrei, não faltará quem o reclame contra todo o direito.

Decidiu então guardar a bolsa num cofre, até aparecer alguém à procura.

Voltou para casa, e com um pedaço de giz escreveu na porta: "Se alguém perdeu algo, que venha aqui".

Nesse ínterim o mercador tinha se dado conta do esquecimento:
— Pobre de mim! Perdi tudo! Estou aniquilado!"

E voltou à igreja, na esperança de recuperar o perdido, mas nada de bolsa.

Foi ter com o padre, mas nenhuma informação obteve.

Perturbado, deixou a igreja e pôs-se a vagar pela cidade. Passando diante da casa do burguês que encontrara a bolsa, viu as palavras escritas na porta.

Viu também o burguês postado na janela, e aproximou-se:
— Sois vós, senhor, o dono desta casa?
— Sim, senhor, enquanto Deus o permitir. Em que vos posso servir?
— Ah, senhor! Por Deus, dizei-me: quem escreveu essas palavras em vossa porta?

O burguês fingiu nada saber:
— Senhor, passa por aqui muita gente, sobretudo estudantes que gostam de escrever o que lhes passe pela cabeça. Mas perdeste algo?
— Tudo o que possuía.
— O quê, precisamente?
— Uma bolsa de couro, guarnecida de um fecho e selada, repleta de moedas de ouro.
E descreveu a bolsa e o selo.


O burguês compreendeu sem dificuldade que aquele homem dizia a verdade. Conduzindo-o a seu quarto, devolveu-lhe a bolsa.

Vendo a lealdade do burguês, o mercador ficou todo embaraçado, e pensou: "Senhor Deus, não sou digno de possuir este tesouro. Esse honesto burguês é mais digno que eu".

E voltando-se para ele, disse:
— Senhor, este dinheiro estará melhor colocado em vossas mãos do que nas minhas. Eu vo-lo entrego e vos recomendo a Deus.
— Ah, caro amigo! Tomai vossa bolsa, por favor. A ela não tenho nenhum direito.
— Não, não a mereço. Permita Deus que não a retome.
E fugiu correndo.

O burguês pôs-se a correr atrás, aos brados:
— Ladrão! Ladrão! Prendei-o!

Os vizinhos o escutaram, saíram correndo atrás, detiveram o mercador e o conduziram ao burguês:
— Ei-lo. Que vos roubou ele?
— Senhores, ele quis roubar-me a honra e a lealdade, que conservei por toda a vida.

E contou toda a história aos vizinhos, que obrigaram o mercador a retomar seu dinheiro.



(Fonte: "Fabliaux et Contes du Moyen Âge" - Classiques Hatier)



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