domingo, 25 de janeiro de 2026

A flauta do monge inocente

Igreja de Dégagnazès
Igreja de Dégagnazès
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Sabeis por que todos os anos multidões de peregrinos vão rezar em Dégagnazès? É que antigamente ocorreram lá as grandes coisas que eu vos contarei.

No bosque, no local em que os mercadores montam suas barracas no dia de peregrinação, havia um convento com trinta monges vestidos todos de branco.

Na realidade eram trinta e um, mas eu disse trinta, como todo mundo, porque o trigésimo primeiro não contava.

Era um mongezinho não maior que uma criança, todo corcunda e um tanto coxo, conhecido como ‘o inocente’, por causa da sua simplicidade.

Não falava com ninguém, mas sabia-se que era bom, porque tinha os olhos doces e os animais gostavam dele.

Era o pastor do convento, e todas as manhãs, ao raiar do dia, saía do estábulo, onde dormia ao lado das suas ovelhas, e com elas atravessava os bosques floridos, à procura dos locais de pastagem.

O monge amava suas ovelhas, mas amava ainda mais sua flauta. Era uma flauta de bambu, com seis orifícios, que ele mesmo fizera.

Quando ele a levava à boca e soprava, abrindo e fechando com seus dedos os orifícios, poder-se-ia dizer que ela falava. Eu não sei se de fato falava, mas o certo é que todos, homens e animais, a compreendiam.

A flauta punha ordem em todas as atividades da vizinhança.

De manhã, quando o monge saía do convento tocando alegremente, os galos que o ouviam compreendiam que era hora de cantar, e cantavam a plenos pulmões.

Os camponeses diziam:

‒ “Ouça a flauta do mongezinho. Está na hora de levantar”. E se levantavam.

As flores que se fecham durante a noite preparavam-se para abrir. O vento que dormia nos bosques começava a se mover e sacudir as árvores, para acordar os passarinhos.

Ao meio-dia, quando o monge tocava uma música faustosa, as ovelhas se deitavam sobre as patas cruzadas, para o descanso do meio-dia, e os camponeses interrompiam o trabalho para comer o pão.

Ao fim do dia, quando o monge voltava ao convento tocando uma música lenta e suave, as galinhas nos seus poleiros compreendiam que era hora de dormir, e também os camponeses cansados iam para suas camas.

Que faria a pobre Dégagnazès sem o monge? Não saberia viver conforme a ordem e o horário que agrada ao bom Deus.

Lobo e ovelhas, Contos e Lendas da era medieval
Um dia o monge não saiu do convento, e tudo ficou de pernas para o ar. É que os ingleses devastavam a região, e os camponeses se refugiaram no convento com todos os seus animais.

Mas como não era fortificado, os ingleses entraram, apreenderam os seus bois, suas ovelhas, as tapeçarias da igreja, os cálices de ouro e toda a prata do mosteiro.

Mas não ligaram para a flauta nem para as ovelhas do mongezinho.

Logo que os ingleses se foram, o monge recomeçou a sair no horário de costume, tocando sua flauta e acordando os galos na hora em que eles deviam ser acordados.

O prior do convento ficou furioso. Era um homem grande e vermelho, que queria ser sempre o mais forte, e que desprezava os simples e pequenos.

Como os ingleses estavam por perto e podiam voltar, ele decidiu fortificar o mosteiro.

Uma noite ele reuniu seus vinte e nove monges e lhes mandou porem mãos à obra, para trazer as pedras da montanha negra e quebrá-las, a fim de levantar um grande muro.

Mas os monges desataram a rir:

— Precisaríamos de cem anos para esse trabalho. Somos apenas homens, e o próprio diabo não o conseguiria.

— Veremos — disse o prior. — Voltai para vossas celas, seus desocupados, porque eu vou à procura do diabo.

O prior não sabia aonde ir e o que fazer para encontrar o diabo. Mas era tão orgulhoso, que estava certo de o diabo vir por si mesmo.

Compreendeis bem que nessas circunstâncias o diabo não se faria de rogado. E realmente ele apareceu ao prior em uma clareira do bosque, vestido com roupa cor de fogo e trazendo na mão um tridente.

O prior, que tremia um pouco, procurou dar a impressão de olhá-lo de cima.

— Então você está por aí, seu preguiçoso. Quer dizer que você me ouviu quando pronunciei seu nome!

— Fale com menos arrogância — respondeu o diabo. — Estamos sós, e é você que precisa de mim. E só o servirei se você me pagar bem. O que quer que eu faça?

— Eu quero um muro que contorne o convento, com 10 metros de altura e três de espessura, com cem seteiras e um grosso portão de ferro. E precisa ser construído durante a próxima noite, entre o pôr-do-sol e o primeiro canto do galo.

— Vejamos então a minha parte no negócio. Se eu construir o muro antes do canto do galo, você me dará sua alma e a de todos os monges que te pertencem por voto de obediência, e dos quais, portanto, você pode dispor... Mas o que é isto que eu estou ouvindo?

Era o som da flauta, porque o mongezinho corcunda tinha visto raiar a aurora, e começava a tocá-la enquanto saía do convento.

Como de costume, os galos acordados pela flauta se puseram a cantar, e toda a vizinhança começou a se movimentar.

O diabo ficou mal à vontade com todo esse bulício do trabalho honesto, e não sabia mais o que dizer.

Teve até desejo de fugir, quando viu aparecer na clareira o mongezinho entre suas ovelhas e cordeiros.

— Não gosto desse anão mal construído — disse enfim. — Ele está com jeito de quem quer nos espionar. Eu vou-me embora, Sr. Prior, e depois apareço na sua cela.

— Não se preocupe — disse o prior, que desprezava o mongezinho — Esse anão é um tolo, um fraco de espírito, mais ignorante que os próprios animais. Ele não ouve nada, não sabe nada e não compreende nada. Podemos concluir tranqüilamente o nosso negócio.

Parcialmente tranqüilizado, o diabo redigiu o contrato em um pergaminho e o leu em voz alta, fazendo-o assinar pelo prior, e em seguida desapareceu.

O mongezinho havia compreendido tudo, como bem o podeis imaginar, e ficou triste o dia todo.

Até se esqueceu de tocar a flauta ao meio-dia e à tarde, desorganizando novamente todas as atividades da vizinhança.

Quando o sol se pôs, ele viu chegar um batalhão de diabos. Havia milhares, de todas as cores.

Uns puxavam carroças carregadas de pedras, outros cavavam as fundações, outros assentavam as pedras.

Todos permaneciam em silêncio. Não se ouvia nada, mas o muro ia se erguendo, e o mestre dos diabos ia de um lado para outro, em uma nuvem de fogo, empurrando com um tridente aqueles que não trabalhavam rápido.

Chegou a meia-noite, o que significa que restavam ainda três horas para terminarem o trabalho antes do canto do galo. O muro estava quase concluído, e logo chegou a porta.

O diabo deu um assovio, e todos os outros diabos se aproximaram para assentá-la. Era um trabalho difícil, mas os diabos, numerosos e fortes, acabaram colocando-a nos gonzos.

O mongezinho compreendeu então que tudo estava perdido. Olhou para a flauta e chorou, pensando que no inferno ela não lhe valeria de nada.

Mas tanto olhou para a flauta através de suas lágrimas, que afinal teve uma idéia. Acordou sem ruído suas ovelhas e cordeiros, que o acompanharam enquanto saía de mansinho, com a flauta à mão.

Quando os diabos, lá no alto do muro, assentavam a última camada de pedras, ele começou a tocar a flauta, com toda sua força e toda sua fé.

As notas da flauta se espalharam pelos campos e chegaram até os galos, que acordaram sobressaltados.

E todos os galos de Dégagnazès, com medo de terem perdido a hora, puseram-se a cantar com todas as suas forças, e o seu canto chegou às muralhas ainda inacabadas do convento.

O diabo compreendeu que havia perdido, e fugiu com todos os seus operários, urrando, enquanto o monge, alegre, continuava a tocar sua flauta, como para agradecer ao bom Deus.

(Autor : Jean de Quercy, “Contes de la Vieille France”, Fernand Lanore, Paris, 1945)


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domingo, 11 de janeiro de 2026

Como os corvos enganaram as corujas

Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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política internacional,
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O Conde Lucanor falando com Patronio, seu fiel conselheiro, disse:

– Patronio, estou em luta contra um inimigo muito poderoso. Ele tinha em sua casa um parente criado junto com ele e a quem ele tinha favorecido muitas vezes.

Mas, por causa de uma disputa entre eles, meu inimigo causou graves danos e desonrou seu parente ao qual devia muitas coisas.

O parente, pensando em aquelas ofensas e procurando forma de se vingar, quer se aliar comigo.

Acredito que vai ser um homem muito útil, porque poderia me aconselhar o melhor modo de fazer dano a meu inimigo, sendo que o conhece muito bem.

Pela grande confiança que vós mereceis e pelo vosso bom senso, vos rogo que me aconselheis sobre o modo de resolver esta questão.

– Senhor Conde Lucanor – disse Patronio – o primeiro que vos devo dizer é que com certeza esse homem veio para vos enganar.

E para que saibas como tentará consegui-lo, gostaria que soubesses o que aconteceu entre os corvos e as corujas.

O conde quis saber do que tinha acontecido naquele caso.

– Senhor Conde Lucanor – começou Patronio – os corvos e as corujas estavam em guerra entre si e os corvos levavam a pior parte porque as corujas só voam pela noite e no dia ficam escondidas em locais muito ocultos.
Os corvos em guerra com as corujas
Os corvos em guerra com as corujas
Elas voavam ao amparo da escuridão até as árvores onde aninhavam os corvos, golpeando e ferindo a todos quantos podiam.

Os corvos sofriam demais. Um deles muito esperto, vendo o grave dano que padeciam os seus, falou com seus primos corvos e encontrou um meio para se vingar das inimigas corujas.

Eis o modo que ele imaginou e pôs na prática: os corvos lhe arrancaram as plumas, exceto de alguma das asas, e por isso voava muito pouco e mal.

Assim recoberto de feridas foi ter com as corujas. Contou-lhes o mal e o dano que lhe causaram os corvos porque ele não queria a guerra contra as corujas.

Propôs, então, às corujas que se elas o aceitavam como companheiro estava disposto a lhes revelar as melhores formas de se vingar dos corvos e lhes fazer muito estrago.

Ouvindo isso, as corujas ficaram contentes porque acharam que com esse aliado poderiam derrotar a seus adversários os corvos. Então começaram a trata-lo muito bem e o tornaram partícipe de seus planos secretos e de seus projetos para a luta.

Porém, entre as corujas havia uma muito velha e experiente. E quando ficou sabendo a história do corvo, descobriu o engano que aprontava.

Foi então a explicar a trama à cabecilha das corujas, afirmando com toda certeza que aquele corvo foi se juntar com elas para conhecer seus planos e preparar sua derrota. Por isso tinham que afasta-lo logo dentre elas.

Mas a coruja sabida não conseguiu que seus irmãos lhe fizessem caso. E, vendo que não acreditavam nela, se afastou de todos e foi viver num local onde os corvos não poderiam encontra-la.

E as corujas, pese a tudo, continuaram confiando no corvo.

Quando as plumas lhe cresceram mais uma vez, o corvo disse às corujas que podendo voar, iria procurar os corvos e voltando contaria para as corujas onde estavam.

Então, as corujas todas se reunindo poderiam acabar com seus inimigos. E as corujas ficaram muito contentes.

As corujas acharam mais gstoso acreditar na mentira do corvo.
As corujas acharam mais gostoso acreditar na mentira do corvo falso amigo.
Chegando o corvo onde estavam seus irmãos, ajuntaram-se todos e ficaram sabendo dos planos das corujas e as atacaram de dia, quando elas não voam e ficam tranquilas.

E sem nada temer, as destroçaram e mataram tantas corujas que os corvos ficaram como únicos vencedores.

Assim aconteceu às corujas por confiar no corvo que, por natureza, é inimigo delas.

Vós, senhor Conde Lucanor, sabeis que esse homem que quer se aliar convosco deve vassalagem a vosso inimigo. Por isso, ele e toda sua família são vossos inimigos também.

Aconselho-vos que o afasteis da vossa companhia porque é certo que pretende vos enganar e procura vosso mal.

Porém, se ele quiser vos servir desde fora de vossas terras, de maneira que nunca conheça vossos planos e não possa vos prejudicar e se verdadeiramente fizer tanto estrago àquele inimigo vosso de forma a nunca mais poder fazer as pazes com ele, então podereis confiar nesse parente despeitado, fazendo-o sempre com cautela para que não vos possa resultar perigoso.

O conde julgou que esse era um bom conselho, agiu de acordo com ele e lhe foi muito proveitoso.

O príncipe Dom João entendeu se tratar de um conto muito bom, mandou-o escrever neste livro e compôs estes versos que dizem assim:

“Aquele que antes costumava teu inimigo ser

Nem em nada nem nunca lhe deves crer”.

(Fonte: «El Conde Lucanor», Alicante, Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2004. Conto XIX, págs. 82-84) 


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domingo, 28 de setembro de 2025

O jogral da Virgem


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Muitos peregrinos, vindos dos mais remotos confins da Cristandade, iam à romaria do Santuário de Nossa Senhora de Rocamadour.

Era gente de toda espécie, desde mendigos ou empestados até fidalgos e grandes dignitários da Igreja.

Frequentemente misturavam-se àquela turba alguns indivíduos aloucados, galhofeiros ou poetas, que tanto entoavam uma canção, acompanhando-a com qualquer instrumento, como embasbacavam o povo com malabarismos e trabalhos de saltimbancos.

Singlar era um desses. Jovem, espalhafatoso, tagarela, mas de caráter doce, excelente no uso dos instrumentos musicais e dulcíssimo no cantar.

Alto poeta, encontrava sempre, no momento exato, a palavra mais viva, mais colorida e musical para dizer as coisas.

Além disso, era devoto fiel da Virgem, e por isso fora a Rocamadour.

Rezou diante da imagem. Sabia, porém, que jamais poderia, com orações, dizer-lhe os sentimentos que transbordavam de seu coração.

Uma canção subia-lhe à flor dos lábios, e as pontas de seus dedos formigavam nervosamente, desejosos do instrumento.

Não pôde conter-se: apanhou o alaúde e cantou uma loa suave e ingênua.

O jogral estava emocionado, enlevado, e prostrou-se diante da imagem. Nela, os olhos e as pedrarias do traje fulguravam.

— Senhora — disse-lhe o cantor — estais vendo que eu canto para vós com todo o meu coração. Desejaria saber se meus louvores são recebidos com agrado.

O santuário estava cheio de gente, naquele momento. Todas as pessoas puderam ver um dos círios, saindo do candelabro em que estava colocado, descer até junto do poeta.

Houve um coro de exclamações. Gente corria de todos os cantos, para colocar-se ao lado do jovem:

— Milagre! Milagre!

Depressa chegou a notícia à clausura dos monges, que desceram todos para a igreja.

Os demais ajoelharam-se, confundidos com o povo que elevava fervorosas preces a Nossa Senhora.

Fazendo aquele prodígio, como prêmio ao canto ingênuo e sincero de um simples jogral, acabava Ela de dar a toda aquela gente uma lição de humildade.

Só um homem permanecia em pé.

Fez caminho entre os que estavam ajoelhados, e colocando-se diante do jogral, disse, em voz muito alta:

— Não vos deixeis enganar! Aqui não houve milagre!

Acreditais que a Rainha dos Céus desperdiçaria suas graças numa tolice como esta?

Levantai-vos! Não houve milagre, e sim mistificação deste velhaco, ou talvez sortilégio, arte do diabo.

Primeiro os monges, depois os peregrinos, foram pondo-se todos de pé, e depois afastando-se cautelosamente, um pouco encabulados, como que tomados de vergonha.

Muitos procuravam lugar atrás das colunas ou em algum canto pouco iluminado.

Entretanto, ninguém saiu do templo.

Por sua vez, Singlar ali continuava, ajoelhado diante da Virgem.

Na frente dele, repreendendo-o, um monge tornara a colocar o círio no candelabro.

Os pescoços esticavam-se, gente se punha em pontas de pés.

Todos os olhos estavam fixos no jogral, que pela segunda vez tirava notas dulcíssimas do alaúde e tornava a improvisar um cântico de louvor.

O círio tornou a descer para junto do poeta.

Gritos atroadores do monge retiveram a meio caminho as pessoas que se apressavam para o altar:

— Não vos aproximeis! Isto é obra de bruxaria!

Este homem é um mágico que veio afrontar Nossa Senhora!

Tem pacto com Satanás!

Em vão Singlar negava, os olhos cheios de lágrimas:

— Senhora, não me abandoneis!

O monge tinha apanhado o círio, e retinha-o com força entre as mãos, enquanto dizia:

— Estrela Matutina, Torre de Davi, Mãe do Salvador, não permitas que ante tua imagem o inferno possa agir como deseja!

A canção de Singlar entrava como alfinetadas de gozo no coração de todos.

Subia, retilínea, pura, clara, até a Virgem de Rocamadour...

O círio deu um salto, e das mãos do monge foi ter à mão direita do jogral.

Mesmo aquele monge tombou de joelhos.

Um "Ave!" espontâneo, vibrante, maravilhoso, brotou de todas as gargantas.



(Maravilhas do conto popular - Cultrix, SP, 1960)


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domingo, 14 de setembro de 2025

O ermitão de Covadonga

Luis Dufaur
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Como escondida nas escarpadas montanhas dos Picos de Europa, nas Astúrias, no norte da Espanha, acha-se a Caverna Sagrada de Covadonga, um lugar rico em história e significado religioso.

Este santuário católico asturiano é tanto um destino espiritual quanto um símbolo da resiliência histórica da Espanha.

A caverna está associada ao esforço cristão dos primórdios da Reconquista, para recuperar terras do domínio muçulmano. Desde um remoto fato heroico e milagroso tornou-se um local de peregrinação para fiéis e um destino de pesquisa para aficionados por história.

As origens da caverna como local de culto são lendárias.

Tradições cristãs locais afirmam que Pelágio (o famoso Don Pelayo, não confundir com o herege britânico de mesmo nome), um nobre visigodo e futuro líder da Reconquista, perseguiu um criminoso até uma caverna nos Picos de Europa.

Ao chegar lá, ele encontrou um eremita orando à Virgem Maria.

O eremita pediu a Pelágio que poupasse a vida do homem, pois ele havia buscado a proteção da Virgem.

Milagrosamente Don Pelayo derrota os muçulmano. Pintura de Augusto Ferrer Dalmau
Milagrosamente Don Pelayo derrota os muçulmano. 
Pintura de Augusto Ferrer Dalmau
Ele também previu que Pelágio um dia se refugiaria na mesma caverna.

Essa profecia se cumpriu durante a Batalha de Covadonga, em 718, quando Pelágio e seu pequeno grupo de combatentes enfrentaram desafiadoramente as forças muçulmanas.

Segundo crônicas muçulmanas, Pelágio e seus homens se esconderam na caverna e sobreviveram graças ao mel encontrado nas fendas da rocha.

Os relatos cristãos enfatizam a intervenção milagrosa da Virgem Maria, cuja proteção foi considerada a chave para uma improvável vitória.

Isso marcou o início da Reconquista, um momento decisivo na história espanhola.

Após a vitória, o Rei Afonso I das Astúrias homenageou a Virgem Maria construindo uma capela na caverna.

Dedicado a Nossa Senhora de Covadonga (nome derivado de cova domnica, "Gruta de Nossa Senhora") — carinhosamente chamada de La Santina — o santuário tornou-se um importante local para peregrinos cristãos.

A Caverna Sagrada também abrigava altares dedicados a São João Batista e Santo André, e foi confiada a monges beneditinos.

A estátua mariana original foi perdida em um incêndio em 1777, mas uma imagem de madeira da Virgem com o Menino, do século XVI, doada pela Catedral de Oviedo, tomou seu lugar e permanece lá até hoje.

No século XIX, o Bispo Benito Sanz y Forés liderou os esforços de restauração da Gruta Sagrada, culminando na construção de uma nova capela em estilo românico.

O arquiteto Luis Menéndez-Pidal projetou a estrutura atual, inaugurada em 1874.

A estátua da Virgem desapareceu brevemente durante a Guerra Civil Espanhola e foi encontrada na embaixada espanhola na França em 1939.




Fonte: Aleteia