domingo, 5 de maio de 2024

Como o arcebispo Turpin soube
da partida de Carlos Magno para o Céu

Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno
levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






"Eu Turpin, arcebispo de Reims, estando em Viena, após ter celebrado a Missa em minha capela, como estava só para dizer minhas horas, tendo começado o Deus, in adjutorium meum, ouvi passar sob minhas janelas um grande bando que atraiu minha atenção; ele marchava em meio a muito barulho e clamores.

Abri a vidraça para ver o que causava esse tumulto; e, adiantando a cabeça, reconheci que era uma legião de demônios, mas tão numerosos que não era possível contá-la.

Ainda que eles fossem a grandes passos, percebi entre eles um demônio menos alto que os outros, cujo aspecto, contudo, era horrível.

Ele era precedido por um primeiro grupo, e marchava na liderança do segundo, que se entrelaçava após ele, a alguns passos de distância.

Eu o conjurei, no nome do Criador e pela fé cristã, de me declarar in loco aonde ele ia com esses grupos.

– Nós vamos, me respondeu ele, nos aproveitar da alma de Carlos Magno, que, nesse momento, parte desse mundo.

– Ides, eu lhe disse; e, pela mesma ordem que já vos destes, eu vos adjuro de passar novamente por aqui para me relatar o que tereis feito.

Ele se afastou. Desde que ele desapareceu com os seus, me coloquei a recitar o primeiro salmo da terça.

Mal havia terminado, quando ouvi todos esses demônios que retornavam.

A história de Turpin, manuscrito medieval
A história de Turpin, manuscrito medieval
Seu tumulto me obrigou a ir até a mesma janela, de onde eu os vi tristes, inquietos e abatidos.

Perguntei àquele que tinha falado comigo, para me declarar o que eles tinham feito e qual tinha sido o resultado de sua marcha.

– Muito mal, respondeu ele. Mal tínhamos chegado ao encontro, quando nos vimos intimados, com o arcanjo Miguel vindo até nós com suas falanges; estávamos, contudo, próximos de nos apoderar da alma de Carlos.

Mas dois homens sem cabeça, São Tiago da Galícia e São Dionísio de França, patronos do império dos Francos, estavam presentes na hora da morte de Carlos.

Eles colocaram, em um dos pratos de uma balança, todas as boas obras do príncipe que acabava de falecer.

Eles reuniram ali as igrejas, as abadias e os outros monumentos piedosos que ele tinha edificado, com os ornamentos e os diversos acessórios do culto do qual ele os tinha dotado.

Carlos Magno.Albrecht Dürer 1471 – 1528).
Não pudemos reunir muitos pecados para levantar o outro prato; e tão logo, as falanges de Miguel, felizes com nossa confusão e alegres por ter elevado a alma do monarca, nos flagelaram tão vivamente que eles agravaram a aflição de nosso insucesso.

Eu, Turpin, fui assegurado que a alma do príncipe, meu mestre, tinha sido elevada ao céu pelas mãos dos anjos bem-aventurados, pelo peso de suas boas obras, e pela proteção dos santos que reverenciou e serviu durante sua vida.

Logo, fiz vir meus clérigos, ordenei que soassem todos os sinos da cidade; e fiz dizer missas; distribui esmolas aos pobres; enfim, orei pela alma de Carlos, na esperança fundada de aliviar o peso de sua purificação.

Ao mesmo tempo, testemunhei a todos aqueles o que vira e que estava certo da morte do Imperador.

Dez dias depois, recebi uma carta que me trazia todos os detalhes do ocorrido, e me instruía que o santo monarca tinha sido enterrado na igreja que ele mesmo tinha fundado, em Aix-la-Chapelle."




(Autor: J. Collin de Plancy, “Légendes de l'autre monde”, Paris, Henri Plon, p.69, apud Annales Historiae).


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domingo, 21 de abril de 2024

A origem da “Casa do Anjo” em Ingelheim

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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Carlos Magno, tendo notado a excelente disposição do terreno de Ingelheim, fez transplantar para ali as cepas do melhor vinho de Orléans. A vinha ganhou o cêntuplo com o transplante.

Foi uma grande alegria para o Imperador, tê-lo tão bem conseguido, tanto que, depois de Aix-la-Chapelle, sua residência preferida era Ingelheim, ou Casa do Anjo.

É muito curiosa a origem do nome poético e celeste com que foi batizado o castelo.

Pelo ano de 768, Carlos Magno decidiu construir um palácio que dominasse o Reno, e em 774 ele já estava edificado. Era um prédio magnífico, metade fortaleza, metade palácio, sustentado por cinqüenta colunas de mármore e cinqüenta de granito.

As de mármore foram-lhe enviadas de Roma e de Ravena pelo Papa Estêvão III, e as de granito foram extraídas do Adenwald. Assim, vendo sua nova morada imperial tão felizmente concluída, determinou ali reunir uma dieta.

Em consequência, os príncipes e senhores dos arredores foram convocados para aquela grande solenidade.

Quando o Imperador acabara de adormecer, na noite que precedeu o dia em que a dieta devia se realizar, um anjo lhe apareceu e disse: “Carlos, levanta-te e rouba”.

Carlos Magno logo acordou, e sentiu um celeste perfume no seu quarto. Mas, como as palavras que o anjo lhe dissera não pareciam concordar com os Mandamentos de Deus e da Igreja, pensou ter tido um sonho, e tornou a dormir.

Mal havia fechado os olhos, a mesma visão apareceu-lhe de novo. Com semblante severo como o de um mensageiro que tem o direito de se surpreender de não ser obedecido, o anjo repetiu com voz severa as palavras que já tinha dito, e que o Imperador julgara ter ouvido mal.

Ele abriu em seguida os olhos e viu o aposento cheio de uma luz celestial, que foi se extinguindo pouco a pouco, e finalmente desapareceu por completo.

Entretanto, a ordem era tão estranha que Carlos Magno hesitou ainda em obedecer. Repousando a cabeça sobre o travesseiro, tornou a adormecer uma terceira vez.

Ainda desta vez o mesmo anjo lhe apareceu, mas com fisionomia tão ameaçadora, e reiterou a mesma ordem com voz tão imperiosa, que o Imperador — que entretanto não era nada fácil de atemorizar — estremeceu de medo e acordou sobressaltado.

Desta vez, não somente o mesmo aroma celeste estava difundido e a mesma luz refulgente brilhava, mas ainda o anjo estava de pé junto ao seu leito.

Somente quando teve certeza de que o Imperador não poderia mais duvidar da realidade da sua presença, estendeu suas asas de ouro e desapareceu.

Então Carlos Magno não teve mais dúvida de que a ordem vinha do Céu, pois o mensageiro era demasiadamente belo para ser um enviado do inferno.

Carlos Magno não hesitou mais. Imediatamente levantou-se e vestiu-se às apalpadelas, deplorando um mandamento do Céu que lhe ordenava começar tão tarde uma ação tão infame.

Mas o Imperador estava, como Abraão, decidido a tudo sacrificar por Deus, inclusive sua honra.

Vestiu sua couraça, cingiu a espada e tomou seu elmo à mão, como se fosse comandar uma daquelas expedições guerreiras, pelas quais tinha tanta simpatia quanto por esta tinha repugnância.

Enfim saiu de seu quarto, e detendo-se numa galeria da qual podia-se divisar toda a região, fez uma pausa para decidir por que lado iria cometer esse roubo tão embaraçante de executar.

A noite era sombria, como convinha a semelhante expedição. Mas, por sugestiva que fosse a escuridão, o Imperador era completamente alheio à nova arte que deveria exercer.

Se bem que andasse de um lado a outro por cerca de uma hora, não lhe havia ocorrido a menor idéia.

De repente percebeu que lhe tinham roubado o elmo, que deixara sobre a balaustrada da galeria. O Imperador procurou por todos os lados, olhou dentro e fora, mas toda a busca foi inútil: o elmo tinha desaparecido.

O roubo era tanto mais ousado quanto o ladrão era hábil. E se o ladrão era hábil, em tais circunstâncias poderia dar um bom conselho ao Imperador.

Assim, pareceu-lhe que esse era um novo favor do Céu, que, vendo seu embaraço, tinha tido pena dele. Em conseqüência, elevando a voz, exclamou:

— Aquele que roubou meu elmo apresente-se diante de mim, e por minha palavra real, em vez de ser punido, receberá uma recompensa de cem ducados.

Ato contínuo uma risada aguda reboou na galeria, e debaixo da tapeçaria que cobria uma mesa Carlos Magno viu sair o seu anão, que se aproximou dele e estendeu-lhe o elmo para que nele jogasse a soma prometida.

— Ah! És tu o infame ladrão — disse Carlos Magno. — Deveria ter suspeitado que só tu serias capaz de aplicar um tal golpe, e deveria ordenar que te dessem cem varadas, em vez de prometer cem ducados tão imprudentemente como o fiz.

— Sim, meu Senhor — disse o anão. — Teria sido mais econômico, é verdade, mas um nobre tem apenas uma palavra. Eis vosso elmo. Onde estão os cem ducados?

— Tu os terás em seguida, depois de me teres dado um bom conselho.

— Os cem ducados foram prometidos pelo elmo, e não pelo conselho. Dai-me os cem ducados pelo elmo, e tereis o conselho grátis.

Carlos Magno estendeu a mão, para agarrar o patife que lhe falava com tanta impertinência, mas o anão viu o movimento e saltou rápido sobre a balaustrada, pôs-se a galgar uma das colunas e só parou quando estava sobre uma das folhas do capitel.

Pôs-se a cantar uma canção, da qual compunha ao mesmo tempo a música e as palavras:

— Tenho já um elmo, um belo elmo, um elmo encimado por uma coroa real, um elmo que me custa cem ducados.

E tratarei de ter pelo mesmo preço uma couraça e uma espada, e então me farei armar cavaleiro por algum imperador que não tenha jamais faltado à sua palavra.

Depois, quando for armado cavaleiro, quando eu tiver uma grande espada e uma boa lâmina, irei por vales e montes, fazendo justiça, porque nos feudos da Germânia e da França muita justiça precisa ser feita. Mas — ai de mim! — onde encontrarei, para me armar cavaleiro, um rei que jamais tenha faltado à sua palavra?

O barulho de uma bolsa que caía nas lajes interrompeu a improvisação do cantor. O anão compreendeu que sua canção havia produzido efeito, desceu da cornija e foi apanhar a bolsa, com um olho sobre ela e outro sobre o Imperador.

— Vamos, vem cá, patife, e não temas nada — disse Carlos Magno. — Tenho necessidade de ti.

— Oh! Então, se tendes necessidade de mim, é outra coisa, e não tenho mais medo.

— Eu estou precisando de roubar.

— Péssima profissão, sobretudo porque se trata de pessoas que prometem e não mantêm a palavra. Assim — podeis crer-me, — uma vez que tendes a desventura de ter nascido honesto, é melhor permanecer honesto.

— Eu te digo que quero roubar — disse Carlos Magno num tom que indicava estar começando a cansar-se das reflexões filosóficas de seu interlocutor.

— Bem, se é uma vocação decidida, então não há mais nada a acrescentar. Que quereis roubar?

— Eis o que eu não sei. Mas quero roubar alguém, e logo, nesta noite.

— Raios! Está bem, roubemos.

— Mas a quem vamos roubar?

— Vejamos... Estais vendo aquela pobre cabana?

— Sim.

— Há ali um bom golpe a dar. Por mais pobre que pareça, o dono dela hoje tem cem florins.

Há cerca de dez anos aquele camponês trabalha todos os dias, de cinco horas da madrugada até às oito horas da noite, e conseguiu guardar todo esse dinheiro. A porta fecha mal e o bom homem tem o sono pesado, por isso é fácil roubá-lo.

— Miserável! Queres que eu vá pegar de um infeliz o fruto de dez anos de trabalho, um dinheiro ganho com o suor de seu rosto!

— Eu não quero nada. Vós é que me pedistes um conselho, e eu o dou. É só isso.

— Vamos a outra coisa, então.

— Vedes aquela casa de campo?

— Sim, vejo.

— Pertence a um rico comerciante. Nela não achareis florins, mas ducados; e não às centenas, mas aos milhares.

— Sem dúvida foi com pesos adulterados e com usura que ele adquiriu tal fortuna.

— Não. Pelo contrário, foi fazendo cálculos de tal maneira exatos, para si como para os outros, que sua probidade tornou-se proverbial. A probidade trouxe a ele o que a velhacaria traz a outros.

— E queres então que eu arruíne um homem que possui fortuna tão honrada?

— Eu não quero nada. Sois vós, ao contrário, que desejais roubar. Digo-vos somente quem são os que têm dinheiro.

— Sim, sem dúvida quero roubar, mas não ao pobre lavrador, não ao comerciante esforçado e honesto. Quereria roubar a algum desses maus cavaleiros, que vivem de pilhagem e rapinas, que traem aqueles que deveriam servir, e que oprimem aqueles que deveriam defender.

— Ah! Então é outra coisa! Por que não vos explicastes logo? Tenho então a solução. Aquele castelo pertence ao senhor Harderic, o maior bandido que a Terra tenha produzido depois do falso profeta Maomé.

— Tanto melhor!

— Mas não será coisa fácil. Ele tem o sono leve e a mão pesada. Haverá golpes a dar.

— Tanto melhor! Tanto melhor!

— Então ide colocar outra couraça, escura como a noite na qual é preciso que nos esgueiremos. Pegai um punhal curto, em lugar dessa longa espada.

A espada é uma arma diurna, para ferir de longe. À noite só se golpeia o que se toca. Tem-se os olhos nas mãos, e é preciso que os olhos não estejam demasiado longe da lâmina. Ide e voltai, eu vos espero aqui, contando os ducados.

O Imperador não precisou ouvir duas vezes. Foi e voltou coberto de uma cota de malhas de aço opaco, que lhe cobria o corpo como um gibão e envolvia a cabeça como um capuz.

Levava na cintura um punhal largo, curto e cortante como o gládio romano. O anão examinou-o dos pés à cabeça, fez um sinal de aprovação e os dois saíram do palácio. Pelo caminho mais direto, ou seja, através do campo, avançaram rumo ao castelo de Harderic.

Chegados à porta do castelo, o anão fez um sinal a Carlos Magno para ficar o mais perto possível da porta. Lançando-se sobre uma figueira que crescia no fosso, e da figueira agarrando-se à muralha, galgou-a, enfiando sucessivamente as mãos e os pés nos interstícios das pedras, até chegar às ameias, e desapareceu.

Um instante depois Carlos Magno ouviu ranger a chave na fechadura. A porta mexeu-se pesadamente, mas sem fazer ruído, depois entreabriu-se o necessário para deixar passar um homem. Carlos Magno passou, o anão empurrou a porta com as mesmas precauções que tomara para abri-la, e assim encontraram-se no pátio do castelo.

— Eis o vosso caminho — disse o anão, mostrando a escada que conduzia aos apartamentos do castelo; e mostrando a cavalariça, acrescentou: — e aqui está o meu.

— Por que não vens comigo?

— Porque tenho também um golpe a dar.

Pondo-se a correr de quatro, como um cachorro, para não ser reconhecido como criatura humana no caso de ser visto, atravessou o pátio e entrou na cavalariça. Carlos Magno subiu a escada o mais silenciosamente que pôde, e entrou nos apartamentos.

Graças a um raio de luar, que apareceu no céu naquele momento, conseguiu chegar ao quarto que precedia aquele onde Harderic e sua esposa dormiam. Aí estendeu a mão, para ver se achava algo para pegar, e tocou num cofre fechado sobre a mesa, que imaginou conter dinheiro ou jóias. Nesse momento o cavalo do castelão relinchou tão fortemente que Carlos Magno estremeceu.

— Heim! — esclamou Harderic, acordando em sobressalto. — Que se passa na minha cavalariça?

— Nada — respondeu a esposa. — É teu cavalo que relincha.

— Meu cavalo não costuma relinchar assim, a não ser quando alguém que ele não conhece tenta desatá-lo.

— E quem pensas que tenta desatar teu cavalo?

— Um ladrão, ora essa!

Harderic desceu do leito e pegou a espada. Carlos Magno então recuou, escondendo-se e mantendo a mão na empunhadura da arma, e viu Harderic passar. Ao cabo de um momento o castelão voltou.

— O que havia na cavalariça? — perguntou-lhe a mulher.

— Nada. Mas há três ou quatro noites não consigo dormir.

— Não consegues dormir porque certamente planejas alguma coisa.

— É verdade.

— E o que planejas?

— Posso te dizer agora, pois o momento de nosso projeto cumprir-se já praticamente chegou.

Amanhã, eu e onze outros condes, barões e senhores deveremos matar o Rei Carlos, que nos impede sermos senhores em nossas terras. Estamos fartos disso, e não queremos mais suportá-lo.

— Oh! meu Deus, meu Deus! E se vosso complô fracassar? Estareis todos perdidos.

— Impossível. Estamos ligados entre nós pelos juramentos mais terríveis.

Amanhã, convocados para a Dieta como todos os outros, entraremos no palácio sem despertar nenhuma suspeita. Estaremos bem armados, mas ele não estará. Cercaremos seu trono e o mataremos.

— E quem são os conjurados?

— Isso é o que não posso dizer nem a ti. Mas o engajamento deles já está assinado com sangue, e fechado no cofre que está aí ao lado.

— Deus queira que tudo isso termine bem.

O castelão voltou a dormir. Durante algum tempo ainda se ouviram os suspiros da castelã, mas logo depois sua respiração suave confundiu-se com os roncos do seu marido.

Então Carlos Magno tomou o cofre, colocou-o debaixo do braço, atravessou os apartamentos, desceu a escada e chegou ao pátio. Lá viu o anão, que se debatia sobre o cavalo de guerra do castelão.

O Imperador saltou sobre o cavalo, que logo compreendeu tratar-se de cavaleiro experiente, e tornou-se dócil como um cordeiro.

Carlos colocou o anão na garupa e partiu a galope.

Chegando ao castelo, Carlos Magno abriu o cofre que tinha roubado, e nele achou os compromissos dos doze conjurados, assinados com sangue.

Fez acordar sua gente, e mandou que levantassem, num dos pátios do palácio, onze forcas de tamanho comum e uma mais alta que as outras.

Em cima de cada uma das doze forcas, fez pregar um rótulo com o nome de cada conjurado, e sobre a forca mais alta o nome do chefe deles, Harderic.

Depois, como havia duas entradas no palácio, ordenou receberem todos os outros barões convocados por uma outra porta e em outro pátio, e receberem os conjurados pela porta e no pátio das forcas.

As instruções foram rigorosamente seguidas.

Quando viu todos os barões reunidos, Carlos Magno narrou-lhes o complô tramado contra ele, mostrou-lhes o compromisso assinado com sangue dos doze conjurados, e perguntou-lhes que pena mereciam.

Todos, a uma voz, disseram que mereciam a morte. Então Carlos Magno fez abrir as janelas que davam para o segundo pátio, e os barões viram os doze conjurados suspensos nos doze postes.

Em memória da aparição celeste à qual devia a vida, Carlos Magno chamou o palácio de Ingelheim, ou Casa do Anjo.



(Autor : Alexandre Dumas, « Excursions sur les bords du Rhin – Impressions de voyage » – Calmann-Lévy, Paris)


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domingo, 14 de abril de 2024

Como São Francisco domesticou o ferocíssimo lobo de Gubbio

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




No tempo em que São Francisco morava na cidade de Gúbio apareceu no condado um lobo grandíssimo, terrível e feroz, o qual não somente devorava os animais como os homens, de modo que todos os citadinos estavam tomados de grande medo..

Frequentes vezes ele se aproximava da cidade; e todos andavam armados quando saíam da cidade, como se fossem para um combate; contudo quem sozinho o encontrasse não se poderia defender. E o medo desse lobo chegou a tanto que ninguém tinha coragem de sair da cidade.

Pelo que São Francisco, tendo compaixão dos homens do lugar, quis sair ao encontro do lobo, se bem que os citadinos de todo não o aconselhassem: e fazendo o sinal da santa cruz, saiu. da cidade com os seus companheiros, pondo toda a sua confiança em Deus. E temendo os outros ir mais longe, São Francisco tomou o caminho que levava ao lugar onde estava o lobo.

E eis que, vendo muitos citadinos, os quais tinham vindo para ver aquele milagre, o dito lobo foi ao encontro de São Francisco com a boca aberta: e chegando-se a ele São Francisco fez o sinal da cruz e o chamou a si, e disse-lhe assim:

“Vem cá, irmão lobo, ordeno-te da parte de Cristo que não faças mal nem a mim nem a ninguém”.

Coisa admirável! Imediatamente após São Francisco ter feito a cruz, o lobo terrível fechou a boca e cessou de correr; e dada a ordem, vem mansamente como um cordeiro e se lança aos pés de São Francisco como morto.

São Francisco e o lobo, catedral de Gubbio, Itália
São Francisco e o lobo, catedral de Gubbio, Itália
Então São Francisco lhe falou assim:

“Irmão lobo, tu fazes muitos danos nesta terra, e grandes malefícios, destruindo e matando as criaturas de Deus sem sua licença; e não somente mataste e devoraste os animais, mas tiveste o ânimo de matar os homens feitos à imagem de Deus; pela qual coisa és digno da forca, como ladrão e homicida péssimo: e toda a gente grita e murmura contra ti, e toda esta terra te é inimiga.

“Mas eu quero, irmão lobo, fazer a paz entre ti e eles; de modo que tu não mais os ofenderás e eles te perdoarão todas as passadas ofensas, e nem homens nem cães te perseguirão mais”.

Ditas estas palavras, o lobo, com o movimento do corpo e da cauda e das orelhas e com inclinação de cabeça, mostrava de aceitar o que São Francisco dizia e de o querer observar.

Então São Francisco disse: “Irmão lobo, desde que é de teu agrado fazer e conservar esta paz, prometo te dar continuamente o alimento enquanto viveres, pelos homens desta terra, para que não sofras fome; porque sei bem que pela fome é que fizeste tanto mal. Mas, por te conceder esta grande graça, quero, irmão lobo, que me prometas não lesar mais a nenhum homem, nem a nenhum animal: prometes-me isto?”

E o lobo, inclinando a cabeça, fez evidente sinal de que o prometia. E São Francisco disse: “Irmão lobo, quero que me dês prova desta promessa, a fim de que possa bem confiar“.

São Francisco e o lobo, EUA
E estendendo São Francisco a mão para receber o juramento, o lobo levantou o pé direito da frente, e domesticamente o pôs sobre a mão de São Francisco, dando-lhe o sinal como podia.

E então disse São Francisco: “Irmão lobo, eu te ordeno em nome de Jesus Cristo que venhas agora comigo sem duvidar de nada, e vamos concluir esta paz em nome de Deus”.

E o lobo obediente foi com ele, a modo de um cordeiro manso; pelo que os citadinos, vendo isto, muito se maravilharam.

E subitamente esta novidade se soube em toda a cidade; pelo que toda a gente, homens e mulheres, grandes e pequenos, jovens e velhos, vieram à praça para ver o lobo com São Francisco.

E estando bem reunido todo o povo, São Francisco se pôs em pé e pregou-lhe dizendo, entre outras coisas, como pelos pecados Deus permite tais pestilências; e que muito mais perigosa é a chama do inferno, a qual tem de durar eternamente para os danados, do que a raiva do lobo, o qual só pode matar o corpo; quanto mais é de temer a boca do inferno, quando uma tal multidão tem medo e terror da boca de um pequeno animal!

“Voltai, pois, caríssimos, a Deus, e fazei digna penitência dos vossos pecados, e Deus vos livrará do lobo no tempo presente, e no futuro do fogo infernal”.

E acabada a prédica, disse São Francisco: “Ouvi, irmãos meus; o irmão lobo, que está aqui diante de vós, prometeu-me e prestou-me juramento de fazer as pazes convosco e de não vos ofender mais em coisa alguma, se lhe prometerdes de dar-lhe cada dia o alimento necessário; e eu sirvo de fiador dele de que firmemente observará o pacto de paz”.

Então todo o povo a uma voz prometeu nutri-lo continuadamente. E São Francisco diante de todos disse ao lobo: “E tu, irmão lobo, prometes observar com estes o pacto de paz, e que não ofenderás nem aos homens nem aos animais nem a criatura nenhuma?”

E o lobo ajoelha-se e inclina a cabeça, e com movimentos mansos de corpo e de cauda e de orelhas demonstra, quanto possível, querer observar todo o pacto.

Mosteiro de São Bernardino, Hollidaysburg, PA, Estados Unidos
Província franciscana da Imaculada Conceição.
Disse São Francisco: “Irmão lobo, quero, do mesmo modo que me prestaste juramento desta promessa, também diante de todo o povo me dês segurança de tua promessa, e que não me enganarás sobre a caução que prestei por ti”.


Então o lobo, levantando a pata direita, colocou-a na mão de São Francisco.

Pelo que, depois deste fato, e de outros acima narrados, houve tanta alegria e admiração em todo o povo, tanto pela devoção do santo, e tanto pela novidade do milagre e tanto pela pacificação do lobo, que todos começaram a clamar para o céu, louvando e bendizendo a Deus, o qual lhes havia mandado São Francisco, que por seus méritos os havia livrado da boca da besta cruel.

E depois o dito lobo viveu dois anos em Gúbio; e entrava domesticamente pelas casas de porta em porta, sem fazer mal a ninguém, e sem que ninguém lho fizesse; e foi nutrido cortesmente pela gente; e andando assim pela cidade e pelas casas, jamais nenhum cão ladrava atrás dele.

Finalmente, depois de dois anos o irmão lobo morreu de velhice: pelo que os citadinos tiveram grande pesar, porque, vendo-o andar assim mansamente pela cidade, se lembravam melhor da virtude e da santidade de São Francisco.

Em louvor de Cristo. Amém.




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domingo, 7 de abril de 2024

Frei Garin e os artifícios do diabo

Montserrat, panoramica
Luis Dufaur
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Em 859, sendo Conde de Barcelona Vifredo o Zeloso, havia na montanha de Montserrat um anacoreta chamado Garin, que possuía grande virtude e piedade.

Todas as manhãs subia nos picos das montanhas, para louvar a Deus em sua grandeza, e quando voltava à sua gruta o sino da igreja de São Acisdo tocava sozinho para saudá-lo.

O demônio, muito contrariado, se propôs a perdê-lo, e para isto empregou todas as suas armas.

Uma manhã, Frei Garin subiu a São Jerônimo, o pico mais alto de Montserrat, com o afã de ver mais de perto o céu, de sentir-se mais próximo de Deus.

Porém, naquele dia, pela primeira vez, o demônio o tentou a olhar para o lindo campo, em vez de olhar para o céu.

Contemplou longamente as serras de Valência e de Aragão. Embevecido, avistou Mallorca e os campos de Catalunha. Ao ver-se acima de todos, sentiu-se orgulhoso de sua própria grandeza.

Dominava tudo, tudo podia contemplar. Sentia-se dono de tudo.

Montserrat, panoramica

Naquela manhã, quando desceu até sua gruta, depois de ter rezado com menos devoção que de costume, o sino de São Acisdo tocou, em lugar dos habituais toques alegres, um som triste, como de lamento.

O demônio descobriu que o anacoreta não era invulnerável a defeitos e debilidades humanas.

Ao pé da montanha de Montserrat abre-se um poço que ainda hoje se chama do diabo.

Desse poço, Lúcifer saiu uma tarde para traçar planos com o demônio que havia enviado contra o anacoreta.

Lúcifer ordenou ao diabo que fosse ao palácio do Conde de Barcelona, o famoso palácio de Validauva, e se apossasse do espírito de Riquilda, a filha do Conde, que era uma jovem riquíssima e virtuosa.

Feito isto, o diabo devia sugerir ao conde que unicamente a oração de Frei Garin diante de Riquilda, em Montserrat, durante nove dias, poderia livrá-la do espírito do mal.

Lúcifer reservou também a si um importante papel. Disfarçado de ermitão, se dirigiu à montanha.

Escolheu uma gruta entre as muitas que há entre as rochas, e esperou um momento oportuno para sair ao encontro de Frei Garin.

Ao cair da tarde do dia seguinte, o viu subir a São Jerônimo. Fingindo que rezava, foi ao seu encontro.

Frei Garin, surpreendido ao vê-lo, perguntou quando havia vindo a Montserrat. O falso frade, mentindo, lhe disse que há trinta anos fazia penitência naquela abrupta montanha.

Levou-o à sua gruta, onde só faltava a cruz. Quando Frei Garin notou isto, o velho ermitão lhe disse que as cruzes e imagens custavam muito dinheiro, o que ele não tinha.

Por outro lado, a grandeza de Deus era tanta, que lhe parecia pouca coisa venerar as imagens. Deus também não poderia encerrar-se em quatro paredes.

Seu altar eram aquelas tremendas montanhas. Seu templo, o universo. Assim, nesse tom, continuou falando o velho "ermitão", conquistando por completo o coração puro e bondoso de Frei Garin, que o escutava entusiasmado.

Desde aquele dia, todas as tardes subia o jovem para consultar o velho em suas dúvidas, suas vacilações, sobretudo quanto ao que sentia e pensava.

Entretanto, no palácio de Validauva estava Riquilda vestindo-se uma manhã, para dirigir-se à igreja e fazer suas orações.

Tinha a janela aberta, e por ela entravam e saíam livremente os pássaros.

Entre eles entrou um pardal, que se aproximou da jovem e cantou ao seu ouvido alegres cânticos, inspirando-lhe estranhos pensamentos e sensações que nunca tinha tido.

Olhou-se no espelho e sentiu-se mais bela do que de costume. Instintivamente se adornou com colares de pérolas e jóias que nunca usava. Para pôr o colar, tirou a cruz benta que levava desde que nascera.

No mesmo momento caiu, rolando pelo chão. Empalideceu e começou a soltar horríveis gritos.

A condessa, assustada, correu ao quarto de sua filha. Ao vê-la em convulsões, como se estivesse sofrendo grandes dores, chamou um médico judeu de grande talento e fama.

O médico, depois de examinar a enferma, declarou que aquele mal não podia ser curado pela medicina. Riquilda estava possessa.

Todo o palácio era dor e consternação. Por ordem do Conde Vifredo, que muito gostava de Riquilda, tomaram a jovem e a levaram à catedral bizantina.

Ali ataram-na numa coluna, ante o altar da cripta.

O velho sacerdote cingiu a cintura de Riquilda com uma estola e ordenou ao diabo que abandonasse o corpo da jovem.

Então, ante o terror e a surpresa de todos, ouviu-se uma voz rouca e profunda, que dizia que somente abandonaria o corpo da jovem se fosse ordenado a Frei Garin, o anacoreta de Montserrat, que ficasse rezando aos pés de Riquilda durante nove dias e nove noites.

Ao ouvir estas palavras, o Conde Vifredo ordenou que se organizasse imediatamente a procura de Frei Garin.

Por fim encontraram-no, e disseram-lhe a condição que o demônio havia imposto para sair do corpo da jovem.

Frei Garin foi até o velho ermitão, para consultá-lo sobre a delicada questão. Este, logo ao ouvir o problema, recomendou que sem demora Frei Garin cumprisse o que o demônio havia proposto.

Inclusive ele, o velho ermitão, o acompanharia nesta ocasião durante os nove dias e nove noites.

Assim, Frei Garin começou a rezar diante da jovem condessa, a fim de terminar a possessão. E Lúcifer começou a tentá-lo, para que pecasse com a jovem.

Frei Garin, através da oração, resistiu fortemente, mas pouco a pouco, esquecendo-se de sua fraqueza, de sua contingência, foi cada vez mais confiando em suas próprias forças, até que no nono dia ele cedeu à tentação e pecou com a jovem.

Nisto chegou o velho falso ermitão. Logo que o viu, Frei Garin, arrependido, correu para contar-lhe o sucedido.

O velho disse então que só haveria perdão se Frei Garin matasse a jovem e a enterrasse ali mesmo.

Diante do velho ermitão, Frei Garin, com um punhal, matou a jovem Riquilda.

Depois os dois a enterraram, e no momento em que sobre a pobre donzela caía a última porção de terra, o velho ermitão, transformando-se de novo em demônio, estalou em uma sonora gargalhada, que retumbou lugubremente por toda a montanha.

Frei Garin compreendeu então que havia sido vítima de um engano horroroso. Mas isso não reduzia em nada a maldade de seu duplo pecado.

O penitente caiu sobre a tumba, chorando desesperadamente, e ouviu o sino de São Acisdo, que sozinho tocava finados pela morte da filha do conde.

Frei Garin partiu na mesma noite a caminho de Roma, para pedir perdão a Deus.

Pelo mesmo caminho que fez para chegar à cidade eterna, retornou depois andando de quatro, cumprindo a penitência imposta pelo Santo Padre.

Pois, como havia pecado como animal, como animal devia viver, comendo ervas e raízes que arrancasse do chão com os dentes, até que Deus ordenasse outra coisa.

Atravessou o Llogrebat e voltou à sua gruta, onde encontrou o crucifixo no chão.

Desde então, todos os dias chorava Frei Garin, recordando seus pecados. Também choravam os condes no palácio de Valudauva, em Barcelona, pelo estranho desaparecimento de sua filha, que não conseguiam entender.

Nada sabiam de Riquilda e de Frei Garin, até que um dia, saindo Vifredo nos arredores de Montserrat, se aproximou do lugar onde se havia despedido de sua filha meses antes. Ali chorou o conde abundantemente.

Nossa Senhora dos Desamparados, ValenciaDe repente, muito perto do lugar onde estava o conde, soou um corno de caça. Correu o conde pressuroso, e viu seus cavaleiros que estavam encurralando um estranho animal desconhecido.

Vendo que não era uma fera, o laçaram e levaram arrastando até Barcelona. Ali o deixaram abandonado num canto do palácio, porque outro acontecimento mais importante chamou a atenção do conde.

A condessa deu à luz um menino. O batismo foi celebrado com grande pompa, e ao serem cantadas as gestas do conde, entre as quais figurava a morte do dragão em São Lourenço, recordaram-se do monstro que haviam capturado em Montserrat.

O conde pediu que o trouxessem, para observá-lo. Feito isto, todos o contemplaram com admiração.

Alguns achavam que tinha certa semelhança com um homem; outros, que sua maneira de andar lembrava um urso. O monstro aceitava as carícias humildemente e beijava os pés de seus convidados.

Entretanto, acordou o recém-nascido, e abrindo os olhos, contemplou longamente o monstro. Ante a surpresa geral, falou o recém-nascido:

— Levanta-te, Frei Garin, que Deus já te perdoou.

Levantou-se então Frei Garin, deixando a todos consternados. O conde pediu contas do paradeiro de sua filha. Frei Garin lhe contou que estava morta, e pediu castigo para seu horrendo crime.

O conde, magnânimo, perdoou a quem Deus já havia perdoado.

Os condes quiseram que se rezasse uma Missa no lugar onde descansavam os restos mortais de sua filha. Anos mais tarde se erigiu ali um mosteiro de monjas beneditinas, em memória da filha do conde.


(Fonte: V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)


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