domingo, 15 de setembro de 2019

Cantiga 97: “Sempre acorrer a Nossa Senhora”

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Esta cantiga nos conta como Santa Maria protegeu da morte a um súdito do rei que havia sido caluniado.

“Nossa Senhora vem sempre nos socorrer, nos socorrer e salvar, e salvar ao coitado”.

Sobre isso, vos contarei um milagre que a Virgem fez em Cañete a um pobre servidor do rei. Os caluniadores inimizaram o rei contra ele, como eu bem sei, e queriam fazê-lo morrer.

De tal maneira o caluniavam que o rei o fez vir ante ele. E ele, com grande pesar e angústia, começou a chorar a rezou à Virgem tudo quanto podia.

Além do mais, doou à Igreja um rico pano, e se fez escravo de Nossa Senhora. Ele tinha por nome Mateus, e bem facilmente era conhecido na casa do rei.

Na igreja, após depositar seu dom, fez chorando sua oração e empreendeu o caminho para o castelo com grande medo no coração, pois temia ser punido ou morrer por causa da calúnia.

Quando chegou diante do rei, este enviou seus homens prende-lo. Mas ele encomendou-se intensamente a Nossa Senhora.

Isso feito, entrou no salão, tomou posição, e na presença do rei começou a falar assim:

‒ “Senhor, vos tendes me mandado procurar, e assim que eu vi vossa carta, eu vim aqui logo que pode e eis que eu estou aqui.”

O rei, respondeu-lhe assim, segundo ouvi:

‒ “Eu quereria saber uma coisa de vós, se é verdade que fizeste, como dizem, tanto mal e tão descomunal.”

Veja vídeo
Nossa Senhora
vem sempre nos socorrer
Respondeu ele:

‒ “Qual?”

O rei respondeu:

‒ “Tal e de tal maneira.”

Então disse ele:

‒ “Valha-me, Santa Maria, com teu poder! Isso que vos disseram Senhor, é mentira, e não há maior. Se Vossa Mercê dispõe, enviai ali um inquisidor vosso e melhor podereis ouvir os fatos por meio dele.”

Respondeu o rei:

‒ “Isso me apraz, e julgo que cumpres bem, e sempre quero agir assim, salvo em caso extremo.”

O monarca mandou um homem de paz para que fosse sem demora se informar da verdade dos fatos.

Esse homem partiu logo, e fez vir as pessoas da região para que expusessem a verdade dos fatos.

E assim percebeu quanto tinham mentido e enganado ao rei.

Tudo o que ele ouviu, fez escrever e enviou ao rei.

E quando o monarca abriu a carta e viu que desvendava a verdade, então lamentou todo o acontecido e julgou a falsidade daqueles que tinham caluniado aquele homem.

E logo o perdoou e lhe fez grandes dons.

Aos intrigantes desprezou e nunca mais deu nada por eles, e desde aquele fato nunca quis mais acreditar em nada vindo deles.


Vídeo: Nossa Senhora vem sempre nos socorrer




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domingo, 1 de setembro de 2019

O velho abade cruzado e o jovem traidor

Montemor o Velho, lenda do abade de Montemor, ©Rui Ornelas

Luis Dufaur
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Numa fria noite de Natal, em pleno século IX, o abade Dom João de Montemor, superior de todos os abades de Portugal, regressava à sua casa depois de haver celebrado.

Ao passar por uma das igrejas que havia no caminho, ia persignar-se devotamente, quando o pranto de um menino o deixou surpreso.

Aproximou-se da porta de igreja, e viu que na entrada havia uma criatura que tremia de frio.

Com muita compaixão, tomou o menino, arrumou-o bem e o levou consigo ao seu palácio.

Grande foi a admiração de todos os familiares e serventes do abade, ao vê-lo aparecer com uma criança nos braços.

Explicou o ocorrido, e ordenou ao seu mordomo que dispusesse todo o necessário para que o menino abandonado fosse atendido devidamente.

Com efeito, tudo de que necessitava foi-lhe proporcionado. E assim foi crescendo o menino, que recebeu o nome de Garcia.

O bom abade Dom João de Montemor, que havia já passado os umbrais da ancianidade, via com júbilo que aquele menino abandonado ia se fazendo galhardo mancebo, e certos temores que havia alentado se desvaneceram. Sucedia que o menino havia sido fruto do pecado, e o abade tinha medo de que no rapaz se demonstrasse a perversidade da sua origem.

Montemor o Velho, contos e lendas medievais. ©Rui Ornelas
Mas Garcia era galhardo e nobre, ainda que às vezes fosse um tanto vingativo e soberbo. Porém esses efeitos vinham do natural fogo da juventude e pelo mimo que havia recebido de todos.

Logo se viu, no entanto, que a incerta origem do mancebo ia germinar em frutos de traição para com aqueles que lhe salvaram a vida e lhe deram nome e lugar.

Por aqueles anos, as conquistas de Almazor e as vitórias que obtinha contra os cristãos haviam dado grande nomeada ao caudilho mouro.

Até Montemor chegara a fama do inimigo da Cristandade, e essa fama seduziu Garcia.

Crendo que por sua origem não chegaria ao que ambicionava, e movido também por um torpe desejo de traição, saiu à noite do palácio do abade.

Tomando o caminho das terras dos mouros, apresentou-se a Almazor e ofereceu sua espada e seus serviços. Almazor aceitou comprazido, e desde então o traidor tomou o nome de Dom Zulema. E bem se distinguiu o renegado!

Como impelido pelas forças infra-humanas do ódio, era sempre ele quem rompia com mais impetuosidade as fileiras dos cristãos, não tendo repouso até que, depois das batalhas, por suas próprias mãos dava morte aos sobreviventes.

E assim foi Garcia tão amado de Almazor, que este o levou consigo à grande expedição em que o guerreiro mouro conquistou e arrasou Santiago de Compostela.

Dom Zulema entrou também em Santiago, arrasando a casa de Deus. Na volta se dirigiu por conta própria contra Coimbra, que também destruiu.

Montemor o Velho, Igreja da MisericordiaTinha tomado a secreta resolução de voltar a Montemor e ali fazer um terrível saque. Sua alma perversa e endurecida odiava todos os que o ampararam durante sua infância.

E sua consciência não suportava que houvesse resquícios que lembrassem sua traição.

Com efeito, depois da tomada de Coimbra deu ordem a sua gente de dirigir-se a Montemor.

Chegou à vila, e a contemplação dos lugares onde havia passado sua infância, longe de apaziguar seu ânimo, o irritou mais e mais, aumentando seu torpe desejo de destruir sua pátria natal.

E destacando seus esquadrões de infantes, pôs cerco a Montemor, cujos habitantes, já postos em alerta, se preparavam para a defesa.

Porém esta era difícil, dada a enorme quantidade de mouros que tinham tomado as saídas, perdendo-se assim todas as esperanças de ajuda de fora que pudesse vir.

Os sitiados davam grande mostra de valor, infligindo enormes perdas aos assaltantes.

Dom Zulema, no entanto, não cessava seu empenho, e ordenava assaltos e mais assaltos, que iam destruindo as minguadas defesas da vila, diminuindo assim o número de habitantes que podiam empunhar armas.

Montemor o velho, Igreja de Sta. Maria da AlcáçovaO abade Dom João de Montemor, vendo que tudo estava perdido e que não havia possibilidade de salvação, reuniu os chefes dos guerreiros e os homens de idade madura, e lhes disse:

— É chegada a nossa última hora. A cidade não tardará a cair nas mãos desses cães de Satanás. Temos de temer sobretudo pelas vergonhas e torturas que podem causar às mulheres e meninos.

 Eu proponho que demos morte a umas e outros, e que façamos uma suprema saída para não voltar, e em todo caso vender bem caro as nossas vidas.

E assim o fizeram. Derramando lágrimas de dor e de ira, cada homem deu morte a sua esposa e a seus filhos de mais tenra idade.

Dom João degolou sua irmã, Dona Urraca, e seus cinco meninos.

Depois reuniram todas as riquezas e fizeram com elas uma enorme fogueira, cuja fumaça subia, escurecendo o céu.

Montemor o velho, Igreja de Sta. Maria da AlcáçovaComo uma manada de leões, saíram os cristãos de Montemor.

Lançaram-se contra a mourisma, e o desespero duplicou suas forças.

O abade parecia um leão em meio de fraco rebanho, de tal maneira sua espada fendia a quem o enfrentava.

Chegou aonde estava Dom Zulema e se lançou contra ele, derrubando-o e cortando-lhe a cabeça.

Ao ver caído seu caudilho, os inimigos fugiram em desordem, e lamentando o sítio, deixaram esparsas suas tendas e armas.

Voltaram à vila seus moradores, cheios de alvoroço pelo triunfo, porém também com grande tristeza de recordar aqueles a quem eles mesmos antes haviam dado morte.

Mas quando entraram pelas portas, ouviram gritos de júbilo e ação de graças.

Ao desembarcar os guerreiros na praça, viram ali todas as mulheres e os meninos, que agitando ramos e palmas, gritavam:

— Vitória! Vitória! Glória a Deus!

Por milagre divino haviam ressuscitado, e dessa maneira se salvaram todos pela vontade de Deus e pela bravura do abade Dom João de Montemor.


(Fonte: V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)


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domingo, 18 de agosto de 2019

Os dois irmãos: um no Purgatório e o outro... condenado?


Luis Dufaur
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Na vila de Roma, essa nobre cidade, mestra e senhora de toda a Cristandade, havia dos irmãos de grande autoridade: um era clérigo e outro senador.

Pedro chamava-se o clérigo, pois esse era seu nome, varão sábio e nobre, do Papa cardeal. Mas, entre as qualidades tinha uma mácula: ele tinha grande avareza, um vício mortal.

Estevão era o nome do segundo irmão, entre os senadores não havia mais jovem, era muito poderoso no povo romano, mas no “prendo prendis” usava bem a mão.

Era muito cobiçoso e de muito queria se apropriar.

Falseava os julgamentos por vontade de possuir, roubava a todos os que podia roubar, prezava mais ter dinheiro que honradez.

Com falsos testemunhos seguindo seus caprichos tirou três casas oferecidas a São Lourenço, e por causa dele Santa Inês perdeu boas propriedades e uma horta que vale o ordenado de muitos senadores.

domingo, 4 de agosto de 2019

Pleito entre os frades menores e as formigas

Luis Dufaur
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Por vezes, fatos — reais ou imaginários — acontecem com tanto espírito sobrenatural que se diz serem "medievais".

É o caso do fato seguinte, acontecido no Brasil — que não teve Idade Média — narrado pelo Pe. Manuel Bernardes:

Foi o caso, conforme narrou um sacerdote dos Frades Menores da Província da Piedade, no Maranhão, que naquela capitania as formigas, que são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem seu reino subterrâneo e encherem seus celeiros, de tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína.

E acrescentando delito a delito, furtavam a farinha que ali estava guardada para quotidiano uso da comunidade.

Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda hora, de dia e de noite — Parvula nam exemplo est magni formica laboris. Ore trahit quodeumque potest, atque addit acerve. Quem struit... (Hora. lib. St., 1) — vieram os religiosos a padecer falta e buscar-lhe remédio.

domingo, 21 de julho de 2019

A flor mais bela

Luis Dufaur
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Vou contar-vos uma graciosa lenda persa que exprime uma grande verdade.

Deus, assentado no trono excelso de sua glória, chamou um anjo e disse-lhe:

— Vai àquele jardim, na terra lá em baixo, e traze-me a flor mais bela que encontrares.

O anjo, mensageiro de Deus, desceu ao jardim e contemplou a variedade e a graça com que milhares de flores ali se misturavam, como um mosaico admirável.

Viu o minúsculo jasmim ao lado do grande helianto, a dália à sombra da madressilva abraçada ao oleandro; viu a margarida, a pervinca, a primavera e todas as outras belezas que erguem o seu hosana ao Criador.

Mas o seu olhar fixou-se na rainha das flores, a rosa aveludada e odorosa, e disse:

— Esta é, certamente, a flor mais bela.

Colheu-a e voou ao trono do Altíssimo.

— A rosa — disse Deus — é o símbolo do amor, doce expressão de um coração ardente.

Com a sua formosura, atrai os olhares; é suave, perfumada, delicada, mas não é a flor mais bela.

domingo, 7 de julho de 2019

Como Jesus Cristo bendito,
fez fazer-se frade um rico e gentil cavaleiro

Luis Dufaur
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São Francisco, servo de Cristo, indo uma vez à tarde à casa de um grande gentil-homem poderoso, foi por ele recebido e hospedado, com o companheiro, como anjos do paraíso, com grandíssima cortesia e devoção.

Pelo que São Francisco lhe tomou grande amor, considerando que ao entrar em casa o tinha abraçado e beijado amigavelmente, e depois lhe havia lavado os pés e acendido um grande fogo e preparado a mesa com muito boas iguarias; e enquanto comiam, ele com semblante alegre os servia continuamente.

Ora, tendo acabado de comer São Francisco e o companheiro, disse este gentilhomem:

‒ “Eis, meu pai, ofereço-me a vós e as minhas coisas; quando precisardes de túnica ou de manto ou de outra coisa qualquer, comprai que eu pagarei; e vede que estou pronto a prover-vos em todas as vossas necessidades, porque pela graça de Deus eu o posso, porquanto tenho em abundância todos os bens temporais, e por amor a Deus que mos deu, eu os dou de boa vontade aos seus pobres”.

domingo, 23 de junho de 2019

O imperador e o bandido

Carlos Magno
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Carlos Magno estava uma noite dormindo em seu palácio, não longe de Frankfurt, quando viu em sonho um anjo rodeado de uma auréola brilhante de luz sobrenatural.

O anjo se colocou diante do Imperador, e o saudou com estas palavras:

— Levanta-te, grande Imperador, e escuta a voz de Deus que fala por meus lábios. É necessário que saias esta noite sem que ninguém te acompanhe, para fazer um roubo. Se queres viver, obedece.

Acordou Carlos Magno, estranhando muito o que havia visto no sonho. E adormeceu de novo com isto na cabeça. Outra vez viu o anjo, que diante dele ordenava:
— Levanta-te, ó rei, prepara-te para cumprir as ordens que te dei. É para o teu bem e salvação do Império. Deus se serve de mim para dar-te a conhecer a sua imutável vontade.

Carlos Magno acordou e ficou pensativo a respeito duas aparições, mas adormeceu de novo. O anjo do Senhor o despertou com redobrada insistência, e exigiu com energia que se levantasse e saísse para roubar.

domingo, 9 de junho de 2019

Como Frei Leão só pode dizer o contrário do que São Francisco queria

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Estando uma vez São Francisco, no princípio da Ordem, com Frei Leão em um convento, onde não havia livro para rezar o ofício divino, ao chegar a hora de Matinas, disse São Francisco a Frei Leão:

“Caríssimo, não temos breviário, com que possamos rezar Matinas: mas, a fim de passarmos o tempo louvando a Deus, eu direi e tu me responderás como te ensinar; e toma cuidado, não digas as palavras de modo diverso do que te ensinar’.

Direi assim: ‘Õ irmão Francisco, praticaste tanto mal, tais pecados no século que és digno do inferno’; e tu, irmão Leão, responderás: ‘Verdadeira coisa é que mereces o inferno profundíssimo’

‒ E Frei Leão, com simplicidade columbina, respondeu: “Estou pronto, pai, começa em nome de Deus”.

Então São Francisco começou a dizer: “Ó irmão Francisco, praticaste tantos males e tantos pecados no século, que és digno do inferno”.

E Frei Leão respondeu:

‒ “Deus fará por ti tantos bens, que irás ao paraíso”.

domingo, 26 de maio de 2019

Ladrão! Ladrão!


Luis Dufaur
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Um mercador voltava de uma feira, onde fizera grandes negócios. Colocara numa bolsa de couro toda a sua fortuna, em belas moedas de ouro. Ia assim por vales e montes.

Chegando à cidade de Amiens, passou diante de uma igreja. Como tinha por hábito, entrou para rezar diante da Mãe de Deus e pousou a bolsa ao lado. Quando se levantou, distraiu-se e partiu sem ela.

Havia na cidade um burguês que, ele também, tinha o costume de ir rezar aos pés da bendita Virgem.

Veio ele pouco depois ajoelhar-se no lugar que o outro acabara de deixar, e encontrou a bolsa, selada e guarnecida de um pequeno fecho. Compreendeu logo que devia conter moedas de ouro.

— Meu Deus! Que devo fazer? Se mando apregoar pela cidade o que encontrei, não faltará quem o reclame contra todo o direito.

domingo, 12 de maio de 2019

A ponte do diabo de St. Guilhem-le-Désert

A ponte do diabo de St. Guilhem-le-Désert
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Na região de Hérault, perto de Saint Guilhem-le-Désert, na França, há uma magnífica ponte.

Em tempos muito antigos, os pobres habitantes de Saint-Guilhem padeciam terrível isolamento. Era impossível atravessar o rio Hérault por causa dos abismos e dos redemoinhos. Por isso, eles tinham que enfrentar perigosas e longas travessias através das florestas e das montanhas.

Um dia, um dos habitantes teve que percorrer muitas léguas para contornar o rio.

Ele jurou então que faria tudo para evitar esses desvios.

Como acontece nesses momentos de cólera, juramentos e impaciência súbita, Lúcifer anda por perto.

Disfarçado, ele se aproximou de mansinho do nosso homem e com voz melosa, disse:

‒ “Quantas voltas para vender a mercadoria!”

domingo, 28 de abril de 2019

Como São Francisco explicou a Frei Leão a visão dos frades que se afogavam e dos que se salvavam

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Uma vez em que São Francisco estava gravemente enfermo e Frei Leão o servia, o dito Frei Leão, estando em oração perto de São Francisco, foi arrebatado em êxtase e levado em espírito a um rio grandíssimo, largo e impetuoso.

E estando a olhar quem o atravessava, viu alguns frades carregados entrar naquele rio, os quais eram subitamente abatidos pela impetuosidade da corrente e se afogavam.

Outros iam até um terço, outros até ao meio do rio, outros ainda até à outra margem; todos no entanto, pela impetuosidade do rio e pelo peso que levavam às costas, finalmente caíam e se afogavam.

Vendo isto, Frei Leão tinha deles grande compaixão.

Mas subitamente, estando assim, eis que vem uma grande multidão de frades sem nenhuma carga ou peso de coisa nenhuma, nos quais reluzia a santa pobreza.

E entraram no rio e passaram além sem nenhum perigo.

E vendo isto, Frei Leão voltou a si. E então São Francisco, sentindo em espírito Frei tinha alguma visão chamou-o que Leão visto a si e perguntou-lhe que era o que tinha visto.

E logo que lhe disse Frei Leão, por ordem, toda a visão que tivera, disse São Francisco:

domingo, 31 de março de 2019

Os gigantes de Nideck

Ruínas do castelo de Nideck
Ruínas do castelo de Nideck
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O castelo de Nideck, na Alsácia, está composto por 2 ruínas sobre um morro muito inclinado.

Esta singularidade do local e a vizinhança de uma grande cachoeira muito rumorosa tal vez tenha gerado uma lenda transmitida de pai a filho após inúmeras gerações.

Ela conta que há muitos séculos vivia no castelo de Nideck um casal de gigantes e sua “pequena” filha.

Ela ficava entediada nos imensos salões do castelo e, um dia, decidiu sair para conhecer as redondezas.

Ela vestiu de azul céu, arranjou seus cabelos para ficar bem bonita e partiu para descobrir o mundo de fora.

Com poucos passos, ela atravessou os morros e chegou até uma vasta planície que parecia deserta. Mas, lá embaixo, perto de seus pés, ela viu coisas que mexiam.

Pareciam minúsculas bonecas, entre as quais havia:

‒ uma boneca menino com bigode e um grande chapéu;

‒ uma boneca vaca que puxava uma charrete.

Maravilhada com essas bonecas que mexiam e faziam ruído, ela achou que:

domingo, 24 de março de 2019

Como São Luís, rei de França, em pessoa, com o hábito de peregrino, foi a Perusa visitar o santo Frei Egídio

São Luís IX, rei da França
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Indo São Luís, rei de França, em peregrinação visitar os santuários pelo mundo, e ouvindo a fama grandíssima da santidade de Frei Egídio, o qual fora dos primeiros companheiros de São Francisco, pôs no coração e determinou por tudo visitá-lo pessoalmente.

Pela qual coisa veio a Perusa, onde habitava então o dito Frei Egídio.

E chegando à porta do convento dos frades, como um pobre peregrino desconhecido com poucos companheiros, chamou com grande insistência por Frei Egídio, nada dizendo ao porteiro sobre quem fosse aquele que o chamava.

Foi, pois, o porteiro a Frei Egídio e disse-lhe que à porta havia um peregrino que o procurava: e por Deus lhe foi revelado em espírito que aquele era o rei de França.

Pelo que subitamente ele com grande fervor sai da cela e corre à porta e sem mais pergunta, ou sem que jamais tivessem estado juntos, com grandíssima devoção ajoelhando-se abraçaram-se e beijaram-se com tanta familiaridade como se há longo tempo tivessem tido grande amizade.

domingo, 17 de março de 2019

O anel do rei Santo Eduardo


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Certo dia, o rei Santo Eduardo já velho assistia à cerimônia de consagração de uma igreja construída em honra de São João Evangelista.

Nessa hora, um homem muito pobre aproximou-se dele e mendigou-lhe uma esmola “pelo amor de São João”.

O grande monarca passou a mão na bolsa, mas não encontrou nem prata nem ouro.

Santo Eduardo, então, mandou vir seu tesoureiro, mas não foi localizado no meio da multidão. E o pobre seguia implorando esmola.

Santo Eduardo sentia-se muito mal à vontade. Nesse momento lembrou que trazia um anel grande e muito precioso.

 Então, ele o tirou do dedo, e pelo amor de São João o deu ao miserável, que lhe agradeceu gentilmente e desapareceu.

Eis o que aconteceu com o anel.