domingo, 2 de setembro de 2018

A freira que quis fugir do convento

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Eis como Santa Maria dissuadiu uma freira de ir embora de seu mosteiro com um cavalheiro.

“De muitas maneiras Santa Maria nos afasta do mal, tão leal Ela é conosco.”

Sobre isto, eu vou vos contar um milagre, tal como eu sei, que fez Nossa Senhora a uma freira a quem Ela deu grande prova de amor.

Essa monja era muito bela e observava tudo o que está na Regra.

Tudo o que era de agrado de Santa Maria ela fazia sempre e pontualmente.

Mas o demônio vendo isso sentia grande pesar. Ele mexeu-se tanto para afastá-la do bom caminho que arranjou um cavalheiro.

E meteu nela um grande fogo e os dois maquinaram para ela fugir com ele de qualquer jeito, prometendo que ele casaria com ela e lhe daria tudo o que fosse necessário.

O cavalheiro propôs então de se encontrar com ela num curral do mosteiro e ficou aguardando ali com seus homens.

Mas, eis que a monja caiu no sono e teve uma visão que a abalou com pavor mortal.

Porque ela viu dentro de um poço estreito e fundo, mais negro que o piche, o demônio que a tinha levado até esse ponto, e que queria jogá-la no fogo infernal de onde ela ouvia mais de mil vozes de pessoas e via muitas outras sendo atormentadas.

Então, com um medo de rachar o coração, exclamou:

‒ “Minha mãe! Salvai-me Santa Maria que és Mãe de Deus, porque eu sempre quis cumprir tuas vontades. Não olhes para meus pecados, mas fazei-me o bem que em Vós nunca falta.”

Assim que disse isso, Nossa Senhora apareceu-lhe para repreendê-la dizendo:

‒ “Que venha te socorrer aquele por quem me abandonaste. Teu caso não me compete.”

Isto dito, um diabo a empurrou dentro do poço e ela berrou pedindo auxílio de Santa Maria, a Rainha nobre, espiritual, que então a tirou do poço.

E quando estava fora, Nossa Senhora assim falou:

‒ “Desde hoje não te afastes de Mim nem de meu Filho, senão eu te devolverei ao poço e lá não há remédio.”

Naquele momento, a freira acordou com o coração tremendo. Cheia de espanto com aquelas visões, foi logo até a porta onde encontrou aqueles com quem tinha combinado fugir. E disse:

‒ “Errei muito feio querendo abandonar Deus por causa de um homem terreno. Mas, se Deus quiser, isso não acontecerá, e nunca mais ver-me-á um homem fora do convento.

“Ide embora que não quero as roupagens nem as jóias. Enquanto estiver viva, nunca terei outro amante nem outro amor senão o da Mãe de Nosso Senhor, a Santa Rainha celestial.”


(Fonte: Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María, Cantiga 58 : “De muitas formas Santa Maria nos protege do mal)  

Vídeo: “De muitas formas Santa Maria nos protege do mal"






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domingo, 19 de agosto de 2018

Como São Pedro e São Paulo apareceram a São Francisco e Frei Masseo que pediam a santa pobreza

São Francisco de Assis, Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
São Francisco de Assis,
Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, monsior São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo o que diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir.

Depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois.

E, para lhes dar o exemplo de verdadeira obediência, começou ele primeiramente a ir a exemplo de Cristo, o qual começou primeiramente a fazer do que a ensinar.

Pelo que, tendo designado aos companheiros as outras partes do mundo, ele, tomando Frei Masseo por seu companheiro, seguiu para a província da França.

E chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte e Frei Masseo por outra.

Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco.

Mas a Frei Masseo, pelo fato de ser um homem alto e cheio de corpo, deram muitos e bons pedaços grandes e pães inteiros.

Acabada a mendigação, reuniram-se fora da cidade para comer em um lugar onde havia uma bela fonte e junto uma bela pedra larga, sobre a qual cada um colocou as esmolas recebidas.

E, vendo São Francisco que os pedaços de Frei Masseo eram em maior número e mais belos e maiores que os dele, mostrou grande alegria e disse assim:

“Õ Frei Masseo, não somos dignos deste grande tesouro”.

E, repetindo estas palavras várias vezes, respondeu-lhe Frei Masseo:

“Pai, como se pode chamar tesouro, onde há tanta pobreza e falta de coisas que necessitamos?

“Aqui não há toalha, nem faca, nem garfo, nem prato, nem casa, nem mesa, nem criada, nem criado”.

Então disse São Francisco:

São Francisco de Assis, Mosteiro da Luz, São Paulo, Brasil
São Francisco de Assis, Mosteiro da Luz, São Paulo, Brasil
“Isto é o que considero grande tesouro, porque não há coisa nenhuma feita pela indústria humana; mas o que aqui existe é feito pela Providência divina, como se vê manifestamente pelo pão mendigado, pela mesa de pedra tão bela e pela fonte tão clara: por isso quero que peçamos a Deus que o tesouro da santa pobreza tão nobre, o qual tem Deus para servir, seja amado de todo o coração”.

E ditas estas palavras e rezada a oração e tomada a refeição corporal com aqueles pedaços de pão e aquela água, levantaram-se para ir à França, e, encontrando uma igreja, disse São Francisco ao companheiro:

“Entremos nesta igreja para orar”.

E São Francisco se pôs em oração atrás do altar: e nesta oração recebeu da divina visita tão excessivo fervor, que inflamou tão fortemente sua alma no amor da santa pobreza que, pela cor da face como pela boca excessivamente aberta, parecia lançar chamas de amor.

E vindo assim como abrasado ao companheiro, disse-lhe:

“A. A. A., Frei Masseo, entrega-te a mim”. Assim disse três vezes; e na terceira vez São Francisco com o hálito levantou Frei Masseo no ar, e o lançou diante de si à distância de uma comprida lança.

“De que Frei Masseo teve grandíssimo espanto, e depois contou aos companheiros que naquela impulsão e suspensão, que lhe deu São Francisco com o hálito, sentiu tal doçura na alma e consolação do Espírito Santo como nunca em sua vida sentira tanta.

E feito isto disse São Francisco:

São Pedro e São Paulo recebem as almas dos monges na porta do Céu, Plimpton MS 040A, f1
São Pedro e São Paulo recebem as almas dos monges na porta do Céu, Plimpton MS 040A, f1
“Companheiro caríssimo, vamos a S. Pedro e S. Paulo, e roguemo-lhes que nos ensinem e nos ajudem a possuir o desmesurado tesouro da santíssima pobreza.

“Porque ela é tesouro tão digníssimo e tão divino que não somos dignos de possui-lo em nossos vilíssimos vasos.

“Atendendo que ela é a virtude celeste, pela qual todas as coisas terrenas e transitórias são calcadas aos pés e pela qual todo obstáculo se afasta diante da alma, a fim de que ela se possa livremente unir com o Deus eterno.

“E ela esta virtude, a qual faz a alma presa à terra conversar no céu com os anjos.

“Esta é aquela que acompanhou Cristo na cruz; com Cristo foi sepultada, com Cristo ressuscitou, com Cristo subiu ao céu, e a qual, e ainda nesta vida, concede às almas, que dela se enamoram, agilidade para voar ao céu; para o que ela ainda guarda as armas da verdadeira humildade e da caridade.

“E por isso roguemos aos santíssimos apóstolos de Cristo, os quais foram perfeitos amadores desta pérola evangélica, que nos mendiguem esta graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que pela sua santíssima misericórdia nos conceda o merecimento de sermos verdadeiros amadores, observadores e humildes discípulos da preciosíssima, amantíssima e evangélica pobreza”.

E com este falar chegaram a Roma e entraram na igreja de S. Pedro; e São Francisco se pôs a orar em um canto da igreja, e Frei Masseo em outro.

São Francisco recebe os estigmas. Gentile da Fabriano (1370 – 1427), Fondazione Magnani-Rocca, Parma
São Francisco recebe os estigmas.
Gentile da Fabriano (1370 – 1427), Fondazione Magnani-Rocca, Parma
E conservando-se muito tempo em oração com muitas lágrimas e devoção, apareceram a São Francisco os santíssimos apóstolos Pedro e Paulo com grande esplendor e disseram:

“Pois que pedes e desejas observar aquilo que Cristo e os santos apóstolos observaram, Nosso Senhor Jesus Cristo nos envia a ti para anunciar-te que tua oração foi escutada e te foi concedido por Deus, a ti e a teus seguidores, perfeitíssimamente o tesouro da santíssima pobreza.

“E ainda de sua parte te dizemos que a todo aquele que a teu exemplo seguir perfeitamente este desejo está assegurada a beatitude da vida eterna; e tu e todos os teus discípulos sereis por Deus abençoados”.

E, ditas estas palavras, desapareceram, deixando São Francisco cheio de consolação.

O qual se levantou da oração e voltou ao companheiro e perguntou-lhe se Deus lhe havia revelado alguma coisa; e ele respondeu que não.

Então São Francisco lhe disse como os santos apóstolos lhe haviam aparecido, e o que tinham revelado.

Do que, cada um cheio de letícia, determinaram volver ao vale de Espoleto, deixando de ir à França.

Em louvor de Cristo. Amém.



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domingo, 5 de agosto de 2018

O jogral no inferno


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Em Sens, na França, havia um jogral incapaz de fazer mal a uma criança, mas que levava a vida mais desordenada que se possa imaginar.

Passava as horas e os dias na taberna, nas praças ou em lugares piores.

Ganhava algum dinheiro cantando e tocando seu instrumento, mas logo corria à procura de quem estivesse disposto a jogar, e perdia até a camisa do corpo.

Quando não tinha dinheiro, empenhava até sua viola para obtê-lo, e esse também se evaporava, porque de fato a sorte nunca o ajudava.

Por isso sempre vestia roupas maltrapilhas, andava descalço e sem dinheiro. Mas estava sempre contente, sorria sempre e cantava sem cessar.

Só pedia a Deus que convertesse todos os dias da semana em Domingo.

Acabou morrendo. Um diabo novinho, que ainda não fizera sua estreia no serviço de levar almas para seu patrão, e que durante o mês anterior percorrera vilas e campo à procura de oportunidade para cumprir suas incumbências, coincidiu de passar por ali no momento em que o jogral expirava, e se apoderou da sua alma. Colocou-a nos ombros e se mandou para o inferno.

Chegou na hora da chamada. Lúcifer estava no seu trono.

À medida que chegavam, os demônios depositavam aos pés do patrão a caça que haviam conseguido durante o dia. Um trazia um ladrão, outro trazia um guerreiro morto em combate, outros traziam bispos, monges, camponeses, burgueses, etc.

O negro monarca examinava as vítimas, e depois fazia um sinal para que fossem lançadas na caldeira. Terminada essa tarefa, e antes de mandar que fechassem as portas, perguntou:

— Já voltaram todos?

— Sim — respondeu uma espécie de porta-voz, — só falta aquele novato simples e tolo, que saiu há um mês. Acho que não devemos esperá-lo, pois deve estar envergonhado como nos outros dias, por não ter caçado ninguém, e não vai querer entrar.

Mal havia terminado de falar, o diabinho novo apareceu carregando o jogral, e o apresentou humildemente a Lúcifer. Este ordenou:
— Aproxima-te! Que tipo de gente trazes?

O demônio tolo passou a palavra ao jogral, que esclareceu:

— Senhor, exerço a arte de alegrar as pessoas, e podeis ver em mim toda a ciência disponível na Terra. Apesar disso passei lá em cima muita fome e muito frio, e se quereis encarregar-vos de hospedar-me, poderei cantar para entreter-vos, se é que gostais de música.

— Maldita seja! Não precisamos aqui de nenhuma música. Estás vendo essa caldeira? Vou te encarregar de atiçar bem o fogo e não deixar que se apague. Vai ser esta a tua incumbência aqui. Música! Onde já se viu?! Começa logo a trazer lenha, senão verás o que te acontece se deixar o fogo apagar-se.

O jogral fez uma reverência e começou a jogar lenha no fogo. Durante algum tempo cumpriu bem sua tarefa. Mas um dia Lúcifer convocou todos os demônios para irem à Terra dar uma batida geral. Chamou o jogral e lhe disse:

— Vou viajar, e te deixo encarregado de guardar todos os meus prisioneiros. Mas pagarás com os olhos da cara se estiver faltando um sequer, quando eu voltar.
— Senhor, podeis viajar tranquilo, pois encontrareis tudo em ordem quando voltardes.

O rei do inferno saiu, e com ele toda a manada de diabos, demônios e diabinhos. São Pedro estava aguardando exatamente essa oportunidade, escondido atrás de um muro. Quando saiu o último diabo, pôs um disfarce com barba preta e bigodes bem torcidos, entrou e aproximou-se do jogral.

— Amigo, vamos disputar uma partida? — disse, enquanto sacudia numa das mãos um saquinho com dados, objetos muito conhecidos do jogral, e na outra uma bolsa cheia de moedas.

Ouvindo o ruído dos dados e o tentador tinir das moedas, renasceu no jogral seu velho amor pelo jogo. Mas lembrou-se da ameaça do novo patrão, e respondeu:

— Não posso jogar, porque estou completamente desprovido de dinheiro.
— Não seja por isso, amigo! Se lhe falta dinheiro, podemos disputar almas.
— Almas! Mas eu fui bem advertido do que me acontecerá, se faltar uma única alma quando meu patrão voltar.
— Já se vê que você é mesmo muito tolo! Quem é que vai dar pela falta de umas cinco ou seis almas, no meio de tantos milhares? Veja bem quantas moedas eu tenho neste saco, e aproveite a oportunidade, senão vou-me embora procurar alguém mais esperto.

O jogral olhou cobiçosamente para as moedas e pegou os dados com interesse, enquanto vacilava entre a oportunidade de ganhar uns trocados e o risco da punição certa.

Por fim, não pôde resistir mais, e consentiu em jogar umas tantas partidas, mas disputando uma alma de cada vez, para não se expor a prejuízo muito grande.

São Pedro tirou uma moeda do saquinho e o jogral tirou uma alma da caldeira. Jogaram os dados e o jogral perdeu, para não violar o costume.

Isso se repetiu várias vezes, e a cada nova partida o jogral dobrava a aposta, para recuperar o terreno perdido. Perdia de novo, perdia sempre, e achou melhor triplicar as apostas.

Não concordava que pudesse ter tão má sorte, e desconfiou que o seu opositor estivesse roubando no jogo. São Pedro protestou, o jogral respondeu com insultos, e acabaram nas vias de fato.

São Pedro foi mais forte, e o jogral acabou obrigado a pedir perdão. Propôs reiniciarem o jogo, com a condição de anular a última partida.

São Pedro concordou e voltaram a disputar, mas o jogral perdia sempre. Logo estava apostando as almas às centenas, aos milhares, aos milhões.

São Pedro se aproximou da caldeira e começou a retirar as almas que havia ganho. Então o jogral resolveu jogar de uma só vez todas as almas.

Jogaram, enquanto as pobres almas esperavam angustiadas, mas o resultado não pode ser novidade para nós, que conhecemos a má sorte do jogral.

São Pedro partiu para o Céu, levando consigo todas as almas. Pouco depois voltou Lúcifer com suas legiões. Quase caiu de espanto quando viu todas as fogueiras apagadas e as caldeiras vazias. Só havia uma alma, que era a do jogral.
— Maldito! Que fizeste com as almas que te confiei?

Chorando, o jogral se lançou ao chão e contou o sucedido, enquanto lamentava sua má sorte tanto no inferno como na Terra. Lúcifer compreendeu que não lhe era conveniente ter um jogral no inferno, pois algum dia acabaria perdendo todos os demônios, e até mesmo a si próprio.

Deu um grito, que reboou por todo o inferno, e perguntou:
— Quem foi o idiota que trouxe este jogral?

Apresentou-se o diabinho. Recebeu uma surra tão grande, que jurou nunca mais trazer jogral nenhum para o inferno. Depois disso, por ordem de Lúcifer, pegou nas costas o jogral e o lançou para fora do inferno.

O jogral saiu correndo, e ainda conseguiu alcançar São Pedro com as almas quando entravam no Céu.


(Jakes de Basin, in R. Menéndez Pidal, "Antología de cuentos" - Labor, Barcelona, 1953)


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domingo, 22 de julho de 2018

A fonte milagrosa de Santa Enimia

Luis Dufaur
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No atual departamento de Lozère, ao longo do rio Tarn, encontra-se a vila medieval de Santa Enimia encravada nas rochas. Seu nome está associado com uma princesa que não poderia deixar este lugar.

O seu estranho nome está ligado a uma legenda.

O fato aconteceu há muito tempo, por volta do ano de 615. Enimia foi uma princesa Merovíngia, irmã do rei Dagoberto.

Ela tinha uma beleza inigualável e atraia muitos pretendentes. Mas Enimia preferia se dedicar a Deus.

Infelizmente, como muitas vezes acontece, seu pai, o rei Clotário II decidiu em sentido contrário. Ele mandou-a chamar na sala e disse:

‒ “Filha, eu tenho observado que Você recusa todos os candidatos!”

‒ “Mas, pai, eu .......”

‒ “Deixe-me falar!”, disse o rei retorcendo seu belo bigode.

‒ “Sim, meu pai", respondeu a nossa Enimia olhando para baixo.

‒ “Desse jeito não haverá herdeiro para o reino!"

‒ “Mas, pai, eu ...”

‒ “Simplesmente, eu decido que você fique noiva de um dos meus barões. Assim seja!”

Apesar das lágrimas e dos repetidos pedidos para seu amado pai, ela não obteve a anulação da decisão real.

Desesperada, ela refugiou-se numa pequena capela e rezou a Deus para salvá-la de um casamento que ela não queria.

E eis que ela pegou uma praga, tal vez lepra, que a desfigurou e afastava dela todos os candidatos.

A doença era tão terrível que ela decidiu levar uma vida recolhida e deixar crescer o cabelo para esconder a doença.

Ela fechava-se numa sala escura, onde dormia e rezava.

Curiosamente, suas noites eram perturbadas por um sonho que voltava continuamente.

Uma voz aconselhou-lhe fazer abluções na água da fonte milagrosa de Burle.

Certa manhã, ela decidiu ir à procura dessa fonte maravilhosa.

Depois de uma longa viagem, ela encontrou-a no oco de um vale desconhecido e desabitado.

A princesa leprosa aproximou-se da beira da verde água e, apesar do frio da água, mergulhou inteiramente.

O milagre, então, aconteceu. Ela saiu da água resplandecendo beleza e recuperou o sorriso que tinha perdido havia tantos meses.

Enimia estava em condições de começar a viagem de volta.

Mas assim que ela se afastou do vale, a horrível doença reapareceu na sua branca pele.

Ela voltou à fonte e tomou banho muitas vezes.

Santa Enimia esmaga o dragão.
Santa Enimia esmaga o dragão.
Porém, cada vez que comparecia diante de seu pai, a horrenda doença voltava a cobrir seu corpo.

‒ “É um sinal divino”, pensou ela. “Eu devo morar junto à fonte”.

Foi assim que ela decidiu estabelecer-se perto da fonte de Burle.

Quando ela podia, ia rezar numa caverna que fica pouco acima da pequena aldeia.

Em torno da gruta da princesa começaram a acontecer prodígios e milagres.

E sua fama de santidade ficou tão grande que ainda muitos séculos depois, os romeiros vão até a aldeia para implorar suas bênçãos e mercês.



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