domingo, 27 de setembro de 2020

O camponês avarento

Cidade de Colmar, Alsácia, França, no Natal
Cidade de Colmar, Alsácia, França, no Natal
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi surpreendido pela noite à entrada de uma aldeia. 

Procurou uma casa onde pudesse pedir pousada, mas as portas todas estavam fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas.

Tudo estava adormecido. 

Apenas no fim de um beco se ouvia o barulho de um mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequenina luz. 

 Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou rente ao muro de uma quinta e bateu à porta. 

Logo depois veio um camponês atender. 

Hunawihr, Alsácia, França
Hunawihr, Alsácia, França

Nosso Senhor lhe disse:
— Faz-me um favor de me dar agasalho por esta noite? Não se há de arrepender.

Depois de entrar, perguntou:
— Todos estão deitados, e por que o senhor ainda está trabalhando?
— Soube ontem à noite que ia ser perseguido por um credor sem entranhas. Ele prometeu matar-me, se não lhe pagasse amanhã o que devo. Portanto, eu e meus filhos estamos batendo o pouco trigo que colhi, para vender no mercado e pagar a minha dívida. Depois não nos fica nada, e não sei como havemos de atravessar o inverno. Seja o que Deus quiser!

Ao dizer isto, o camponês limpava o suor da testa e passava a mão pelos olhos arrasados de lágrimas. 

O Senhor teve pena dele, e disse-lhe:
— Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse que não te havias de arrepender. Vou provar-te.

Pegou na candeia, que estava suspensa de uma das traves do celeiro, e aproximou-a do trigo.
— Que vai fazer? — perguntaram assustados os trabalhadores.
— Vai pôr fogo a tudo?

Mas no mesmo instante, da palha que eles receavam ver inflamar-se, de cada espiga desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista de tal milagre, os camponeses maravilhados caíram de joelhos.

— Visto que foste caridoso — disse Jesus — visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te enriquece.

Dito isto, desapareceu. E a chuva de grãos não parou durante toda a noite, e fez um monte tão alto como uma catedral. O camponês pagou as suas dívidas, comprou terras e construiu uma bela casa.

Era rico, e esquecendo-se de Nosso Senhor, tornou-se altivo com os pobres, orgulhoso. 

Ele e seus filhos adquiriram costumes perdulários. 

Tanto e tanto fizeram, que se arruinaram. 

E como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguém os ajudou na sua miséria.

Uma noite o velho camponês, que bebera muito, entrou no celeiro, e recordando-se do milagre que o enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. 

Agarrou na candeia, aproximou-a de um feixe de palha e comunicou-lhe o fogo.

Ardeu a casa e tudo o que lhe restava. 

Depois de algum tempo, morreu na miséria mais absoluta.

(Fonte: Guerra Junqueiro, "Contos para a infância" - Lello & Irmão, Porto, 1953)



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domingo, 13 de setembro de 2020

Como Deus apareceu a São Francisco e companheiros enquanto falavam de Deus

São Francisco pregando aos pássaros. Benozzo Gozzoli (1421 - 1497) Capela de Capela de São Francisco, Montefalco, Itália
São Francisco pregando aos pássaros. Benozzo Gozzoli (1421 - 1497)
Capela de Capela de São Francisco, Montefalco, Itália
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Estando São Francisco uma vez, nos princípios da Ordem, recolhido com os seus companheiros a falar de Cristo, em um convento, no fervor de espírito mandou a um deles que em nome de Deus abrisse a boca e falasse de Deus o que o Espírito Santo lhe inspirasse.

Obedecendo o irmão à ordem e falando maravilhosamente de Deus, São Francisco lhe impôs silêncio e mandou a outro irmão que fizesse o mesmo.

Obedecendo este, e falando subtilissimamente Deus, São Francisco lhe impôs o silêncio e ordenou ao terceiro que falasse de Deus.

O qual semelhantemente começou a falar tão profundamente das coisas secretas de Deus, que certamente São Francisco conheceu que ele, como os dois outros, falava pelo Espírito Santo.

E isto ainda se demonstrou por nítido sinal; porque, estando neste falar, apareceu Cristo bendito no meio deles sob as espécies e em forma de um jovem belíssimo, e abençoando-os, encheu-os a todos de tanta doçura, que todos foram arrebatados de si mesmos, sem sentir nada deste mundo.

E depois, voltando eles a si, disse-lhes São Francisco:

– “Irmãos meus caríssimos, agradecei a Deus, que quis pela boca dos simples revelar os tesouros da divina sapiência; porque Deus é aquele que abre a boca aos mudos e faz falar sapientissimamente a língua dos simples”.

Em seu louvor. Amém.


(Fonte: “Fioretti de São Francisco”, cap. 14)









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domingo, 30 de agosto de 2020

Legenda da fidelidade

Santa Ada, Giotto di Bondone
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Conta-se que em tempos muito remotos havia um convento de monjas agostinianas, perto da cartuxa de Monte Alegre.

Havia entre elas — e era, por certo, a mais humilde — uma monja de família nobre, de alta linhagem e muito bela.

Numa tarde, um cavaleiro que habitava nos arredores do castelo desse lugar, por acaso viu-a no jardim, e de tal maneira impressionou-se por sua beleza, que não teve mais repouso.

Desde então o cavaleiro rondava todas as noites o jardim do convento, chegando ao extremo de escalar os muros e cantar em frente à cela da enclausurada.

Esta teve notícia dos padecimentos do jovem cavaleiro, e chorou amargamente por ser causa deles.

Sua humildade e sua religião não podiam suportar a situação que o cavaleiro lhe criava, rondando-a como se fosse do mundo.

Livro de Horas, século XV, Reims
Uma tarde, depois de rezar devotamente na capela do convento, pedindo conselho à Santíssima Virgem, tomou uma decisão heroica.

Ao chegar a noite, a monja esperou atrás da cela em que o cavaleiro escalava o muro do convento, como era seu costume.

Não teve que esperar muito tempo. Apenas a lua despontou no céu, viu o cavaleiro que, colocando uma escada no muro, desceu em silêncio por ela, levando sua espada.

Saiu então a monja e se aproximou do cavaleiro, que estava trêmulo de emoção.

Ela então lhe disse que havia sabido do muito que por seu amor sofria tentações, e que não poderia consentir nisso.

Salterio de Alfonso
E tampouco podia tolerar que todas as noites ele rondasse sua cela e lhe cantasse trovas, quebrando o espírito de clausura.

O cavaleiro referiu-se à sua extrema beleza.

Ao ouvir estas palavras, a religiosa respondeu que, como era sua beleza que causava suas tentações, estava decidida a destruí-la, para devolver à sua alma a tranqüilidade que tinha perdido.

Dizendo isto, tirou uma adaga que trazia escondida embaixo do escapulário, e com um só golpe cortou o nariz.

A lenda não conta o que aconteceu com o cavaleiro, mas nos consta que naquele lugar nasceu um raro arbusto, de uma espécie desconhecida até então, que dava flores de cor vermelha e em forma de nariz.

Os cientistas do país asseguram que não há outro igual em toda a Catalunha.

Em várias ocasiões, procuraram extirpá-lo, mas renascia com maior louçania.

Puseram-lhe o nome de "arbusto de fogo", mas o povo, sempre amante do maravilhoso, o chama de "arbusto dos narizes".



(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 147)




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domingo, 16 de agosto de 2020

O pregador sutil que confundia os simples

Adaptação de 'O sono da razão produz monstros',  Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), Museo del Prado
Adaptação de 'O sono da razão produz monstros', 
Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), Museo del Prado
Luis Dufaur
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Houve um frade da nossa ordem que era muito bom para pregar.

E falava com tantas sutilezas, mas tão sutil que era uma maravilha.

Era mais fino que o mais fino fio que podem fiar as moças.

Esse frade tinha um irmão de religião que era completamente o oposto.

Ele era grandão, e dos grosseiros, que causava assombro só de vê-lo tão grande que ele era.

Ele acostumava ir ouvir os sermões desse sutilíssimo irmão dele.

Um dia, aconteceu que depois de ouvir a pregação, tendo se reunido com os outros num círculo de outros frades, ele lhes perguntou:

“Ó vós, que assististes nesta manhã à pregação de meu irmão, que coisas nobres disse ele?·

Eles responderam: “O que ele disse? Oh! ele disse as coisas mais nobres que você já ouviu”.

“Então, contem-me o que ele disse”.

E eles contestaram: “Ele falou das coisas mais nobres do céu, mais do que tudo que jamais se ouviu”.

E acrescentaram: “por que? você por acaso não veio? Não acreditas que ele tenha dito as coisas mais nobres!”

“Bem, mas me contem o que ele disse”.

São José de Leonissa
São José de Leonissa
E os outros repetiam: “Mas como você perdeu o sermão mais bonito que já se ouviu!”

Finalmente, após insistir no pedido muitas vezes dessa maneira, ouviu:

“Ele falou as coisas mais altas e nobres que já se escutou. Ele falou coisas tão elevadas que eu não consegui entender nada”.

O pregador sutil era um desses, você me entende...!

Eu vos digo que vós tendes que pregar a doutrina de Cristo de maneira que todos a entendam.

E ainda vos lembro o salmo: Declaratio sermonum tuorum illuminat, et intellectum dat parvulis.

“Vossas palavras sejam uma verdadeira luz, que dá sabedoria aos simples”. (Salmos, 118)

Nossas palavras devem ser entendidas.

E vocês sabem como?

Falando com toda clareza, preto sobre branco, para que quem as ouça fique contente, iluminado e em nada embaralhado.




(Autor: San Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext)



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domingo, 2 de agosto de 2020

Pouco devemos acreditar no demônio (Cantiga 190)

Madonna del Soccorso, Ascoli Satriano, Itália
Madonna del Soccorso, Ascoli Satriano, Itália
Luis Dufaur
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Esta cantiga nos conta o poder de Santa Maria contra as insídias do diabo.

Devemos ter em pouca conta o demônio.

Assim sempre Deus me tenha, porque a Virgem vai nos guardar.

É Ela que nos conduz, é a Virgem que vai nos proteger.

Com pouco juízo obraremos se tivermos o demônio em conta de algo, pois a Virgem nos sustenta-

Ela nos conduz, porque é a Virgem que nos mantém.

Porque o poder do diabo pouco vale, porque de seu mal nos protege a Virgem espiritual que nos conduz; a Virgem espiritual.

O saber das trevas pouco nos causa dano, pois nosso lume e nossa luz é Aquela que viu seu Filho numa Cruz-

É Ela que nos conduz; Ela que viu seu Filho numa Cruz.

Não devemos acreditar nele, nem por ele mal fazer, pois a Virgem vai nos valer.

Ela que nos conduz. Porque a Virgem vai nos valer.

Os enganos do demônio nada são, pois, por nós, tem assento diante de Deus Aquela em quem a Fé permanece, Ela que nos conduz.




Pouco devemos acreditar no demônio (Cantiga 190)  CLIQUE NA FOTO





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