domingo, 19 de janeiro de 2020

Carlos Magno e o abade de São Gall

Notker Balbulus, St Gall, contos e lendas medievais

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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sócio do IPCO,
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Carlos Magno, numa de suas frequentes viagens, viu o abade de S. Gall preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia.

Carlos gostava de homens enérgicos e ativos, e o abade era indolente.

Além disso, o Imperador tinha mais de um motivo de queixa contra ele.

— Bom dia, Sr. Abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me responder em sessão solene de nosso conselho imperial daqui a três meses, contados dia-a-dia.

Primeiro de tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro.

Em segundo lugar, quanto tempo levaria para dar a volta ao mundo.

Em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que V. Revma. vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro.

Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, do contrário deixará de ser abade de S. Gall, e terá de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada para o rabo, se não o responder.

O abade não sabia a que santo recorrer. Mandou a todas as escolas, mas os doutores mais famosos pela sua ciência não lhe souberam dar resposta. No entanto, os dias iam correndo, e a época fatal aproximava-se.

Já não faltava senão um mês, já não faltava senão uma semana, e afinal só um dia.

O abade, que noutro tempo era gordo, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.

Carlos Magno, contos e lendas medievaisAndava errante nos bosques, lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor, o jardineiro da abadia.

— Bom dia, Sr. Abade. Parece que está mais magro. Anda doente?
— Ando, meu caro Félix, ando muito doente.
— Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.
— Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas respostas às minhas três perguntas.
— É em latim?
— Não, não é em latim.
— Visto que não é em latim, queira V. Revma. dizer-me o que é. Minha mãe era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.

Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou o barrete ao ar, e disse-lhe:

— Se é apenas isso, eu me encarrego de responder pelo Sr., e V. Revma. pode continuar a engordar. Mas para isso é necessário que eu vista o seu hábito.

No dia marcado, o pastor, disfarçado com o hábito do abade, foi introduzido na sala onde o Imperador presidia ao conselho do Império.

— Então, Sr. Abade, parece que está mais magro. Deu-lhe muito que pensar a chave do enigma? Vamos lá ver a primeira pergunta: quanto valho eu em dinheiro?

— Senhor, o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, foi vendido por trinta dinheiros. Sua Majestade vale à justa vinte e nove, só um dinheiro a menos.

Carlos Magno recebe prelados, Contos e lendas medievais— Bravo, Sr. Abade! A resposta é hábil, e na realidade não posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta. Não há de ser tão fácil encontrar a resposta: Quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?

— Senhor, se Vossa Majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir constantemente passo-a-passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro horas.

— Decididamente V. Revma. é um grande finório, e desta vez confesso-me vencido. Mas a terceira não é dessas a que se responde com suposições. Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra, Sr. Abade.

— Senhor, Vossa Majestade pensa que eu sou o abade de S. Gall. E é um erro, porque sou o seu pastor e jardineiro.
— Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall. E desde já o ficas sendo.
— Não sei latim, mas se Vossa Majestade quer fazer-me um favor, peço-lhe outra coisa.
— Não tem mais que falar.
— Peço a Vossa Majestade que perdoe o meu amigo!

Carlos Magno, o Imperador, não era homem que faltasse à sua palavra.


(Guerra Junqueiro, "Contos para a infância" - Lello & Irmão, Porto, 1953)



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domingo, 24 de novembro de 2019

Como todos andavam atrás de São Francisco para confusão do mundo e graça de Deus

Quadro de São Francisco, Porziuncola
Luis Dufaur
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Estava uma vez São Francisco no convento da Porciúncula com Frei Masseo de Marignano, homem de grande santidade, discrição e graça em falar de Deus; pela qual coisa São Francisco o amava muito.

Um dia, voltando São Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade.

Foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse:

“Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?”

São Francisco respondeu: “Que queres dizer?”

Disse Frei Masseo:


“Por que todo o mundo anda atrás de ti e toda a gente parece que deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te?

“Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre: donde vem, pois, que todo o mundo anda atrás de ti?”

Ouvindo isto, São Francisco, todo jubiloso em espírito, levantando a face para o céu por grande espaço de tempo, esteve com a mente enlevada em Deus.

E depois, voltando a si, ajoelhou-se e louvou e deu graças a Deus; e depois, com grande fervor de espírito, se voltou para Frei Masseo e disse:

“Queres saber por que a mim? Queres saber por que a mim? Queres saber por que todo o mundo anda atrás de mim?

“Isto recebi dos olhos de Deus altíssimo, os quais em cada lugar contemplam os bons e os maus: porque aqueles olhos santíssimos não encontraram entre os pecadores nenhum mais vil nem mais insuficiente nem maior pecador do que eu; e assim, para realizar esta operação maravilhosa, a qual entendeu de fazer, não achou outra criatura mais vil sobre a terra.

“E por isso me escolheu para confundir a nobreza, e a grandeza e a força e a beleza e a sabedoria do mundo; para que se reconheça que toda a virtude, e todo o bem é dele e não da criatura, e para que ninguém se possa gloriar na presença dele; mas quem se gloriar se glorie no Senhor, a quem pertence toda a honra e glória na eternidade”.

Então Frei Masseo, ouvindo tão humilde resposta, dada com tanto fervor, se espantou e conheceu certamente que São Francisco estava fundado na verdadeira humildade.

Em louvor de Cristo. Amém.



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domingo, 10 de novembro de 2019

Um ardil de Filipe Augusto

O rei Filipe Augusto recebe as chaves de Acre. Grandes Chroniques de France, Biblioteca Nacional da França, Manuscritos 2813
O rei Filipe Augusto recebe as chaves de Acre.
Grandes Chroniques de France, Biblioteca Nacional da França, Manuscritos 2813
Luis Dufaur
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Um bailio de Filipe Augusto, Rei de França, cobiçava a terra deixada por um cavaleiro morto.

Uma noite, em presença de dois carregadores que ele tinha pago, fez com que o morto fosse desenterrado, perguntou se queria vender sua terra e propôs-lhe um preço.

Naturalmente, o defunto nem se mexeu.

Quem cala, consente. Em seguida, algumas moedas foram postas em suas mãos, e o defunto recolocado em seu caixão.

Com grande espanto, a viúva viu seus domínios usurpados e se dirigiu ao rei.

Convocado, o bailio compareceu ladeado por suas duas testemunhas, que atestavam a realidade da venda.

Filipe Augusto percebeu que era trapaça. Levou para um canto um dos carregadores e lhe disse em voz baixa:

— Recita-me no ouvido o Pai-nosso.

Concluída a oração, o rei exclamou em alta voz:

— Muito bem!

O segundo carregador foi também convocado.

O bailio, então, ficou convencido de que seus companheiros denunciaram a tramóia, apressou-se a dizer o que sabia.

O bailio foi condenado.

domingo, 27 de outubro de 2019

A contagem dos pães

Luis Dufaur
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Dois homens que viajavam juntos sentaram-se à beira da estrada, para comer. Um tinha cinco pães, e o outro três. Quando colocaram diante de si a comida, passou por ali um homem e os cumprimentou. Eles o convidaram:

— Senta-te para comer conosco.

Ele se sentou e comeu com eles, consumindo-se durante a refeição os oito pães. O homem então se levantou e lhes deu oito moedas de prata, dizendo:

— Recebam este pagamento pela comida que me deram.

E continuou seu caminho.

Os dois companheiros discutiram sobre o modo de dividir entre si as moedas. O dono dos cinco pães dizia:

— Para mim são cinco moedas, e para ti três, pois isto corresponde ao número de pães que cada um de nós tinha.

— Só me conformarei com a divisão das moedas em partes iguais, pois ele recompensou a nossa hospitalidade, que tem o mesmo valor.

Não conseguiram chegar a um acordo. Por isso levaram sua pendência ao Emir Ali ben Ali-Talib, a quem expuseram o ocorrido. O Emir disse então ao dono dos três pães:

domingo, 13 de outubro de 2019

A flauta do monge inocente

Igreja de Dégagnazès
Igreja de Dégagnazès
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Sabeis por que todos os anos multidões de peregrinos vão rezar em Dégagnazès? É que antigamente ocorreram lá as grandes coisas que eu vos contarei.

No bosque, no local em que os mercadores montam suas barracas no dia de peregrinação, havia um convento com trinta monges vestidos todos de branco.

Na realidade eram trinta e um, mas eu disse trinta, como todo mundo, porque o trigésimo primeiro não contava.

Era um mongezinho não maior que uma criança, todo corcunda e um tanto coxo, conhecido como ‘o inocente’, por causa da sua simplicidade.

domingo, 29 de setembro de 2019

O jogral da Virgem


Luis Dufaur
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Muitos peregrinos, vindos dos mais remotos confins da Cristandade, iam à romaria do Santuário de Nossa Senhora de Rocamadour.

Era gente de toda espécie, desde mendigos ou empestados até fidalgos e grandes dignitários da Igreja.

Frequentemente misturavam-se àquela turba alguns indivíduos aloucados, galhofeiros ou poetas, que tanto entoavam uma canção, acompanhando-a com qualquer instrumento, como embasbacavam o povo com malabarismos e trabalhos de saltimbancos.

domingo, 15 de setembro de 2019

Cantiga 97: “Sempre acorrer a Nossa Senhora”

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Esta cantiga nos conta como Santa Maria protegeu da morte a um súdito do rei que havia sido caluniado.

“Nossa Senhora vem sempre nos socorrer, nos socorrer e salvar, e salvar ao coitado”.

Sobre isso, vos contarei um milagre que a Virgem fez em Cañete a um pobre servidor do rei. Os caluniadores inimizaram o rei contra ele, como eu bem sei, e queriam fazê-lo morrer.

De tal maneira o caluniavam que o rei o fez vir ante ele. E ele, com grande pesar e angústia, começou a chorar a rezou à Virgem tudo quanto podia.

Além do mais, doou à Igreja um rico pano, e se fez escravo de Nossa Senhora. Ele tinha por nome Mateus, e bem facilmente era conhecido na casa do rei.

domingo, 1 de setembro de 2019

O velho abade cruzado e o jovem traidor

Montemor o Velho, lenda do abade de Montemor, ©Rui Ornelas

Luis Dufaur
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Numa fria noite de Natal, em pleno século IX, o abade Dom João de Montemor, superior de todos os abades de Portugal, regressava à sua casa depois de haver celebrado.

Ao passar por uma das igrejas que havia no caminho, ia persignar-se devotamente, quando o pranto de um menino o deixou surpreso.

Aproximou-se da porta de igreja, e viu que na entrada havia uma criatura que tremia de frio.

Com muita compaixão, tomou o menino, arrumou-o bem e o levou consigo ao seu palácio.

Grande foi a admiração de todos os familiares e serventes do abade, ao vê-lo aparecer com uma criança nos braços.

Explicou o ocorrido, e ordenou ao seu mordomo que dispusesse todo o necessário para que o menino abandonado fosse atendido devidamente.

Com efeito, tudo de que necessitava foi-lhe proporcionado. E assim foi crescendo o menino, que recebeu o nome de Garcia.

domingo, 18 de agosto de 2019

Os dois irmãos: um no Purgatório e o outro... condenado?


Luis Dufaur
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Na vila de Roma, essa nobre cidade, mestra e senhora de toda a Cristandade, havia dos irmãos de grande autoridade: um era clérigo e outro senador.

Pedro chamava-se o clérigo, pois esse era seu nome, varão sábio e nobre, do Papa cardeal. Mas, entre as qualidades tinha uma mácula: ele tinha grande avareza, um vício mortal.

Estevão era o nome do segundo irmão, entre os senadores não havia mais jovem, era muito poderoso no povo romano, mas no “prendo prendis” usava bem a mão.

Era muito cobiçoso e de muito queria se apropriar.

Falseava os julgamentos por vontade de possuir, roubava a todos os que podia roubar, prezava mais ter dinheiro que honradez.

Com falsos testemunhos seguindo seus caprichos tirou três casas oferecidas a São Lourenço, e por causa dele Santa Inês perdeu boas propriedades e uma horta que vale o ordenado de muitos senadores.

domingo, 4 de agosto de 2019

Pleito entre os frades menores e as formigas

Luis Dufaur
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Por vezes, fatos — reais ou imaginários — acontecem com tanto espírito sobrenatural que se diz serem "medievais".

É o caso do fato seguinte, acontecido no Brasil — que não teve Idade Média — narrado pelo Pe. Manuel Bernardes:

Foi o caso, conforme narrou um sacerdote dos Frades Menores da Província da Piedade, no Maranhão, que naquela capitania as formigas, que são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem seu reino subterrâneo e encherem seus celeiros, de tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína.

E acrescentando delito a delito, furtavam a farinha que ali estava guardada para quotidiano uso da comunidade.

Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda hora, de dia e de noite — Parvula nam exemplo est magni formica laboris. Ore trahit quodeumque potest, atque addit acerve. Quem struit... (Hora. lib. St., 1) — vieram os religiosos a padecer falta e buscar-lhe remédio.

domingo, 21 de julho de 2019

A flor mais bela

Luis Dufaur
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Vou contar-vos uma graciosa lenda persa que exprime uma grande verdade.

Deus, assentado no trono excelso de sua glória, chamou um anjo e disse-lhe:

— Vai àquele jardim, na terra lá em baixo, e traze-me a flor mais bela que encontrares.

O anjo, mensageiro de Deus, desceu ao jardim e contemplou a variedade e a graça com que milhares de flores ali se misturavam, como um mosaico admirável.

Viu o minúsculo jasmim ao lado do grande helianto, a dália à sombra da madressilva abraçada ao oleandro; viu a margarida, a pervinca, a primavera e todas as outras belezas que erguem o seu hosana ao Criador.

Mas o seu olhar fixou-se na rainha das flores, a rosa aveludada e odorosa, e disse:

— Esta é, certamente, a flor mais bela.

Colheu-a e voou ao trono do Altíssimo.

— A rosa — disse Deus — é o símbolo do amor, doce expressão de um coração ardente.

Com a sua formosura, atrai os olhares; é suave, perfumada, delicada, mas não é a flor mais bela.

domingo, 7 de julho de 2019

Como Jesus Cristo bendito,
fez fazer-se frade um rico e gentil cavaleiro

Luis Dufaur
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São Francisco, servo de Cristo, indo uma vez à tarde à casa de um grande gentil-homem poderoso, foi por ele recebido e hospedado, com o companheiro, como anjos do paraíso, com grandíssima cortesia e devoção.

Pelo que São Francisco lhe tomou grande amor, considerando que ao entrar em casa o tinha abraçado e beijado amigavelmente, e depois lhe havia lavado os pés e acendido um grande fogo e preparado a mesa com muito boas iguarias; e enquanto comiam, ele com semblante alegre os servia continuamente.

Ora, tendo acabado de comer São Francisco e o companheiro, disse este gentilhomem:

‒ “Eis, meu pai, ofereço-me a vós e as minhas coisas; quando precisardes de túnica ou de manto ou de outra coisa qualquer, comprai que eu pagarei; e vede que estou pronto a prover-vos em todas as vossas necessidades, porque pela graça de Deus eu o posso, porquanto tenho em abundância todos os bens temporais, e por amor a Deus que mos deu, eu os dou de boa vontade aos seus pobres”.

domingo, 23 de junho de 2019

O imperador e o bandido

Carlos Magno
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Carlos Magno estava uma noite dormindo em seu palácio, não longe de Frankfurt, quando viu em sonho um anjo rodeado de uma auréola brilhante de luz sobrenatural.

O anjo se colocou diante do Imperador, e o saudou com estas palavras:

— Levanta-te, grande Imperador, e escuta a voz de Deus que fala por meus lábios. É necessário que saias esta noite sem que ninguém te acompanhe, para fazer um roubo. Se queres viver, obedece.

Acordou Carlos Magno, estranhando muito o que havia visto no sonho. E adormeceu de novo com isto na cabeça. Outra vez viu o anjo, que diante dele ordenava:
— Levanta-te, ó rei, prepara-te para cumprir as ordens que te dei. É para o teu bem e salvação do Império. Deus se serve de mim para dar-te a conhecer a sua imutável vontade.

Carlos Magno acordou e ficou pensativo a respeito duas aparições, mas adormeceu de novo. O anjo do Senhor o despertou com redobrada insistência, e exigiu com energia que se levantasse e saísse para roubar.

domingo, 9 de junho de 2019

Como Frei Leão só pode dizer o contrário do que São Francisco queria

Luis Dufaur
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Estando uma vez São Francisco, no princípio da Ordem, com Frei Leão em um convento, onde não havia livro para rezar o ofício divino, ao chegar a hora de Matinas, disse São Francisco a Frei Leão:

“Caríssimo, não temos breviário, com que possamos rezar Matinas: mas, a fim de passarmos o tempo louvando a Deus, eu direi e tu me responderás como te ensinar; e toma cuidado, não digas as palavras de modo diverso do que te ensinar’.

Direi assim: ‘Õ irmão Francisco, praticaste tanto mal, tais pecados no século que és digno do inferno’; e tu, irmão Leão, responderás: ‘Verdadeira coisa é que mereces o inferno profundíssimo’

‒ E Frei Leão, com simplicidade columbina, respondeu: “Estou pronto, pai, começa em nome de Deus”.

Então São Francisco começou a dizer: “Ó irmão Francisco, praticaste tantos males e tantos pecados no século, que és digno do inferno”.

E Frei Leão respondeu:

‒ “Deus fará por ti tantos bens, que irás ao paraíso”.

domingo, 26 de maio de 2019

Ladrão! Ladrão!


Luis Dufaur
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Um mercador voltava de uma feira, onde fizera grandes negócios. Colocara numa bolsa de couro toda a sua fortuna, em belas moedas de ouro. Ia assim por vales e montes.

Chegando à cidade de Amiens, passou diante de uma igreja. Como tinha por hábito, entrou para rezar diante da Mãe de Deus e pousou a bolsa ao lado. Quando se levantou, distraiu-se e partiu sem ela.

Havia na cidade um burguês que, ele também, tinha o costume de ir rezar aos pés da bendita Virgem.

Veio ele pouco depois ajoelhar-se no lugar que o outro acabara de deixar, e encontrou a bolsa, selada e guarnecida de um pequeno fecho. Compreendeu logo que devia conter moedas de ouro.

— Meu Deus! Que devo fazer? Se mando apregoar pela cidade o que encontrei, não faltará quem o reclame contra todo o direito.