domingo, 22 de maio de 2022

O conde Fernán Gonzales, o califa e o ermitão

Don Fernán González, conde de Castela
Don Fernán González, conde de Castela
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Estava o conde Fernán Gonzales caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal.

O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta. Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar.

Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado. Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

— Vinde em paz, conde! A caçada te trouxe até aqui, mas prepara já as montarias, pois te aguarda o Rei Almanzor, o terrível inimigo dos cristãos.

Dura batalha te aguarda, pois o mouro traz muitos guerreiros. Mas alcançarás grande vitória.

E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros.

Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória.

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida. Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzalez, San Cosmas, Covarubias

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque.

Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate. O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados.

Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

Apenas galopou um pouco, e a terra se abriu, tragando o cavaleiro. Depois se fechou, e tudo ficou como antes.

Grande terror se difundiu pelo exército cristão, mas Fernán Gonzales, que sabia que esse era o temeroso sinal anunciado pelo monge da ermida, disse em alta voz a seus cavaleiros:

— Não temais! Se a terra não é capaz de suportar-nos, quem poderá conosco? Vamos para o ataque!

E se lançaram contra os mouros, que já galopavam também, prontos para o encontro. O choque dos exércitos foi terrível. Os cristãos, apesar de serem poucos, conseguiram resistir ao primeiro ataque dos mouros, e logo estes começaram a retroceder.

O conde, que havia sido quem dera as primeiras baixas no adversário, animava seus guerreiros, e era o mais valente de todos. Ao cabo de algumas horas os mouros fugiram, deixando todos os despojos em poder das hostes do conde. Grande vitória para os cristãos, que retornaram cheios de alegria.

O conde separou uma parte dos despojos e foi à ermida, para entregá-la ao monge que lhe profetizara a vitória. E o encarregou de erguer uma igreja, que foi logo o famoso Mosteiro de São Pedro de Arlanza.

O califa Abderramán recebia dos cristãos um tributo a cada ano. Mas em determinada ocasião os reis D. Ramiro de Castela e D. Garcia de Navarra, e Fernán Gonzales, que era o conde tributário de Castela, se negaram a pagar o vergonhoso tributo. E não só se negaram a pagar, mas mataram os insolentes mensageiros que o califa mouro enviara para reclamar o tributo.

Túmulo do conde Fernán Gonzalez, San Cosmas, Covarubias
Túmulo do conde Fernán Gonzalez, San Cosmas, Covarubias
Quando isto chegou aos ouvidos de Abderramán, este se enfureceu, e com seu exército entrou no território dos castelhanos, destruindo os campos e fazendo cruel vingança contra os habitantes daquelas terras.

O Rei D. Ramiro, recebendo o aviso da proximidade do exército mouro, preparou seus guerreiros, que esforçadamente saíram ao encontro do inimigo. Disseram-lhe que os muçulmanos vinham em grande número, mas ele não deu muito crédito.

Mas quando viu chegar a enorme hoste sarracena, voltou até Simancas, e dali enviou cartas a Fernán Gonzales e ao Rei Garcia.

Acudiram os dois ao mesmo tempo. Mas todo o exército cristão não chegava a alcançar nem a metade dos muçulmanos. Então o Rei Ramiro disse:

— Não tenho nenhum conselho que possa servir-nos. Grande é a hoste dos infiéis mouros e minguada a nossa.

Mas temos a proteção de São Tiago, que está enterrado em terras galegas. Por ele obra Nosso Senhor grandes milagres, e a ele quero me encomendar, e prometo dar-lhe meu reino se nos ajudar nesse apuro.

Fernán Gonzales e D. Garcia responderam:
— Em nossa terra há o corpo de Sto. Millán, que também opera grandes milagres. A ele nos entregamos, e juramos dar-lhe tributo.

No outro dia de manhã saíram da fortaleza e se dispuseram para o combate. Antes de começar, todos os cristãos se ajoelharam para rezar.

São Millán (ou Emiliano) na batalha de Simancas, padroeiro de Castela
Os mouros, vendo seus inimigos nesta posição, pensaram que estes, aterrorizados, queriam se entregar.

Lançaram-se contra eles, mas os fiéis de Cristo montaram em seus corcéis rapidamente e detiveram o ímpeto de seus inimigos. Grande fúria foi a dos castelhanos, leoneses e navarros.

E ainda aumentaram seu valor quando, em meio ao combate, viram aparecer dois desconhecidos cavaleiros que, montados em formosos corcéis brancos, se puseram à frente dos exércitos cristãos.

E destroçaram os mouros de tal modo, que eles acreditavam que, em vez de dois, havia dois mil cavaleiros sobre os corcéis.

Atrás dos dois avançavam os cristãos, e desde Simancas até Aza perseguiram os mouros, que fugiram vencidos.

Grande foi a alegria dos católicos.

Quando procuraram os dois cavaleiros, que tanto contribuíram para a vitória, não puderam encontrá-los, e compreenderam que eram os dois santos a quem haviam prometido pagar tributo, se os ajudassem.

E desde então esse tributo foi pago.



(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 27)


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domingo, 15 de maio de 2022

A espada de São Martinho

São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.
São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O Conde de Besalu era um valente que derrotou os mouros em muitas batalhas. Onde havia perigo, lá estava ele com seu exército, e não tardava em dar boa conta das turbas infiéis.

Um dia, estando em seu castelo, veio um de seus guardas dizer-lhe que sabia de boa fonte que os mouros subiam de Bañolas em direção a Santa Pau.

Imediatamente o Conde reuniu os seus leais, e saiu para enfrentar os mouros e impedir-lhes o avanço.

Quando os encontrou, no mesmo instante arremeteu contra eles com o ímpeto que lhe era peculiar.

Mas em pleno combate sua espada se quebrou.

Não era o Conde homem que se conformasse vendo pelejar seus soldados, mas não lhe era possível seguir lutando desarmado.

Recordou-se então de que muito perto daquele lugar encontrava-se uma ermida dedicada a São Martinho.

Abandonou o combate uns momentos, para dirigir-se a esse lugar.

Uma vez ali, ajoelhou-se aos pés do Santo e lhe pediu, com todo o fervor, que ele o livrasse do apuro em que se encontrava.

Estava de joelhos, absorto na oração ao Santo, quando viu que a imagem deste se movia, e São Martinho, sacando sua espada, ofereceu-a ao Conde.

Levantou-se o cavaleiro, todo jubiloso, e para certificar-se do que seus olhos estavam vendo, esticou a mão para pegar a espada.

Com firmeza a tomou, e depois de dar graças a Deus de todo o coração, saiu depressa em auxílio de seus homens, que estavam perdendo terreno.

Besalú, a cidade do milagre da espada de São Martinho de Tours
Besalú, a cidade do milagre da espada de São Martinho de Tours

Começou a distribuir golpes com sua espada à direita e à esquerda.

Seus homens recobraram o valor que haviam perdido momentaneamente, e redobraram seus esforços.

Em poucas horas jaziam mortos todos os mouros que haviam iniciado o combate contra a Santa Fé.

Os cristãos subiram então até Besalu.

Quando chegaram a Colsatrapa, sentaram-se para descansar, enquanto contemplavam o panorama de Mirana y Mor. Os soldados elogiaram o Conde pelo seu valor.

Ele porém contestou, dizendo que São Martinho lhe emprestara a espada. Seus homens duvidaram, e ele, para provar a força da espada, deu um forte golpe numa pedra que havia ali, partindo-a em dois.

Essa pedra ainda existe. Hoje é conhecida por "Pedra Cortada".



(V. Garcia de Diego, "Antologia de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 92)


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domingo, 8 de maio de 2022

A pedra do Beuvray

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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É uma grande pedra, um penhasco, uma pedra colossal que todos os anos, na noite de Natal, durante a Missa do Galo, gira sobre si mesma.

Existe na Borgonha um grande número dessas pedras misteriosas que giram, abrem-se e deixam ver grutas ou cavidades.

Uma delas está no topo do morro de Beuvray, onde é protegida por um ente estranho: a Wivre.

Esta é uma serpente fabulosa – uma espécie de dragão demoníaco coberto de escamas brilhantes amarelas e verdes quase luminosas, que ao entrechocarem-se produzem um ruído especial e silvam enquanto a Wivre voa e reluz no ar.

Se a pedra de Beuvray requer tão terrível proteção é porque encerra um tesouro. E esse tesouro só é acessível num momento do ano, durante alguns instantes da noite de Natal.

Na hora da Missa, como que incomodado pela celebração dos santos mistérios, o dragão se afasta e – dizem— a pedra se mexe e deixa entrever o a atração sedutora do ouro, das joias resplandecendo discretamente sob a luz das estrelas.

Aqueles que abandonam o dever sagrado da Missa poderiam então entrar na gruta e pegar o que puderem antes de a Wivre voltar.

O atrativo do espetáculo e o apetite do lucro, não se importando em pecar contra Deus, tentaram a mais de um temerário. Porém, ninguém voltou a ver aqueles que pretenderam enganar a Wivre.

Uma viúva morava na aldeia mais próxima do lugar. Ela era muito pobre e tinha em filho muito engraçadinho para criar.

Todos os anos, no Natal, ela queria tratá-lo muito especialmente e dar-lhe presentes na proporção de seu amor. Mas como o dinheiro lhe faltava cruelmente, ela precisava antes de tudo lutar para dar-lhe de comer e aquecer sua pobre casa.

Subitamente, a pobre mulher começou a sonhar com o tesouro de Beuvray: “Algumas peças de ouro – pensava ela – seriam suficientes para nos fazer viver durante anos. Isso não seria nada para a Wivre...”

E ela tanto sonhou que um dia começou a transformar essas quimeras numa firme decisão.

Ao fazer certa vez o caminho da igreja, ela se afastou das vizinhas que iam com ela à Missa de Galo.

Ela levava consigo seu filho, que a escuridão da noite e a sofreguidão da mãe enchiam de terror. Ele se pendurava na saia da mãe, dificultando a cada vez mais empinada ascensão; lá encima a neve tinha virado gelo.

A mulher deu os últimos passos com o menino nos braços, quase correndo, e sua esperança lhe multiplicava as forças.

Por fim, ela chegou ofegante ao topo. A lenda não mentira, a pedra havia mudado de lugar. A mãe e o menino entraram na cavidade aberta e viram brilhar o ouro, as pedras preciosas, a prata, as joias, o tesouro completo.

Ela sabia que não tinha um instante a perder: tirou sua capa e, em sucessivas viagens, começou a depositar nela tudo quanto suas mãos endurecidas pelo frio podiam pegar.

O menino esquecera seus temores diante da beleza de todas essas coisas que brilhavam.

Enquanto carregava um último punhado de riquezas, a mãe ouviu um ruído surdo que a assustou, mal tendo tempo de reagir.

Um assobio espantoso anunciava que o dragão infernal voltava. Era preciso sair logo do local. Ela tentou pegar a mão de seu filho, mas sua saia ficou presa num espinheiro. E a pedra se fechou.

Ela começou a chamá-lo baixinho, para não atrair a serpente, depois falou seu nome cada vez mais alto, e no fim berrava e chorava, clamando por ele sem cessar.

A mãe compreendeu que o menino tinha ficado prisioneiro da pedra de Beuvray.

Só no amanhecer teve coragem de voltar ao lar. A casa estava silenciosa, sem os risos e as brincadeiras que faziam sua felicidade e que para ela, na realidade, valiam mais que todos os tesouros da Terra.

Todos os dias pela tarde ela voltava a subir o morro, e gemendo, suplicando, regando-a com suas lágrimas, girava em torno da pedra achando que com isso poderia apiedar a sinistra guardiã. As estações do ano passaram, mas ela não desanimava.

Veio por fim a noite de Natal, e uma esperança louca a fez como que voar: ela voltou ao topo do morro durante a Missa de Galo e viu que a pedra tinha girado mais uma vez.

Ela teve muito medo, pois na hora de aproximar-se da gruta aberta imaginava encontrar apenas uma comovedora pequena ossada.

Pedra do morro de Beuvray
Mas com sua pele rosada e as bochechas bem cheias, o menino estava sempre ali, brincando. Ele tinha crescido um pouco mais e não parecia em nada atemorizado. Tão logo viu a mãe, pulou em seu pescoço.

Ela o levou e deixou o buraco fechar-se, nada temendo quando ouviu a Wivre voltar. Lembrou-se apenas de que no ano anterior se esquecera de pegar a capa, que ela encontrou exatamente no local onde deixara; mas esta só continha pedras de cor cinza.

Ela percebeu então que não se podia roubar impunemente o ouro da Wivre, pois essa serpente trocava por pedra o ouro de alguém que lhe tocasse.

A mãe compreendeu ainda que a criança lhe fora devolvida porque sua perda a tinha feito esquecer o botim...

No ano seguinte, os dois foram cumprir a Lei de Deus e assistir à Missa da meia-noite. Dois anos sem Natal na vida de um menino é muita coisa.

As mães da Borgonha contam esta história a seus filhos para ensinar-lhes que o amor materno vale mais do que todas as riquezas deste mundo.

É por isso que elas os chamam de “meu tesouro”.

(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 38-42)



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domingo, 1 de maio de 2022

Quem a Santa Maria algo der ou prometer

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Esta cantiga conta como Santa Maria fez que se queimasse a lã dos mercadores que haviam oferecido algo à sua imagem, e pegaram tudo logo de volta.

Conta esta Cantiga o poder das relíquias e o castigo daqueles que não cumprem suas promessas à Virgem.

Um incêndio destruiu uma igreja de Laon (Leão do Ródano), onde se guardavam relíquias de Santa Maria numa arca de ouro (leite e cabelos da Virgem).

O decano, Mestre Bernardo, saiu com as relíquias para conseguir dinheiro para a reconstrução do templo, primeiro pela França e depois pela Inglaterra na nave de Colistanus, que viajava com mercadores de Flandres e de Paris.

Foram atacados por galeras corsárias e graças às relíquias foram salvos.

Os mercadores, entretanto, não cumpriram com as promessas feitas no momento do perigo, e a Virgem castigou-os com um raio que queimou a lã que transportavam.

Por fim, os mercadores entregaram as riquezas prometidas.


Vídeo: Prometeram a Nossa Senhora e não cumpriram





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domingo, 24 de abril de 2022

Os pombos da Praça do Mercado

Luis Dufaur
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A Praça do Mercado é o coração palpitante de atividade de Cracóvia.

Sua história é milenar e transcorre aos pés da grande igreja de Nossa Senhora.

Entre igrejas, palácios, casas burguesas, lojas populares e carruagens puxadas por cavalos, voam pombas em quantidades notáveis.

De onde vieram? Como chegaram até lá? Por que ficam nessa praça? Aguardam alguma coisa?

Os habitantes de Cracóvia os amam especialmente. Por quê?

No fim do século XIII, o príncipe Henrique IV, o Probo, estava instalado no trono de Cracóvia.

Porém, ele não era rei, uma vez que a Polônia estava dividida em vários principados autônomos sem um monarca que os reunisse.

O príncipe Henrique queria reuni-los todos de novo sob um só soberano.

Porém, para ser rei da Polônia ele precisava a aprovação do Papa. Somente o Sumo Pontífice podia consagrar a coroa real e presidir a sagração do rei.

Naquele tempo, o Sumo Pontífice em Roma era Nicolau IV.

Era o tempo das últimas Cruzadas e da perda do último bastião cruzado na Terra Santa: a fortaleza de Acre.

Henrique planejou partir para Roma, porém não tinha dinheiro suficiente.

Ele gastou tudo o que tinha para armar os cavaleiros que o ajudaram a reunir certas terras dispersas.

Ele teria recorrido então a uma bruxa.

A feiticeira prometeu-lhe solucionar seu problema de dinheiro com uma condição: ela transformaria seus cavaleiros em pombas que procurariam pedrinhas durante o dia para depositá-las na Praça do Mercado.

E, durante a noite, as pedrinhas virariam ouro.

Porém, os cavaleiros só recuperariam seus corpos após o retorno a Cracóvia do Príncipe coroado.

Houve longos debates entre o Príncipe e os cavaleiros. Por fim, o Príncipe consentiu nas condições da bruxa.

Todo o exército de brilhantes e corajosos cavaleiros se transformou num bando de pássaros.

Os pombos trouxeram laboriosamente as pedrinhas durante o dia e as depositaram no meio da Praça.

Pelo fim do dia haviam reunido um belo montículo que virou ouro durante a noite.

O Príncipe guardou o ouro em cofres e alforjes e partiu rumo a Roma.

Os pombos ficaram na Praça aguardando seu retorno à Polônia.

Porém, o Príncipe nunca chegou até Roma. Passando por Veneza, ele se deteve demais.

Outros príncipes malevolentes espalharam que ele esbanjava em festas e prazeres proibidos todo o dinheiro que tinha levado.

Algumas fontes históricas falam que ele perdeu seu ouro em emboscadas na estrada.

Em 1289, Henrique retornou a Cracóvia sem a coroa.

Até a sua morte ele não ousou comparecer na Praça do Mercado, de vergonha de olhar seus fiéis companheiros transformados em pombas.

O Príncipe morreu no ano seguinte, provavelmente envenenado e seus cavaleiros nunca recuperaram sua natureza humana.


Há 700 anos eles voam sobre o Mercado, aguardando seu Príncipe para se livrarem do bruxedo.

Entrementes, 30 anos depois da morte do Príncipe Henrique, um outro príncipe de Cracóvia, Ladislau I o Breve, recebeu a coroa do Papa Joao XXII e tornou-se o novo rei da Polônia. Seu filho Casimiro III o Grande completou a restauração do esplendor e do poder do Reino.

A lenda dos pombos continua a lembrar hoje que embora as bruxas existam e manipulem poderes preternaturais e satânicos, é preciso não acreditar nelas sob pena de punições tremendas e inesperadas.

(Fonte: “Légendes de Cracovie”, Wydawnictwo Wam, Cracóvia, 1972, p. 26 a 29)



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