domingo, 20 de junho de 2021

A pergunta do anjo ao frade soberbo
e o que aconteceu depois

E o jovem bateu na porta fortemente
E o jovem bateu na porta fortemente.
Fundo: viela de Assis
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







No princípio e fundação da Ordem, quando havia poucos irmãos e não havia conventos estabelecidos, São Francisco, por devoção, se foi a Santiago de Galícia, e levou consigo alguns irmãos, entre os quais um foi Frei Bernardo.

E seguindo assim juntos pelo caminho, acharam numa terra um pobre enfermo, do qual tendo compaixão, disse a Frei Bernardo: “Filho, quero que fiques aqui servindo a este enfermo”.

E Frei Bernardo, ajoelhando-se humildemente e inclinando a cabeça, recebeu a obediência do santo pai e ficou naquele lugar; e São Francisco com os outros companheiros foi a Santiago.

Ali ficando reunidos e estando de noite em oração na igreja de Santiago, foi por Deus revelado a São Francisco que ele devia fundar muitos conventos pelo mundo.

Porque sua Ordem se devia dilatar e crescer em grande multidão de frades; e por esta revelação começou São Francisco a estabelecer conventos naquela região.

E, voltando São Francisco pelo mesmo caminho, encontrou Frei Bernardo mais o enfermo com o qual o havia deixado, e que estava inteiramente curado.

E no ano seguinte permitiu a Frei Bernardo que fosse a Santiago; e assim São Francisco voltou ao vale de Espoleto; e aí ficaram em lugar deserto ele e Frei Masseo e Frei Elias e alguns outros, os quais tinham muito cuidado em não aborrecer ou perturbar São Francisco em sua oração.

E isto faziam pela grande reverência que tinham e porque sabiam que Deus lhe revelava grandes coisas na oração.

Frei Elias foi um frade cheio de soberba
que acabou abandonando a
Ordem de São Francisco
Sucedeu um dia que, estando São Francisco em oração na floresta, um belo jovem, com trajo de peregrino, chegou à porta do convento e bateu com tanta pressa e tanta força por tanto tempo que os frades ficaram muito maravilhados daquele inusitado modo de bater.

Frei Masseo foi à porta e abriu-a e disse àquele jovem: “De onde vens tu, filho, que parece nunca teres vindo aqui, batendo de modo tão desusado?”

Respondeu o jovem: “E como é que se deve bater?”

Disse Frei Masseo: “Bate três vezes, uma após outra, devagar: depois espera que o irmão tenha rezado um pai-nosso e venha abrir, e se durante esse tempo ele não vier, bate; outra vez”.

Respondeu o jovem: “Tenho grande pressa, e bati com tanta força, porque tenho de fazer uma longa viagem, e vim aqui falar com o irmão Francisco; mas por ele estar agora em contemplação na floresta, não o quero incomodar.

Vai e manda-me Frei Elias, que lhe quero fazer uma pergunta, porque sei que' ele é muito sábio”.

Foi Frei Masseo e disse a Frei Elias que sé dirigisse àquele jovem: e ele se escandalizou e não quis ir; assim Frei Masseo não soube o que fazer nem o que responder àquele jovem; que, se dissesse: “Frei Elias não pode vir”, mentia; se dissesse que ele estava irritado e não queria vir, temia dar-lhe mau exemplo.

E porque no entanto Frei Masseo demorasse em voltar, o jovem bateu outra vez como a princípio; e pouco depois Frei Masseo retornou à porta e disse ao jovem: “Não observaste o que te ensinei ao bateres”.

Respondeu o jovem: “Frei Elias não quis vir a mim: vai e dize a Frei Francisco que vim para falar com ele; mas, por não querer perturbar-lhe a oração, dize-lhe que mande Frei Elias entender-se comigo”.

São Miguel Arcanjo, catedral de Bruxelas.
Fundo: galaxia em espiral NGC1309, NASA
Então Frei Masseo foi ter com São Francisco, que orava na floresta com a face erguida para o céu, e lhe deu conta da embaixada do jovem e a resposta de Frei Elias: e este jovem era um anjo de Deus, em forma humana.

Então São Francisco, sem mudar de lugar nem baixar o rosto, disse a Frei Masseo: “Vai e dize a Frei Elias que por obediência atenda imediatamente ao jovem”.

Ouvindo Frei Elias a ordem de São Francisco, foi à porta muito perturbado e com grande ímpeto e ruído a abriu e disse ao jovem: “Que queres?”

Respondeu o jovem: “Cuidado, irmão, não te irrites, como pareces estar, porque a ira tolhe o espírito e não te deixa discernir o verdadeiro”.

Disse Frei Elias: “Dize o que queres de mim”. Respondeu o jovem: “Eu te pergunto se àqueles que observam o santo Evangelho é lícito comer o que se põe diante deles, conforme o que disse Cristo aos seus discípulos: e te pergunto ainda se é lícito a algum homem obrigar a qualquer coisa contrária à liberdade evangélica”.

Respondeu com soberba Frei Elias: “Sei bem disto, mas não te quero responder; cuida de teus negócios”.

Disse o jovem: “Saberei melhor do que tu responder a esta pergunta”.

Então Frei Elias, furioso, fechou a porta e retirou-se. Depois começou a pensar nesta pergunta, a duvidar de si mesmo e não a sabia responder porque era vigário da Ordem e tinha ordenado e feito uma constituição, contra o Evangelho e contra a ordem de São Francisco, de que nenhum frade da Ordem comesse carne; por isso a dita pergunta era expressamente contra ele.

Pois, não sabendo explicar por si mesmo e considerando a modéstia do jovem e porque este dissera saber responder à pergunta melhor do que ele, volta à porta e abre-a para pedir ao jovem resposta à pergunta: mas se tinha ido, porque a soberba de Frei Elias não era digna de falar com o anjo.

Isto feito; São Francisco, a quem tudo era por Deus revelado, retornou da floresta e com veemência, em alta voz, repreendeu Frei Elias, dizendo:

“Mal fizeste, Frei Elias soberbo, que expulsaste de nós os santos anjos que nos vêm ensinar. Digo-te temer muito que a tua soberba te faça acabar fora da Ordem”.

E isto sucedeu como São Francisco predissera; porque morreu fora da Ordem.

No mesmo dia e à mesma hora em que o anjo partiu, apareceu na mesma forma a Frei Bernardo, o qual voltava de Santiago e estava à beira de um grande rio, e saudou-o em sua língua, dizendo: “Deus te dê a paz, ó bom irmão”.

E maravilhando-se muito Frei Bernardo, e considerando a beleza do jovem e a saudação feita em sua própria língua, com cumprimento pacifico e semblante alegre perguntou-lhe: “Donde vens tu, bom moço?”

Anjo. Comillas, Cantabria, Espanha
Anjo. Comillas, Cantabria, Espanha

Respondeu o anjo: 

“Venho do convento onde vive São Francisco e fui ali falar com ele; e não pude, porque estava na floresta contemplando as coisas divinas e não o quis incomodar. 

“E naquele convento residem Frei Masseo, Frei Egídio e Frei Elias; e Frei Masseo me ensinou a bater na porta como fazem os irmãos.

“Mas Frei Elias, por não ter querido responder à questão que lhe propus, arrependeu-se depois e quis ouvir-me e falar-me e não pôde”.

Após estas palavras, disse o anjo a Frei Bernardo: “Por que não passas à outra margem?”

Respondeu Frei Bernardo: “Porque temo o perigo pela profundidade da água que vejo”.

Disse o anjo: “Passemos juntos, não tenhas medo”. Tomou-lhe a mão e, num abrir e fechar de olhos, pô-lo na outra riba do rio.

Agora Frei Bernardo conheceu que ele era anjo de Deus, e, com grande reverência e gáudio, disse em voz alta: “Ó anjo bendito de Deus, dize-me como te chamas”.

Respondeu o anjo: “Por que perguntas meu nome, o qual é maravilhoso?”

E dizendo assim o anjo desapareceu e deixou Frei Bernardo muito consolado, de tal modo que toda aquela viagem fez com alegria, e tomou nota do dia e da hora em que o anjo lhe aparecera.

E, chegando ao convento onde estava São Francisco com os sobreditos companheiros, narra-lhes em ordem todas estas coisas, e conheceram com certeza que aquele mesmo anjo tinha aparecido no mesmo dia e na mesma hora a eles e a ele e deram graças a Deus. Amém.


(Fonte: Fioretti di San Francesco)



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domingo, 6 de junho de 2021

A cidade no fundo da “baía dos mortos”

Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França
Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Entre a lenda e a história real há sempre uma zona nebulosa de incerteza. O fato é que a figura de uma cidade submersa, com uma catedral magnífica cujos sinos tangem ao sabor das ondas, ainda hoje excita as imaginações.

A misteriosa Bretanha é uma das mais interessantes regiões da França. Imensa plataforma que avança sobre o Atlântico, ao sul da Grã-Bretanha, ela é castigada por toda espécie de ventos e marés, como também o foi por invasões, ao longo de sua história milenar.

Os primeiros celtas chamaram-na Armor — “Terra voltada para o mar”. Daí o nome de Península Armórica, que ainda hoje a designa.

Na sua extremidade sul formou-se a Cornualha, nome que parece vir da Cornwall britânica, a península mais ocidental da Inglaterra.

Ocupada por gauleses, romanos, celtas, várias vezes saqueada pelos normandos, a Bretanha constituiu-se em reino até o século X, e depois em poderoso ducado, antes de ser incorporada definitivamente à França com os casamentos sucessivos de Ana de Bretanha com Carlos VIII e Luís XII, ambos filhos do astuto Luís XI.

Cheia de mistérios, é uma terra fértil em lendas e tradições imemoriais.

Santos, calvários, menires, peregrinações dos perdões… uma riqueza de tradições e costumes que fazem da Bretanha uma região especial, cheia de mitos e legendas. É o caso do rei Artur e seus cavaleiros da távola redonda.

O Santo Graal da legenda teria sido o cálice usado por Nosso Senhor na Santa Ceia.

José de Arimateia, membro do Sinédrio e discípulo oculto do Divino Mestre, teria trazido da Terra Santa esse cálice, contendo algumas gotas do Preciosíssimo Sangue de Cristo.

Na península Armórica, o discípulo teria vivido numa floresta para depois desaparecer sem deixar traços.

A fuga do rei Gradlon. Evariste Vital Luminais (1822–1896). Musée des Beaux-Arts, Quimper
A fuga do rei Gradlon.
Evariste Vital Luminais (1822–1896). Musée des Beaux-Arts, Quimper
Outra lenda da Bretanha concerne a cidade de Ys, ou Is, sepultada no fundo do mar na baía de Douarnenez, a “baía dos mortos”.

Construída sobre um pólder e protegida por um dique, Ys teria sido a capital da Cornualha sob o rei Gradlon, o Grande, no século VI.

Enormes comportas permitiam evacuar as águas que vinham dos rios e proteger a cidade das marés altas. O rei guardava pessoalmente a chave das portas do mar, como eram conhecidas as comportas.

Gradlon tinha uma filha chamada Dahud ou Ahés. A princesa, em toda a cidade, era conhecida por seus costumes dissolutos.

Gwenolé (ou Guenole), um santo monge da região, vinha frequentemente a Ys e advertia os seus habitantes, mas estes não lhe davam ouvidos.

Deus permitiu então que o demônio se introduzisse no palácio real sob a forma de um formoso jovem e seduzisse a filha do rei, a quem o príncipe das trevas pediu como prova de amor que ela abrisse as comportas que protegiam a cidade.

Dahud roubou as chaves do pai quando este dormia e fez a vontade diabólica.

A maré estava alta quando as eclusas foram abertas. As águas invadiram logo as ruas e as casas da cidade, apanhando de surpresa os seus habitantes, a maioria dos quais adormecidos.

Deus permitiu que o rei fosse despertado por Gwenolé alguns instantes antes da tragédia. O soberano saltou sobre o seu cavalo e fugiu precipitadamente, levando a filha na garupa do animal.

Mas, enquanto o cavalo do monge ia rápido como o vento, o de Gradlon esgotava-se rapidamente com o peso da pecadora. As ondas já alcançavam os fugitivos.

Gwenolé ordenou então ao rei que, se quisesse salvar-se, devia separar-se de sua filha; Gradlon recusou-se. As águas começaram a cobrir os cascos do animal.

O santo renovou então sua ordem e, finalmente, o rei obedeceu. No mesmo instante, seu cavalo deu um salto e como que libertado de um grande peso, disparou.

Logo o rei e o monge atingiam terra firme enquanto o mar cobria toda a cidade de Ys, até seus mais altos monumentos.

Depois Gradlon teria feito de Quimper a sua nova capital e terminado seus dias em penitência, falecendo em odor de santidade.

(Autor: Gabriel José Wilson. Catolicismo, março 2014).
 
 

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domingo, 23 de maio de 2021

A espada de Cracóvia

As duas torres da igreja de Nossa Senhora
As duas torres da igreja de Nossa Senhora
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na praça central de Cracóvia, Polônia, ergue-se rumo aos céus a suntuosa igreja de Nossa Senhora.

Ela é tão bela, tão grande e tão bem localizada, que muitos ficam convencidos de que é a catedral da cidade.

Entretanto a catedral, também magnífica, fica na cidadela de Cracóvia, conhecida como Wawel, junto ao Palácio Real e outros prédios históricos admiráveis.

A igreja de Nossa Senhora começou a ser construída por volta de 1220 sobre os fundamentos de um antigo templo em estilo românico várias vezes reformado e que era a igreja principal da Praça do Mercado.

Ela apresenta duas torres de altura vertiginosa, coroadas por dois maravilhosos conjuntos de torrezinhas e agulhas muito diferentes, aliás, em cada torre principal.

A mais alta é conhecida como Torre da Guarda e do alto dela trombeteiros que se revezam anunciam ininterruptamente a hora, de dia e de noite, em direção dos quatro cantos principais da cidade.

A menos alta é chamada a Torre dos Sinos, pois nela há um imenso sino que, segundo uma outra lenda, no século XV foi levado até o topo por Stanislas Ciolek, um homem de força inaudita.

Por que as duas torres têm alturas diferentes?

Quando as autoridades municipais de Cracóvia decidiram reformar a igreja e elevar duas torres colossais, escolheram dois irmãos.

Ambos eram arquitetos célebres na cidade e verdadeiros mestres na profissão.

O mais velho e experiente no ofício ensinara ao mais jovem como fazer belíssimos prédios.

A torre do irmão mais velho
A torre do irmão mais velho
Os dois aceitaram o desafio conscientes da responsabilidade, e juraram cumpri-lo empregando todas suas forças e engenho.

Porém, cada um sonhava internamente que sua torre seria a mais bela e a mais admirada da cidade.

E escolheram estratégias diferentes.

O mais velho trabalhava intensamente, cobrando muito esforço dos pedreiros.

Ele havia concebido o projeto de concluir mais rápido sua torre para que as pessoas ficassem admiradas com a sua habilidade e superioridade no ofício.

O menor sonhou com uma torre esbelta e flamejante, e aplicou-se judiciosamente em estabelecer fundamentos muito sólidos.

O mais velho concluiu logo sua torre e apresentou-a com orgulho aos conselheiros municipais.

Mas dia após dia seus pensamentos ficavam mais entrevados vendo a torre de seu irmão subir a olhos vistos.

Os espíritos intrigantes espalhavam que ele havia ensinado tão bem o ofício ao irmão menor que este acabaria superando o mais velho.

O facão de Cracóvia
O facão de Cracóvia
Uma noite estourou uma disputa entre ambos. O mais velho ficou exasperado e cravou um facão no coração do caçula.

Para esconder seu crime ele jogou o corpo no rio Vístula, que banha a cidade.

Após a desaparição do arquiteto, a construção da Torre Norte, ou do Sino, ficou interrompida.

O Conselho municipal decidiu que os trabalhos não prosseguiriam.

A torre inconclusa foi recoberta com uma espécie de elmo, que hoje pode ser visto, e ficou menor.

O bispo fixou a data da consagração da igreja.

Porém, o irmão mais velho não conseguia viver com a consciência suja pelo sangue do irmão.

O dia em que o arcebispo consagrou a igreja restaurada, ele confessou seu pecado a Deus e a todos os fiéis.

Logo a seguir, ele se jogou desde o alto da torre feita pelo irmão, segundo uns; segundo outros, ele se suicidou com o mesmo facão com que matou o irmão.

Esse facão se encontra hoje pendurado do muro do Pavilhão dos Panos, no centro da Praça do Mercado, diante da igreja, num local estreito em que todo mundo que passa não pode deixar de ver.

Ele está preso sob um arco por um anel de ferro. Ele lembra aos que por ali passam todo o mal que o orgulho e a inveja podem causar.

P.S.: Segundo dizem os habitantes de Cracóvia, a espada está ali também como uma advertência aos comerciantes: das penas que na Idade Média eles podiam incorrer caso praticassem preços injustos ou adulterassem as mercadorias. 


(Fonte: “Légendes de Cracovie”, Wydawnictwo Wam, Cracóvia, 1972, p. 10 a 12)



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domingo, 9 de maio de 2021

São Luís, rei da França, peregrino, visita Frei Egídio

São Luís rei da França, miniatura contemporânea na Biblia de Toledo, dita Bíblia de São Luis, c. 1230, The Morgan Library & Museum, New York
São Luís rei da França, miniatura contemporânea na Biblia de Toledo,
dita Bíblia de São Luis, c. 1230, The Morgan Library & Museum, New York
Luis Dufaur
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Indo São Luís, rei de França, em peregrinação visitar os santuários pelo mundo, e ouvindo a fama grandíssima da santidade de Frei Egídio, o qual fora dos primeiros companheiros de São Francisco, pôs no coração e determinou por tudo visitá-lo pessoalmente.

Pela qual coisa veio a Perusa, onde habitava então o dito Frei Egídio.

E chegando à porta do convento dos frades, como um pobre peregrino desconhecido com poucos companheiros, chamou com grande insistência por Frei Egídio, nada dizendo ao porteiro sobre quem fosse aquele que o chamava.

Foi, pois, o porteiro a Frei Egídio e disse-lhe que à porta havia um peregrino que o procurava: e por Deus lhe foi revelado em espírito que aquele era o rei de França.

pelo que subitamente ele com grande fervor sai da cela e corre à porta e sem mais pergunta, ou sem que jamais tivessem estado juntos, com grandíssima devoção ajoelhando-se abraçaram-se e beijaram-se com tanta familiaridade como se há longo tempo tivessem tido grande amizade.

No entanto, nenhum falava com o outro, mas estavam assim abraçados em silêncio com aqueles sinais de amor caritativo.

E ficando como ficaram por grande espaço de tempo por esta forma, sem dizer palavra, partiram-se um do outro.

E São Luís continuou sua viagem e Frei Egídio voltou à sua cela.

São Luis Rei da França abraçando a Cruz
São Luis Rei da França abraçando a Cruz
Partindo o rei, um frade perguntou a algum dos seus companheiros quem era aquele que se tinha abraçado tanto com Frei Egídio; e ele respondeu que era Luís, rei de França, o qual tinha vindo para ver Frei Egídio.

O que dizendo este frade aos outros irmãos, houveram eles grande melancolia porque Frei Egídio não lhe tinha dito palavra.

Lamentando-se lhe disseram:

“Ó Frei Egídio, por que foste tão vilão; que a um tão grande rei, o qual veio de França para ver-te e para ouvir alguma boa palavra, não disseste nada?”


Respondeu Frei Egídio:

“Caríssimos irmãos, não vos maravilheis por isto; porque nem ele a mim nem eu a ele podia dirigir palavra, pois logo que nos abraçamos a luz da divina sapiência revelou e manifestou a mim o coração dele e a ele o meu.

“Assim por operação divina olhando nos corações, o que eu queria dizer-lhe e ele a mim muito melhor ficamos conhecendo, do que se o tivéssemos falado com a boca, e com maior consolação.

“Se nos quiséssemos explicar com a voz o que sentíamos no coração, pelo defeito da língua, a qual não pode claramente exprimir os mistérios secretos de Deus, ternos- ia sido antes desconsolo do que consolação.

“E, portanto, tende como certo que de mim se partiu o rei admiravelmente consolado”.


Em louvor de Cristo. Amém. 



(Fonte: “Fioretti de São Francisco”, cap. 34)



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domingo, 25 de abril de 2021

São Francisco pôs Frei Masseo de porteiro, esmoleiro e cozinheiro e depois o dispensou

Luis Dufaur
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São Francisco, querendo humilhar Frei Masseo, a fim de que, pelos muitos dons e graças que Deus lhe dava, não chegasse à vanglória, mas pela virtude da humildade crescesse de virtude em virtude, numa ocasião em que ele vivia em um convento solitário com aqueles seus primeiros companheiros verdadeiramente santos, dos quais um era Frei Masseo, disse um dia a Frei Masseo diante de todos os companheiros:

– “O Frei Masseo, todos estes teus companheiros têm a graça da contemplação e da oração; mas tu possuís a graça da pregação da palavra de Deus, para satisfazer o povo.

“Portanto, quero, a fim de que os outros se possam entregar à contemplação, que faças ofício de porteiro, de esmoleiro e de cozinheiro.

“E quando os outros irmãos comerem, comerás fora da porta do convento, de sorte que os que chegarem ao convento, antes de baterem, os satisfaças com algumas boas palavras de Deus.

“De sorte que não haja necessidade de outra pessoa ir à porta a não ser tu: e isto o faças pelo merecimento da santa obediência”.

Então Frei Masseo tirou o capuz e inclinou a cabeça, e humildemente recebeu e executou esta obediência durante alguns dias, desempenhando os ditos ofícios.

Pelo que os companheiros, como homens iluminados por Deus, começaram a sentir no coração grande remorso, ao considerarem que Frei Masseo era homem de grande perfeição como eles ou mais, e sobre ele estava posto todo o peso do convento e não sobre eles.

Por este motivo encheram-se todos de igual coragem e foram pedir ao pai santo que consentisse em distribuir com eles aqueles ofícios.

Pois as suas consciências por coisa nenhuma podiam sofrer que Frei Masseo suportasse tantas fadigas.

Ouvindo isto, São Francisco cedeu ao pedido deles e consentiu em seus desejos e, chamando Frei Masseo, disse-lhe:

– “Frei Masseo, os teus companheiros querem compartir dos ofícios que te dei; e portanto quero que os ditos ofícios sejam divididos”.

Disse Frei Masseo com grande humildade e paciência:

– “Pai, o que me impões, em tudo ou em parte, considero feito por Deus”.

Então São Francisco, vendo a caridade dos outros e a humildade de Frei Masseo, fez- lhes uma prática maravilhosa sobre a santa humildade, ensinando-lhes que quanto maiores forem os dons e graças que Deus nos der, mais devemos ser humildes: porque sem a humildade nenhuma virtude é aceita por Deus.

E, feita a prédica, São Francisco distribuiu os ofícios com grandíssima caridade.

Em louvor de Cristo. Amém.



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