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domingo, 28 de setembro de 2025

O jogral da Virgem


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Muitos peregrinos, vindos dos mais remotos confins da Cristandade, iam à romaria do Santuário de Nossa Senhora de Rocamadour.

Era gente de toda espécie, desde mendigos ou empestados até fidalgos e grandes dignitários da Igreja.

Frequentemente misturavam-se àquela turba alguns indivíduos aloucados, galhofeiros ou poetas, que tanto entoavam uma canção, acompanhando-a com qualquer instrumento, como embasbacavam o povo com malabarismos e trabalhos de saltimbancos.

Singlar era um desses. Jovem, espalhafatoso, tagarela, mas de caráter doce, excelente no uso dos instrumentos musicais e dulcíssimo no cantar.

Alto poeta, encontrava sempre, no momento exato, a palavra mais viva, mais colorida e musical para dizer as coisas.

Além disso, era devoto fiel da Virgem, e por isso fora a Rocamadour.

Rezou diante da imagem. Sabia, porém, que jamais poderia, com orações, dizer-lhe os sentimentos que transbordavam de seu coração.

Uma canção subia-lhe à flor dos lábios, e as pontas de seus dedos formigavam nervosamente, desejosos do instrumento.

Não pôde conter-se: apanhou o alaúde e cantou uma loa suave e ingênua.

O jogral estava emocionado, enlevado, e prostrou-se diante da imagem. Nela, os olhos e as pedrarias do traje fulguravam.

— Senhora — disse-lhe o cantor — estais vendo que eu canto para vós com todo o meu coração. Desejaria saber se meus louvores são recebidos com agrado.

O santuário estava cheio de gente, naquele momento. Todas as pessoas puderam ver um dos círios, saindo do candelabro em que estava colocado, descer até junto do poeta.

Houve um coro de exclamações. Gente corria de todos os cantos, para colocar-se ao lado do jovem:

— Milagre! Milagre!

Depressa chegou a notícia à clausura dos monges, que desceram todos para a igreja.

Os demais ajoelharam-se, confundidos com o povo que elevava fervorosas preces a Nossa Senhora.

Fazendo aquele prodígio, como prêmio ao canto ingênuo e sincero de um simples jogral, acabava Ela de dar a toda aquela gente uma lição de humildade.

Só um homem permanecia em pé.

Fez caminho entre os que estavam ajoelhados, e colocando-se diante do jogral, disse, em voz muito alta:

— Não vos deixeis enganar! Aqui não houve milagre!

Acreditais que a Rainha dos Céus desperdiçaria suas graças numa tolice como esta?

Levantai-vos! Não houve milagre, e sim mistificação deste velhaco, ou talvez sortilégio, arte do diabo.

Primeiro os monges, depois os peregrinos, foram pondo-se todos de pé, e depois afastando-se cautelosamente, um pouco encabulados, como que tomados de vergonha.

Muitos procuravam lugar atrás das colunas ou em algum canto pouco iluminado.

Entretanto, ninguém saiu do templo.

Por sua vez, Singlar ali continuava, ajoelhado diante da Virgem.

Na frente dele, repreendendo-o, um monge tornara a colocar o círio no candelabro.

Os pescoços esticavam-se, gente se punha em pontas de pés.

Todos os olhos estavam fixos no jogral, que pela segunda vez tirava notas dulcíssimas do alaúde e tornava a improvisar um cântico de louvor.

O círio tornou a descer para junto do poeta.

Gritos atroadores do monge retiveram a meio caminho as pessoas que se apressavam para o altar:

— Não vos aproximeis! Isto é obra de bruxaria!

Este homem é um mágico que veio afrontar Nossa Senhora!

Tem pacto com Satanás!

Em vão Singlar negava, os olhos cheios de lágrimas:

— Senhora, não me abandoneis!

O monge tinha apanhado o círio, e retinha-o com força entre as mãos, enquanto dizia:

— Estrela Matutina, Torre de Davi, Mãe do Salvador, não permitas que ante tua imagem o inferno possa agir como deseja!

A canção de Singlar entrava como alfinetadas de gozo no coração de todos.

Subia, retilínea, pura, clara, até a Virgem de Rocamadour...

O círio deu um salto, e das mãos do monge foi ter à mão direita do jogral.

Mesmo aquele monge tombou de joelhos.

Um "Ave!" espontâneo, vibrante, maravilhoso, brotou de todas as gargantas.



(Maravilhas do conto popular - Cultrix, SP, 1960)


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domingo, 14 de setembro de 2025

O ermitão de Covadonga

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Como escondida nas escarpadas montanhas dos Picos de Europa, nas Astúrias, no norte da Espanha, acha-se a Caverna Sagrada de Covadonga, um lugar rico em história e significado religioso.

Este santuário católico asturiano é tanto um destino espiritual quanto um símbolo da resiliência histórica da Espanha.

A caverna está associada ao esforço cristão dos primórdios da Reconquista, para recuperar terras do domínio muçulmano. Desde um remoto fato heroico e milagroso tornou-se um local de peregrinação para fiéis e um destino de pesquisa para aficionados por história.

As origens da caverna como local de culto são lendárias.

Tradições cristãs locais afirmam que Pelágio (o famoso Don Pelayo, não confundir com o herege britânico de mesmo nome), um nobre visigodo e futuro líder da Reconquista, perseguiu um criminoso até uma caverna nos Picos de Europa.

Ao chegar lá, ele encontrou um eremita orando à Virgem Maria.

O eremita pediu a Pelágio que poupasse a vida do homem, pois ele havia buscado a proteção da Virgem.

Milagrosamente Don Pelayo derrota os muçulmano. Pintura de Augusto Ferrer Dalmau
Milagrosamente Don Pelayo derrota os muçulmano. 
Pintura de Augusto Ferrer Dalmau
Ele também previu que Pelágio um dia se refugiaria na mesma caverna.

Essa profecia se cumpriu durante a Batalha de Covadonga, em 718, quando Pelágio e seu pequeno grupo de combatentes enfrentaram desafiadoramente as forças muçulmanas.

Segundo crônicas muçulmanas, Pelágio e seus homens se esconderam na caverna e sobreviveram graças ao mel encontrado nas fendas da rocha.

Os relatos cristãos enfatizam a intervenção milagrosa da Virgem Maria, cuja proteção foi considerada a chave para uma improvável vitória.

Isso marcou o início da Reconquista, um momento decisivo na história espanhola.

Após a vitória, o Rei Afonso I das Astúrias homenageou a Virgem Maria construindo uma capela na caverna.

Dedicado a Nossa Senhora de Covadonga (nome derivado de cova domnica, "Gruta de Nossa Senhora") — carinhosamente chamada de La Santina — o santuário tornou-se um importante local para peregrinos cristãos.

A Caverna Sagrada também abrigava altares dedicados a São João Batista e Santo André, e foi confiada a monges beneditinos.

A estátua mariana original foi perdida em um incêndio em 1777, mas uma imagem de madeira da Virgem com o Menino, do século XVI, doada pela Catedral de Oviedo, tomou seu lugar e permanece lá até hoje.

No século XIX, o Bispo Benito Sanz y Forés liderou os esforços de restauração da Gruta Sagrada, culminando na construção de uma nova capela em estilo românico.

O arquiteto Luis Menéndez-Pidal projetou a estrutura atual, inaugurada em 1874.

A estátua da Virgem desapareceu brevemente durante a Guerra Civil Espanhola e foi encontrada na embaixada espanhola na França em 1939.




Fonte: Aleteia

domingo, 20 de julho de 2025

O sol parou para derrotar os mouros

Pôr do sol em Tentudía. Cruz evocativa

Luis Dufaur
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Ao iniciar a campanha de Sevilha, em 1247, o Rei São Fernando III enviou mensagem ao Grão-mestre da Ordem de Santiago, D. Pelayo Correa, para que acertasse alguns assuntos próximo a Badajoz, e depois fosse a Sevilha.

Assim ele o fez, conquistando com seus monges-cavaleiros várias cidades pelo caminho.

Ao passar por Figueira da Serra, foi atacado por uma numerosa hoste de muçulmanos, muito superior à que tinha consigo.

Vendo que a batalha se prolongava, e que começava a anoitecer, D. Pelayo rezou à Virgem, suplicando-lhe que mantivesse a luz do dia: "Señora, ten tu día" (Senhora, segurai vosso dia).

O sol parou no céu durante o tempo suficiente para que os cavaleiros de Santiago pudessem vencer a batalha.

Mosteiro de TentudíaDesde então a serra se chamou Serra de Tentudía.

Como memória e agradecimento, o Grão-mestre estabeleceu ali um mosteiro-fortaleza, que ainda hoje existe, e em cuja capela, junto ao altar-mor, está sua sepultura.



(Fonte: José Maria de Mena, "Entre la Cruz y la Espada - San Fernando" - RC Editores, Sevilha, 1990, pp. 64-65)



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domingo, 15 de junho de 2025

A perdiz, o falcão e a Virgem

Rei García III de Navarra
Rei García III de Navarra
Luis Dufaur
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Um dia o rei García de Navarra foi caçar.

Embora tivesse grande afeição pelo nobre exercício, seu espírito estava muito inquieto com a política e a guerra para apreciar as belezas naturais e a animação do jogo.

Uma perdiz voou repentinamente e um ágil falcão foi lançado contra ela.

A perdiz voou e voou sem ser atingida pelo impetuoso pássaro da arrogância.

O rei e os seus servos mordiam esporas e percorriam as estradas, entre carvalhos e faias, seguindo o voo da brava perdiz que tanto ludibriava o melhor dos falcoeiros do monarca.

Virgen de la Cueva, en Santa Maria la Real de Nájera
Virgen de la Cueva, em Santa Maria la Real de Nájera
A perdiz, pressentindo a ave inimiga por perto, atravessou o rio Najerilla e entrou num bosque profundo e sombreado que se encontrava na margem ocidental, mesmo junto ao mosteiro de Santa María de Nájera.

O falcão seguia sua presa como uma flecha, e um e outro foram vistos se perdendo na mata.

O rei, julgando que a pobre perdiz já havia caído sob as garras afiadas do falcão, entrou na floresta.

Eles não puderam encontrar nada.

O falcão e a perdiz tinham desaparecido de tal maneira que os rastreadores mais astutos confessavam estar exaustos.

Finalmente, o rei viu uma caverna escura e acreditando que a caça poderia ter se refugiado ali, ele entrou.

A caverna era profunda e escura, e o rei ordenou algumas tochas para iluminar o caminho.

Grande foi a surpresa do monarca quando, à luz bruxuleante dos machados trazidos por seus servos, avistou uma imagem de Nossa Senhora que parecia estar escondida naquele lugar remoto.

Diante da imagem havia uma pequena e humilde vasilha de porcelana, dessas chamadas de terraço, e no chão um sino.

Mas o que causou o espanto de todos foi ver que aos pés da Virgem estavam o falcão e a perdiz em companhia amiga.

Don García e seus companheiros julgaram tudo o que havia acontecido como uma maravilha sobrenatural e voltaram atrás.

Santa Maria la Real de Nájera
Santa Maria la Real de Nájera
Mais tarde, o rei mandou erguer ali um mosteiro.

O sino foi levantado, e viu-se que nele havia uma inscrição que dizia, em latim:

“Mente sã e espontânea: honra a Deus e liberdade ao país”.

Mais tarde, em memória daquele achado, foi instituída a Ordem do Terreiro, recordando a humilde vasilha encontrada aos pés da Santa Mãe de Deus.





domingo, 9 de fevereiro de 2025

Aquela que ao Paraíso leva” (Cantigas de Santa Maria 389)

Nossa  Senhora do Bom Auxilio, igreja principal de Castellammare del Golfo
Nossa  Senhora do Bom Auxilio,
igreja principal de Castellammare del Golfo
Luis Dufaur
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Como Santa Maria do Porto curou um filho do Mestre Pedro de Marselha.

Aquela que nos mostra os caminhos para irmos ao Paraíso, tem poder para sarar velhos, jovens e crianças.

Poder tem para sarar o velho, se tal o merece, e outro igual para o mancebo, se ele teve boa juventude, e também o menino, se algum mal lhe acontece quando sofre enfermidades sendo muito pequenino.


Aquela que ao Paraíso ...

E sobre isso a Virgem Santa Maria fez em Sevilha um milagre muito grande, Ela que a rogos de seu Filho ao inferno não nos mande por causa dos nossos pecados, mas que no seu Paraíso queira nos tornar vizinhos.

Aquela que ao Paraíso ...

Esse milagre foi feito na cidade de Sevilha a um menininho que estava muito doente de verdade, filho do Mestre Pedro de Marselha, que fora abade e depois se tornou leigo, e teve dois filhos muitos franzinos.

Aquela que ao Paraíso ...

Dessa mulher ele tinha um filho que mais amava. Era o mais velho, que caiu doente de tão grande doença, que por morto já o julgavam. Ele e a mãe, com muita dor, julgavam-se culpados.

Aquela que ao Paraíso ...

E com a excessiva dor que tinha a mãe, ela encomendou o filho ao Porto de Santa Maria, prometendo que, se vivesse, logo iria em romaria com toda espécie de presentes.

Aquela que ao Paraíso ...

Não houve o que não oferecesse, mas não tinham dinheiro, nem ovelhas, nem carneiros que pudessem para dar, e os seus parentes tampouco queriam lhes dar, e só tinham dois frangos capões.

Aquela que ao Paraíso ...

E com uma promessa como essa, ainda que muito pequenina, aprouve à Virgem, que dos Céus é Rainha, fazer com que o moço pedisse de comer, e foi assim curado, acabando indo brincar com os outros mocinhos.

Aquela que ao Paraíso ...

Quando isto viu Mestre Pedro, à guisa de louvores à Gloriosa mandou assar os dois capões que criava, os fez assar e ofereceu a seu filho comê-los, mandando servir bons vinhos.

Aquela que ao Paraíso ...

 

Interpretado pela Schola Cantorum Basiliensis 
Aquela que ao Paraíso leva” (Cantigas de Santa Maria 389)





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