domingo, 24 de outubro de 2021

A catedral submersa

A "catedral submersa" na baía de Douarnenez
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na sua História da Liga na Bretanha, de fins do século XVI, um certo cônego Moreau escrevia sobre a baía de Douarnenez:

“Encontram-se ainda hoje pessoas antigas que, estando a pescar, sustentam ter visto com frequência, nas baixas marés, velhas ruínas de muralhas”. Segundo essas testemunhas, tratar-se-ia de “grande obra de que nunca se ouviu falar”.

Algumas ruínas parecem indicar construções dos tempos dos romanos, que dominaram a região antes dos celtas.

Por outro lado, em dias de mar calmo, pescadores de Douarnenez diziam ter ouvido muitas vezes soar os sinos sob as águas da baía. E de vez em quando suas redes ou linhas apanhavam curiosos objetos.

Entre a lenda e a história real há sempre uma zona nebulosa, de incerteza. O fato é que Ys sublimou-se na atraente figura de uma bela cidade submersa, com uma catedral magnífica cujos sinos tangem ao sabor das ondas… ou dos anjos!

A beleza dessa lenda excita as imaginações, descrevendo Ys como a mais bela capital do mundo de então. Mais tarde Paris teria ocupado o seu lugar.

Um provérbio em língua bretã diz: “Depois que se inundou a cidade de Ys / Nada de mais belo se encontrou igual a Paris”.

Então a roda do destino deverá inverter-se, porque outro refrão diz: “Quando Paris for submersa, / A cidade de Ys ressurgirá”.

Ao tomar conhecimento de um sucinto relato dessa lenda, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira fez uma linda aplicação à fase da vida em que as pessoas ainda não perderam a sua inocência primaveril.

Teoricamente, todo católico que seja inteiramente fiel à graça sobrenatural poderia conservar a inocência até o final de sua vida. Na realidade, porém, a debilidade humana dificilmente o alcança.

Mas é possível! Muitos santos e santas conservaram a inocência mesmo em meio aos mais violentos combates, exteriores ou interiores, no anonimato de uma cela de convento como na vida pública ou familiar de um leigo.

Assim uma Santa Teresinha do Menino Jesus, um São Francisco de Assis e tantos outros.

E quanto mais avançam os anos, tanto mais é pungente essa luta.

É nessa fase que a pessoa, se não resolver ser santa, pode tornar-se cética, pragmática, materialista, sensual, ou simplesmente perder a fé!

Entretanto, se ela conservou um fundo de fidelidade à virtude, de religiosidade, de honestidade, de vergonha, ela poderá ainda ser tocada pelo eco dos sinos de uma catedral submersa no seu mar interior!

As infidelidades, pecados e omissões poderão ter obscurecido a visão maravilhosa da vida eterna, que afirmamos no Credo.

Então nos sentimos num mundo em que a nossa Ys ideal está sepultada no mar dos nossos crimes ou da nossa vida banal sem Deus!

Entretanto, como os pescadores bretões, de vez em quando ouvimos o tanger de sinos que das profundezas nos traz à memória o mundo ideal para o qual fomos criados.

É o apelo da graça, ou da inocência! Em qualquer idade podemos abraçá-la e estabelecer com ela um conúbio para a eternidade.

Creio ser bem esta a relação da lendária catedral submersa de Ys com a reconquista da inocência, na consideração de Plinio Corrêa de Oliveira.


(Autor: Gabriel José Wilson. Catolicismo, março 2014).

Um escritor virulentamente anticristão nos fornece um exemplo da persistência dos apelos dessa inocência apesar de uma vida ostensivamente pecaminosa. Trata-se de Ernest Renan que abandonou o seminário para viver atacando a Igreja no século XIX.

No livro “Lembranças da infância e da juventude” (“Souvenirs d'enfance et de jeunesse” Calmann Lévy Éditeur, 1897) escreveu:

“Uma das lendas mais espalhadas na Bretanha fala de uma pretensa cidade de Ys, que numa época desconhecida, teria sida engolida pelo mar.

“Mostra-se em diversos pontos da costa, o local dessa cidade fabulosa e os pescadores vos apresentam estranhas narrações.

“Nos dias de tempestade, garantem eles, vê-se em meio às ondas a ponta das agulhas de suas igrejas. Nos dias de calmaria, ouve-se subir do fundo dos abismos marítimos o toque dos sinos, modulando o ritmo do dia.

“Com frequência me parece que eu tenho no fundo do coração uma cidade de Ys que toca ainda sinos que obstinadamente convocam para os ofícios sacros uns fiéis que já não ouvem mais.

“Por vezes eu me detenho para prestar ouvidos a essas trêmulas vibrações, que me parecem provir de profundezas infinitas, como se fossem vozes vindas de outro mundo. Na medida em que eu me aproximo da velhice, sobretudo, eu me deleito durante o repouso do verão prestando atenção nesses rumores longínquos de uma Atlântida desaparecida”.

Era o apelo da graça, da inocência, que ainda se fazia ouvir num coração empedernido no mal!





CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CIDADE SIMBOLOS
AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 10 de outubro de 2021

Don Galcerán De Pinós, o cruzado liberado por Santo Estevão

Santo Estevão, Salamanca
Santo Estevão, Salamanca
Luis Dufaur
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No século XII, Afonso, Imperador de Castela, sustinha renhidas batalhas contra o rei mouro de Granada.

O Conde de Barcelona acudiu em sua ajuda, fretando naves catalãs e genovesas.

Era almirante das primeiras, Galcerán Guerras de Pinós. Em seu afã das vitórias, se adiantou demasiado no território mouro e caiu prisioneiro.

Seus pais, os senhores de Bagá, estavam desesperados. O Conde de Barcelona se pôs em tratos com o Rei de Granada, para ver que resgate pedia pelo almirante Galcerán.

O Rei de Granada, enfurecido por ter perdido Almería, pediu um resgate exorbitante: cem mil dobles, cem cavalos brancos, cem vacas bragadas, cem panos de ouro de Tanis, e o que era pior de tudo, mais cem donzelas.

Os senhores de Bagá se aterrorizaram ante a última condição e decidiram que, apesar de muita dor que lhes causava ter o filho cativo dos mouros, não podiam consentir, para que ele fosse devolvido, que tantos pais sofressem a dor de ver perdidas para sempre suas filhas.

Não obstante, foram muitos os argumentos dos poderosos senhores que opinaram que o povo devia sacrificar-se, e que o almirante representava uma grande ajuda para a Cristandade.

Aquele que tivesse quatro filhas, devia entregar duas; o que tivesse duas, daria uma, e o que tivesse uma seria sorteado com outro que tivesse uma também.

Recolheram por fim, tudo quanto o Rei mouro de Granada queria e partiram, para embarcar na praia da Salon.

Santo Estevão, catedral de Newcastle
Santo Estevão, catedral de Newcastle
Entretanto, Galcerán Guerras de Pinós, estava encerrado numa masmorra imunda, sofrendo todos os horrores da escravidão. Com ele se achava também o cavaleiro Sancerni, senhor de Sull.

Várias vezes haviam tentado fugir, sem conseguir. Outras tantas quiseram subornar a seus guardas, e tampouco tiveram êxito.

Galcerán, que era mais jovem sonhava constantemente com sua casa de Bagá, seus salões, seus jardins e sua capela. A lembrança disso trouxe a sua mente o desejo de encomendar-se a Santo Estevão, o patrono de sua casa.

Rezou com grande fervor, encomendando ao santo sua salvação. Terminada sua reza, os cativos viram que se havia aberto a porta de sua masmorra e um homem celestial, aproximando-se de D. Galceran levou-o para fora.

O almirante sempre cortês e caritativo, parou na porta, indicando com o olhar ao senhor de Sull, que ficaram muito assustado.

Então o santo falou, para que ele também se encomenda-se ao seu patrono.

Fez assim, o cavaleiro de Sancerní, rezando com o mesmo fervor a ao Dionizio, o qual não deixou de acudir, libertando a ele também.

Ambos se encontraram caminhando livres à meia-noite e com grande surpresa, se encontraram com o clarear do dia em Tarragona.

Continuando pelos caminhos de Bagá, vieram de pronto uma multidão silenciosa que marchava em direção contrária.

Perguntaram aonde iam, e um homem de gesto grave e dolorido lhes respondeu que se dirigiam para Granada pagar o resgate de Dom Galcerán e de D. Sancerní, para o qual haviam sacrificado cem donzelas.

Os cavaleiros, então, se deram a conhecer, e entre felicitações a Deus empreenderam todos o caminho até Tarragona.

Mais tarde, quando Valencia foi libertada, o almirante mandou levantar a igreja de Santo Estevão, daquela capital, em ação de graças.

Hoje, entretanto, se recorda a aventura que tanta angustia proporcionou a tantas famílias do senhor de Galcerán, de pais e filhos, se conta as peripécias dos cavaleiros, cujos sepulcros se conservam na história do mosteiro de Santo Creno. (p.198 e 199)


(Fonte: V. Garcia de Diego, Antologia de Leyendas de la Literatura Universal, Editorial Labor S.A., Madrid-Espanha, 1ª edição, 1953).



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domingo, 19 de setembro de 2021

O cavalo Lajkonik

A parada de Lajkonik se repete todos os anos em lembrança do épico feito
A parada de Lajkonik se repete todos os anos em lembrança do épico feito
Luis Dufaur
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Durante a Idade Média, a cidade polonesa de Cracóvia foi ficando cada vez mais bela e brilhante. Para ela se voltavam os povos vizinhos.

Foram assim nascendo em torno dela aldeias e cidadezinhas que viviam dependentes de sua riqueza, arte e comércio.

Uma dessas cidadezinhas que deitou raízes na beira esquerda do rio Vístula chamava-se Zwierzyniec.

Ela era habitada por barqueiros que transportavam mercadorias e toras pelo rio.

O trabalho não era fácil e pedia muito sacrifício, coragem, força e resistência nas dificuldades.

Eles não sabiam, mas certa vez uma horda tártara planejou atacar Cracóvia, aproveitando que durante o dia suas portas ficavam abertas.

domingo, 12 de setembro de 2021

A ponte de Ledea

Puente de Burgui, Navarra
Puente de Burgui, Navarra
Luis Dufaur
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O rei mouro Abderramam tinha que passar pela Navarra, de regresso da França.

O rei Dom Sancho ao saber disso, enviou mensageiros aos vales de Roncal, Salazar e Aezoa, com ordem de que reunissem todos os homens disponíveis e lutassem contra os mouros.

Os roncaleses e os de Salazar dispuseram-se a cumprir a ordem do monarca.

Ao toque de sinos dos povoados, os homens deixaram suas ocupações e tomando as armas que podiam dispor, foram atacar Abderramam.

Mas os aezoanos disseram que eles não eram homens de guerra, e que sua obrigação consistia em cultivar e guardar as terras.

Mas, se Abderramam aparecesse por aí, o receberiam com fogo.

domingo, 5 de setembro de 2021

O ermitão e o ladrão

Luis Dufaur
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Numa ermida morava um virtuoso ermitão, ao qual se chegou um salteador de caminhos, dizendo-lhe:

— Vós rogais a Deus por todos. Rogai-Lhe que me tire deste mau ofício que trago, senão eu vos hei de matar.

Saindo dali, tornava a fazer o mesmo que dantes, e outra vez tornava a vir ao eremita, dizendo:

— Vós não quereis rogar a Deus por mim, pois hei de vos matar.

Tantas vezes fez isto, que uma vez veio decidido a matar o eremita.

Diante dessa decisão, o eremita propôs:

— Já que me queres matar, tiremos primeiro ambos uma pedra que tenho sobre minha sepultura. Depois de morto, lançar-me-ás dentro sem muito trabalho.

Ele aceitou, e assim foram ambos erguer a pedra.

Porém, enquanto o salteador trabalhava quanto podia para erguê-la, o ermitão trabalhava para que ela não se erguesse.

E desta maneira não faziam nenhuma mudança na posição da pedra.

O salteador deu pela coisa, e disse:

— Do modo como vós me ajudais, como posso eu erguê-la? Eu levanto a minha parte, mas vós inutilizais o meu esforço.

domingo, 29 de agosto de 2021

O fiel leão de Godofredo

Luis Dufaur
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Entre os nobres cavaleiros de Provença que partiram para as Cruzadas contra os infiéis, havia um senhor chamado Godofredo de Tours, de grande valor, guerreiro tão heroico como jamais se conheceu.

Nos combates era o primeiro a se lançar sem se preocupar em cobrir seu corpo contra os dardos e as pedras. 

Galopava até os esquadrões árabes invocando a proteção do Senhor. 

Tal era sua fama que em todos os exércitos era conhecido e admirado o seu heroísmo!

Um dia cavalgava ele numa clareira, com outros cavaleiros, seguido de numerosos pajens.

De repente ouviram uns terríveis rugidos de leão. Todos, exceto Godofredo, tomados de pânico, fugiram com medo de cair nas garras da fera.

Mas Godofredo, vendo que seu cavalo não lhe obedecia, pegou sua espada, desceu do cavalo e dirigiu-se à floresta onde estava o leão.

domingo, 22 de agosto de 2021

Cantiga de Nossa Senhora de Castro Marim

Nossa Senhora dos Mártires, Castro Marim
Nossa Senhora dos Mártires, Castro Marim
Luis Dufaur
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Esta cantiga refere-se ao surgimento da devoção a Nossa Senhora de Castro Marim (Algarve, século XII), especial protetora dos portugueses cativos dos mouros.


Captivo de um pêrro moiro
Em terras de moiraria
Debaixo de duros ferros,
Um pobre cristão vivia.

Negro pão e água turva
Só lhe davam por medida
De manhã até à tarde
A um moinho moia;
E à noite o perro infiel,
Com medo que lhe fugisse,
N’um caixão grande o fechava,
Muito forte em demasia.

Depois, em cima deitado,
Em tom de mofa dizia,
Como quem Deus não conhece,
Esta horrível heresia:
- Livre-se d’aqui agora
A tua Virgem Maria! 

domingo, 15 de agosto de 2021

“Não queiras para os outros o que não queres para ti”

Luis Dufaur
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Entre os lavradores e viajantes da Catalunha, o nome de Ferreol era muito temido. Nas noites de tempestade, quando a água bate com fúria nas rochas, o bandido Ferreol e seus companheiros aguardavam em seus postos, para assaltar qualquer infeliz e roubar-lhe a bolsa, e quiçá deixá-lo estendido sem vida em um matagal.

Por toda parte se narravam as façanhas do bando, que levava o terror a todos os que tinham que passar pelos montes e bosques, lugares preferidos de Ferreol e seus companheiros.

Um dia, ao pôr-do-sol, quando o crepúsculo enchia de sombras as proximidades das montanhas, um frade caminhava a passos largos. Ia rezando com devoção suas orações, e não percebeu a aparição de dois homens no meio do caminho.

Estes pararam o bom religioso, dizendo-lhe:

— Irmão, passe-nos a bolsa!
O frade, surpreendido, lhes respondeu que não levava nada consigo.

domingo, 8 de agosto de 2021

A penitência que fez florir o galho seco

Catedral de Sens, imagem da fachada
Catedral de Sens, imagem da fachada
Luis Dufaur
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São Bond foi um rico mercador espanhol que se estabeleceu na cidade francesa de Sens há bem mais de 13 séculos.

Os espanhóis têm fama de serem muito ciumentos e ele o era em excesso.

Não se saberia descrever o sofrimento de sua mulher pelos ciúmes do marido. Esses foram tais que acabaram virando doença.

O comerciante viajava com muita frequência e deixava sua casa para fazer os negócios, os quais, aliás, ele conduzia perfeitamente.

Porém, durante toda a sua ausência, devoram-no a desconfiança e a dúvida.

E quando voltava à casa já chegava com os nervos na flor de pele, prestes a explodir numa cólera tão violenta quanto injustificada.

Sua infeliz esposa era a que menos justificava esse tratamento.

domingo, 1 de agosto de 2021

As façanhas de Beuvon

Cavaleiro partindo para a guerra, anonimo frances

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Os sarracenos ocupavam, em outros tempos, grande parte da Provença. A impiedade deles chegou a tal ponto, que Deus decidiu extirpá-los dali para sempre.

Escolheu como instrumento de sua santíssima vontade um herói chamado Beuvon.

Educado no temor de Deus e no ódio aos infiéis, era um cavaleiro puro e piedoso, e seu coração estava cheio de valor.

Num dia de verão, cansado pelo calor, adormeceu à sombra de uma árvore. No sono, teve uma maravilhosa visão. Apareceu-lhe São Pedro, e lhe disse:

— Levanta-te, sem demora nem vacilação, e marcha contra os sarracenos, que por sua impiedade excitaram a ira de Deus.

Tu os expulsarás de Peyrempi. Uma vez tomada essa fortaleza, não te será difícil persegui-los, até fazê-los desaparecer do país.

Beuvon se levantou e tomou o caminho de Peyrempi.

domingo, 25 de julho de 2021

O sobrenatural e o maravilhoso no medieval

Ruínas da abadia de Beauport, Normandia, França
Ruínas da abadia de Beauport, Normandia, França
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Junto ao mar, numa península com forma de cruz, um santo eremita construiu um mosteiro, nos tempos que a Gália ainda não era a França.

Mas o mosteiro foi derrubado. Algum tempo depois, um outro veio e construiu outro mosteiro.

E esse mosteiro foi derrubado, se minha memória não me trai, por ocasião da Revolução Francesa.

Se no Reino de Maria se mandar construir um mosteiro em louvor a Nossa Senhora nessa península, com sentido reparador, etc., vai ser muito bonito.

Há um certo lugar na França onde se tornou lendária a presença de um homem que teria vivido lá pela alta Idade Média, conhecido como “o louco da floresta”.

Esse homem era doido, e ele apenas sabia dizer "Ave Maria!". 

Com todas as pessoas que ele encontrava ele só dizia "Ave Maria!"

domingo, 18 de julho de 2021

São Vicente, o vinho e o gelo

Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha
Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha
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Na Idade Média, os monges cistercienses exploravam a quase totalidade do célebre vinhedo da Borgonha.

E isso com toda justiça, pois foram eles que desbravaram suas terras e plantaram as vinhas.

Pesados comboios saíam regularmente das vinícolas e adegas da região para irem prover as abadias das cidades.

Numa jornada muito fria de dezembro, num desses comboios seguia para Dijon.

Dois monges bem agasalhados conduziam as charretes, que a todo o momento escorregavam sobre o gelo.

O destinatário da carga era o abade de São Benigno.

No frio iam os dois monges vinhateiros, sonhando com a acolhida calorosa que lhes reservariam seus irmãos de Dijon.

Antes de partir, os dois não haviam se esquecido de colocar a viagem sob a proteção de São Vicente, padroeiro dos vinicultores, e de Nossa Senhora do Bom Caminho.

domingo, 4 de julho de 2021

O príncipe muçulmano convertido e o diabo impotente

Iguzquiza

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Nos dias de Garcia o Temerário, Rei de Navarra, aconteceu que Abderramán entrou em Navarra com seu exército, chegando até a terra de Estela.

Quando o monarca soube que o Rei de Córdoba viera ao seu reino com tão grande exército, pediu socorro a seu irmão, o Rei das Astúrias.

Abderramán ficou na vila de Logroño com o grosso de seu exército e enviou a Navarra um príncipe mouro, muito poderoso.

Este príncipe era secretamente devoto de Nossa Senhora, e tinha por costume rezar a Ave Maria.

Aconteceu que o demônio teve grande ira por ver isto, e fazendo-se homem, pôs-se a serviço do príncipe como mordomo, durante 14 anos.

Chegando o nobre senhor mouro às terras de Estela, a um lugar que hoje chama-se Igusquiza, andava, uma manhã, o cavaleiro passeando por um corredor, rezando a Ave Maria e tendo diante de si o mordomo, quando subitamente veio voando um astor (velaz, no dialeto vasconço), trazendo no bico a saudação de Nossa Senhora, escrita com letras divinas. Pousou o pássaro na mão do príncipe.

Inflamado pelo calor do Espírito Santo, e encomendando-se a Maria, viu logo entrar pela porta o Apóstolo Santo André, enviado por Deus para o converter.

domingo, 27 de junho de 2021

O juramento do rato

Luis Dufaur
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Um dia, o rato caiu em um tonel cheio de vinho.

O gato estava passando perto e ouviu o rato fazendo um grande barulho no vinho porque ele não conseguia sair.

E o gato disse:

“Por que você está gritando tanto?”

O rato respondeu: “Porque não consigo sair.”

E o gato disse: “O que você vai me dar se eu te ajudo a sair?”

O rato respondeu:

“Vou te dar tudo o que você pedir de mim.”

E o gato disse:

“Se eu te tirar, quero que me você me dê isso: venha até mim quantas vezes eu te chamar.”

E o rato disse:

“Isso eu garanto que vou fazer.”

E o gato disse:

domingo, 20 de junho de 2021

A pergunta do anjo ao frade soberbo
e o que aconteceu depois

E o jovem bateu na porta fortemente
E o jovem bateu na porta fortemente.
Fundo: viela de Assis
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No princípio e fundação da Ordem, quando havia poucos irmãos e não havia conventos estabelecidos, São Francisco, por devoção, se foi a Santiago de Galícia, e levou consigo alguns irmãos, entre os quais um foi Frei Bernardo.

E seguindo assim juntos pelo caminho, acharam numa terra um pobre enfermo, do qual tendo compaixão, disse a Frei Bernardo: “Filho, quero que fiques aqui servindo a este enfermo”.

E Frei Bernardo, ajoelhando-se humildemente e inclinando a cabeça, recebeu a obediência do santo pai e ficou naquele lugar; e São Francisco com os outros companheiros foi a Santiago.

Ali ficando reunidos e estando de noite em oração na igreja de Santiago, foi por Deus revelado a São Francisco que ele devia fundar muitos conventos pelo mundo.

Porque sua Ordem se devia dilatar e crescer em grande multidão de frades; e por esta revelação começou São Francisco a estabelecer conventos naquela região.

E, voltando São Francisco pelo mesmo caminho, encontrou Frei Bernardo mais o enfermo com o qual o havia deixado, e que estava inteiramente curado.

domingo, 6 de junho de 2021

A cidade no fundo da “baía dos mortos”

Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França
Ys, a cidade da lenda, sepultada na baía de Douarnenez, na Bretanha, França
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Entre a lenda e a história real há sempre uma zona nebulosa de incerteza. O fato é que a figura de uma cidade submersa, com uma catedral magnífica cujos sinos tangem ao sabor das ondas, ainda hoje excita as imaginações.

A misteriosa Bretanha é uma das mais interessantes regiões da França. Imensa plataforma que avança sobre o Atlântico, ao sul da Grã-Bretanha, ela é castigada por toda espécie de ventos e marés, como também o foi por invasões, ao longo de sua história milenar.

Os primeiros celtas chamaram-na Armor — “Terra voltada para o mar”. Daí o nome de Península Armórica, que ainda hoje a designa.

Na sua extremidade sul formou-se a Cornualha, nome que parece vir da Cornwall britânica, a península mais ocidental da Inglaterra.

Ocupada por gauleses, romanos, celtas, várias vezes saqueada pelos normandos, a Bretanha constituiu-se em reino até o século X, e depois em poderoso ducado, antes de ser incorporada definitivamente à França com os casamentos sucessivos de Ana de Bretanha com Carlos VIII e Luís XII, ambos filhos do astuto Luís XI.

Cheia de mistérios, é uma terra fértil em lendas e tradições imemoriais.

domingo, 23 de maio de 2021

A espada de Cracóvia

As duas torres da igreja de Nossa Senhora
As duas torres da igreja de Nossa Senhora
Luis Dufaur
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Na praça central de Cracóvia, Polônia, ergue-se rumo aos céus a suntuosa igreja de Nossa Senhora.

Ela é tão bela, tão grande e tão bem localizada, que muitos ficam convencidos de que é a catedral da cidade.

Entretanto a catedral, também magnífica, fica na cidadela de Cracóvia, conhecida como Wawel, junto ao Palácio Real e outros prédios históricos admiráveis.

A igreja de Nossa Senhora começou a ser construída por volta de 1220 sobre os fundamentos de um antigo templo em estilo românico várias vezes reformado e que era a igreja principal da Praça do Mercado.

Ela apresenta duas torres de altura vertiginosa, coroadas por dois maravilhosos conjuntos de torrezinhas e agulhas muito diferentes, aliás, em cada torre principal.

A mais alta é conhecida como Torre da Guarda e do alto dela trombeteiros que se revezam anunciam ininterruptamente a hora, de dia e de noite, em direção dos quatro cantos principais da cidade.

A menos alta é chamada a Torre dos Sinos, pois nela há um imenso sino que, segundo uma outra lenda, no século XV foi levado até o topo por Stanislas Ciolek, um homem de força inaudita.

Por que as duas torres têm alturas diferentes?

domingo, 9 de maio de 2021

São Luís, rei da França, peregrino, visita Frei Egídio

São Luís rei da França, miniatura contemporânea na Biblia de Toledo, dita Bíblia de São Luis, c. 1230, The Morgan Library & Museum, New York
São Luís rei da França, miniatura contemporânea na Biblia de Toledo,
dita Bíblia de São Luis, c. 1230, The Morgan Library & Museum, New York
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Indo São Luís, rei de França, em peregrinação visitar os santuários pelo mundo, e ouvindo a fama grandíssima da santidade de Frei Egídio, o qual fora dos primeiros companheiros de São Francisco, pôs no coração e determinou por tudo visitá-lo pessoalmente.

Pela qual coisa veio a Perusa, onde habitava então o dito Frei Egídio.

E chegando à porta do convento dos frades, como um pobre peregrino desconhecido com poucos companheiros, chamou com grande insistência por Frei Egídio, nada dizendo ao porteiro sobre quem fosse aquele que o chamava.

Foi, pois, o porteiro a Frei Egídio e disse-lhe que à porta havia um peregrino que o procurava: e por Deus lhe foi revelado em espírito que aquele era o rei de França.

pelo que subitamente ele com grande fervor sai da cela e corre à porta e sem mais pergunta, ou sem que jamais tivessem estado juntos, com grandíssima devoção ajoelhando-se abraçaram-se e beijaram-se com tanta familiaridade como se há longo tempo tivessem tido grande amizade.

No entanto, nenhum falava com o outro, mas estavam assim abraçados em silêncio com aqueles sinais de amor caritativo.

E ficando como ficaram por grande espaço de tempo por esta forma, sem dizer palavra, partiram-se um do outro.

domingo, 25 de abril de 2021

São Francisco pôs Frei Masseo de porteiro, esmoleiro e cozinheiro e depois o dispensou

Luis Dufaur
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São Francisco, querendo humilhar Frei Masseo, a fim de que, pelos muitos dons e graças que Deus lhe dava, não chegasse à vanglória, mas pela virtude da humildade crescesse de virtude em virtude, numa ocasião em que ele vivia em um convento solitário com aqueles seus primeiros companheiros verdadeiramente santos, dos quais um era Frei Masseo, disse um dia a Frei Masseo diante de todos os companheiros:

– “O Frei Masseo, todos estes teus companheiros têm a graça da contemplação e da oração; mas tu possuís a graça da pregação da palavra de Deus, para satisfazer o povo.

“Portanto, quero, a fim de que os outros se possam entregar à contemplação, que faças ofício de porteiro, de esmoleiro e de cozinheiro.

“E quando os outros irmãos comerem, comerás fora da porta do convento, de sorte que os que chegarem ao convento, antes de baterem, os satisfaças com algumas boas palavras de Deus.

“De sorte que não haja necessidade de outra pessoa ir à porta a não ser tu: e isto o faças pelo merecimento da santa obediência”.

Então Frei Masseo tirou o capuz e inclinou a cabeça, e humildemente recebeu e executou esta obediência durante alguns dias, desempenhando os ditos ofícios.