domingo, 20 de fevereiro de 2022

Os três pássaros de argila

Santa Maria dos Reis, Laguardia, Espanha
Santa Maria dos Reis, Laguardia, Espanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Antigamente o lago de Tiberíades não tinha esse nome. Foi somente algum tempo depois do fato que eu vou contar, que o filho do cruel Herodes construiu às suas margens a cidade que ele chamou Tiberíades, para fazer a sua corte.

O belo lago chamava-se Kinnereth, que quer dizer harpa, porque seus contornos harmoniosos dão exatamente a forma do instrumento musical tão familiar ao rei David.

Naqueles dias, após uma grande tempestade na montanha, caía a tarde e o vento levava a última nuvem.

O lago retomava sua calma habitual, e os numerosos pássaros que o visitam freqüentemente — corvos-marinhos, pelicanos, gaivotas, alciões, martins-pescadores — haviam, do modo mais belo, começado seus vôos e seus cânticos.

Na aldeiazinha de Nazaré, três crianças brincavam numa estrada, muito ocupadas em construir uma parede ou barragem para conter a água do caminho.

Depois, assim que esboçaram um pequeno lago parecido com o Kinnereth, tiveram a idéia de povoá-lo também de pássaros — pássaros de argila, claro.

Um deles fez qualquer coisa disforme, que tinha a pretensão de assemelhar-se a esses belos corvos-marinhos de grandes asas, que vêm de longe para caçar seus peixes.

O outro procurava transformar seu barro em pelicano, e fazia grande esforço para manter equilibrada a cabeça enorme e a bolsa suspensa ao pescoço.

O terceiro aperfeiçoava, com a delicadeza de suas mãozinhas, uma gaivota colocada na margem.

Entretanto anoiteceu. A Lua já se fazia ver, e as primeiras luzes se acendiam na aldeia.

Indiferentes à escuridão que os envolvia, os meninos prosseguiam seus delicados trabalhos,

Mas de repente ouviu-se uma voz chamando alguém:

— Lucas!

Lucas ainda não se mexeu. Foi preciso que sua mãe o chamasse mais uma vez.

Lucas, que pela segunda vez tentava equilibrar o bico do corvo-marinho sobre o bastão que lhe servia de pescoço, estava muito entretido em seu trabalho, para responder ao chamado.

— Lucas! Lucas! Lucas! — repetiu a voz.

E desta vez, afinal, de má vontade, decidiu-se a abandonar seu pobre corvo-marinho.

Assim que ele saiu, aquela obra-prima desmoronou e deixou de ser um corvo, mesmo de barro.

— Marcos! — chamou logo depois uma outra voz no crepúsculo.

— Já vou! Já vou! — respondeu ele. Mas não se mexeu, tentando reparar rapidamente a catástrofe.

— Marcos! Marcos! — retomou a voz, impaciente e com um certo azedume.

E também foi preciso que a mãe o chamasse uma terceira vez.

Desta vez Marcos obedeceu, não sem ter dado um pontapé em sua obra-prima, jogando-a dentro d’água, encolerizado.

Ficou apenas à margem do lago, ou do pequeno mar, iluminado pela Lua, o terceiro menino, que alisava sua gaivota de argila.

— Jesus! — chamou uma mulher na soleira da porta.

A voz muito doce encheu a noite, como um perfume o faria.

Logo o menino se levantou, deixando sua gaivota de barro.

E a gaivota de barro voou.



(Fonte: Jérome Tharaud, "Les contes de La Vierge" - Plon, Paris)



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domingo, 13 de fevereiro de 2022

A ponte e a haste da Cruz

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Conta-nos uma lenda de antanho que, a um homem que deveria fazer grande jornada, deram a carregar pesada cruz, dizendo-lhe que ela o levaria à salvação.

Tendo feito pequena parte do trajeto, vencido e desanimado pelo cansaço, deliberou ele cortar um pedaço da longa haste de sua carga.

Mais aliviado, pôs-se de novo a caminho, e jornadeou até o ponto em que a estrada subia por uma encosta longa e pedregosa.

Ali sentiu mais o peso da cruz.

Doíam-lhe os ombros, tinha as pernas trôpegas, arfava e suava.

Na irreflexão da impaciência, pôs o seu fardo no chão, e outra vez o mutilou.

Partiu. Alcançou o sopé do outeiro, e se viu às margens de um rio sem ponte.

Só então observou que outros viajantes ali chegados levavam também pesadas cruzes de longas hastes.

Mas estes, mais resistentes e tolerantes, conservaram suas cruzes intactas.

Estenderam as cruzes de margem a margem, e fazendo-as de pontilhões, atingiram o lado oposto, e lá se foram.

O que encurtara a haste de sua cruz viu, desde logo, que ela não lhe poderia prestar o mesmo auxílio.

Tentando meter-se pelo rio a dentro, desapareceu, levado pelos redemoinhos da correnteza.

É límpida a lição da fábula.

Todos os que vivemos a cortar, com golpes arbitrários, em nossos deveres e obrigações para com Deus, podemos levar, por algum tempo, vida mundanamente fácil, mas sempre enganosa.

O dia chegará em que seremos vítimas das mutilações feitas na haste da nossa cruz.



(Malba Tahan, "Lendas do Céu e da terra" - Borgoi, SP, 1939)



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domingo, 30 de janeiro de 2022

Nossa Senhora traz doces para o frade doente

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No convento de Soffiano viveu antigamente um frade menor de tão grande santidade e graça, que parecia todo divino e frequentes vezes ficava arrebatado em Deus.

Estando certa vez este frade todo absorto em Deus e enlevado; porque tinha notavelmente a graça da contemplação, vinham ter com ele passarinhos de diversas espécies e domesticamente pousavam-lhe nos ombros e na cabeça, nos braços e nas mãos e cantavam maravilhosamente.

Era ele solitário e raras vezes falava; mas quando lhe perguntavam alguma coisa, respondia tão graciosamente e tão sabiamente, que mais parecia anjo do que homem e era de grandíssima oração e contemplação, e os frades o tinham em grande reverência.

Acabando este frade o curso de sua vida virtuosa, segundo a disposição divina adoeceu de morte, de modo que nenhuma coisa podia tomar, e com isto não queria receber nenhuma medicina carnal, mas toda a sua confiança era no médico celestial Jesus Cristo bendito e na sua bendita Mãe; da qual ele mereceu pela divina demência de ser misericordiosamente visitado e consolado.

Pelo que, estando uma vez no leito e dispondo-se à morte com todo o coração e com toda a devoção, apareceu-lhe a gloriosa Virgem Maria, mãe de Cristo, com grandíssima multidão de anjos e de santas virgens com maravilhoso esplendor e se aproximou do seu leito.

E ele, olhando-a, recebeu grandíssimo conforto e alegria quanto à alma e quanto ao corpo; e começou a pedir-lhe humildemente que ela pedisse ao seu dileto filho para que, pelos seus méritos, o tirasse da prisão da mísera carne.

E perseverando neste pedido com muitas lágrimas, a Virgem Maria respondeu-lhe, chamando-lhe pelo nome, e disse-lhe:

“Não duvides, filho, porque tua oração foi atendida, e eu vim para confortar-te um pouco, antes de te partires desta vida”.

Estavam ao lado da Virgem Maria três santas virgens, as quais traziam nas mãos três caixas de doce de desmesurado odor e suavidade.

Então a Virgem gloriosa tomou e abriu uma daquelas caixas e toda a casa ficou cheia de odor: e tomando com uma colher daquele doce o deu ao enfermo: o qual, tão depressa o saboreou, sentiu tanto conforto e tanta doçura que sua alma parecia não poder mais ficar no corpo; pelo que começou a dizer:

“Não mais, ó Santíssima Mãe, Virgem bendita e salvadora da humana geração, não mais; porque eu não posso suportar tanta suavidade”.

Mas a piedosa e benigna Mãe, apresentando outra vez daquele doce ao enfermo e fazendo-o tomar, esvaziou toda a caixa.

Depois, vazia a primeira caixa, a Virgem bendita toma a segunda e nela pôs a colher para dar-lhe, pelo que ele docemente se queixava, dizendo:

“Ó Beatíssima Mãe de Deus, se minha alma quase toda está liquefeita pelo ardor e a suavidade do primeiro doce, como poderei eu suportar o segundo? Peço-te, bendita sobre todos os santos e sobre todos os anjos, que não me queiras dar mais”.

Respondeu Nossa Senhora:

“Saboreia, filho, ainda um pouco dessa segunda caixa”.

E dando-lhe um pouco, disse-lhe:

“Hoje, filho, tomaste tanto, que já chega. Conforta-te, filho, que depressa virei por ti e levar-te-ei ao reino de meu filho, ao qual tu sempre buscaste e desejaste”.

E dito isto, separando-se dele, partiu, e ele ficou tão consolado e confortado pela doçura daquele confeito, que por muitos dias sobreviveu saciado e forte, sem nenhum alimento corporal.

E depois de alguns dias, alegremente falando com os frades, com grande letícia e júbilo, passou dessa vida mísera à vida bem-aventurada. Amém.


(Fonte: Fioretti de São Francisco, cap. 47: Daquele santo frade ao qual a Mãe de Cristo apareceu, quando estava enfermo, e lhe trouxe três caixas de electuário)


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domingo, 23 de janeiro de 2022

O campanário das fadas – ou dos anjos?

Dijon, a cidade dos cem campanários: a catedral no fundo, São Filiberto na esquerda
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“Dijon é a cidade dos cem campanários!”

Esta exclamação histórica foi pronunciada no topo da fortaleza de Talant pelo rei Francisco I assim que ele descobriu a seus pés o espetáculo inesquecível da capital da Borgonha – França – emergindo da bruma matinal.

Foi numa manhã de 1515. Grande mecenas das artes durante o Renascimento, Francisco I partia com um exército rumo à Itália.

Porém, sua famosa exclamação não foi tão original, pois toda cidade de alguma importância desenvolvida na Idade Média havia sido louvada em termos análogos.

Pois ao se considerar os campanários de suas catedrais, igrejas paroquiais, abadias e capelas, conventuais ou privadas, não se conseguia contar o número.

 Catedral Notre Dame e a torre do relógio
Naquela época a França era com toda razão reconhecida como a filha primogênita da Igreja.

Santa Benigme

Os campanários de Dijon são em geral cobertos com telha ou ardósia. 

Alguns deles, entretanto, eram protegidos por chapas de pedra conhecidas como “laves”.

Um campanário apresenta características muito peculiares.

O da igreja de São Filiberto, por exemplo.

Essa igreja se ergue à sombra da catedral, edificada por volta do ano mil pelo arquiteto italiano Volpiano.

Alguns séculos depois, os noviços da abadia de São Benigno quiseram construir uma igreja mais “ao vento”, “na moda” da época.

São Filiberto e seu campanário de lenda

E encomendaram o projeto a um arquiteto da região. 

Tinha que ser uma igreja nova, sem os vestígios obsoletos do passado.

O arquiteto quebrou a cabeça para conceber um prédio segundo a moda nova: de estilo humanista, que ressuscitava o velho estilo romano pagão.

A tarefa não era simples, pois devia ser discreta, não derrubando a igreja já existente e fingindo manter no estilo a originalidade da Borgonha.

Afinal o novo santuário ficou quase pronto, com um detalhe importante: para satisfazer à ânsia de modernidade e originalidade, não possuía campanário.

Mas muito ciumentos de seus abençoados sinos e dos respectivos campanários, os habitantes de Dijon contam que, na noite anterior à consagração do templo, fadas ou anjos – as opiniões divergiam sobre este particular – combinaram entre si edificar eles mesmos a torre que o capricho dos homens eivados de Renascença recusava.

E trabalharam até a madrugada.

Quando o carrilhão da abadia de São Benigno começou a chamar os monges para a recitação de Matinas, a surpresa estava ali.

Desenhando seu perfil na noite, um campanário se erguia aos céus onde não devia haver nenhum!

Na manhã cedinho, a nova igreja de São Filiberto ostentava o mais brilhante campanário da cidade.

Ele estava feito inteiramente com pedra entalhada, mas trabalhado com tanta perfeição, arte e detalhe que parecia feito de renda.

Com um particular: em virtude de um senso de hierarquia bem graduado, o novo campanário, resplandecente de alvura, fora feito com o cuidado de não ficar mais alto que o da catedral, mãe de todas as igrejas da diocese.



(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França)





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domingo, 16 de janeiro de 2022

São Francisco livrou do demônio o frade em pecado aberto

Luis Dufaur
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Estando uma vez São Francisco em oração no convento da Porciúncula, viu, por divina revelação, todo o convento cercado e assediado pelos demônios, como se fosse por um grande exército.

Mas nenhum podia, aliás, entrar dentro do convento; porque aqueles frades eram de tanta santidade, que os demônios não tinham meios de entrar neles.

Mas, perseverando todavia assim, um dia um daqueles frades se escandalizou com um outro, e pensava no seu coração como poderia acusá-lo e vingar-se dele.

Pelo que, continuando ele com este mau pensamento, o demônio, achando a porta aberta, entrou no convento e montou no pescoço daquele frade.

Vendo isto o piedoso e solícito pastor, o qual velava sempre por seus rebanhos, que o lobo entrara para devorar sua ovelha: mandou imediatamente chamar à sua presença aquele frade.

Então lhe ordenou que logo deveria descobrir o veneno do ódio concebido contra o próximo, pelo qual estava nas mãos do inimigo.

Pelo que atemorizado, por se ver assim compreendido pelo santo pai, descobriu todo o veneno e rancor, e reconheceu sua culpa e pediu-lhe humildemente a penitência com misericórdia.

E isto feito, absolvido que foi do pecado e recebendo a penitência, imediatamente diante de São Francisco o demônio se foi.

E o frade assim livre das mãos da cruel besta, pela bondade do bom pastor, agradeceu a Deus.

Voltando corrigido e ensinado ao redil do santo pastor, viveu depois em grande santidade.

Em louvor de Cristo. Amém.



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