domingo, 9 de junho de 2019

Como Frei Leão só pode dizer o contrário do que São Francisco queria

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Estando uma vez São Francisco, no princípio da Ordem, com Frei Leão em um convento, onde não havia livro para rezar o ofício divino, ao chegar a hora de Matinas, disse São Francisco a Frei Leão:

“Caríssimo, não temos breviário, com que possamos rezar Matinas: mas, a fim de passarmos o tempo louvando a Deus, eu direi e tu me responderás como te ensinar; e toma cuidado, não digas as palavras de modo diverso do que te ensinar’.

Direi assim: ‘Õ irmão Francisco, praticaste tanto mal, tais pecados no século que és digno do inferno’; e tu, irmão Leão, responderás: ‘Verdadeira coisa é que mereces o inferno profundíssimo’

‒ E Frei Leão, com simplicidade columbina, respondeu: “Estou pronto, pai, começa em nome de Deus”.

Então São Francisco começou a dizer: “Ó irmão Francisco, praticaste tantos males e tantos pecados no século, que és digno do inferno”.

E Frei Leão respondeu:

‒ “Deus fará por ti tantos bens, que irás ao paraíso”.

domingo, 26 de maio de 2019

Ladrão! Ladrão!


Luis Dufaur
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Um mercador voltava de uma feira, onde fizera grandes negócios. Colocara numa bolsa de couro toda a sua fortuna, em belas moedas de ouro. Ia assim por vales e montes.

Chegando à cidade de Amiens, passou diante de uma igreja. Como tinha por hábito, entrou para rezar diante da Mãe de Deus e pousou a bolsa ao lado. Quando se levantou, distraiu-se e partiu sem ela.

Havia na cidade um burguês que, ele também, tinha o costume de ir rezar aos pés da bendita Virgem.

Veio ele pouco depois ajoelhar-se no lugar que o outro acabara de deixar, e encontrou a bolsa, selada e guarnecida de um pequeno fecho. Compreendeu logo que devia conter moedas de ouro.

— Meu Deus! Que devo fazer? Se mando apregoar pela cidade o que encontrei, não faltará quem o reclame contra todo o direito.

domingo, 12 de maio de 2019

A ponte do diabo de St. Guilhem-le-Désert

A ponte do diabo de St. Guilhem-le-Désert
Luis Dufaur
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Na região de Hérault, perto de Saint Guilhem-le-Désert, na França, há uma magnífica ponte.

Em tempos muito antigos, os pobres habitantes de Saint-Guilhem padeciam terrível isolamento. Era impossível atravessar o rio Hérault por causa dos abismos e dos redemoinhos. Por isso, eles tinham que enfrentar perigosas e longas travessias através das florestas e das montanhas.

Um dia, um dos habitantes teve que percorrer muitas léguas para contornar o rio.

Ele jurou então que faria tudo para evitar esses desvios.

Como acontece nesses momentos de cólera, juramentos e impaciência súbita, Lúcifer anda por perto.

Disfarçado, ele se aproximou de mansinho do nosso homem e com voz melosa, disse:

‒ “Quantas voltas para vender a mercadoria!”

domingo, 28 de abril de 2019

São Francisco viu os frades que se afogavam e os que se salvavam

Luis Dufaur
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Uma vez em que São Francisco estava gravemente enfermo e Frei Leão o servia, o dito Frei Leão, estando em oração perto de São Francisco, foi arrebatado em êxtase e levado em espírito a um rio grandíssimo, largo e impetuoso.

E estando a olhar quem o atravessava, viu alguns frades carregados entrar naquele rio, os quais eram subitamente abatidos pela impetuosidade da corrente e se afogavam.

Outros iam até um terço, outros até ao meio do rio, outros ainda até à outra margem; todos no entanto, pela impetuosidade do rio e pelo peso que levavam às costas, finalmente caíam e se afogavam.

Vendo isto, Frei Leão tinha deles grande compaixão.

Mas subitamente, estando assim, eis que vem uma grande multidão de frades sem nenhuma carga ou peso de coisa nenhuma, nos quais reluzia a santa pobreza.

E entraram no rio e passaram além sem nenhum perigo.

E vendo isto, Frei Leão voltou a si. E então São Francisco, sentindo em espírito Frei tinha alguma visão chamou-o que Leão visto a si e perguntou-lhe que era o que tinha visto.

E logo que lhe disse Frei Leão, por ordem, toda a visão que tivera, disse São Francisco:

‒ “O que viste é verdade. O grande rio é este mundo; os frades que se afogavam no rio são os que não seguem a profissão evangélica e especialmente quanto à altíssima pobreza.

“Mas os que sem perigo passaram são aqueles frades que nenhuma coisa terrena nem carnal buscam nem possuem neste mundo; mas, tendo somente o viver moderado e o que vestir, estão contentes em seguir ao Cristo nu na cruz; e o peso e o jugo manso de Cristo e da santa obediência levam alegremente e voluntariamente; e assim facilmente da vida temporal passam à vida eterna”.



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domingo, 31 de março de 2019

Os gigantes de Nideck

Ruínas do castelo de Nideck
Ruínas do castelo de Nideck
Luis Dufaur
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O castelo de Nideck, na Alsácia, está composto por 2 ruínas sobre um morro muito inclinado.

Esta singularidade do local e a vizinhança de uma grande cachoeira muito rumorosa tal vez tenha gerado uma lenda transmitida de pai a filho após inúmeras gerações.

Ela conta que há muitos séculos vivia no castelo de Nideck um casal de gigantes e sua “pequena” filha.

Ela ficava entediada nos imensos salões do castelo e, um dia, decidiu sair para conhecer as redondezas.

Ela vestiu de azul céu, arranjou seus cabelos para ficar bem bonita e partiu para descobrir o mundo de fora.

Com poucos passos, ela atravessou os morros e chegou até uma vasta planície que parecia deserta. Mas, lá embaixo, perto de seus pés, ela viu coisas que mexiam.

Pareciam minúsculas bonecas, entre as quais havia:

‒ uma boneca menino com bigode e um grande chapéu;

‒ uma boneca vaca que puxava uma charrete.

Maravilhada com essas bonecas que mexiam e faziam ruído, ela achou que:

domingo, 24 de março de 2019

São Luís, rei de França, com hábito de peregrino, foi visitar o santo Frei Egídio

São Luís IX, rei da França
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Indo São Luís, rei de França, em peregrinação visitar os santuários pelo mundo, e ouvindo a fama grandíssima da santidade de Frei Egídio, o qual fora dos primeiros companheiros de São Francisco, pôs no coração e determinou por tudo visitá-lo pessoalmente.

Pela qual coisa veio a Perusa, onde habitava então o dito Frei Egídio.

E chegando à porta do convento dos frades, como um pobre peregrino desconhecido com poucos companheiros, chamou com grande insistência por Frei Egídio, nada dizendo ao porteiro sobre quem fosse aquele que o chamava.

Foi, pois, o porteiro a Frei Egídio e disse-lhe que à porta havia um peregrino que o procurava: e por Deus lhe foi revelado em espírito que aquele era o rei de França.

Pelo que subitamente ele com grande fervor sai da cela e corre à porta e sem mais pergunta, ou sem que jamais tivessem estado juntos, com grandíssima devoção ajoelhando-se abraçaram-se e beijaram-se com tanta familiaridade como se há longo tempo tivessem tido grande amizade.

domingo, 17 de março de 2019

O anel do rei Santo Eduardo


Luis Dufaur
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Certo dia, o rei Santo Eduardo já velho assistia à cerimônia de consagração de uma igreja construída em honra de São João Evangelista.

Nessa hora, um homem muito pobre aproximou-se dele e mendigou-lhe uma esmola “pelo amor de São João”.

O grande monarca passou a mão na bolsa, mas não encontrou nem prata nem ouro.

Santo Eduardo, então, mandou vir seu tesoureiro, mas não foi localizado no meio da multidão. E o pobre seguia implorando esmola.

Santo Eduardo sentia-se muito mal à vontade. Nesse momento lembrou que trazia um anel grande e muito precioso.

 Então, ele o tirou do dedo, e pelo amor de São João o deu ao miserável, que lhe agradeceu gentilmente e desapareceu.

Eis o que aconteceu com o anel.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A dama branca do castelo de Puivert


Luis Dufaur
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Por causa da beleza, real ou imaginária, de uma mulher às vezes os homens cometem os erros mais incríveis, como sugere uma antiga lenda da região de Aude, na França.

Pelo fim do século XIII, uma linda princesa aragonesa foi convidada por Jean de Bruyères, senhor de Puivert para ficar em seu magnífico castelo.

Ela adorava as colinas da paisagem e, sobretudo, meditar olhando para o lago, sentada numa rocha em forma de cadeira esculpida como por arte de magia.

Mas, uma noite de tempestades fez desbordarem os rios e a cheia do lago cobriu a cadeira.

O senhor Jean, muito gentilmente se aproximou e disse à bela:

‒ “Mas, ... mas ... eu vejo muito triste minha senhora.”

domingo, 11 de novembro de 2018

Como São Francisco miraculosamente curou o leproso de alma e corpo; e o que a alma lhe disse subindo ao céu

São Francisco, Giovanni da Milano
(ativo entre 1346 e 1369)
Luis Dufaur
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O verdadeiro discípulo de Cristo, meu senhor São Francisco, vivendo nesta miserável vida, com todo seu esforço se empenhava em seguir a Cristo perfeito mestre.

De onde advinha frequentes vezes, por divina inspiração, que, de quem ele sarava o corpo, Deus na mesma hora lhe sarava a alma, tal como se lê de Cristo.

Pelo que servia não só voluntariamente os leprosos, mas havia também ordenado que os frades de sua Ordem, andando ou parando pelo mundo, servissem aos leprosos pelo amor de Cristo, o qual quis por nós ser considerado leproso.

Adveio em um lugar próximo ao em que morava São Francisco, servirem os frades em um hospital a leprosos e enfermos, no qual havia um leproso tão impaciente e insuportável e arrogante que cada um acreditava certamente, e assim o era, estar possuído do demônio.

Porque aviltava com palavras e pancadas tão cruelmente a quem o servisse, e, o que era pior, com ultrajes blasfemava contra Cristo bendito e sua Santíssima Mãe, a Virgem Maria, que por nenhum preço se encontrava quem o pudesse ou quisesse servir.

E ainda que os frades procurassem suportar pacientemente as injúrias e vilanias para aumentar o mérito da paciência, no entanto não podiam em sua consciência sofrer as contra Cristo e sua mãe, resolvendo por isso abandonar o dito leproso.

Mas não o quiseram fazer sem falar antes, conforme a Regra, com São Francisco, o qual vivia então em um convento próximo dali.

domingo, 28 de outubro de 2018

Cantiga de Santa Maria 113: “Pela razão hei de obedecer”

Luis Dufaur
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Esta história é a da grande pedra que caiu do morro sobre a igreja de Montserrat, e que desceu diretamente para arrebentar a igreja toda e o mosteiro.

Eu acho muito razoável que as pedras obedeçam à Mãe do Rei porque, quando Ele morreu por nós as pedras se racharam.

Este é um grande milagre que eu ouvi contar.

Que em Monserrat fez a Virgem, e ainda hoje se vê bem ali, com uma pedra que mexia e que chegou a cair.

E caiu de tal jeito que, se Deus a deixasse prosseguir, poderia destruir toda a igreja.

Mas, Deus não quis sofrer isto para defender a igreja de sua Mãe gloriosa, a Rainha espiritual.

Por isso desviou a pedra de tal maneira que não pudesse fazer mal e a fez descer tão devagar que depois não pôde mais girar.

Mas, os monges, que nessa hora cantavam a missa da Mãe de Deus, quando ouviram o grande ruído, disseram:

“Senhor, somos vossos, e não nos deixeis perecer nem morrer de mala morte”.

Dizendo isto, saíram da igreja e viram o rochedo ali onde tinha caído, porque Deus o tinha desviado e começaram a abençoar a Deus e à Virgem e seu poder.

domingo, 14 de outubro de 2018

O caos dos rochedos do « Pas de Soucy »

“Vou ganhar essa!”, fanfarronava grosso o Maligno
Luis Dufaur
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Nas gargantas do rio Tarn, uma acumulação imensa de rochedos parece querer barrar a passagem do rio.

Esta curiosa formação geológica tal vez esteja na origem da lenda do “Soussich do Tarn”, ou do “Caos do Pas de Souci”.

Após sua miraculosa cura na fonte de Burle, a princesa Santa Enimia projetou construir no local uma casa de oração para freiras.

Hélas! Como acontece com freqüência, Belzebu ouviu falar do projeto, e entrou no mais profundo desacordo.

Para pior, o diabo via que o prédio começava a subir.

Então, aproveitou a noite para destruí-lo com um só sopro.

domingo, 30 de setembro de 2018

A serpente de ouro


Luis Dufaur
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Ao ir um homem rico à cidade, perdeu o que levava consigo: um saco repleto, com mil talentos, sobre os quais havia uma serpente de ouro com olhos de ametista.

Um pobre que passava pela mesma estrada achou o saco e o entregou à esposa, contando-lhe como o achara. Ouvida a história, a mulher disse:

— Guardemos o que Deus nos deu.

No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:

— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.

Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:

— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.

— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.

O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.

Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:

— Fica sabendo que falta a outra serpente.

Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.

Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado.

Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.

Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda.

Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:

— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.

— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.

Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:

— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.

O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:

— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.


— Que concluís daí, ó filósofo?

— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.

O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:

— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.

Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.


(Petrus Alphonsi, in Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, Mar de Histórias – Nova Fronteira, Rio, 4ª ed. vol. 1, p. 158)


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domingo, 2 de setembro de 2018

A freira que quis fugir do convento

Luis Dufaur
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Eis como Santa Maria dissuadiu uma freira de ir embora de seu mosteiro com um cavalheiro.

“De muitas maneiras Santa Maria nos afasta do mal, tão leal Ela é conosco.”

Sobre isto, eu vou vos contar um milagre, tal como eu sei, que fez Nossa Senhora a uma freira a quem Ela deu grande prova de amor.

Essa monja era muito bela e observava tudo o que está na Regra.

Tudo o que era de agrado de Santa Maria ela fazia sempre e pontualmente.

domingo, 19 de agosto de 2018

Como São Pedro e São Paulo apareceram a São Francisco e Frei Masseo que pediam a santa pobreza

São Francisco de Assis, Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
São Francisco de Assis,
Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
Luis Dufaur
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O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, monsior São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo o que diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir.

Depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois.

E, para lhes dar o exemplo de verdadeira obediência, começou ele primeiramente a ir a exemplo de Cristo, o qual começou primeiramente a fazer do que a ensinar.

Pelo que, tendo designado aos companheiros as outras partes do mundo, ele, tomando Frei Masseo por seu companheiro, seguiu para a província da França.

E chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte e Frei Masseo por outra.

Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco.

domingo, 5 de agosto de 2018

O jogral no inferno


Luis Dufaur
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Em Sens, na França, havia um jogral incapaz de fazer mal a uma criança, mas que levava a vida mais desordenada que se possa imaginar.

Passava as horas e os dias na taberna, nas praças ou em lugares piores.

Ganhava algum dinheiro cantando e tocando seu instrumento, mas logo corria à procura de quem estivesse disposto a jogar, e perdia até a camisa do corpo.

Quando não tinha dinheiro, empenhava até sua viola para obtê-lo, e esse também se evaporava, porque de fato a sorte nunca o ajudava.

Por isso sempre vestia roupas maltrapilhas, andava descalço e sem dinheiro. Mas estava sempre contente, sorria sempre e cantava sem cessar.

Só pedia a Deus que convertesse todos os dias da semana em Domingo.

Acabou morrendo. Um diabo novinho, que ainda não fizera sua estreia no serviço de levar almas para seu patrão, e que durante o mês anterior percorrera vilas e campo à procura de oportunidade para cumprir suas incumbências, coincidiu de passar por ali no momento em que o jogral expirava, e se apoderou da sua alma. Colocou-a nos ombros e se mandou para o inferno.

Chegou na hora da chamada. Lúcifer estava no seu trono.

À medida que chegavam, os demônios depositavam aos pés do patrão a caça que haviam conseguido durante o dia. Um trazia um ladrão, outro trazia um guerreiro morto em combate, outros traziam bispos, monges, camponeses, burgueses, etc.

domingo, 13 de maio de 2018

Como São Francisco converteu à fé o sultão da Babilônia, e a cortesã que o induzia ao pecado

São Francisco, a mulher perdida e o sultão, detalhe, Benozzo Gozzoli (1421 - 1497), capela superior de Assis.
São Francisco, a mulher perdida e o sultão, detalhe,
Benozzo Gozzoli (1421 - 1497), capela superior de Assis.
Luis Dufaur
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São Francisco, instigado pelo zelo da fé cristã e pelo desejo do martírio, atravessou uma vez o mar com doze de seus companheiros santíssimos, para ir diretamente ao sultão de Babilônia.

E chegou a uma região de sarracenos, onde certos homens cruéis guardavam as passagens, que nenhum cristão que ali passasse podia escapar sem ser morto; como aprouve a Deus, não foram mortos, mas presos, batidos e amarrados foram levados diante do sultão.

E estando diante dele São Francisco, ensinado pelo Espírito Santo, pregou tão divinamente sobre a fé cristã, que mesmo por ela queria entrar no fogo.

Pelo que o sultão começou a ter grandíssima devoção por ele, tanto pela constância de sua fé, como pelo desprezo do mundo que nele via; porque nenhum dom queria dele receber, sendo pobríssimo; e também pelo fervor do martírio que nele via.