domingo, 9 de junho de 2019

Como Frei Leão só pode dizer o contrário do que São Francisco queria

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Estando uma vez São Francisco, no princípio da Ordem, com Frei Leão em um convento, onde não havia livro para rezar o ofício divino, ao chegar a hora de Matinas, disse São Francisco a Frei Leão:

“Caríssimo, não temos breviário, com que possamos rezar Matinas: mas, a fim de passarmos o tempo louvando a Deus, eu direi e tu me responderás como te ensinar; e toma cuidado, não digas as palavras de modo diverso do que te ensinar’.

Direi assim: ‘Õ irmão Francisco, praticaste tanto mal, tais pecados no século que és digno do inferno’; e tu, irmão Leão, responderás: ‘Verdadeira coisa é que mereces o inferno profundíssimo’

‒ E Frei Leão, com simplicidade columbina, respondeu: “Estou pronto, pai, começa em nome de Deus”.

Então São Francisco começou a dizer: “Ó irmão Francisco, praticaste tantos males e tantos pecados no século, que és digno do inferno”.

E Frei Leão respondeu:

‒ “Deus fará por ti tantos bens, que irás ao paraíso”.

Disse São Francisco: “Não digas assim, irmão Leão; mas quando eu disser: ‘Irmão Francisco, praticaste tanta coisa iníqua contra Deus, que és digno de ser maldito por Deus’, responderás: ‘Em verdade és digno de ficar mesmo entre os malditos”‘.

E Frei Leão respondeu: “De boa mente, pai”.

Então São Francisco, entre muitas lágrimas e suspiros e a bater no peito, disse em altas vozes: “Ó meu Senhor do céu e da terra; cometi contra ti tantas iniquidades e tantos pecados que por isso sou digno de ser amaldiçoado por ti”.

E Frei Leão respondeu:

‒ “Ó irmão Francisco, Deus te fará tal, que entre os benditos serás singularmente bendito”.

E São Francisco, maravilhando-se de Frei Leão responder sempre o contrário do que ele havia ordenado, repreendeu-o, dizendo: “Por que não respondes como te ensino? Ordeno-te, pela santa obediência, que respondas como te ensinar”.

Direi assim: ‘O irmão Francisco miserável, pensas tu que Deus há de ter misericórdia de ti; não é tão certo que tens cometido tantos pecados contra o Pai da misericórdia e o Deus de toda consolação, de modo que não és digno de encontrar misericórdia?’

E tu, irmão Leão, ovelhinha, responderás: ‘De nenhum modo és digno de alcançar misericórdia”‘.

Mas depois, quando São Francisco disse: “O irmão Francisco miserável”, etc., então Frei Leão respondeu:

‒ “Deus Pai, cuja misericórdia é infinita mais do que o teu pecado, fará em ti grande misericórdia e te encherá de muitas graças”.

A esta resposta São Francisco docemente irritado e pacientemente perturbado disse a Frei Leão: “Por que tiveste a presunção de ir contra a obediência, e por tantas vezes respondeste o contrário do que te impus?”

Respondeu Frei Leão muito humilde e reverentemente:

‒ “Deus o sabe, pai meu, que cada vez tive vontade de responder como me ordenaste: mas Deus me fez falar como quis e não como eu queria”.

Do que São Francisco se maravilhou e disse a Frei Leão: “Peço-te afetuosamente que desta vez me respondas como te disser”.

Respondeu Frei Leão: “Dize em nome de Deus, que por certo responderei desta vez como queres”.

E São Francisco, entre lágrimas, disse: “Ó irmão Francisco miserável, pensas que Deus terá misericórdia de ti?”

Responde Frei Leão:

‒ “Antes grandes graças receberás de Deus e serás exaltado e glorificado na eternidade, porque quem se humilha será exaltado: e eu não posso dizer de outro modo, porque Deus fala pela minha boca”.

E assim nesta humilde contenda, com muitas lágrimas e muita consolação espiritual, velaram até ao amanhecer.

Em louvor de Cristo. Amém.



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