domingo, 20 de novembro de 2022

A Cidade do Pavão

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A umas léguas de Paleacate, porto da costa de Coromandel, no meio das brenhas da vegetação tropical, encontrava-se no século de quinhentos uma cidade morta e deserta.

[Nota: Costa de Coromandel é o nome dado à faixa marítima de Tamil Nadu, no sudeste da Índia, banhada pelo oceano Índico. Em Chenai, antiga Madrás se venera o túmulo de São Tomé Apóstolo]

Grande cidade, evidentemente, a julgar pelos montões de pedras, ricamente esculpidas, e colunas ornadas de finos lavores, que se viam espalhadas pelo matagal – ruínas de templos, palácios e outros edifícios imponentes, agora a esboroar-se debaixo do sol escaldante do Estio e chuvas da monção.

Cidade destruída pela invasão das hordas muçulmanas – diziam alguns –, devassada por uma incursão catastrófica do mar que tragou a população e arrasou as casas – opinavam outros.

Fosse como fosse, muito se contava do esplendor antigo de Meliapor, dos seus trezentos templos e maravilhosos paços.

O seu nome significava Cidade do Pavão, porque entre as aves outra não há mais formosa do que o pavão.

Não era todavia para contemplar restos de glórias transactas, que os viajantes ainda visitavam a Cidade do Pavão. Era que sobre estas ruínas pairava uma auréola de santidade.

Corria fama por todo o Oriente de que a extinta Meliapor guardava as relíquias dum santo.

Diziam-no gentios e muçulmanos com a mesma convicção, e os cristãos das antigas igrejas da Ásia afirmavam, como sabido e certo, que aqui veio, pregou, e morreu martirizado, o Bem-aventurado Apóstolo São Tomé.

Imaginemos pois o alvoroço sentido por meia dúzia de portugueses, quando, em 1517, tendo desembarcado em Paleacate, uns armênios ali residentes se ofereceram para guiá-los à sepultura de São Tomé.

Catedral de São Tomé Apóstolo, Chennai (ex-Madrás), Índia
Catedral de São Tomé Apóstolo, Chennai (ex-Madrás), Índia
Partiram todos a pé, e andaram seis jornadas até chegar à cidade abandonada.

No meio das ruínas, foi-lhes apontado um modesto edifício – o único ainda de pé, antigo e danificado, apresentando a forma de igreja cristã com abóbada alta e coruchéu, e tendo três portas de madeira lavrada.

Aí, encontraram um velho indiano, meio cego, e evidentemente pobre. Era – dizia – o guardião desta casa, quem a varria e limpava, como o tinham já feito seus pais e avós e granjeava algumas esmolas para pagar o azeite da candeia, que acendia quando chegavam peregrinos.

Alumiados por esta, os portugueses penetraram no interior cheio de sombras, entre as quais descortinaram três naves e uma capela-mor, com cinco pavões esculpidos e cruzes gravadas nas paredes circundantes.

Em duas capelas laterais, viam-se duas sepulturas, cada qual do tamanho do corpo de um homem. Do lado direito, informaram os armênios, jazia o Apóstolo Bem-aventurado, e, à esquerda, estava enterrado o companheiro, São Matias.

Rogaram então ao velho que lhes narrasse tudo quanto sabia da história estranha deste lugar sagrado, e ele, de boa vontade, anuiu.

Havia muitos e muitos anos – talvez uns mil e quinhentos –, dizia o seu pai, que o ouvira de seus bisavós, os quais por sua vez o tinham ouvido aos antepassados, e o mesmo contavam os mais antigos desta terra – que em Paleacate desembarcaram dois estrangeiros, oriundos de terras remotas e então chegados da China.

Andando na praia, eles viram os elefantes do rei a puxarem com toda a força um pau enorme, lançado pelo mar, sem que o conseguissem. O principal dos recém-vindos pediu ao rei que lhes desse o lenho.

“Leva-o – respondeu ele, a rir – se puderes com o peso!”

Então, perante o espanto de todos, o homem desapertou o cinto, amarrou-o ao pau, que primeiro benzeu, e, tranquilamente, sem o menor esforço, foi-o levando atrás de si umas doze léguas, sertão dentro.

São Tomé toca nas chagas de Cristo. Museu The Cloisters, New York. Originário de Carinthia, Áustria.
São Tomé toca nas chagas de Cristo.
Museu The Cloisters, New York. Originário de Carinthia, Áustria.

Um santo, sem dúvida nenhuma! clamou a multidão, e onde parou com o lenho, o rei deu-lhe licença para fazer casa.

Todo o povo acorreu a ajudar. Queriam ser pagos em dinheiro ou em mantimentos? – perguntou o santo.

Aos que diziam dinheiro ele dava cavacos da obra, que se tornavam moedas; aos que optavam por comida, enchia as abas de areia, que logo se transformavam em arroz!

Assim a casa ergueu-se depressa, o santo ficou lá a viver, pregou o Evangelho e fez grandes milagres na terra.

O próprio rei converteu-se e foi baptizado com toda a família e muitos dos súditos, apesar da oposição furiosa dos brâmanes, sacerdotes do diabo.

Estes conseguiram provocar um motim contra o pregador das novas doutrinas, fazendo-o apedrejar e atravessar por uma lança. Isto conforme os mais entendidos.

O povo, todavia, contava a coisa de outra maneira!

O santo costumava ir rezar para o ermo da serra e – certamente para que não o incomodassem – transformava-se muitas vezes num pavão.

Ora aconteceu, certo dia, que um caçador, deparando com um grupo de lindos pavões no cume da montanha, atirou com a lança ao mais formoso.

Qual não foi o seu espanto quando viu a bela ave tomar a forma de homem – de um homem ferido de morte!

Quisera fugir, mas o santo deteve-o. que não se assustasse – pois a sua morte era da vontade do Senhor.

Que chamasse mesmo os seus discípulos para que o enterrassem na sua casa.

Assim se cumpriu e, desde então, todo o povo venerava esta sepultura, onde achava cura milagrosa para os seus males.



(Autor: Elaine Sanceau, “Recortes de pequena história”)

O túmulo de São Tomé Apóstolo em Chennai, ex-Madrás, Índia
O túmulo de São Tomé Apóstolo em Chennai, ex-Madrás, Índia
Nota: quando do tsunami de dezembro de 2004 que devastou aquela região, o templo que guarda as relíquias de São Tomé ficou imune às ondas gigantescas que, entretanto, destruíram todas as construções adjacentes.

Uma antiga tradição afirmava que um poste fixado pelo apóstolo limitaria até o fim dos tempos as águas, que jamais o ultrapassariam.

Este poste existe até os dias atuais e se localiza exatamente na porta principal da igreja que guarda as relíquias de São Tomé.

Isto deixou os sacerdotes hindus desconcertados e por isso prometeram não mais perseguir e discriminar os cristãos daquelas plagas. Fonte: Wikipedia, verbete São Tomé.



CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CIDADE SIMBOLOS
AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 13 de novembro de 2022

A catedral submersa

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Na Bretanha, as crianças ouvem contar a lenda da catedral submersa:

"Era uma vez uma catedral bonita, plantada havia muitos anos na beira do mar.

Era a jóia da aldeia, o povo gostava dela. Em dia de festa, mais bonita ficava, cheia de gente, e os sinos dobrando.

"Mas um dia — foi o vento? foi a maré muito forte? foram os pecados da gente que irritaram a Deus? — o certo é que o mar subiu e devorou a catedral.

Depois, durante muitos séculos não se ouviu falar mais da "cathédrale engloutie".

Mas quando era calma a noite, quando não silvava o vento gemendo no arvoredo, nem uivavam os cães na redondeza, se o barqueiro que singrasse aquelas ondas apurava o ouvido, escutava lá longe, vindo do fundo das águas, o claro som argênteo de sinos tocando.

Eram os sinos da catedral, que dobravam para as suas festas".

Ora, é um pouco assim com cada alma humana.

Quantas vezes esbarramos na vida com um ser abjeto, cheio de defeitos. Pensamos com asco que nada de sadio existe nele.

Bastaria, entretanto, aguçar o ouvido para escutar — muito distantes, talvez, mas sonoros e cristalinos — cantarem os sinos dessa "cathédrale engloutie".

O que é preciso é não desesperar de ninguém. É saber descobrir em cada coração o reflexo de Deus que aí existe, ainda que esteja envolto na lama.

É saber dar a esse mísero desgraçado a possibilidade de emergir para a vida. Fazer que cantem os sinos da catedral.



(D. Lucas Moreira Neves, "A semente é a palavra" - Paulinas, SP, 1969, pp. 13-16)


CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CIDADE SIMBOLOS
AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 16 de outubro de 2022

O mistério do castelo de Löwenstein

O mistério do castelo de Loewenstein, afinal não era tão complicado como parecia.
O mistério do castelo de Loewenstein, afinal não era tão complicado como parecia.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Na Idade Média vários castelos foram refúgio de bandidos.

Eis um dos que devastavam a Alsácia a partir do castelo de Löwenstein.

Ele ficou conhecido como o “Lindenschmitt”.

Por volta de 1380, um cavaleiro desafortunado e sem terra apoderou-se pela força do castelo de Löwenstein, pertencente à família Ochsenstein.

Para sobreviver, o cavaleiro, acompanhado por um bando de degoladores, sequestrava todos os viajantes e aqueles que circulavam pelo seu território.

Para fazer cessar as pilhagens e devolver a calma à região, formou-se um exército contra ele.

Os cavaleiros perseguiram e prenderam cada um dos malfeitores.

Mas, curiosamente, o chefe era impossível de ser achado.

Foram trazidos cães farejadores que seguiam as marcas deixadas pelo seu cavalo, mas eles não conseguiam descobrir a direção que tinha tomado.

Alguém disse que ele desaparecia dentro de uma pedra. Outro achava que se evaporava como uma nuvem.

Assim nasceu a lenda do cavaleiro.

O chefe dos criminosos fugia e ninguém sabia para onde tinha ido
O chefe dos criminosos fugia e ninguém sabia para onde tinha ido
Evidentemente, as discussões nas aldeias pegaram fogo.

— Alguns acharam que o cavaleiro tinha feito pacto com Satanás.

— Outros garantiam de fonte segura que ele era um fantasma.

Mas durante séculos ninguém soube a verdade.

O castelo foi amaldiçoado e a região ficou isolada do resto do mundo.

Mas hoje se conhece o que aconteceu.

Após muitos anos pesquisando no terreno, lendo escritos em bibliotecas poeirentas, consultando os bruxos, religiosos e druidas, se pode saber que:

Esse cavaleiro tinha um nome legendário: o “Lindenschmitt”.

Mas esse nome significa “o ferreiro que ferrava ao revés”.

Eis o segredo das desaparições: as marcas iam ao sentido inverso à direção que ele tinha tomado!




CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CIDADE SIMBOLOS
AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 9 de outubro de 2022

O vinho derramado

Castelinho de Carrouges, Normandia, França.
Castelinho de Carrouges, Normandia, França.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Havia na Normandia um fidalgo bastante pobre, que só podia dispor de umas poucas moedas para comprar diariamente seu alimento.

Uma certa manhã, verificou que só tinha em casa um pão, e decidiu comprar um pouco de vinho com algumas moedas de pouco valor. Foi à taberna próxima e pediu vinho.

O taberneiro, que era um homem grosseiro e desagradável, serviu-lhe de má vontade um copo de vinho.

Colocou-o na mesa tão bruscamente, que derramou quase a metade. Em vez de desculpar-se, disse com insolência:

“O senhor está com sorte. O vinho derramado significa alegria e riquezas”.

O fidalgo não quis protestar contra aquele mal educado, pois seria trabalho perdido. Mas achou que de algum modo deveria ajustar essas contas, e pediu que o taberneiro lhe trouxesse um pedaço de queijo.

O homem apanhou a moeda bruscamente e foi ao andar de cima buscar o queijo.

Enquanto isso o fidalgo levantou-se, abriu a torneira do tonel de vinho e deixou que ele escoasse livremente, formando uma lagoa vermelha no meio da taberna.

Quando o taberneiro voltou e viu o que acontecera, avançou furiosamente sobre o fidalgo.

Este se defendeu e conseguiu lançá-lo de encontro ao tonel, que caiu ao chão junto com seu dono, entornando o que restava do vinho.

Taverna, Provins, França.
Taverna, Provins, França.
Acudiram vizinhos e soldados, separaram os contendores e os levaram junto ao rei.

O taberneiro falou primeiro e pediu uma indenização.

Antes de dar a sentença, o rei quis ouvir também o fidalgo, que narrou o sucedido com toda a veracidade, e acrescentou:

“Senhor, este homem me disse, quando entornou a metade do vinho que me vendera, que isso era sorte minha, pois vinho derramado significa alegria, e que eu me tornaria rico.

“Pensei então que, se eu me tornaria rico por ter derramado só meio copo de vinho, o bom taberneiro se tornaria muito mais rico e feliz se derramasse meio tonel.

“Cheio de reconhecimento e gratidão, resolvi então abrir a torneira do tonel, e o resto já conheceis”.

O rei e toda a corte se divertiram com a engenhosa justificativa, e o fidalgo foi dispensado sem pagar a pretendida indenização.





(Jakes de Basin, in R. Menéndez Pidal, Antología de cuentos – Labor, Barcelona, 1953)



CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CIDADE SIMBOLOS
AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 25 de setembro de 2022

As doze palavras ditas e retornadas

Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.
Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Era uma vez um homem muito trabalhador e honrado, mas infeliz em todo negócio em que se metia. Tinha ele devoção ao Anjo da Guarda, rezando todos os dias em sua intenção.

Cada vez mais pobre, o homem perdeu a paciência, e um dia gritou, desesperado com sua triste sina:
— Acuda-me o diabo, que o Anjo da Guarda não me quer ajudar!

Apareceu um sujeito alto, todo vestido de preto, barbudo e feio, com uma voz roufenha e desagradável:
— Aqui estou! Aqui estou! Que é que queres de mim?
— Quero ficar rico.

O diabo indicou uma gruta onde havia um tesouro enterrado, e disse:
— Daqui a vinte anos voltarei para buscar-te. Se não disseres as doze palavras ditas e retornadas, serás meu para toda a eternidade.

O homem começou a viver folgadamente, em festas e alegrias, cercado de amigos e de mulheres.

O tempo foi passando, e uma noite ele lembrou-se de que estava condenado às penas do inferno. Só se soubesse as doze palavras ditas e retornadas...
— Isso deve ser fácil — disse ele consigo. — Todo mundo deve saber.

No dia seguinte perguntou aos amigos, aos vizinhos e a todos os moradores da cidade, e não havia quem soubesse o que vinha a ser o que ele lhes perguntava.

O homem afligiu-se muito. Cada vez mais o tempo passava, e ninguém sabia o segredo das doze palavras ditas e retornadas. Largou ele a vida má que levava, fez penitência e saiu pelo mundo, perguntando. Todos diziam:

São Miguel Arcanjo. Pacino di Buonaguida (1280 – 1340).
— Não sei, nunca ouvi falar...

O homem só faltava morrer, com o pavor da ideia de ter de encontrar-se com o diabo e ser carregado para o fogo eterno.

Já correra muito tempo desde que deixara o folguedo dos ricos, vestindo com modéstia e dando esmolas.

Uma tarde, ia por um bosque na hora da "Ave-Maria". Ajoelhou-se para rezar, e ao terminar viu um velho que se aproximava dele.

Cumprimentou-o, e foram andando juntos para a vila. Perguntou ao velho como ele se chamava.
— Chamo-me Custódio — respondeu.

Para não deixar de perguntar, falou nas doze palavras ditas e retornadas. E o velho Custódio lhe disse:
— Eu sei as doze palavras ditas e retornadas.

O homem ficou tão satisfeito que abraçou o velho, dando graças a Deus e dizendo que aquilo era um milagre do Anjo da Guarda, sua devoção antiga.

— Como são as doze palavras ditas e retornadas? Qual é a primeira, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! A primeira palavra dita e retornada é a Santa Casa de Belém, onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, para nos remir e salvar.

— E as duas palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As duas palavras ditas e retornadas são as duas tábuas de Moisés, em que Nosso Senhor pôs seus divinos pés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as três palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo não! As três palavras ditas e retornadas são as três pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as duas tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

São Miguel Arcanjo. Fragmento de um Gradual. Cracóvia, Polônia
— E as quatro palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As quatro palavras ditas e retornadas são os quatro evangelistas, as três são as pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as cinco palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As cinco palavras ditas e retornadas são as cinco chagas de Nosso Senhor.

— E as seis palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As seis palavras ditas e retornadas são as seis velas bentas que estão no altar-mor de Jerusalém.

— E as sete palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As sete palavras ditas e retornadas são os Sete Sacramentos.

— E as oito palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As oito palavras ditas e retornadas são as oito bem-aventuranças pregadas por Nosso Senhor Jesus Cristo.

— E as nove palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As nove palavras são os nove meses que a Virgem Mãe trouxe Nosso Senhor.

— E as dez, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As dez palavras ditas e retornadas são os Mandamentos da Lei de Deus.

São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
— E as onze palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As onze palavras são as onze mil virgens.

— E as doze, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As doze palavras ditas e retornadas são os doze apóstolos, as onze são as onze mil virgens, as dez os Mandamentos, as nove os meses de Nossa Senhora, as oito as bem-aventuranças, as sete os Sacramentos, as seis as velas bentas, as cinco as chagas, as quatro os evangelistas, as três a Santíssima Trindade, as duas as tábuas de Moisés, a primeira a Santa Casa de Belém, onde nasceu quem nos salvou. Amém! Estas são as doze palavras ditas e retornadas.

— De joelhos te agradeço, amigo Custódio, essa esmola, a qual há de salvar-me do demônio!

— Custódio, sim, e teu amigo. Sou o Anjo da Guarda que vem perdoar-te pelo arrependimento e pela penitência.

E sumiu-se. O homem, quando chegou o prazo para prestar contas ao diabo, disse as doze palavras ditas e retornadas, e o maldito rebentou como uma bola de fogo, espalhando cheiro de enxofre.

O homem viveu santamente seus dias, e acabou na paz de Deus, salvando-se graças ao seu Anjo da Guarda.



(Fonte: “Maravilhas do conto popular” - Cultrix, SP, 1960)



CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CIDADE SIMBOLOS
AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS