domingo, 25 de setembro de 2022

As doze palavras ditas e retornadas

Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.
Bíblia de Carlos V. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Era uma vez um homem muito trabalhador e honrado, mas infeliz em todo negócio em que se metia. Tinha ele devoção ao Anjo da Guarda, rezando todos os dias em sua intenção.

Cada vez mais pobre, o homem perdeu a paciência, e um dia gritou, desesperado com sua triste sina:
— Acuda-me o diabo, que o Anjo da Guarda não me quer ajudar!

Apareceu um sujeito alto, todo vestido de preto, barbudo e feio, com uma voz roufenha e desagradável:
— Aqui estou! Aqui estou! Que é que queres de mim?
— Quero ficar rico.

O diabo indicou uma gruta onde havia um tesouro enterrado, e disse:
— Daqui a vinte anos voltarei para buscar-te. Se não disseres as doze palavras ditas e retornadas, serás meu para toda a eternidade.

O homem começou a viver folgadamente, em festas e alegrias, cercado de amigos e de mulheres.

O tempo foi passando, e uma noite ele lembrou-se de que estava condenado às penas do inferno. Só se soubesse as doze palavras ditas e retornadas...
— Isso deve ser fácil — disse ele consigo. — Todo mundo deve saber.

No dia seguinte perguntou aos amigos, aos vizinhos e a todos os moradores da cidade, e não havia quem soubesse o que vinha a ser o que ele lhes perguntava.

O homem afligiu-se muito. Cada vez mais o tempo passava, e ninguém sabia o segredo das doze palavras ditas e retornadas. Largou ele a vida má que levava, fez penitência e saiu pelo mundo, perguntando. Todos diziam:

São Miguel Arcanjo. Pacino di Buonaguida (1280 – 1340).
— Não sei, nunca ouvi falar...

O homem só faltava morrer, com o pavor da ideia de ter de encontrar-se com o diabo e ser carregado para o fogo eterno.

Já correra muito tempo desde que deixara o folguedo dos ricos, vestindo com modéstia e dando esmolas.

Uma tarde, ia por um bosque na hora da "Ave-Maria". Ajoelhou-se para rezar, e ao terminar viu um velho que se aproximava dele.

Cumprimentou-o, e foram andando juntos para a vila. Perguntou ao velho como ele se chamava.
— Chamo-me Custódio — respondeu.

Para não deixar de perguntar, falou nas doze palavras ditas e retornadas. E o velho Custódio lhe disse:
— Eu sei as doze palavras ditas e retornadas.

O homem ficou tão satisfeito que abraçou o velho, dando graças a Deus e dizendo que aquilo era um milagre do Anjo da Guarda, sua devoção antiga.

— Como são as doze palavras ditas e retornadas? Qual é a primeira, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! A primeira palavra dita e retornada é a Santa Casa de Belém, onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, para nos remir e salvar.

— E as duas palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As duas palavras ditas e retornadas são as duas tábuas de Moisés, em que Nosso Senhor pôs seus divinos pés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as três palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo não! As três palavras ditas e retornadas são as três pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as duas tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

São Miguel Arcanjo. Fragmento de um Gradual. Cracóvia, Polônia
— E as quatro palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As quatro palavras ditas e retornadas são os quatro evangelistas, as três são as pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

— E as cinco palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As cinco palavras ditas e retornadas são as cinco chagas de Nosso Senhor.

— E as seis palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As seis palavras ditas e retornadas são as seis velas bentas que estão no altar-mor de Jerusalém.

— E as sete palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As sete palavras ditas e retornadas são os Sete Sacramentos.

— E as oito palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As oito palavras ditas e retornadas são as oito bem-aventuranças pregadas por Nosso Senhor Jesus Cristo.

— E as nove palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As nove palavras são os nove meses que a Virgem Mãe trouxe Nosso Senhor.

— E as dez, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As dez palavras ditas e retornadas são os Mandamentos da Lei de Deus.

São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
São Jorge. Oficio holandês. Liège, Bélgica.
— E as onze palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As onze palavras são as onze mil virgens.

— E as doze, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As doze palavras ditas e retornadas são os doze apóstolos, as onze são as onze mil virgens, as dez os Mandamentos, as nove os meses de Nossa Senhora, as oito as bem-aventuranças, as sete os Sacramentos, as seis as velas bentas, as cinco as chagas, as quatro os evangelistas, as três a Santíssima Trindade, as duas as tábuas de Moisés, a primeira a Santa Casa de Belém, onde nasceu quem nos salvou. Amém! Estas são as doze palavras ditas e retornadas.

— De joelhos te agradeço, amigo Custódio, essa esmola, a qual há de salvar-me do demônio!

— Custódio, sim, e teu amigo. Sou o Anjo da Guarda que vem perdoar-te pelo arrependimento e pela penitência.

E sumiu-se. O homem, quando chegou o prazo para prestar contas ao diabo, disse as doze palavras ditas e retornadas, e o maldito rebentou como uma bola de fogo, espalhando cheiro de enxofre.

O homem viveu santamente seus dias, e acabou na paz de Deus, salvando-se graças ao seu Anjo da Guarda.



(Fonte: “Maravilhas do conto popular” - Cultrix, SP, 1960)



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domingo, 11 de setembro de 2022

Muito devemos amar a Nossa Senhora

Nossa Senhora dos Bons Ares. Buenos Aires, Argentina
Nossa Senhora dos Bons Ares. Buenos Aires, Argentina
Luis Dufaur
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Esta cantiga conta como Santa Maria apareceu numa noite no mastro de uma nave que ia para Bretanha e libertou-a do perigo.

“Muito devemos amar com todo nosso coração a Senhora que afasta de nós males e tempestades.”

Disso deu prova a Virgem no mar da Bretanha, onde fez uma maravilha tão grande como nenhum outro santo pode realizar, quando Ela foi salvar uma nave que levava um mundo de homens procurando a boa fortuna que todos procuramos.

Enquanto singravam o mar foi de tal maneira grande seu risco, porque se formou uma grande tormenta e fez-se escura a noite, sem que nada adiantasse, nem experiência nem cordura, e todos acreditaram que iriam morrer, tende isso por certo.

Quando perceberam tamanho perigo, gemendo e chorando, começaram a rezar aos santos todos, invocando-os pelo seu nome a cada um deles, rogando que viessem em seu auxílio, por pena deles.

Ouvindo tudo isso, um abade que na nave ia, disse-lhes: “Eu estou achando que vós fazeis uma grande loucura indo rogar a outros santos e não a Santa Maria, que é a que nos pode salvar desta; Ela é a única que nunca falha”.

Quando ouviram aquele santo abade dizer isto, então todos com unânime vontade e coração apelaram à Virgem Santa, Mãe da piedade, que lhes viesse em auxílio, que não olhasse para suas maldades.

E diziam: “Senhora nos valha, que a nave afunda”.

Na hora que diziam isto, olharam como de costume para o mastro, e acima dele viram uma grande luz que iluminava muito mais do que qualquer outra claridade.

E logo após aparecer a luz o vento acalmou, eles viram claramente o céu, o mar amansou, e chegaram logo ao porto que desejavam, fato que os deixou satisfeitos, não tenhais dúvida alguma.

Vídeo: Muito devemos amar a Nossa Senhora





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domingo, 4 de setembro de 2022

O Poço do Diabo no castelo de Fleckenstein

Diabo mascando precitos. Coppo di Marcovaldo, batistero da catedral de Florença.
Diabo mascando precitos. Coppo di Marcovaldo, batistero da catedral de Florença.
Luis Dufaur
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O altaneiro castelo de Fleckenstein fica na Alsácia, França. Hoje a fortaleza medieval está em ruínas.

Mas ela tem um poço de mais de 70 metros de profundidade inteiramente entalhado na rocha. Essa façanha não parece humana e fez nascer a lenda do Poço do Diabo de Fleckenstein:


“O ponto débil de todo castelo é a água. Se ficar sem ela o inimigo podia exigir a rendição.

“Por isso o senhor feudal de Fleckenstein fiz vir os melhores entendidos em poços da região. E eles se puseram a trabalhar encarniçadamente. Eles queriam topar o desafio!

“Dia após dia, semana após semana, o poço se aprofundava, mas nenhuma gota d’água aparecia para refrescá-los.

“Após um ano de um trabalho de Hércules, eles tinham atingido uma profundidade “próxima do centro da terra”, como eles diziam.

“Ali, os raios do sol não podiam mais iluminá-los e eles trabalhavam numa obscuridade desconhecida.

“E nunca encontravam a água!

“Foi então que apareceu um estranho poceiro. Ninguém conhecia-o.

O castelo de Fleckenstein na Idade Média
O castelo de Fleckenstein na Idade Média
“E ele foi dizendo que ele, e só ele, poderia achar logo água cristalina e gostosa.

‒ “Negócio fechado!”, exclamou o senhor feudal dando tapas nas costas do desconhecido num gesto que lembrou um pacto!

‒ “Tu terás o que queiras em troca da água”, acrescentou o dono do castelo.

“O curioso personagem pôs-se então a trabalhar diante dos poceiros extenuados e incrédulos.

“Ao cabo de algumas horas, ele declarou com certeza diante de uma multidão de olhares espantados que ele, por fim, tinha encontrado água “abundante e fresca”

“Ele, então, convidou o nobre senhor a descer com ele até o fundo do obscuro furo.

“Os dois homens montaram numa cestinha amarrada com uma corda e desceram lentamente.

“A cestinha descia e descia. Isso começou a durar demais e só havia trevas em volta.

“Quando pareciam ter chegado até o fundo do poço, o senhor de Fleckenstein começou a achar que estava vendo chamas.

“No meio daqueles luores enigmáticos ele percebeu que seu companheiro começava a se transformar.

Ruínas do castelo de Fleckenstein onde foi aberto o Poço do Diabo
Ruínas do castelo de Fleckenstein onde foi aberto o Poço do Diabo
“Seus pés iam se parecendo com o pezunho do bode, chifres cresciam na sua fronte e, no fundo do buraco, as chamas tentavam queimar-lhe os pés!

“Ele logo compreendeu: o estranho poceiro não era outro senão o diabo que o levava para os infernos !!!!

“O nobre cavaleiro, então, rezou a Nossa Senhora, clamou a Ela que lhe obtivesse a graça de Deus.

“E, enquanto rezava, o diabo pulou da cesta e lhe fez sinal de descer e entrar nas labaredas do seu sinistro, infeliz e eterno reino.

“Mas, o barão apavorado soltou poderosos brados de recusa. Os seus ajudantes, lá acima ouviram os gritos e começaram a puxar a corda.

“Ah! O diabo não ia deixar escapar fácil sua presa! Era dele! Ao menos assim pensava o bandido.

“Dependurou-se da cestinha e começou a balançá-la com toda sua força para que o passageiro caísse nas brasas ardentes de seu malcheiroso reino.

“Lá foram os dois brigando. O nobre invocando a Nossa Senhora se segurava com força da cestinha que para ele virou uma imagem da Igreja, a Arca de Salvação.

“O diabo blasfemava como um herege, chacoalhava a cesta, puxava-a para baixo e para todos os lados, e amaldiçoava a Mãe de Deus que era mais forte do que ele.

Entrada do Poço esquisito
“Assim foram subindo até que começaram a ver os primeiros raios do sol.

‒ “Maldito sol! blasfemou o anjo das trevas. “Faz-me lembrar Deus! E São Miguel o dia que me aprisionou no fundo da terra entre enxofre e chamas!”

“A luta foi dura.

“Alguns que ali estiveram garantem que saíam faíscas e chamas do poço...

‒ “Arrgh! O sol, a luz, tudo isso fala de Deus! Não aguento mais, bradou desesperado o pai da revolta, largou a cestinha e jogou-se no precipício.

“O dono do castelo foi salvo. Assim que ele pôs o pé em terra mandou derramar litros de água benta dentro do poço.

“Ainda hoje e desde aquele dia desce uma água clara e fresca para os habitantes da cidade vizinha. E ela vem do poço do castelo!”



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domingo, 21 de agosto de 2022

Zmovit, o cego fundador da Polônia

Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia, Polônia.
Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia, Polônia.
Luis Dufaur
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Era uma terra onde o trigo brotava, louro e farto, em imensas planícies. Também o linho ali crescia. A gente do lugar ocupava-se com a agricultura, e nunca lhe faltava alimento são e frutos gostosos, que a boa terra oferecia generosamente.

Das grandes florestas tiravam a madeira com que construíam suas casas, chamadas isbás.

Apesar de o inverno rigoroso cobrir de neve, durante longo tempo, as grandes planícies, transformando os pinheiros em árvores de cristais que refulgiam ao sol, os camponeses sentiam-se felizes, festejando com cânticos os dias alegres e consolando-se mutuamente quando surgiam as horas de tristeza.

Entre esses camponeses havia um, chamado Piast, homem respeitado e querido pelos companheiros. Era bom e forte, sempre pronto para auxiliar os menos felizes.

Esse bom Piast amava ternamente a esposa e o único filho que tinha. O menino se chamava Zmovit, e era uma criança encantadora. A pele fresca e rosada como flor recém-aberta, os cabelos como que feitos de pura seda cor de sol.

Zmovit tinha os olhos azuis. Olhos imensos, puros e claros como duas estrelas. Mas — ai dele! — seus olhos eram estrelas, sim, mas duas tristes estrelas mortas, sem luz e sem calor: Zmovit, o filho do camponês Piast, nascera cego.

Os pobres pais choravam, mas Zmovit nada sabia da tristeza deles. Passava os dias sentado à porta da isbá. Inventava canções e poesias, erguendo a voz meiga, no silêncio das tardes, para louvar as coisas belas que existiam sobre a terra, as coisas que ele não podia ver, mas aprendera a amar através dos olhos maternos.

Ora, na terra do camponês Piast adoravam-se ainda toda sorte de deuses pagãos. Ainda não conheciam ali o único e verdadeiro Deus, e o nome divino de Jesus Cristo nunca fora pronunciado entre aquela gente.

Havia um costume estranho entre eles. As crianças, em vez de receberem o batismo, passavam por uma cerimônia, no dia em que completavam sete anos.

Essa cerimônia consistia em cortar os cabelos, que até aquela data tinham permissão de crescer à vontade. Nesse dia a criança era consagrada aos deuses, e os pais faziam uma bonita festa, convidando todos os vizinhos.

No dia em que Zmovit devia cortar seus cabelos cor de sol, a pobre mãe estava bem triste. Via a despensa quase vazia. Pouco vinho e pouco mel havia, para oferecer aos convidados.

Também os frutos eram escassos, e a carne de que dispunham não daria para satisfazer a todos. A mãe de Zmovit estava triste, porque desejara que a festa de seu filho fosse farta e alegre.

Queixava-se assim a boa mulher, quando lhe bateram à porta dois peregrinos pobres. Vinham cansados e com fome.

O casal de camponeses nem por um momento pensou em recusar-lhes hospedagem. Escolheram ambos as melhores frutas e o mais claro mel, para os viajantes desconhecidos. Com isso haveria ainda menos fartura na festa de Zmovit, mas não importava. Antes de tudo estava o dever de caridade.

Terminada a refeição, porém, um dos peregrinos levantou-se e disse:
— Meus amigos, destes com amor, a dois pobres que passavam, o que de melhor tínheis em vossa despensa, não pensando na vergonha que iríeis sentir quando os vizinhos viessem para a festa deste menino e nada encontrassem. Ouvistes apenas a voz do coração, e destes alimento aos famintos e matastes a sede dos caminhantes exaustos. Sois dignos de conhecer o único Deus verdadeiro, Aquele que fez o Céu e a Terra!

Uma grande luz inundou então a cabana. As vestes dos peregrinos tombaram ao chão, e os camponeses, mudos de espanto, viram que ali estavam dois anjos de faces resplandecentes, dois mensageiros de Deus.

Anjo com o escudo da Polônia. Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia.
Anjo com o escudo da Polônia.
Basílica de Nossa Senhora, na Praça do Mercado, Cracóvia.
Um deles, abrindo a porta da despensa, fez a mãe de Zmovit ver que as prateleiras, momentos antes vazias, estavam transbordando agora de vinhos e de alimentos deliciosos, ricamente preparados para a festa.

Entraram os vizinhos, em ruidoso bando, ataviados com seus coloridos trajes domingueiros, tocando flautas e dançando. Foram chegando e rodeando o casal e seu filho cego.

O mais velho do grupo adiantou-se e fez um sinal. A música e os cânticos cessaram, e em meio ao silêncio respeitoso que se fez, a voz do ancião ergueu-se:

— Amigo Piast, és homem honrado e bom. Nossa gente tem aumentado e nossa tribo já é um povo. Queremos que sejas nosso rei, o primeiro rei desta terra fértil e boa, que se chamará Polônia. Porque Polônia quer dizer planície, e esta é a terra das grandes planícies, cheias de trigo e de sol.

E todos gritaram:
— Viva! Viva Piast! Viva o primeiro rei da Polônia!

Piast chorava, não porque agora era rei, mas por ver quanto o estimavam os seus vizinhos. Contudo, as felizes surpresas ainda não estavam terminadas.

Zmovit fora trazido para o meio da casa, e começaram a cortar-lhe os cabelos, conforme mandava o cerimonial do dia.

O pequeno conservava-se imóvel, com os imensos olhos azuis muito abertos e um sorriso angelical nos lábios. Ao tombar o último cacho de seu cabelo cor de sol, ele deu um grande grito:
— Eu vejo, eu vejo! Ó minha mãe, eu vejo!

Então, todos quantos ali estavam tombaram de joelhos. Os anjos peregrinos reapareceram, e disseram:

— Esta criança cega era símbolo deste pobre povo pagão. Ela abre hoje os olhos à luz, como este povo abre o coração a Deus Todo-Poderoso!

E desde então existe um grande país católico, chamado Polônia.

(Fonte: Fernando Correia da Silva, "Maravilhas do Conto Popular" - Cultrix, SP, 1968)


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domingo, 14 de agosto de 2022

Quem quer que confie na Virgem

Virgen de la Majestad, Espanha
Virgen de la Majestad, Espanha
Luis Dufaur
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Cantiga 167 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga conta como aconteceu que uma moura de Borja levou seu filho morto a Santa Maria de Salas, e como Ela o ressuscitou.

“Quem quer que na Virgem confie e roga veemente, Ela vai ser de seu auxílio ainda que tenha outra crença”.

Foi em razão disto que Santa Maria de Salas fez um milagre formoso e piedoso a uma moura de Borja cujo filho estava muito vigoroso, mas morreu o pobre coitado de uma forte doença.

Ela não sabia o que fazer pela dor que sentia pelo filho, mas via que as católicas iam a Santa Maria de Salas e ouviu falar dos milagres que Ela fazia; e teve a grande ousadia de depositar sua confiança na Virgem e encomendou-lhe o filho e apresentou oferendas.

Mas, às outras mouras que brigavam muito com ela por causa disto, ela lhes disse:

domingo, 31 de julho de 2022

O trombeteiro de Nossa Senhora

Igreja de Nossa Senhora, Cracóvia, Polônia
Luis Dufaur
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Conta-se até no longínquo Cazaquistão uma história ligada à mais alta torre da igreja de Nossa Senhora em Cracóvia.

Com 81 metros de altura, ela é conhecida como a Torre da Guarda. Ainda hoje é o ponto mais alto da cidade.

A vida nunca foi fácil em nenhuma parte, mas era especialmente difícil nos inícios da Polônia.

As cidades da Europa Central eram atacadas por hordas de bárbaros pagãos vindos da Mongólia, acumpliciados por vezes com aliados locais.

Em face do perigo, os conselheiros municipais de Cracóvia decidiram que um guarda ficaria sempre a postos no alto da torre de Nossa Senhora.

Do alto, ele alertaria os habitantes tão logo visse os mongóis se aproximarem.

Durante muitos anos, os guardas cumpriram sua missão a contento, alertando os habitantes da cidade diante das ameaças.

Por isso, fazer a guarda no topo da torre era tido como um privilégio reservado aos homens mais honrados e respeitáveis da cidade.

domingo, 24 de julho de 2022

O Rei Midas: avarento que morreu de fome

Tudo o que tocava virava ouro... até morrer de fome!!!
Tudo o que tocava virava ouro... até morrer de fome!!!
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Narra a mitologia que o rei Midas era muito avarento.

Por ter tratado bem a Sileno, seu prisioneiro, recebeu dos deuses a grande recompensa de converter em ouro tudo quanto sua mão tocasse. Uma bela fortuna, não é verdade?

Fora de si de contente, aquele rei tocou seu bastão, e o bastão se converteu em ouro cintilante.

Tocou a parede, e a parede tornou-se num bloco de ouro preciosíssimo. No palácio real, tudo agora era ouro.

O rei assentou-se à mesa para o jantar. A sopa, apenas lhe tocou os lábios, tornou-se ouro. O pão, a carne, tudo ouro.

De sorte que Midas não pôde tomar alimento algum, e depois de alguns dias ia morrendo de fome, embora rodeado de ouro.

Assim diz a fábula. Mas eu vos digo, em outro sentido, que também nós possuímos um meio de converter em ouro — isto é, em mérito preciosíssimo — todas as nossas obras.

domingo, 17 de julho de 2022

O gigante da catedral de Lund

Luis Dufaur
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Em Zchonen, cidade universitária e primeiro arcebispado da Escandinávia, ergue-se formosa catedral romana.

Debaixo do coro, abre-se grande e bela cripta.

Dizem todos que a igreja nunca será terminada, que sempre faltará alguma coisa, e que o motivo é este:

Quando São Lourenço chegou a Lund, a fim de pregar o Catolicismo, desejou construir uma igreja, mas carecia dos meios necessários e não sabia onde arranjá-los.

Pensando constantemente no seu objetivo, teve um dia a surpresa de ver na sua frente um gigante, que se ofereceu para em pouco tempo erguer o templo, contanto que São Lourenço adivinhasse o seu nome antes do fim.

domingo, 10 de julho de 2022

A morte de São José

São José em agonia, igreja de São José, Rio de Janeiro
São José em agonia, igreja de São José, Rio de Janeiro

Gregório Vivanco Lopes

No dia 19 de março comemora-se a festa de São José. A propósito, é oportuno reproduzir o Conto inspirado no conjunto escultural representando São José em agonia (foto), que se venera na igreja de São José, no centro do Rio de Janeiro, ao lado da Assembleia Legislativa.

São José chegara ao fim de seus dias. Ninguém como ele, entre tantos varões veneráveis que o precederam na santidade, fora incumbido de missão tão alta. Ele era o guarda e protetor do Filho de Deus feito homem e de sua Mãe santíssima.

Deus Pai o escolhera pessoalmente para esse mister elevado entre todos. E São José cumprira sua missão com tanta perfeição, tanta dignidade, tanta humildade junto a seus inefáveis protegidos, tanta força e astúcia contra os inimigos de Jesus, insuflados por toda parte pelo demônio, que esteve inteiramente à altura dos desígnios divinos.