domingo, 30 de outubro de 2016

O rapaz que foi estrangulado pelo demônio

Detalhe do Juízo Final na fachada de Notre Dame de Paris
Detalhe do Juízo Final na fachada de Notre Dame de Paris
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Dois estudantes, dando-se mais à vadiação do que aos estudos, resolveram ir passar a noite numa casa suspeita.

Por um resto de pudor, porém, um deles desistiu e ficou na pensão, indo só o outro.

Na hora de deitar-se, segundo o seu hábito, o primeiro rezou ao pé da cama três Ave-Marias.

Era um costume de família, que manteve no colégio onde fez seus preparatórios.

Logo que se deitou, ouviu umas pancadas na porta, e o seu infeliz companheiro apareceu no quarto. Que mudança!

Que rosto lívido!

— Que lhe aconteceu? — perguntou.

Diabo. Hans Memling (1430/1440 — 1494)
— Ah! Meu amigo, que infelicidade a minha! Ao sair de casa, fui agarrado por um demônio e estrangulado no meio da rua. Meu corpo está na calçada, e minha alma no inferno. Esperava-te a mesma sorte, mas Nossa Senhora te poupou esta infelicidade, pelas Ave-Marias que rezaste. Feliz serás, se aproveitares este aviso que a Mãe de Deus te dá por minha boca.

Dito isto, a visão desapareceu. O moço desatou em prantos e agradeceu à sua Benfeitora por tamanho favor.

Pediu-lhe força e coragem para mudar de vida.

De manhã cedo, encaminhou os passos para o convento dos Franciscanos, pedindo ser admitido sem demora na Ordem.

Conhecendo-lhe a vida desregrada, o Superior não acedeu ao seu desejo.

Porém, depois que o moço narrou o acontecido, dois religiosos foram mandados para averiguar a verdade.

Com efeito, acharam o corpo do infeliz moço, com o rosto enegrecido como carvão.

O postulante foi então admitido ao noviciado. Tornou-se religioso exemplar e foi enviado às Índias para pregar o Evangelho.

Terminou a vida derramando seu sangue no martírio.


(Fonte: S. Afonso de Ligório, apud "Maria ensinada à mocidade" - Livraria Francisco Alves, Rio, 1915)



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domingo, 16 de outubro de 2016

Como São Francisco conhecia os segredos das consciências

São Francisco. Vicente Carducho (1576 ou 1578 - 1638)
São Francisco. Vicente Carducho (1576 ou 1578 - 1638)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Como Nosso Senhor Jesus Cristo disse no Evangelho: “Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem a mim”, etc., assim o bem-aventurado Pai São Francisco, como bom pastor, sabia por divina revelação de todos os méritos e virtudes de seus companheiros, e assim conhecia seus defeitos.

Razão pela qual ele sabia prover com ótimo remédio, isto é, humilhando os soberbos e exaltando os humildes, vituperando os vícios, louvando as virtudes; como se lê nas admiráveis revelações que tivera daquela sua primitiva família.

Entre as quais se fala que uma vez estando São Francisco com a dita família em um convento a tratar de Deus, e Frei Rufino não estando com eles naquela conversação, mas estava na floresta em contemplação.

Continuando a conversação sobre Deus, eis que Frei Rufino sai da floresta e passa um pouco diante deles.

Então São Francisco, vendo-o, voltou-se para os companheiros e lhes perguntou dizendo-lhes:

“Dizei-me qual acreditais que seja a mais santa alma, a qual Deus tenha agora no mundo?”

E respondendo-lhe acreditarem que fosse a dele, São Francisco lhes disse:

Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli
Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli
“Caríssimos irmãos, eu próprio sou o homem mais indigno e mais vil que Deus tem neste mundo; mas vedes aquele Frei Rufino, o qual sai agora da floresta?

“Deus me revelou que a alma dele é uma das três mais santas almas que Deus tem neste mundo; e firmemente vos digo que não duvidarei de chamar-lhe em vida São Rufino, porque sua alma está confirmada em graça e santificada e canonizada no céu por Nosso Senhor Jesus Cristo”.

E estas palavras não dizia São Francisco em presença do dito Frei Rufino.

Igualmente, como São Francisco conhecia os defeitos de seus frades, compreende-se claramente em Frei Elias, ao qual muitas vezes repreendia pela sua soberba, e em Frei João da Capela, ao qual predisse que se devia enforcar, e naquele frade a quem o demônio apertava a garganta ao ser repreendido por desobediência, e em muitos outros frades, cujos defeitos ocultos e virtudes conhecia pela revelação de Cristo bendito.

Amém.




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domingo, 2 de outubro de 2016

O Capítulo dos animais

O leão condena o burro por uma falta mínima.
O leão condena o burro por uma falta mínima.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Certa vez o leão ouviu que os frades faziam um Capítulo no qual todos se acusavam culpados dos pecados que tinham cometido e se submetiam a uma pena.

Disse então:

— “Ora, se os frades fazem um Capítulo de todos diante de seu superior, eu que sou o maior de todos os animais da terra e o senhor de todos eles, deverei ser pior?”

E logo mandou ordenar o Capítulo de todos os animais, para que comparecessem diante dele.

Uma vez todos reunidos, ele ocupou um trono e, assim que estava bem sentado, ordenou que todos se sentassem em volta dele.

E desde o trono, disse o leão:

— “Eu não quero ser pior do que os outros nisto. Quero que façamos um Capítulo como fazem os frades, e que nele se confesse todo pecado e mal feito; e, sendo eu o maior, quero saber de tudo. Eu ouvi falar que muitos males foram feitos por vós. Eu direi de quem é a vez de se acusar. Porém, quero que cada um confesse seu pecado. Vinde, um por um, todos a mim, vos acusando como pecadores daquilo que tendes feito”.

Ordenou então ao asno que fosse o primeiro a se penitenciar. O asno foi até o leão, e ajoelhando-se, disse:

— “Miserere, misericórdia!”

O leão falou:

— “O que fizeste, que fizeste? Dize-o logo”.

E o asno falou:

— “Miserere, eu pertenço a um camponês que certas vezes me carrega com um monte de palha e me leva até a cidade para vendê-la. E aconteceu que certa vez, enquanto andava, engoli um bocado sem que meu patrão percebesse. E assim fiz mais de uma vez”.

Então, disse o leão:

— “Oh, ladrão! Ladrão, traidor e malvado; não percebes todo o mal que fizeste? Quando é que poderás restituir o valor daquilo que tu roubaste e comeste?”

E logo ordenou que esse asno fosse preso e recebesse grande número de chibatadas. E assim foi feito.

Depois dele compareceu a cabra, que do mesmo modo se ajoelhou pedindo misericórdia.

Disse o leão:

— “O que é que tu fizeste? Oh, fala logo teu pecado”.

A cabra respondeu:

O julgamento da raposa
O julgamento da raposa
— “Meu Senhor, eu me acuso de minha culpa: certa vez, para fazer estrago, passei perto da horta de uma mulher, precisamente de uma viúva, que tinha muitas ervinhas odoríferas, salsa, manjerona, tomilho e até basilicão; e fiz muitas vezes dano às couves e a outras mudas, comendo suas pontas mais tenras.

“E após fazer dano a essa, também fiz mal a muitas hortas; e por vezes fiz dano de modo a não deixar nada que fosse verde”.

Disse então o leão:

— “Oh! Acabo de encontrar duas consciências muito diversas. Uma é muito subtil, até demais, e a outra é grossona, como a daquele ladrão do asno.

“Mas tu percebias o mal de comer essas ervinhas? Pois bem, vai em paz, vai não tenhas problema de consciência. Oh! Vai pura como eu. Não é necessário confessar esse pecado, é costume das cabras fazerem coisas dessas. Tens uma grande escusa, porque foste obrigada a fazer isso. Vai, vai, que eu te absolvo e não penses mais nisso”.

Depois da cabra apareceu a raposa, que se pôs de joelhos diante do leão.

Disse o leão:

— “Ora, confessa teus pecados. O que fizeste?

A raposa disse:

— “Miserere, eu recito minhas culpas. Matei muitas galinhas e as comi. E até certas vezes entrei no galinheiro onde dormiam, e tendo visto que não poderia chegar até elas, fingi que minha cauda era uma vara e que eu ia subir. E quando elas acreditaram, logo pularam para o chão; e então eu corri atrás delas e matei todas as que pude pegar; comi todas as que eu conseguia e as outras eu as deixava mortas; algumas vezes levei comigo mais de uma”.

Disse o leão:

— “Oh, como tendes uma consciência delicada! Em boa hora vai embora, vai! Em ti é natural tudo isso que fazes e eu não te darei penitência alguma, e nada te imputo como pecado. Também te digo que continues a agir corajosamente como fazes e não te acuses senão das galinhas que ficaram vivas”.

Tendo partido a raposa, apareceu o lobo e disse:

— “Meu Senhor, uma vez eu fui até o curral das ovelhas para ver como estava feito. Vós sabeis que a cerca em volta é alta, e eu comecei a pensar por onde poderia entrar facilmente. E assim que achei, procurei uma madeira que acho que era pesada como uma ovelha, para entrar e sair por cima dela. E assim fiz para não ser pego pelos cachorros. Entrei sorrateiramente e logo matei mais ovelhas do que tinha necessidade, e voltei carregando só uma”.

Disse o leão:

— “Oh, mais uma consciência delicada! Sabes o que te respondo? Não sintas dor de consciência por essas coisas. Doravante vai e faze galhardamente o que fazes sem te preocupar comigo”.

E assim que o lobo partiu, a ovelha entrou com a cabeça baixa, dizendo:

— “Be, be.”

Disse o leão:

— “O que fizeste, mulher hipócrita?”

Ela respondeu:

São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras. Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras.
Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
— “Miserere, certas vezes em que passei pelas trilhas a cujo lado está semeado o capim, eu subi sobre um montículo e, vendo aquelas ervinhas verdes e tenras, não comi tudo, mas apenas as partes de cima, as mais tenras”.

Então disse o leão:

— “Oh maldita ladra, ladra traidora, foi assim que fizeste tanta maldade! E andas por ali dizendo ‘be, be’ enquanto roubas pela estrada! Oh, maldita ladra, quanto mal fizeste! Chega; dai-lhe muitas vergastadas; e dai-lhe tantas até surrá-la toda inteira, e fazei de modo que ela fique três dias sem comer coisa alguma”.

Pois bem, vedes tudo o que se tira deste conto!

Vós me entendestes?

O corvo não fura o olho de outro corvo. Quando um bicho ruim, como o lobo ou a raposa, faz uma coisa, o ruim acoberta para que não se veja.

Porém, se for a ovelhinha, ou o asno, quer dizer a viúva, a criança ou um coitadinho que diz ou faz alguma coisa pequena, o ruim pede: mata, mata. O lobo não come outro lobo, mas ele come a carne dos outros animais.

Oh, tu que governas, não punas com demasia o asno e a ovelha por pequenas coisas e não deixes de condenar o lobo e a raposa pelos seus grandes crimes!

O que deves fazer?

Escolhe a punição com prudência, discernindo a falta de uns e o crime dos outros.



(Autor: São Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext).


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