domingo, 12 de junho de 2016

O que aconteceu com o rei Ricardo da Inglaterra
quando pulou no mar para lutar contra os mouros

El Conde Lucanor, ilustração Víctor G. Ambrus
El Conde Lucanor, ilustração Víctor G. Ambrus.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



Certa feita, o conde Lucanor afastou-se com seu conselheiro Patronio e lhe falou assim:

– Patronio, eu confio muito em seu juízo. E sei que você sabe aconselhar como nenhuma outra pessoa no mundo. Por isso vos peço aconselhar-me como melhor sabes no que vou dizer agora.

Você sabe muito bem que não sou mais jovem e, desde que nasci até agora, cresci e vivi sempre envolvido em guerras, às vezes contra os mouros, outras vezes com os cristãos, e na maioria delas contra reis, senhores, ou vizinhos.

Em minhas lutas com meus irmãos cristãos, embora eu tentasse que a culpa não fosse minha, foi inevitável que muitos inocentes recebessem um grande dano.

Fiz penitência por isso e por outros pecados que cometi contra Deus Nosso Senhor. Porém, vejo que nada nem ninguém neste mundo pode ter certeza de que hoje não vai morrer.

E tenho certeza de que, posta a minha idade, não vou viver muito mais tempo e sei que devo comparecer diante de Deus, que é juiz que não se deixa enganar por palavras.

É um Juiz que julga cada um por suas boas ou más ações. E eu tenho certeza de que, se Deus achar em mim pecados que merecem o castigo eterno, não poderei evitar as dores do inferno, e não há nada de bom neste mundo que possa aliviar a dor eterna.



No entanto, também sei que se Deus se mostrar misericordioso e me incluir no número dos seus no Paraíso, não há prazer ou alegria deste mundo que possa se igualar a essa.

E, como Céu ou no inferno já não há como mudar de lugar nem fazendo obras, peço-vos que, de acordo com o meu estado e dignidade, você me aconselhe a melhor maneira de fazer penitência por meus pecados e obter a graça diante de Deus.

– Senhor Conde, disse Patronio, muito me agradam vossas razões. E especialmente porque vos aconselhais de acordo com o vosso estado. Agrada-me muito ver vosso desejo de fazer penitência pelos vossos pecados, de acordo com o vosso estado e dignidade.

Tende como certo que se vós, Conde Lucanor, quisésseis deixar vosso estado e entrar em religião ou fazer vida retirada, não poderíeis evitar que vos acontecesse uma destas duas coisas:

A primeira é que seríeis muito mal julgado pelas pessoas, pois todos diriam que vós fazeis isso por pobreza de espírito e porque não vos apraz viver entre os bons;

A segunda, é que vos seria muito difícil suportar as asperezas e sacrifícios da vida conventual, e que se tivésseis de abandoná-la ou vivê-la sem respeitar a Regra como se deve, causar-vos-ia grande dano à alma e muita vergonha e perda de vossa boa fama.

Como vejo que vós tendes muito boas intenções, contar-vos-ei o que Deus revelou em vida a um santo eremita sobre o que aconteceria com ele e com o Rei Ricardo da Inglaterra.

O conde pediu-lhe então para lhe dizer o que aconteceu.

– Senhor Conde, disse Patronio, houve um eremita que teve vida muito santa, que era muito bom e fez muitas penitências para alcançar a graça de Deus.

E o Senhor foi misericordioso para com ele e lhe prometeu entrar no reino dos céus.

O eremita estava muito grato por essa revelação divina e, como estava certo de sua salvação, implorou a Deus mostrar-lhe quem seria seu companheiro no Paraíso.

Nosso Senhor lhe tinha dito pelo intermédio de um anjo que não deveria pedir uma coisa dessas, mas tanto insistiu o eremita que o Senhor concordou em lhe dar uma resposta.

Dessa maneira lhe fez saber por um anjo que o rei da Inglaterra e ele estariam juntos no Paraíso.

Tal resposta não foi do agrado do eremita, pois este bem sabia que o rei estava sempre em guerras e tinha matado, roubado e deserdado muitos, e levado uma vida oposta à sua, parecendo muito distante do caminho da salvação.

Por tudo isso o eremita ficou muito chateado.

Quando Deus nosso Senhor viu isso, enviou-lhe uma mensagem por meio do anjo para não reclamar ou ficar surpreso com o que Deus tinha dito, e que tivesse certeza de que o Rei Ricardo conquistou mais honra e mais prêmio diante de Deus com um só salto de cavalo do que o eremita com todas as suas boas ações.

O eremita ficou surpreso e perguntou ao anjo como podia ser.

O anjo então lhe contou que os reis da França, da Inglaterra e da Navarra tinham ido para a Terra Santa. E quando chegaram ao ponto do desembarque, todos armados para empreender a conquista, viram nas margens tantos mouros que duvidavam em descer.

Então o rei da França pediu ao rei da Inglaterra para vir a seu navio a fim de decidirem o que fariam.

O rei da Inglaterra, que estava a cavalo, após ouvir o mensageiro, mandou responder ao rei da França que, como infelizmente tinha injustiçado e ofendido a Deus muitas vezes em sua vida e sempre Lhe tinha pedido a oportunidade de fazer as pazes e apresentar desculpas, via que, graças a Deus, tinha chegado o dia que tanto esperava.

Porque, se morria, como havia feito penitência antes de deixar sua terra e tinha muitos remorsos, estava certo que Deus teria piedade de sua alma, e se os mouros fossem derrotados, seria para honra de Deus, e como bons cristãos eles só se poderiam se sentir muito ditosos.

Ricardo III, Coração de Leão. Estátua frente ao Parlamento de Londres. Inglaterra.
Ricardo III, Coração de Leão. Estátua frente ao Parlamento de Londres. Inglaterra.
E assim que disse isso, confiou seu corpo e sua alma a Deus, O invocou em sua ajuda fazendo o sinal da cruz, e convidou seus soldados a segui-lo.

E picando seu cavalo com as esporas, saltou para o mar em direção à costa onde os mouros estavam.

Embora tudo acontecesse muito perto do porto, o mar no local era muito profundo, de modo que o rei e seu cavalo foram cobertos pela água e pareciam não ter salvação.

Porém Deus, que é onipotente e muito piedoso, lembrando do que prometeu nos Evangelhos de que não procura a morte do pecador, mas que este se arrependa e viva, ajudou nesse perigo o rei da Inglaterra, impedindo sua morte carnal, concedendo-lhe vida eterna e salvando-o do afogamento.

O Rei, em seguida, atirou-se contra os mouros.

Quando os ingleses viram seu rei em combate, pularam todos no mar e correram para ajudá-lo contra os inimigos.

Vendo isso, como não suportam a desonra, os franceses acharam que seria uma afronta não se envolver no combate e pularam todos no mar e lutaram contra os mouros.

Mas estes, quando viram os cristãos iniciar seu ataque sem medo de morrer e tão bem-humorados, recusaram-se a enfrentá-los e, abandonando a fortaleza, fugiram em desordem.

Pondo pé em terra, os cristãos mataram quantos puderam alcançar e obtiveram a vitória, prestando grande serviço à causa de Deus. Tão grande vitória começou com o salto ao mar do rei de Inglaterra.

Ouvindo isto, o eremita ficou muito contente e compreendeu que Deus lhe concedia uma grande honra pondo-o como companheiro no Paraíso de um homem que O havia servido dessa maneira e que tinha glorificado a fé católica.

– E vós, Senhor Conde, acrescentou Patronio, se quiserdes servir a Deus e fazer penitência pelos vossos pecados, reparai os danos que podeis ter feito nesta terra.

Fazei penitência pelos vossos pecados sem ouvirdes as elegâncias do mundo, que é tudo vaidade.

E, posto que Deus vos entregou terras onde O poderíeis servir lutando contra os mouros por mar e por terra, fazei quanto possais para garantir o que já tendes.

Ricardo Coração de Leão socorre os cristãos sitiados em Jaffa. Gravura de Gustave Doré.
Ricardo Coração de Leão socorre os cristãos sitiados em Jaffa.
Gravura de Gustave Doré (1832 — 1883).
E deixando em paz vossos senhorios e tendo pedido perdão por vossas culpas, para fazer a devida penitência e para que todos bendigam vossas boas obras, podereis abandonar tudo, ficando sempre ao serviço de Deus e assim terminar vossa vida.

Esta é, na minha opinião, a melhor maneira de salvar vossa alma de acordo com vosso estado e dignidade. Por esta razão vós deveis acreditar que, pelo fato de servir a Deus desta maneira, não ireis morrer antes nem viver mais tempo na terra.

Se morrerdes servindo a Deus, vivendo como eu disse, sereis contado entre os mártires e estareis junto da Bem-aventurada Virgem Maria.

Embora possais não morrer em combate, a boa vontade e as boas obras farão de vós um mártir, e aqueles que quereriam vos criticar não poderão fazê-lo, pois todos verão que não abandonais a cavalaria, mas desejais ser cavaleiro de Deus e deixais de ser cavaleiro do diabo e das vaidades do mundo, que são perecedouras.

Agora, oh conde!, eu vos tenho aconselhado, como me pedistes, para que possais salvar vossa alma permanecendo em vosso estado. E assim vós imitareis o Rei Ricardo da Inglaterra, quando pulou no mar para iniciar uma ação gloriosa.

O Conde realmente gostou do conselho que lhe deu Patronio e pediu a Deus para ajudá-lo a pô-lo em prática, como seu conselheiro desejava.

E vendo o Infante Don Juan que esta era uma história exemplar, mandou incluí-la neste livro e compôs alguns versos que a resumem. E eles dizem assim:

Quem se acha cavaleiro
Esse salto deve imitar,
E não encerrado em mosteiro
por trás de altos muros ficar.


El conde Lucanor
El conde Lucanor é um livro narrativo da literatura de Castela medieval, escrito entre 1330 e 1335 pelo infante Don Juan Manuel, Príncipe de Villena.
O título completo e original em castelhano medieval é Libro de los enxiemplos del Conde Lucanor et de Patronio (Livro dos exemplos do conde Lucanor e de Patronio).
O livro compõe-se de cinco partes, sendo a série de 51 exempla ou contos moralizantes a mais conhecida.



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