domingo, 24 de novembro de 2013

“Os 12 dias de Natal”

São Gabriel, Rodez, França
São Gabriel, Rodez, França

Há uma bela canção de Natal inglesa intitulada Twelve Days of Christmas (Os 12 dias do Natal), pouco conhecida entre nós.

Ela surgiu durante a época da perseguição anglicana contra os católicos naquele país, no século XVI.

Com a pseudo-reforma protestante, países como a Inglaterra, ao abandonarem o regaço da Santa Igreja e caírem na heresia, começaram a perseguir os católicos, tornando quase impossível a prática da verdadeira Religião.

Para comunicar aos fiéis a sã doutrina e poderem celebrar sem medo de represálias o Natal do Salvador, segundo a tradição da Santa Igreja, católicos ingleses compuseram tal música, que é um catecismo secreto, porquanto expressa em símbolos a realidade de nossa fé.

Ela foi também utilizada muitas vezes pelos católicos durante as perseguições anticristãs e anti-monárquicas da Revolução Francesa.

domingo, 17 de novembro de 2013

Os sarcófagos vazios de Quarré-les-Tombes

São Jorge, catedral de Estocolmo
São Jorge, catedral de Estocolmo

No coração da região de Morvan, na Borgonha (França), entre os límpidos rios Cure e Cousin, uma aldeia tem um nome curioso: Quarré-les-Tombes, algo como o Cercado das Tumbas.

O nome vem da presença sempre inexplicável de grande número de sarcófagos vazios – lá chamados de “pierres carrées”.

A concentração nesse local de milhares de túmulos sem os respectivos restos sempre excitou a imaginação popular.

A história começa no século nono da era cristã. Os normandos – ou vikings – que naquela época eram pagãos, invadiam a França e remontavam os rios a bordo de seus grandes barcos, os drakkar.

Eles não somente matavam, pilhavam e queimavam tudo na sua passagem, mas também arrasavam as igrejas e dispersavam as santas relíquias.

Lutar contra os normandos equivalia não somente libertar o território, mas também partir em cruzada e, por essa via, conquistar o Paraíso.

domingo, 10 de novembro de 2013

A fonte de Santa Reine

A fonte de Santa Reine, Alise, Borgonha
A fonte de Santa Reine, Alise, Borgonha

Havia pouco que a Gália se tornara cristã e os romanos já a atravessavam com estradas retas e seguras, templos de mármore e tijolo, fazendas bem ordenadas que eles chamavam de ‘vila’.

Em Alésia, César havia dado fim a Vercingétorix, acabando com a resistência dos gauleses.

Apesar da lembrança dos dias do sítio implacável, os nobres e os dirigentes empenhavam sua boa vontade em aplainar as dificuldades que podiam eclodir entre os novos senhores que pretendiam ser pacificadores, e os habitantes que povoavam os morros desde tempos imemoriais.

Os pontos de encontro eram a boa acolhida, o bom trato, a paciência, como também o comércio e os casamentos.

Romanos e gauleses trabalhavam para dar coesão ao país.

Porém, os romanos tinham um novo inimigo para combater: a religião cristã que se espalhava de modo cada vez mais rápido e profundo.

Foi nesse momento que um dia chegou a Alésia um certo Olibrius, prefeito do imperador, enviado para combater a nova religião.

Os nobres do burgo fizeram questão de recebê-lo bem. Visitando a casa de um deles, Olibrius deitou o olho em Reine.

domingo, 3 de novembro de 2013

De muitas formas Santa Maria nos protege do mal

Nossa Senhora com o Menino Jesus
Cantiga 258 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
Esta história conta como Santa Maria fez crescer a massa que uma boa mulher preparou para fazer pão.

“Aquela que viu como seu Filho saciava cinco mil homens com cinco pães pode multiplicar o que quiser”.

Por essa mesma razão vou contar-vos um milagre que fez Santa Maria em Provence, assim como eu o encontrei escrito entre muitos outros assim vo-lo contarei, pois sei que vos satisfará grandemente se o escutardes.

Naquela terra, segundo ouvi, houve um ano de muita escassez. Uma mulher muito boa que amava a Virgem Santa Maria mais do que a si mesma e, pelo que sei, dava por amor a Ela muitas esmolas a quem pedia de boa vontade e, segundo suas possibilidades, aos pobres a comida que tinha.

Por causa disso mandava vir muita farinha para poder assar mais tarde pão até fartá-los. Mas, naquele mau ano, consumiu logo todo o pão, inclusive aqueles que assou por conta da colheita, e quando tudo tinha esgotado acudiram até ela pobres muito famintos para pedir-lhe esmola como de costume.

Nesse momento ela estava amassando pão, e sem titubear deu-lhes toda a massa que havia preparado, sem ficar com nada para si.

Entrementes um dos filhos, a quem ela pedira para aquecer bem o forno, disse à sua mãe que podia levar os pães, pois o mesmo estava bem quente.

Envergonhada, ela confessou ao filho: “Por Deus, toda a massa que eu tinha dei para os pobres por amor da Santa Virgem, que é a luz destes meus olhos, para que obtenha que Deus perdoe meus pecados.”

Ouvindo isto, o filho queixou-se abertamente. Muito atrapalhada, a mãe voltou correndo para onde estava a massa que havia doado e verificou que a mesma não tinha sido usada nem estava estragada em nada.

domingo, 27 de outubro de 2013

Frei Conrado converte um jovem frade
e o livra das penas grandíssimas do purgatório


Frei Conrado de Offida, admirável zelador da pobreza evangélica e da Regra de São Francisco, foi de tão religiosa vida e de tanto mérito para com Deus, que Cristo bendito em vida e na morte o honrou com muitos milagres.

Entre os quais uma vez tendo ido como forasteiro ao convento de Offida, os frades pediram-lhe pelo amor de Deus e da caridade que admoestasse um frade jovem que havia naquele convento.

Esse jovem procedia tão infantilmente e desordenadamente que perturbava os velhos e os jovens daquela família.

E do oficio divino e das outras regulares observâncias pouco ou nada se importava.

Pelo que Frei Conrado, por compaixão daquele jovem e pelos pedidos dos frades, chamou à parte o dito jovem.

domingo, 20 de outubro de 2013

Aquela que abriu as portas do céu para nos salvar

Marienleuchter, Aldekerk
Marienleuchter, Aldekerk
Cantiga 246 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

“Aquela que abriu as portas do céu para nos salvar tem poder para abrir e fechar as portas deste mundo”.

Eu vos contarei um milagre sobre isso. Pelo que li e acreditei – aconteceu no Alcácer, onde uma muito boa cristã vivia e confiava na Virgem mais do que tudo.

Por amor a Nossa Senhora, sempre ia aos sábados a uma igreja para rezar e levar uma oferenda.

Em meio a muitas ocupações, um dia ela se esqueceu de que era sábado e ao se dar conta do ocorrido, já era demasiado tarde.

Arrependida, ela foi à igreja com o intuito de entrar, mas como o povoado ficasse longe da igreja, encontrou suas portas já fechadas ao chegar, e se pôs a rezar e a chorar do lado de fora.

Terminada a sua oração, viu as portas abertas, e, maravilhada, pois ninguém as abrira, dirigiu-se ao altar e depositou ali a sua oferenda.

Ao deixar os umbrais da igreja, percebeu as portas se fecharem por si mesmas e, pasmada, tomou às presas o caminho de volta ao povoado.

domingo, 13 de outubro de 2013

Como São Francisco livrou o frade
que estava em pecado aberto ao demônio

Estando uma vez São Francisco em oração no convento da Porciúncula, viu, por divina revelação, todo o convento cercado e assediado pelos demônios, como se fosse por um grande exército.

Mas nenhum podia, aliás, entrar dentro do convento; porque aqueles frades eram de tanta santidade, que os demônios não tinham meios de entrar neles.

Mas, perseverando todavia assim, um dia um daqueles frades se escandalizou com um outro, e pensava no seu coração como poderia acusá-lo e vingar-se dele.

Pelo que, continuando ele com este mau pensamento, o demônio, achando a porta aberta, entrou no convento e montou no pescoço daquele frade.

Vendo isto o piedoso e solícito pastor, o qual velava sempre por seus rebanhos, que o lobo entrara para devorar sua ovelha: mandou imediatamente chamar à sua presença aquele frade.

Então lhe ordenou que logo deveria descobrir o veneno do ódio concebido contra o próximo, pelo qual estava nas mãos do inimigo.

domingo, 6 de outubro de 2013

O campanário das fadas – ou dos anjos?

Dijon, a cidade dos cem campanários: a catedral no fundo, São Filiberto na esquerda

“Dijon é a cidade dos cem campanários!”

Esta exclamação histórica foi pronunciada no topo da fortaleza de Talant pelo rei Francisco I assim que ele descobriu a seus pés o espetáculo inesquecível da capital da Borgonha – França – emergindo da bruma matinal.

Foi numa manhã de 1515. Grande mecenas das artes durante o Renascimento, Francisco I partia com um exército rumo à Itália.

domingo, 22 de setembro de 2013

Muito devemos amar a Nossa Senhora

Nossa Senhora dos Bons Ares. Buenos Aires, Argentina
Nossa Senhora dos Bons Ares. Buenos Aires, Argentina
Esta cantiga conta como Santa Maria apareceu numa noite no mastro de uma nave que ia para Bretanha e libertou-a do perigo.

“Muito devemos amar com todo nosso coração a Senhora que afasta de nós males e tempestades.”

Disso deu prova a Virgem no mar da Bretanha, onde fez uma maravilha tão grande como nenhum outro santo pode realizar, quando Ela foi salvar uma nave que levava um mundo de homens procurando a boa fortuna que todos procuramos.

domingo, 15 de setembro de 2013

O demônio que virou roda

São Bernardo de Claraval. Heiligenkreuz, Áustria
São Bernardo voltou certa vez à sua aldeia natal – Fontaine, perto de Dijon – para encontrar junto à lagoa de sua infância toda a calma e toda a força de que necessitava.

Com efeito, através de sua eloquência e da força de convicção de sua fé, ele deveria arrastar para a segunda Cruzada tudo quanto na Europa havia de melhor na nobreza e nas classes populares de boa vontade.

Por isso ele precisava de um momento de contemplação e repouso em sua terra natal.

Tanto mais quanto havia tempo que inquietações e dúvidas o assaltavam e atormentavam, dando a impressão de que uma diabólica mão pesava-lhe sobre as costas, queimando-a.

Uma voz lhe murmurava palavras desencorajadoras e anunciava que seu projeto iria fracassar.

Imagens ora tentadoras, ora aterrorizantes desfilavam diante de seus olhos.

São Bernardo lutava contra o demônio com todo o poder da oração, sendo nisso ajudado pela tranquilizadora paisagem de seus jovens anos.

domingo, 8 de setembro de 2013

São Vicente, o vinho e o gelo

Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha
Os monges cistercienses criaram o vinhedo famoso da Borgonha

Na Idade Média, os monges cistercienses exploravam a quase totalidade do célebre vinhedo da Borgonha.

E isso com toda justiça, pois foram eles que desbravaram suas terras e plantaram as vinhas.

Pesados comboios saíam regularmente das vinícolas e adegas da região para irem prover as abadias das cidades.

Numa jornada muito fria de dezembro, num desses comboios que seguia para Dijon, dois monges bem agasalhados conduziam as charretes, que a todo o momento escorregavam sobre o gelo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Quem a Santa Maria algo der ou prometer

Esta cantiga conta como Santa Maria fez que se queimasse a lã dos mercadores que haviam oferecido algo à sua imagem, e pegaram tudo logo de volta.

Conta esta Cantiga o poder das relíquias e o castigo daqueles que não cumprem suas promessas à Virgem.

Um incêndio destruiu uma igreja de Laon (Leão do Ródano), onde se guardavam relíquias de Santa Maria numa arca de ouro (leite e cabelos da Virgem).

domingo, 11 de agosto de 2013

A penitência que fez florir o galho seco

Catedral de Sens, imagem da fachada
Catedral de Sens, imagem da fachada
São Bond foi um rico mercador espanhol que se estabeleceu na cidade francesa de Sens há bem mais de 13 séculos.

Os espanhóis têm fama de serem muito ciumentos e ele o era em excesso.

Não se saberia descrever o sofrimento de sua mulher pelos ciúmes do marido. Esses foram tais que acabaram virando doença.

O comerciante viajava com muita frequência e deixava sua casa para fazer os negócios, os quais, aliás, ele conduzia perfeitamente.

Porém, durante toda a sua ausência, devoram-no a desconfiança e a dúvida.

E quando voltava à casa já chegava com os nervos na flor de pele, prestes a explodir numa cólera tão violenta quanto injustificada.

Sua infeliz esposa era a que menos justificava esse tratamento.

Ela não recebia ninguém na ausência do marido, nunca saía e vivia sozinha na companhia de seus filhos e de algumas domésticas.

domingo, 28 de julho de 2013

Como Nossa Senhora salvou Constantinopla da sanha dos turcos




Esta cantiga [Cantiga 28 "Todo logar mui ben pode"] conta como Santa Maria defendeu Constantinopla dos mouros que a combatiam e acreditavam poder tomá-la.

Todo lugar que tem a Santa Maria como escudo pode muito bem ser defendido.

Disso eu vos quero contar, do fundo de meu coração, um milagre dos maiores que fez a Virgem sem par, que não quis se perdesse e fosse vencido o povo que Ela tinha que conservar.

Segundo o escrito que eu mesmo pude achar, após Constantinopla ter sido tomada pelos cristãos, veio um rei pagão para sitiar a vila, com uma hoste de pagãos, muito bravo e sanhudo ele, para tomar a cidade pela força e tornar-se o homem mais temido.

domingo, 14 de julho de 2013

A pergunta do anjo ao frade cheio de soberba
e o que aconteceu depois

E o jovem bateu na porta fortemente
E o jovem bateu na porta fortemente.
Fundo: viela de Assis

No princípio e fundação da Ordem, quando havia poucos irmãos e não havia conventos estabelecidos, São Francisco, por devoção, se foi a Santiago de Galícia, e levou consigo alguns irmãos, entre os quais um foi Frei Bernardo.

E seguindo assim juntos pelo caminho, acharam numa terra um pobre enfermo, do qual tendo compaixão, disse a Frei Bernardo: “Filho, quero que fiques aqui servindo a este enfermo”.

E Frei Bernardo, ajoelhando-se humildemente e inclinando a cabeça, recebeu a obediência do santo pai e ficou naquele lugar; e São Francisco com os outros companheiros foi a Santiago.

Ali ficando reunidos e estando de noite em oração na igreja de Santiago, foi por Deus revelado a São Francisco que ele devia fundar muitos conventos pelo mundo.

Porque sua Ordem se devia dilatar e crescer em grande multidão de frades; e por esta revelação começou São Francisco a estabelecer conventos naquela região.

E, voltando São Francisco pelo mesmo caminho, encontrou Frei Bernardo mais o enfermo com o qual o havia deixado, e que estava inteiramente curado.

E no ano seguinte permitiu a Frei Bernardo que fosse a Santiago; e assim São Francisco voltou ao vale de Espoleto; e aí ficaram em lugar deserto ele e Frei Masseo e Frei Elias e alguns outros, os quais tinham muito cuidado em não aborrecer ou perturbar São Francisco em sua oração.

domingo, 30 de junho de 2013

Nossa Senhora não deixou sair o ladrão



Cantiga de Santa Maria 302 “A Mãe de Jesus Cristo”; Cantiga 424 “Pois que dos Reis é Nosso Senhor”, de Affonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela (1221-1284)

Esta cantiga é do homem que furtou a seu companheiro o dinheiro da esmola em Santa Maria de Montserrat e não conseguiu sair da igreja enquanto não o devolveu.

A Mãe de Jesus Cristo, que é Senhora de nobreza, não consente que na sua casa se cometam furtos nem vilanias.

E sobre isto eu vou vos contar um grande milagre que homens de confiança me contaram como sendo muito verdadeiro, e juraram ter sido feito por Santa Maria de Montserrat, incluindo o que fez um homem ruim para manifestar sua vileza.

domingo, 2 de junho de 2013

O sobrenatural e o maravilhoso na vida do medieval

Junto ao mar, numa península com forma de cruz, um santo eremita construiu um mosteiro nos tempos que a Gália, ainda não era a França.

Mas o mosteiro foi derrubado. Algum tempo depois, um outro veio e construiu outro mosteiro.

E esse mosteiro foi derrubado, se minha memória não me trai, por ocasião da Revolução Francesa.

Se no Reino de Maria se mandar construir um mosteiro em louvor a Nossa Senhora nessa península, com sentido reparador, etc., vai ser muito bonito.

Há um certo lugar na França onde se tornou lendária a presença de um homem que teria vivido lá pela alta Idade Média, conhecido como “o louco da floresta”.

Esse homem era doido, e ele apenas sabia dizer "Ave Maria!". Com todas as pessoas que ele encontrava ele só dizia "Ave Maria!"

domingo, 19 de maio de 2013

O conde Fernán Gonzales, o califa e o ermitão

Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzales
Estava o conde Fernán Gonzales caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal. O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta. Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar. Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado. Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

— Vinde em paz, conde! A caçada te trouxe até aqui, mas prepara já as montarias, pois te aguarda o Rei Almanzor, o terrível inimigo dos cristãos. Dura batalha te aguarda, pois o mouro traz muitos guerreiros. Mas alcançarás grande vitória. E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros. Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória.

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida. Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque. Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate. O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados. Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

domingo, 5 de maio de 2013

Daquele santo frade ao qual a Mãe de Cristo apareceu quando estava enfermo, e lhe trouxe três caixas de eletuário

No sobredito convento de Soffiano viveu antigamente um frade menor de tão grande santidade e graça, que parecia todo divino e freqüentes vezes ficava arrebatado em Deus.

Estando certa vez este frade todo absorto em Deus e enlevado; porque tinha notavelmente a graça da contemplação, vinham ter com ele passarinhos de diversas espécies e domesticamente pousavam-lhe nas espáduas e na cabeça, nos braços e nas mãos e cantavam maravilhosamente.

Era ele solitário e raras vezes falava; mas quando lhe perguntavam alguma coisa, respondia tão graciosamente e tão sabiamente, que mais parecia anjo do que homem e era de grandíssima oração e contemplação, e os frades o tinham em grande reverência.

Acabando este frade o curso de sua vida virtuosa, segundo a disposição divina enfermou de morte, de modo que nenhuma coisa podia tomar, e com isto não queria receber nenhuma medicina carnal, mas toda a sua confiança era no médico celestial Jesus Cristo bendito e na sua bendita Mãe; da qual ele mereceu pela divina demência de ser misericordiosamente visitado e consolado.

Pelo que, estando uma vez no leito e dispondo-se à morte com todo o coração e com toda a devoção, apareceu-lhe a gloriosa Virgem Maria, mãe de Cristo, com grandíssima multidão de anjos e de santas virgens com maravilhoso esplendor e se aproximou do seu leito.

E ele, olhando-a, recebeu grandíssimo conforto e alegria quanto à alma e quanto ao corpo; e começou a pedir-lhe humildemente que ela pedisse ao seu dileto filho para que, pelos seus méritos, o tirasse da prisão da mísera carne.

domingo, 21 de abril de 2013

A fidelidade do leão de Godofredo de Tours


Entre os nobres cavaleiros de Provença que partiram para as Cruzadas contra os infiéis, havia um senhor chamado Godofredo de Tours, de grande valor, guerreiro tão heroico como jamais se conheceu.

Nos combates era o primeiro a se lançar sem se preocupar em cobrir seu corpo contra os dardos e as pedras. Galopava até os esquadrões árabes invocando a proteção do Senhor. Tal era sua fama que em todos os exércitos era conhecido e admirado o seu heroísmo!

Um dia cavalgava ele numa clareira, com outros cavaleiros, seguido de numerosos pajens.

De repente ouviram uns terríveis rugidos de leão. Todos, exceto Godofredo, tomados de pânico, fugiram com medo de cair nas garras da fera.

Mas Godofredo, vendo que seu cavalo não lhe obedecia, pegou sua espada, desceu do cavalo e dirigiu-se à floresta onde estava o leão.

Avançou disposto a lutar contra a fera, mas quando penetrou na mata, viu assombrado um terrível espetáculo.

Não eram rugidos de cólera do leão, senão de muita dor.

Uma serpente havia habilmente aprisionado o leão enquanto este dormia, de maneira tal que ele não podia esboçar nenhuma reação.

A serpente apertava-o com o propósito de matá-lo a fim de enguli-lo depois.

domingo, 7 de abril de 2013

“Não queiras para os outros o que não queres para ti”

Ermida de San Ferreol
Entre os lavradores e viajantes da Catalunha, o nome de Ferreol era muito temido.

Nas noites de tempestade quando a agua bate com fúria nas rochas, o bandido Ferreol e seus companheiros aguardavam em seus postos para assaltar qualquer infeliz e roubar-lhe a bolsa e quiçá deixá-lo estendido sem vida em um matagal.

Por todas as partes se narravam as novas do bando que levava o terror a todos os que tinham que passar pelos montes e bosques, que eram os lugares preferidos de Ferreol e seus companheiros.

Um dia, ao por do sol, em que o crepúsculo enchia de sombras as proximidades das montanhas, um frade caminhava a passos largos.

Ia rezando com devoção suas orações. Assim não percebeu a aparição de dois homens no meio do caminho. Estes pararam o bom religioso, dizendo-lhe:

– Ei irmão, passe-nos a bolsa!

O frade, surpreendido, lhes respondeu, dizendo que não levava nada consigo.

Bandidos como eram, o conduziram então, com os olhos vendados à cova onde o bando estava reunido.

domingo, 24 de março de 2013

Don Galcerán De Pinós, o cruzado liberado por Santo Estevão

Santo Estevão, Salamanca
Santo Estevão, Salamanca

No século XII, Afonso, Imperador de Castela, sustinha renhidas batalhas contra o rei mouro de Granada.

O Conde de Barcelona acudiu em sua ajuda, fretando naves catalãs e genovesas.

Era almirante das primeiras, Galcerán Guerras de Pinós. Em seu afã das vitórias, se adiantou demasiado no território mouro e caiu prisioneiro.

Seus pais, os senhores de Bagá, estavam desesperados. O Conde de Barcelona se pôs em tratos com o Rei de Granada, para ver que resgate pedia pelo almirante Galcerán.

O Rei de Granada, enfurecido por ter perdido Almería, pediu um resgate exorbitante: cem mil dobles, cem cavalos brancos, cem vacas bragadas, cem panos de ouro de Tanis, e o que era pior de tudo, mais cem donzelas.

Os senhores de Bagá se aterrorizaram ante a última condição e decidiram que, apesar de muita dor que lhes causava ter o filho cativo dos mouros, não podiam consentir, para que ele fosse devolvido, que tantos pais sofressem a dor de ver perdidas para sempre suas filhas.

Não obstante, foram muitos os argumentos dos poderosos senhores que opinaram que o povo devia sacrificar-se, e que o almirante representava uma grande ajuda para a Cristandade. Aquele que tivesse quatro filhas, devia entregar duas; o que tivesse duas, daria uma, e o que tivesse uma seria sorteado com outro que tivesse uma também.

domingo, 10 de março de 2013

Como Frei Pacífico, estando em oração, viu a alma de Frei Humilde, seu irmão, subir ao Céu

São Francisco, Benozzo Gozzoli
Na província da Marca, depois da morte de São Francisco, entraram dois irmãos na Ordem; um teve por nome Frei Humilde e o outro Frei Pacífico, os quais foram homens de grandíssima santidade e perfeição.

E um, isto é, Frei Humilde, estava no convento de Soffiano e ali morreu; o outro estava de família em um convento assaz afastado dele.

Como prouve a Deus, Frei Pacífico, estando um dia em oração num lugar solitário, foi arrebatado em êxtase e viu a alma do seu irmão Frei Humilde subir diretamente ao céu, sem demora nem impedimento, na mesma hora em que deixava o corpo - Sucedeu que, depois de muitos anos, este Frei Pacífico foi posto em família no dito convento de Soffiano, onde seu irmão tinha morrido.






Nesse tempo os frades, a pedido dos senhores de Brunforte, mudaram o convento para um outro lugar; pelo que, entre outras coisas trasladaram as relíquias dos santos frades que haviam morrido naquele convento.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A ponte de Ledea

Puente de Burgui, Navarra
Puente de Burgui, Navarra

O rei mouro Abderramam tinha que passar pela Navarra, de regresso da França. O rei Dom Sancho ao saber disso, enviou mensageiros aos vales de Roncal, Salazar e Aezoa, com ordem de que reunissem todos os homens disponíveis e lutassem contra os mouros.

Os roncaleses e os de Salazar dispuseram-se a cumprir a ordem do monarca. Ao toque de sinos dos povoados, os homens deixaram suas ocupações e tomando as armas que podiam dispor, foram atacar Abderramam.

Mas os aezoanos disseram que eles não eram homens de guerra, e que sua obrigação consistia em cultivar e guardar as terras. Mas, se Abderramam aparecesse por aí, o receberiam com fogo.

Assim foram os de Roncal e os de Salazar, que se dirigiram ao encontro da hoste moura. Iam cheios de fúria. Decididos a vencer os inimigos da Fé.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As quatro barras catalunhas

Escudo da Catalunha
Escudo da Catalunha
Os normandos invadiram a França, no reinado de Carlos I.

O Imperador enviou a seu sobrinho Vifredo, o Veloso, Conde de Barcelona, uma carta, na qual pedia-lhe que o socorresse com os seus guerreiros.

O Conde marchou imediatamente com seu exército que entrou na batalha, vencendo os normandos, que se retiraram vencidos.

Uma flecha acertou o peito de Vifredo, no coração. Foi retirado a uma tenda, onde o visitou o Imperador.

O tio quis recompensar a seu sobrinho por esta lançada dando-lhe riquezas e bens.

Mas ele recusou toda recompensa, lamentando apenas que, apesar das muitas vitórias que havia obtido, em diversas batalhas nas quais havia tomado parte, seu escudo de armas ainda era liso: campo dourado, sem insígnias que revelava as suas muitas gestas.

O Imperador Carlos molhou, então, na ferida de Vifredo os quatro dedos de sua mão direita, e os passou de cima para baixo no escudo, marcando nele as quatro barras de sangue que ainda hoje adornam o escudo de Catalunha, Valencia e Aragão.

(Fonte: V. Garcia de Diego, Antologia de Leyendas de la Literatura Universal, Editorial Labor S.A., Madrid-Espanha, 1ª edição, 1953).

domingo, 27 de janeiro de 2013

As façanhas de Beuvon

Cavaleiro partindo para a guerra, anonimo frances
Os sarracenos ocupavam, em outros tempos, grande parte da Provença. A impiedade deles chegou a tal ponto, que Deus decidiu extirpá-los dali para sempre.

Escolheu como instrumento de sua santíssima vontade um herói chamado Beuvon. Educado no temor de Deus e no ódio aos infiéis, era um cavaleiro puro e piedoso, e seu coração estava cheio de valor.

Num dia de verão, cansado pelo calor, adormeceu à sombra de uma árvore. No sono, teve uma maravilhosa visão. Apareceu-lhe São Pedro, e lhe disse:

— Levanta-te, sem demora nem vacilação, e marcha contra os sarracenos, que por sua impiedade excitaram a ira de Deus. Tu os expulsarás de Peyrempi. Uma vez tomada essa fortaleza, não te será difícil persegui-los, até fazê-los desaparecer do país.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A conversão do príncipe muçulmano
e a impotência do diabo

Iguzquiza
Nos dias de Garcia o Temerário, Rei de Navarra, aconteceu que Abderramán entrou em Navarra com seu exército, chegando até a terra de Estela.

Quando o monarca soube que o Rei de Córdoba viera ao seu reino com tão grande exército, pediu socorro a seu irmão, o Rei das Astúrias.

Abderramán ficou na vila de Logroño com o grosso de seu exército e enviou a Navarra um príncipe mouro, muito poderoso.

Este príncipe era secretamente devoto de Nossa Senhora, e tinha por costume rezar a Ave Maria.