quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A lenda do desterrado

Quem tem pecado muito e teme por sua salvação, que ouça uma lenda alemã adequada.

Um pobre desterrado retornava à pátria após 30 anos de ausência. Os padecimentos haviam-no encanecido, e o haviam tornado irreconhecível. À entrada do lugar, topou uns companheiros de sua juventude e estendeu-lhes a mão para saudá-los.

Mas eles recusaram o cumprimento, pois não o reconheceram. O desterrado foi adiante e viu um irmão seu, com quem havia trabalhado, comido e dormido. Chamou-o, mas o outro não o reconheceu e o fitou com desprezo.

Pobre desterrado! Entrementes era insultado pela garotada, e mantido debaixo do olho da polícia. Dando mais uns passos, viu à sacada sua irmã. Gritou a ela, com afeição:
— Minha irmã!

Mas também ela o não reconheceu, e lhe virou as costas. Finalmente, desanimado e humilhado, chegou à casa paterna. Uma velha vestida de luto estava sentada perto da porta. Era sua mãe.
— Ao menos esta reconhecer-me-á — dizia o infeliz.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A origem das pérolas

Tombou Abel, assassinado pelo invejoso e cruel irmão. Impulsionada pelo instinto materno, tentou Eva reanimar o filho morto, acariciando longamente seu corpo exânime.

Quando se convenceu de que Abel não despertava mais, desconsolada e aflita, caminhou longa jornada até junto à praia do mar, e aí quedou-se a olhar, assombrada, a extensão das águas até então desconhecidas.

Nesse momento afloraram-lhe aos olhos suas primeiras lágrimas. Uma após outra, rolaram silenciosamente pela face, e foram cair sobre as pétalas de pequeninas flores, entre os rochedos.

Adão, que havia seguido ocultamente sua esposa, observava de longe, sem ser visto. Quando Eva se afastou, foi ver o que havia caído dos olhos chorosos da mulher. Encantado com a forma e o esplendor das gotas minúsculas, tomou-as, escondeu-as no interior de conchas e enterrou-as na areia.