domingo, 26 de junho de 2022

Santa Maria Estrela do dia

Nossa Senhora de Covadonga. Covadonga, Astúrias, Espanha.
Luis Dufaur
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Cantiga 100 do rei de Leão e Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María
Santa Maria, estrela do dia, mostre-nos a via para se chegar a Deus, e guie-nos.

Porque fazes ver aos errados que se perderam em razão de seus pecados, e lhes fazes compreender que são culpados.

Mas Tu perdoas a ousadia que os levou a fazer loucuras que não deviam.

Tu deves nos mostrar o caminho para ganhar totalmente a luz sem igual e verdadeira que só Tu podes nos dar; pois a Ti Deus a concedeu, e quer dá-la a nós por meio de Ti, e há de nos dar.

domingo, 12 de junho de 2022

O ferreiro, Jesus Cristo e o demônio

Ferreiros medievais. Vitral da catedral de Chartres, França.
Ferreiros medievais. Vitral da catedral de Chartres, França.
Luis Dufaur
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Um ferreiro fez um trato com o demônio, adquirindo este o direito de levar-lhe a alma para o inferno sete anos depois.

Durante os sete anos, entretanto, o diabo faria com que o ferreiro se tornasse o melhor artista do ramo no mundo inteiro.

Nosso Senhor Jesus Cristo, entrando com São Pedro na oficina do ferreiro, pôs-se a conversar com ele.

De repente entrou um freguês que desejava ferrar o cavalo.
— Permites-me que eu me desempenhe dessa tarefa? — perguntou Jesus.
— Faze como quiseres — respondeu com superioridade o ferreiro.
— Se trabalhares mal, sempre hei de poder reparar o erro, visto que sou o melhor ferreiro do mundo.

Sorriu Jesus, e pegando uma das patas do animal, cortou-a. Em seguida, colocando-a na bigorna, ferrou-a com toda a perfeição.

domingo, 29 de maio de 2022

Como a mãe de Cristo, São João Evangelista e São Francisco disseram a Frei Conrado qual deles sofreu maior dor da paixão de Cristo

Ordem Terceira de São Francisco, São Paulo, altar mor.
Ordem Terceira de São Francisco, São Paulo, altar mor.
Luis Dufaur
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No tempo em que moravam juntos na custódia de Ancona, no convento de Forano, Frei Conrado e Frei Pedro os quais eram duas luzentes estrelas na província da Marca e dois homens celestiais.

Entre os dois havia tanto amor e tanta caridade, que parecia terem ambos o mesmo coração e uma mesma alma.

E se ligaram por este pacto: que qualquer consolação que a misericórdia de Deus lhes desse, deviam revelar um ao outro por caridade.

Firmado entre ambos este pacto, sucedeu que um dia estava Frei Pedro em oração e pensando devotamente na paixão de Cristo.

E como a Beatíssima Mãe de Cristo e São João, diletíssimo discípulo, e São Francisco estivessem pintados ao pé da cruz, pela dor mental crucificados com Cristo, teve ele o desejo de saber qual dos três tinha sofrido dor maior com a paixão de Cristo.

domingo, 22 de maio de 2022

O conde Fernán Gonzales, o califa e o ermitão

Don Fernán González, conde de Castela
Don Fernán González, conde de Castela
Luis Dufaur
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Estava o conde Fernán Gonzales caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal.

O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta. Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar.

Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado. Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

— Vinde em paz, conde! A caçada te trouxe até aqui, mas prepara já as montarias, pois te aguarda o Rei Almanzor, o terrível inimigo dos cristãos.

Dura batalha te aguarda, pois o mouro traz muitos guerreiros. Mas alcançarás grande vitória.

E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros.

Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória.

domingo, 15 de maio de 2022

A espada de São Martinho

São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.
São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.
Luis Dufaur
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O Conde de Besalu era um valente que derrotou os mouros em muitas batalhas. Onde havia perigo, lá estava ele com seu exército, e não tardava em dar boa conta das turbas infiéis.

Um dia, estando em seu castelo, veio um de seus guardas dizer-lhe que sabia de boa fonte que os mouros subiam de Bañolas em direção a Santa Pau.

Imediatamente o Conde reuniu os seus leais, e saiu para enfrentar os mouros e impedir-lhes o avanço.

Quando os encontrou, no mesmo instante arremeteu contra eles com o ímpeto que lhe era peculiar.

Mas em pleno combate sua espada se quebrou.

Não era o Conde homem que se conformasse vendo pelejar seus soldados, mas não lhe era possível seguir lutando desarmado.

domingo, 8 de maio de 2022

A pedra do Beuvray

Luis Dufaur
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É uma grande pedra, um penhasco, uma pedra colossal que todos os anos, na noite de Natal, durante a Missa do Galo, gira sobre si mesma.

Existe na Borgonha um grande número dessas pedras misteriosas que giram, abrem-se e deixam ver grutas ou cavidades.

Uma delas está no topo do morro de Beuvray, onde é protegida por um ente estranho: a Wivre.

Esta é uma serpente fabulosa – uma espécie de dragão demoníaco coberto de escamas brilhantes amarelas e verdes quase luminosas, que ao entrechocarem-se produzem um ruído especial e silvam enquanto a Wivre voa e reluz no ar.

Se a pedra de Beuvray requer tão terrível proteção é porque encerra um tesouro. E esse tesouro só é acessível num momento do ano, durante alguns instantes da noite de Natal.

Na hora da Missa, como que incomodado pela celebração dos santos mistérios, o dragão se afasta e – dizem— a pedra se mexe e deixa entrever o a atração sedutora do ouro, das joias resplandecendo discretamente sob a luz das estrelas.

domingo, 1 de maio de 2022

Quem a Santa Maria algo der ou prometer

Luis Dufaur
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Esta cantiga conta como Santa Maria fez que se queimasse a lã dos mercadores que haviam oferecido algo à sua imagem, e pegaram tudo logo de volta.

Conta esta Cantiga o poder das relíquias e o castigo daqueles que não cumprem suas promessas à Virgem.

Um incêndio destruiu uma igreja de Laon (Leão do Ródano), onde se guardavam relíquias de Santa Maria numa arca de ouro (leite e cabelos da Virgem).

O decano, Mestre Bernardo, saiu com as relíquias para conseguir dinheiro para a reconstrução do templo, primeiro pela França e depois pela Inglaterra na nave de Colistanus, que viajava com mercadores de Flandres e de Paris.

domingo, 24 de abril de 2022

Os pombos da Praça do Mercado

Luis Dufaur
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A Praça do Mercado é o coração palpitante de atividade de Cracóvia.

Sua história é milenar e transcorre aos pés da grande igreja de Nossa Senhora.

Entre igrejas, palácios, casas burguesas, lojas populares e carruagens puxadas por cavalos, voam pombas em quantidades notáveis.

De onde vieram? Como chegaram até lá? Por que ficam nessa praça? Aguardam alguma coisa?

Os habitantes de Cracóvia os amam especialmente. Por quê?

No fim do século XIII, o príncipe Henrique IV, o Probo, estava instalado no trono de Cracóvia.

Porém, ele não era rei, uma vez que a Polônia estava dividida em vários principados autônomos sem um monarca que os reunisse.

domingo, 17 de abril de 2022

O violinista pobre de Cracóvia

A igreja de São Salvador, em Cracóvia, Polônia.
A igreja de São Salvador, em Cracóvia, Polônia.

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A igreja de São Salvador, no bairro de Zwierzyniec de Cracóvia, existe há 900 anos.

Ela teria sido construída pelo príncipe soberano Piotr Wlast, fundador legendário de 77 igrejas.

O arcebispo de Cracóvia lhe havia predito que ele recuperaria a visão, caso fundasse sete igrejas e três conventos.

Cheio de presunção, o soberano decidiu construir 70 igrejas e 30 conventos, dez vezes mais do que pediu o arcebispo. Porém, não recuperou a vista.

Ele recapitulou o que tinha feito e compreendeu seu pecado de orgulho.

E começou então a construir as sete igrejas e três mosteiros ordenados, entre os quais a igreja de São Salvador, fundada por volta do ano 1148.

domingo, 10 de abril de 2022

De muitas formas Santa Maria nos protege do mal

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Nossa Senhora com o Menino Jesus
Luis Dufaur
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Cantiga 258 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta história conta como Santa Maria fez crescer a massa que uma boa mulher preparou para fazer pão.

“Aquela que viu como seu Filho saciava cinco mil homens com cinco pães pode multiplicar o que quiser”.

Por essa mesma razão vou contar-vos um milagre que fez Santa Maria em Provence, assim como eu o encontrei escrito entre muitos outros assim vo-lo contarei, pois sei que vos satisfará grandemente se o escutardes.

Naquela terra, segundo ouvi, houve um ano de muita escassez. Uma mulher muito boa que amava a Virgem Santa Maria mais do que a si mesma e, pelo que sei, dava por amor a Ela muitas esmolas a quem pedia de boa vontade e, segundo suas possibilidades, aos pobres a comida que tinha.

Por causa disso mandava vir muita farinha para poder assar mais tarde pão até fartá-los. Mas, naquele mau ano, consumiu logo todo o pão, inclusive aqueles que assou por conta da colheita, e quando tudo tinha esgotado acudiram até ela pobres muito famintos para pedir-lhe esmola como de costume.

Nesse momento ela estava amassando pão, e sem titubear deu-lhes toda a massa que havia preparado, sem ficar com nada para si.

Entrementes um dos filhos, a quem ela pedira para aquecer bem o forno, disse à sua mãe que podia levar os pães, pois o mesmo estava bem quente.

Envergonhada, ela confessou ao filho: “Por Deus, toda a massa que eu tinha dei para os pobres por amor da Santa Virgem, que é a luz destes meus olhos, para que obtenha que Deus perdoe meus pecados.”

Ouvindo isto, o filho queixou-se abertamente. Muito atrapalhada, a mãe voltou correndo para onde estava a massa que havia doado e verificou que a mesma não tinha sido usada nem estava estragada em nada.
Fez o sinal da Cruz, e vós vereis o que ela deliberou na hora: saiu pela rua chorando e louvando a gloriosa Mãe de Jesus Cristo pelo seu generoso e grande milagre, fazendo chorar a todos.

E assim pranteando, louvaram então a Mãe do Salvador pelo belo prodígio que tinha operado por amor daquela mulher que A servia e, junto com grandes louvores, depositaram ricas oferendas sobre seu altar.



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domingo, 3 de abril de 2022

O anel de Santa Cunegunda

Santa Cunegunda, capela de Nossa Senhora, Budapest, Hungria
Santa Cunegunda, capela de Nossa Senhora, Budapest, Hungria
Luis Dufaur
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O príncipe Boleslau V o Casto procurava uma esposa em algum país vizinho.

Tinha que ser uma princesa e o casamento se decidia na base de cálculos políticos.

Foi assim que ele decidiu casar-se com a princesa Kinga, ou Cunegunda (1224-1292), filha do rei da Hungria.

Ela era a filha bem-amada do rei Bela IV e de Santa Isabel da Hungria, e irmã de Santa Margarida da Hungria.

A bela princesa húngara deu sua mão ao príncipe polonês.

Ela tinha um espírito fino e esclarecido, e pediu a seu pai um dote fora do comum. Contudo não pediu ouro nem dinheiro, nem belos panos, mas um presente que contribuiria muito para a prosperidade de sua nova pátria.

Naquela época o sal era um elemento raríssimo e o rei Bela ofereceu à filha uma das minas de sal que faziam a riqueza da Hungria.

Porém, a mina ficava muito longe da Polônia e a princesa percebia que seria difícil tirar proveito dela.

Ela foi, então, visitar a mina e decidiu levá-la consigo até sua futura pátria.

Para isso, arrancou inesperadamente um anel precioso de sua mão e jogou-o no poço mais fundo da mina, invocando São Francisco e Santa Clara de Assis.

Pouco tempo depois Cunegunda partiu para a Polônia escoltada por cavaleiros poloneses e húngaros.

Os primeiros meses que ela passou no castelo real de Cracóvia lhe fizeram descobrir e experimentar sua nova vida e seus novos servidores pobres e sacrificados.

Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Quanto mais passava o tempo, mais ela compreendia que era preciso fazer algo para a felicidade de seus vassalos.

Certo dia, ela pediu a seu esposo licença para procurar um lugar onde cavar para tirar o sal.

No dia seguinte, um grande cortejo acompanhou o casal real, que deixou a cidade e se deteve pela noite na pequena aldeia de Wieliczka, perto de uma floresta.

Cunegunda decidiu intuitivamente que não era necessário ir muito mais longe. Era ali que era preciso escavar. Os trabalhos começaram pela manhã.

Não se sabe ao certo quanto demoraram até acharem os primeiros blocos de sal. O fato é que a jovem rainha acompanhava os trabalhos de perto.

Ela até entrou no poço e acabou saindo alegremente com as primeiras pedras de sal.

Um dia, a soberana percebeu que entre os blocos de sal havia uma coisa que brilhava.

Cunegunda se inclinou, afastou a poeira e recuperou o anel que tinha jogado na mina de Hungria invocando seus padroeiros franciscanos.

Capela de Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Capela de Santa Cunegunda na mina de sal de Wieliczka
Era bem o mesmo, o anel oferecido outrora por seu pai em sua terra natal.

Então ela ficou bem segura. Havia escolhido o local certo para tirar o sal.

Desde então o sal da mina de Wieliczka trouxe muita riqueza para Cracóvia e para a Polônia inteira.

Mas Cunegunda não deixava de procurar meios para tornar seu povo sempre mais próspero.

Ocupava-se cuidadosamente dos vassalos e fazia muita caridade.

Após a morte do rei seu marido, Cunegunda se retirou para um mosteiro fundado por ela mesma em Nowy Sacz e adotou o hábito de religiosa.

Lá ela dorme o sono da bem-aventurança eterna.

Muitos anos depois foi canonizada. E Santa Cunegunda é hoje uma das padroeiras da Polônia e da Lituânia.

(Fonte: “Légendes de Cracovie”, Wydawnictwo Wam, Cracóvia, 1972, p. 32 a 35)



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domingo, 27 de março de 2022

O corvo e a raposa

O corvo e a raposa
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Um belo dia falando o Conde Lucanor com Patronio, seu conselheiro, disse:

— Patronio, um homem que diz ser meu amigo começou a me louvar dando a entender que eu tinha muito poder e muitas qualidades boas. Após muitos louvores ele me propôs um negócio que, a primeira vista, me pareceu muito proveitoso.

Então, o conde contou a Patronio o negócio que o amigo propunha e que parecia muito interessante. Mas Patronio percebeu que pretendia enganar o conde com formosas palavras.

Por isso disse:

— Senhor Conde Lucanor, deveis saber que esse homem quer vos enganar e fala que vosso poder e vosso estado são maiores do que na realidade são. Para evitar a enganação por ele aprontada gostaria que soubesses o que aconteceu ao corvo com a raposa.

O conde quis saber o que houvera.

— Senhor Conde Lucanor – disse Patronio –, o corvo certa vez achou um grande pedaço de queijo e pousou num galho para comê-lo tranquilamente, sem ser molestado.

Mas aconteceu de uma raposa passar por baixo da árvore e quando viu o queijo, começou a urdir o jeito de roubá-lo.

E foi assim que disse:

— Belo Corvo, há muito que ouço falar de vós, da vossa nobreza e da vossa galhardia. Embora eu vos tenha procurado por toda parte, nem Deus nem minha sorte me permitiram encontrar-vos antes.

Mas, agora que vos vejo, acredito que sedes muito superior a tudo quanto me diziam. E para que vejais que não procuro bajular-vos, não somente falarei de vossos bons dons, mas também dos defeitos que vos atribuem.

Todos dizem que, sendo preta a cor de vossa plumagem, olhos, patas e garras, e sendo que o preto não é tão belo como as outras cores, o fato de ser assim preto vos torna muito feio.

Mas eles não percebem seu erro, pois embora vossas plumas sejam pretas, elas têm um tom azulado, como as do pavão, que é a mais bela das aves.

E posto que os olhos foram feitos para ver, enxerga-se melhor quando são pretos e por isso todos louvam os olhos da gazela, que os têm mais escuros que qualquer animal.

Além do mais, vosso bico e vossas garras são mais fortes que as de qualquer outra ave de vosso tamanho.

Também vos quero dizer que voais com tanta velocidade que podeis ir contra o vento, ainda quando é muito forte, coisa que muitas outras aves não podem fazer tão facilmente como vós.

A raposa ao corvo: "eu me sentiria muito ditosa ouvindo o vosso canto"
A raposa ao corvo: "eu me sentiria muito ditosa ouvindo o vosso canto"
Por tudo isso acredito que, Deus que tudo faz bem, não teria consentido que vós, tão perfeito em tudo, não pudesses cantar melhor do que o resto das aves.

E porque Deus me concedeu a dita de vos ver e de comprovar que sedes mais belo do que dizem, eu me sentiria muito ditosa ouvindo o vosso canto.

E quando o corvo se sentindo tão bajulado pela raposa e achando que era verdade tudo o que dizia, supus que não estava sendo logrado, mas que era sua amiga e não suspeitou que falava só para lhe tirar o queijo.

Ludibriado por palavras e afagos, o corvo abriu o bico para cantar e agradar a raposa. Quando isso fez, o queijo caiu por terra.

Pegou-o logo a raposa e fugiu com ele.

Assim o corvo ficou iludido pelas bajulações de seu falso amigo, que lhe fez acreditar que era mais belo e mais perfeito do que realmente era.

Senhor Conde Lucanor, atentai que, embora a intenção da raposa fosse enganar o corvo, sempre falou verdades pela metade. Tende certeza que uma enganosa meia-verdade produz os piores males e os maiores prejuízos.

A vós, senhor Conde Lucanor, a quem Deus outorgou muitos bens, aquele homem quer vos convencer de que vosso poder e estado superam em muito a realidade. Acreditai que ele o faz para vos enganar.

E, por tanto, deveis ficar prevenido e agir como homem de bom juízo.

O conde ficou muito agradado pelo que falou Patronio e seguiu seu conselho. E pelo bom conselho evitou ser enganado.

E tendo ouvido o Infante Don Juan este conto achou que era bom e ordenou que fosse incluído nos livros. E compôs estes versos que resumem a moral da história:

Quem acha em ti qualidades que não tens,
sempre procura te tirar alguns bens.



El conde Lucanor
El conde Lucanor é um livro narrativo da literatura de Castela medieval, escrito entre 1330 e 1335 pelo infante Don Juan Manuel, Príncipe de Villena.
O título completo e original em castelhano medieval é Libro de los enxiemplos del Conde Lucanor et de Patronio (Livro dos exemplos do conde Lucanor e de Patronio).
O livro compõe-se de cinco partes, sendo a série de 51, exempla ou contos moralizantes, a mais conhecida.


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