domingo, 1 de maio de 2016

O ladrão e o luar

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



E aconteceu assim: durante a noite um ladrão tentou entrar na casa de um homem rico. Era lua cheia e levou compinchas com ele.

Na casa havia uma janela através da qual entrava o luar. Mas o bom homem dono da casa acordou, ouvindo passos de alguém caminhando pelo telhado e achou que só podiam ser ladrões.

Ele então acordou sua mulher e lhe disse:

– “Fala baixinho: eu escutei passos de ladrões que andam pelo nosso telhado. Quando você ouvir que estão chegando perto, me pergunte em voz clara:

– “Ah, meu marido como é que você conseguiu tanta riqueza como nós temos?”

“E enquanto eu não responder, você continue me perguntando até que eu diga”.

E quando ela ouviu o ladrão, começou a pedir ao marido o que lhe ordenara, e o ladrão começou a ouvir o que eles falavam.

O marido não respondia o que ela lhe perguntava, e ela insistiu várias vezes até que ele disse:

– “Vou te dizer, porque você quer muito saber. Não se reúne tantas riquezas sem ladroeira”.

E a mulher então disse:

– “Como é que pode ser uma coisa dessas? Porque as pessoas que você conhece te têm em conta de homem bom” ...

E ele replicou:

– “É que eu encontrei uma sabedoria para roubar. É uma coisa muito secreta. E muito sutil! De maneira que nunca ninguém suspeitou de mim tal coisa”.

E a mulher disse:

– “Como é que você fez?”



Ele respondeu, contando:

En seu quarto o bom homem e sua mulher aprontaram a cumbuca.
Quarto medieval, Museu de Arte Decorativa, Paris
– “Uma noite de lua eu andava com meus companheiros subindo pelos tetos por cima de uma casa que queríamos roubar.

“E cheguei até uma janela por onde entrava o luar. Então, eu pronunciei sete vezes “Saulan!, saulan!”

“E tendo dito isso, abracei o luar que entrava pela janela e descia dentro da casa. E foi a partir daquela casa que consegui roubar todas as outras.

“E então ia aos tetos, falava “Saulan!, saulan!”, abraçava o raio da lua e, segurado nele, descia e depois saía pela janela. E assim ganhei tudo isso que você está vendo”.

Tudo isto ouviram os ladrões. Eles gostaram, e o chefe disse:

– “Acabamos conseguindo mais do que pensávamos”.

Eles ficaram uma hora ali até só ouvirem o silêncio, achando que os donos da casa já estavam dormindo.

Então o chefe dos ladrões se aproximou da janela e disse sete vezes “Saulan!, saulan!”, abraçou o luar e pulou pela janela.

Mas aconteceu que ele caiu de cheio no chão da casa do bom homem, quebrando-se todo.

E quando o bom homem ouviu o barulho, levantou-se de sua cama e lhe deu muitas pauladas. Enquanto isso os compinchas, vendo a cena, fugiram correndo.

O bom homem chamou seus vizinhos, segurou o ladrão até que o dia amanhecesse, e entregou-o à Justiça.


(Fonte: Calila y Dimna, coletânea de contos de Castela de 1251 / 1261 provavelmente mandada traduzir pelo rei Alfonso X el Sabio quando ainda era muito jovem)



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