domingo, 28 de outubro de 2018

Cantiga de Santa Maria 113: “Pela razão hei de obedecer”

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Esta história é a da grande pedra que caiu do morro sobre a igreja de Montserrat, e que desceu diretamente para arrebentar a igreja toda e o mosteiro.

Eu acho muito razoável que as pedras obedeçam à Mãe do Rei porque, quando Ele morreu por nós as pedras se racharam.

Este é um grande milagre que eu ouvi contar.

Que em Monserrat fez a Virgem, e ainda hoje se vê bem ali, com uma pedra que mexia e que chegou a cair.

E caiu de tal jeito que, se Deus a deixasse prosseguir, poderia destruir toda a igreja.

Mas, Deus não quis sofrer isto para defender a igreja de sua Mãe gloriosa, a Rainha espiritual.

Por isso desviou a pedra de tal maneira que não pudesse fazer mal e a fez descer tão devagar que depois não pôde mais girar.

Mas, os monges, que nessa hora cantavam a missa da Mãe de Deus, quando ouviram o grande ruído, disseram:

“Senhor, somos vossos, e não nos deixeis perecer nem morrer de mala morte”.

Dizendo isto, saíram da igreja e viram o rochedo ali onde tinha caído, porque Deus o tinha desviado e começaram a abençoar a Deus e à Virgem e seu poder.

domingo, 14 de outubro de 2018

O caos dos rochedos do « Pas de Soucy »

“Vou ganhar essa!”, fanfarronava grosso o Maligno
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Nas gargantas do rio Tarn, uma acumulação imensa de rochedos parece querer barrar a passagem do rio.

Esta curiosa formação geológica tal vez esteja na origem da lenda do “Soussich do Tarn”, ou do “Caos do Pas de Souci”.

Após sua miraculosa cura na fonte de Burle, a princesa Santa Enimia projetou construir no local uma casa de oração para freiras.

Hélas! Como acontece com freqüência, Belzebu ouviu falar do projeto, e entrou no mais profundo desacordo.

Para pior, o diabo via que o prédio começava a subir.

Então, aproveitou a noite para destruí-lo com um só sopro.

domingo, 30 de setembro de 2018

A serpente de ouro


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Ao ir um homem rico à cidade, perdeu o que levava consigo: um saco repleto, com mil talentos, sobre os quais havia uma serpente de ouro com olhos de ametista.

Um pobre que passava pela mesma estrada achou o saco e o entregou à esposa, contando-lhe como o achara. Ouvida a história, a mulher disse:

— Guardemos o que Deus nos deu.

No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:

— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.

Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:

— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.

— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.

O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.

Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:

— Fica sabendo que falta a outra serpente.

Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.

Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado.

Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.

Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda.

Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:

— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.

— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.

Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:

— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.

O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:

— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.


— Que concluís daí, ó filósofo?

— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.

O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:

— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.

Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.


(Petrus Alphonsi, in Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, Mar de Histórias – Nova Fronteira, Rio, 4ª ed. vol. 1, p. 158)


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domingo, 2 de setembro de 2018

A freira que quis fugir do convento

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Eis como Santa Maria dissuadiu uma freira de ir embora de seu mosteiro com um cavalheiro.

“De muitas maneiras Santa Maria nos afasta do mal, tão leal Ela é conosco.”

Sobre isto, eu vou vos contar um milagre, tal como eu sei, que fez Nossa Senhora a uma freira a quem Ela deu grande prova de amor.

Essa monja era muito bela e observava tudo o que está na Regra.

Tudo o que era de agrado de Santa Maria ela fazia sempre e pontualmente.

domingo, 19 de agosto de 2018

Como São Pedro e São Paulo apareceram a São Francisco e Frei Masseo que pediam a santa pobreza

São Francisco de Assis, Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
São Francisco de Assis,
Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, monsior São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo o que diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir.

Depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois.

E, para lhes dar o exemplo de verdadeira obediência, começou ele primeiramente a ir a exemplo de Cristo, o qual começou primeiramente a fazer do que a ensinar.

Pelo que, tendo designado aos companheiros as outras partes do mundo, ele, tomando Frei Masseo por seu companheiro, seguiu para a província da França.

E chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte e Frei Masseo por outra.

Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco.

domingo, 23 de julho de 2017

Não cairmos em vergonha (Cantiga 94)

Nossa Senhora da Misericórdia, Sano di Pietro (1405-1481), col. privada.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Cantiga 94 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga fala como Santa Maria ficou servindo no lugar da freira que fugiu do mosteiro.


“A Virgem Maria trata sempre de nos livrar de pecar e de errar”.

E nos protege de pecar, e até quer nos encobrir quando caímos em pecado; depois nos faz arrepender e praticar a emenda dos pecados que cometemos.

Sobre isto, quero mostrar um milagre que numa abadia quis mostrar a Santa Rainha sem par que nos guia.

Havia lá uma freira que, segundo fiquei sabendo, era uma jovem formosa e, além do mais, sabia guardar a regra da Ordem, e nenhuma outra era tão diligente em aproveitar tudo o que tinham, e por isso lhe deram a tesouraria.

Mas o demônio, ao qual aquilo não agradava, a fez apaixonar-se de tal maneira por um cavaleiro, que não lhe dava repouso, até que conseguiu que ela saísse do mosteiro.

domingo, 22 de março de 2015

O grão de trigo

Germinação do trigo



Num dia de outono, triste e frio, saiu um homem a semear. Levando no braço esquerdo o saco de grãos, caminhava lentamente. A cada passo lançava um dos grãos — belo trigo, sadio e redondo — e os grãos caíam, rolavam e se escondiam na terra negra e arejada.

Aconteceu que um grão de trigo se achou de repente sozinho, entre dois torrões de terra preta e úmida. E o grãozinho ficou muito, muito triste. Tudo estava escuro e úmido, e a escuridão e a umidade aumentavam cada vez mais, pois o nevoeiro se transformara numa chuvinha enfadonha, ao aproximar-se a noite. Dava à gente vontade de se entregar ao desespero.

E foi o que fez o grãozinho de trigo. Começou a esquadrinhar a memória, procurando lembrar-se dos bons tempos que haviam ficado para trás.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A cotovia




Existe na Polônia uma bela e comovente lenda sobre a criação da cotovia.

Quando Deus viu que os primeiros homens, expulsos do paraíso, trabalhavam duramente, e durante trabalho inclinavam tristemente a cabeça para o solo, tomou um punhado de terra e lançou-a ao ar...

E este punhado de terra assim lançado por Deus, transformou-se num passarinho, a primeira cotovia, cujo canto faz elevar para o céu a cabeça do homem e conforta o lavrador banhado em suor.

A cotovia da nossa vida terrestre é a nossa fé inquebrantável em Deus. Quando nossa cabeça fatigada se inclina para a terra, a fé levanta-a para as alturas.

Quando as ondas do sofrimento quase nos sepultam; a fé nos alenta. E quando o sofrimento da existência nos crava na cruz, a fé nos dá de novo consolação e alívio.

A lenda continua. A pequena cotovia quis mostrar-se reconhecida para com Deus e enquanto o Salvador percorria, pregando, a Palestina, todos os dias pousava na janela da Virgem Maria.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As quatro barras catalunhas

Escudo da Catalunha
Escudo da Catalunha
Os normandos invadiram a França, no reinado de Carlos I.

O Imperador enviou a seu sobrinho Vifredo, o Veloso, Conde de Barcelona, uma carta, na qual pedia-lhe que o socorresse com os seus guerreiros.

O Conde marchou imediatamente com seu exército que entrou na batalha, vencendo os normandos, que se retiraram vencidos.

Uma flecha acertou o peito de Vifredo, no coração. Foi retirado a uma tenda, onde o visitou o Imperador.

O tio quis recompensar a seu sobrinho por esta lançada dando-lhe riquezas e bens.

Mas ele recusou toda recompensa, lamentando apenas que, apesar das muitas vitórias que havia obtido, em diversas batalhas nas quais havia tomado parte, seu escudo de armas ainda era liso: campo dourado, sem insígnias que revelava as suas muitas gestas.

O Imperador Carlos molhou, então, na ferida de Vifredo os quatro dedos de sua mão direita, e os passou de cima para baixo no escudo, marcando nele as quatro barras de sangue que ainda hoje adornam o escudo de Catalunha, Valencia e Aragão.

(Fonte: V. Garcia de Diego, Antologia de Leyendas de la Literatura Universal, Editorial Labor S.A., Madrid-Espanha, 1ª edição, 1953).