domingo, 16 de abril de 2017

O combate contra o gigante Ferragut


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Terminada a conquista da região de Monjardin, anunciaram a Carlos Magno que em Najera havia um gigante da raça de Golias, chamado Ferragut.

Tinha vindo da Síria, enviado pelo emir de Babilônia com 20.000 turcos, para combater o monarca franco. Possuía o vigor de quarenta homens fortes. Media uns sete pés.

Quando o gigante se inteirou da chegada do Imperador, saiu alegre ao seu encontro e lhe propôs um combate singular. Um cavaleiro devia lutar contra ele.

Saiu primeiro Ojeros até Ferragut, e o gigante pegou-o com sua mão direita e o levou como uma ovelha até a cidade. Carlos mandou Reinaldo de Montalbán.

Tomando-o pelo braço, Ferragut o encerrou no cárcere da cidade. Tiveram idêntica sorte vários guerreiros. Carlos desistiu então da idéia de prosseguir a luta.

Roland pediu permissão ao Rei para medir as suas forças com o gigante.

O David franco se acercou de seu rival. Ferragut, tomando-o pela direita, o pôs ante si sobre o cavalo, conduzindo-o até a cidade para prendê-lo com seus compatriotas cristãos.

O franco, porém, com rapidez, conseguiu derrubar o gigante ao chão. Levantou-se com presteza e montou de novo em seu cavalo. Roland brandiu sua espada e descarregou um forte golpe para matar o seu adversário.

A força da espada partiu em dois o cavalo, e Ferragut proferia terríveis ameaças contra o franco. Começaram a lutar com a espada. Porém Roland conseguiu desarmá-lo.

O Golias sarraceno intentou matar Roland com um murro, mas a mão cerrada caiu sobre a cabeça do cavalo de Roland, matando-o e deixando o cristão em posição parecida com a de seu inimigo. Perdida a cavalgadura, a luta continuou durante toda a tarde. Fizeram uma trégua, e os dois prometeram continuar a luta no dia seguinte, sem cavalos nem lanças.

No dia seguinte nada pôde conseguir Roland em seus intentos, para ferir com paus e pedras o seu invulnerável inimigo. Fizeram novas tréguas. Ferragut caiu, dormindo no próprio campo de batalha.

Roland, como bom cavaleiro, pôs uma pedra sob a cabeça do gigante, para lhe servir de almofada e assim poder descansar melhor. As tréguas eram tempos sagrados.

Capitel do palácio dos reis de Navarra em Estella: momento em que Roland clava sua lança no umbigo do gigante islâmico Ferragut
Capitel do palácio dos reis de Navarra em Estella:
momento em que Roland clava sua lança no umbigo do gigante islâmico Ferragut
Quando Ferragut despertou, Roland sentou-se ao seu lado. Perguntou qual era a razão de sua invulnerabilidade, não sendo ele atingido por espadas, bastões ou pedras.
— Porque tan solo por el ombligo puedo ser herido — confessou o gigante, falando em espanhol.

Continuaram conversando longo tempo, interessando-se o gigante pela origem e religião do franco, que aproveitou a ocasião para evangelizar o pagão, fazendo uma minuciosa exposição dos dogmas cristãos.

A discussão teológica terminou com uma reação normal naqueles tempos: a verdade religiosa e a aceitação da fé ficou submetida ao resultado da batalha entre os dois campeões.
— Lutarei contigo — disse Ferragut — com a condição de que, se é verdadeira essa fé que sustentas, seja eu o vencido. E se é falsa, o sejas tu.

O cristão aceitou. O duelo feroz se iniciou logo depois. Um golpe de espada de Ferragut partiu em dois a arma de Roland. Ao vê-lo desarmado, o gigante avançou sobre ele, aplastando-o sob o peso de seu corpo.

Compreendeu Roland que não podia fugir, e invocando a Virgem, revolveu sob o ventre do opressor. Tomando então o punhal, cravou-lho no umbigo, fugindo imediatamente. Aos gritos do gigante invocando Maomé, acudiram os sarracenos, levando seu capitão a Najera.

Então as hostes cristãs atacaram os mouros perto do castelo que domina a povoação, conquistando a cidade e a fortaleza e pondo em liberdade os prisioneiros cristãos.

(José Maria Jimeno Jurio, "Leyendas del Camino de Santiago" - Diputación Foral de Navarra, 1977)


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domingo, 5 de março de 2017

Como o arcebispo Turpin soube
da partida de Carlos Magno para o Céu

Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno
levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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"Eu Turpin, arcebispo de Reims, estando em Viena, após ter celebrado a Missa em minha capela, como estava só para dizer minhas horas, tendo começado o Deus, in adjutorium meum, ouvi passar sob minhas janelas um grande bando que atraiu minha atenção; ele marchava em meio a muito barulho e clamores.

Abri a vidraça para ver o que causava esse tumulto; e, adiantando a cabeça, reconheci que era uma legião de demônios, mas tão numerosos que não era possível contá-la.

Ainda que eles fossem a grandes passos, percebi entre eles um demônio menos alto que os outros, cujo aspecto, contudo, era horrível.

Ele era precedido por um primeiro grupo, e marchava na liderança do segundo, que se entrelaçava após ele, a alguns passos de distância.

Eu o conjurei, no nome do Criador e pela fé cristã, de me declarar in loco aonde ele ia com esses grupos.

– Nós vamos, me respondeu ele, nos aproveitar da alma de Carlos Magno, que, nesse momento, parte desse mundo.

– Ides, eu lhe disse; e, pela mesma ordem que já vos destes, eu vos adjuro de passar novamente por aqui para me relatar o que tereis feito.

Ele se afastou. Desde que ele desapareceu com os seus, me coloquei a recitar o primeiro salmo da terça.

Mal havia terminado, quando ouvi todos esses demônios que retornavam.

A história de Turpin, manuscrito medieval
A história de Turpin, manuscrito medieval
Seu tumulto me obrigou a ir até a mesma janela, de onde eu os vi tristes, inquietos e abatidos.

Perguntei àquele que tinha falado comigo, para me declarar o que eles tinham feito e qual tinha sido o resultado de sua marcha.

– Muito mal, respondeu ele. Mal tínhamos chegado ao encontro, quando nos vimos intimados, com o arcanjo Miguel vindo até nós com suas falanges; estávamos, contudo, próximos de nos apoderar da alma de Carlos.

Mas dois homens sem cabeça, São Tiago da Galícia e São Dionísio de França, patronos do império dos Francos, estavam presentes na hora da morte de Carlos.

Eles colocaram, em um dos pratos de uma balança, todas as boas obras do príncipe que acabava de falecer.

Eles reuniram ali as igrejas, as abadias e os outros monumentos piedosos que ele tinha edificado, com os ornamentos e os diversos acessórios do culto do qual ele os tinha dotado.

Carlos Magno.Albrecht Dürer 1471 – 1528).
Não pudemos reunir muitos pecados para levantar o outro prato; e tão logo, as falanges de Miguel, felizes com nossa confusão e alegres por ter elevado a alma do monarca, nos flagelaram tão vivamente que eles agravaram a aflição de nosso insucesso.

Eu, Turpin, fui assegurado que a alma do príncipe, meu mestre, tinha sido elevada ao céu pelas mãos dos anjos bem-aventurados, pelo peso de suas boas obras, e pela proteção dos santos que reverenciou e serviu durante sua vida.

Logo, fiz vir meus clérigos, ordenei que soassem todos os sinos da cidade; e fiz dizer missas; distribui esmolas aos pobres; enfim, orei pela alma de Carlos, na esperança fundada de aliviar o peso de sua purificação.

Ao mesmo tempo, testemunhei a todos aqueles o que vira e que estava certo da morte do Imperador.

Dez dias depois, recebi uma carta que me trazia todos os detalhes do ocorrido, e me instruía que o santo monarca tinha sido enterrado na igreja que ele mesmo tinha fundado, em Aix-la-Chapelle."




(Fonte: J. Collin de Plancy, “Légendes de l'autre monde”, Paris, Henri Plon, p.69, apud Annales Historiae).


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domingo, 19 de fevereiro de 2017

O fruto que o Menino Jesus aceitou de um menino pobre

Menino Jesus do Pensamento, escola espanhola
Menino Jesus do Pensamento, escola espanhola
Luis Dufaur
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Nada mais comovedor do que a lenda do pequenino predileto da Virgem Mãe e do Menino Jesus, o Bem-aventurado Hermano José.

Menino de maravilhosa pureza de coração, fugia com a maior cautela de companheiros mal educados e de jogos ruidosos.

Pelo contrário, em parte alguma gostava mais de estar do que na igreja, e a sua delícia particular era orar diante das imagens da Mãe de Deus, que já tinha escolhido por Mãe sua.

Seu nome era Hermano. Ainda hoje se mostra em Colônia, na Igreja de Santa Maria do Capitólio, o lugar onde, segundo uma piedosa tradição, com filial singeleza conversava com o Menino Jesus e sua Santa Mãe.

Ali saudava Maria, quando ia para a escola. Para ali se retirava, enquanto os seus condiscípulos jogavam ou se entregavam a outros brinquedos próprios da idade.

Uma vez levava Hermano consigo uma formosa maçã, e lhe veio a ideia de oferecê-la ao Menino Jesus.

Estendeu a mãozinha para a imagem, e — oh! prodígio! — a maçã foi aceita.

Outra vez, durante o inverno, apareceu o pobre menino descalço diante da imagem e ajoelhou-se para orar, a tremer de frio. Nisto perguntou-lhe Maria:

— Hermano, por que andas descalço, com tamanho frio?
— Porque não tenho sapatos — respondeu.

Então Maria apontou para uma pedra, e disse:
— Vai àquela pedra, e lá encontrarás o dinheiro de que precisas. Quando no futuro te faltar alguma coisa, vai sempre lá procurar, com toda a confiança.

Quando os outros meninos perceberam que Hermano encontrava dinheiro naquele local, também começaram a fazer buscas.

Mas, como não eram tão puros nem tão bons como Hermano, e como não tinham grande amor a Maria, não encontravam nada. O dinheiro estava lá só para Hermano.

A sua pureza era tamanha, que mais tarde, quando tomou o hábito no convento de Steinfeld, ao seu nome juntaram o do esposo virginal de Maria, e desde então ficou chamando-se Hermano José.


(Fonte: Pe. Adolfo de Doss, S.J., "A Pérola das Virtudes" - Porto, 1958)


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domingo, 5 de fevereiro de 2017

A ponte do diabo em Montoulieu

A Ponte do Diabo, Montoulieu
A Ponte do Diabo em Montoulieu
Luis Dufaur
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Perto da formidável fortaleza de Foix, na região de Languedoc, França, não longe da fronteira com a Espanha há uma ponte.

É a ponte de Montoulieu que existe até hoje.

Há turistas que chegam perto, mas não sabem o que fazem!

É melhor ir bem confessado!!! exclamam os que conhecem. Pois dela se conta a seguinte história:

Numa manhã, Raymond Roger, conde de Foix, acordou de péssimo humor. Passara mal na noite por culpa do javali que jantou na noite anterior.

Desse jeito, fez selar seu cavalo favorito e partiu ao galopo rumo às montanhas.

Ele atravessou logo o burgo de Foix e entrou pelo caminho que corre ao longo do rio Ariège. Ele ia pelo lado esquerdo cavalgando no sentido contrário da correnteza.

Assim ele passou por Ferrières e Prayols. Mas, logo depois lhe deu na fantasia de mudar de lado. Ele mandou o cavalo cruzar o córrego. Porém, naquele lugar o rio Ariège corre entre paredes de pedra enormes e a água é profunda.

O cavalo não quis passar. O conde ficou furioso, deu meia-volta e voltou para o castelo.

A Ponte do Diabo, Montoulieu
A Ponte do Diabo, Montoulieu
Imediatamente, ele mandou vir o barão de Saint-Paul, e lhe disse encolerizado:

‒ “Sr. barão, esse desvio na tua região me põe em cólera...”

‒ “Mas, meu senhor, sempre foi assim desde que existe esse rio!”

‒ “Chega! Eu te ordeno construir uma ponte no local. E logo!!!”

‒ “Bom… sim,... vou tentar…” sussurrou o barão consternado diante da perspectiva de uma tarefa quase impossível.

‒ “Se num mês eu não vejo a ponte, tua vida vai pender de um fio!”

E o conde se retirou deixando o pobre barão completamente desolado.

Acontecia que o barão era um poeta que não se preocupava pelo dia de amanhã e gastava logo os escudos que ganhava. Por isso, ele não tinha um tostão sequer para começar os trabalhos.

Então, ele que cantava sempre, ficou todo triste. Os dias passavam e não aparecia nenhuma solução. Ele foi até os bordes do Ariège e muito desanimado se lamentou:

Gargouille de Notre Dame de Paris.
Gargouille de Notre Dame de Paris.
‒ “Ah! Eu faria um pacto até com o diabo para sair desta enrascada!”

Fora o diabo malandro que soprara essa ideia no miolo mole do barão poeta.

‒ “¨Ca estou eu ...” disse uma voz por trás do barão.

O diabo cheirando a enxofre apareceu e lhe estendeu a mão dizendo:

‒ “Tua ponte estará pronta no dia combinado!...”

‒ “É verdade? Não posso acreditar... bem, muito obrigado... quer dizer... bom, sim, sim, obrigado...”, gaguejou o tolo.

‒ “Sim, sim...”, disse o diabo. “Mas o que é que você vai me dar em troca?”

‒ “Quer dizer... bem...” gaguejou o barão compreendendo tarde demais que tinha posto os pés pelas mãos.

‒ “Você não tem dinheiro... eu sei...”, continuou o diabo sabido. “Olha aqui!”

O espírito da mentira pegou uma pedra e jogou para ele. Na hora de apanhá-la, o barão viu que tinha se transformado em moedas de ouro!

‒ “Mas... eu... quer dizer... não sei...”

Igreja da abadia de São Volusien, onde o barão foi salvo
Igreja da abadia de São Volusien, onde o barão foi salvo
‒ “O que eu quero... ‒ e nessa hora o olhar do demônio faiscava como fogo do inferno ‒ é que você me entregue a alma do primeiro que passe pela ponte!”

O barão fechou os olhos e disse:

‒ “Tá bom! Eu te juro pela minha honra que a alma do primeiro que passar pela ponte será tua!”

E cada um partiu para seu lado. Mas, a partir daquela data, o barão estava cada vez mais triste. Ele tinha feito um pacto com o diabo!

Cheio de remorsos, ele foi para o lugar onde vão todos os que tem necessidade de um reconforto.

Ele foi para a igreja do mosteiro de São Volusien.

Envergonhado por seu pecado, ele se escondeu detrás da primeira coluna à direita, e se prosternou no chão chorando.

O irmão sacristão percebeu esse homem imenso por terra e foi chamar o reverendíssimo abade:

‒ “Meu pai, disse ele, há um ladrão na igreja!...”

‒ “Um ladrão? Como assim? Vamos ver...”

O abade foi pé ante pé até o homem deitado por terra, escutou e ouviu os prantos.

‒ “Mas não é um ladrão! É um homem que sofre!”, sussurrou para o irmão.

Diabo. Hans Memling (1430/1440 — 1494)
E, avançando, tocou no ombro do barão, dizendo:

‒ “Meu amigo, venha...”

E ele levou-o à sacristia onde reconheceu ao barão de Saint-Paul. Este então lhe contou o caso, sua dor e confessou seu pecado.

Quando a confissão acabou, o reverendo padre disse estas palavras na orelha do barão sonhador e atrapalhado:

‒ “Amanhã, vos será necessário... então vós fareis... então... a solução!”

Ninguém ficou sabendo o que saiu nesse momento. Mas o abade passou a noite rezando muitas “missas baixas” pelo barão.

O barão, por sua parte, voltou para sua casa, cantando como um passarinho de alegria.

Entrementes, durante aquela noite toda, ouviu-se no vale o eco de uma barulheira infernal. Era um canteiro de obras pavoroso!!!

Os aldeões de Montoulieu não puderam dormir.

E no raiar da aurora apareceu bem construída uma ponte sobre o perigoso córrego.

Belzebu instalou-se sobre o murinho da ponte, aguardando o primeiro passante para levá-lo ao inferno.

E quando desabrochavam os primeiros alvores matinais, envolto numa capa preta, apareceu o barão de Saint-Paul.

O diabo zombou dele:

‒ “Ah, sim, você vai ser o primeiro!...”

‒ “Não, não”, respondeu o barão. “O primeiro, aquele que é para você... olha está aqui!”

E abrindo uma sacola ocultada sob a capa puxou um enorme gato negro que tinha uma panela amarrada na cauda.

E o gato saiu disparado. Usando todas suas patas atravessou a ponte.

Castelo de Foix, perto de Montoulieu
Castelo de Foix residência do mal-humorado conde, perto de Montoulieu
O diabo soltava vapores pelas orelhas e partiu para pegar o barão, quando na encosta de um morro apareceu a procissão dos monges de São Volusien.

Eles vinham cantando a Ladainha de Todos os Santos, com a Cruz na frente e o Padre Abade levando o hissope e aspergindo a ponte com água benta.

O diabo afundou na terra!!! Vitória!!!

Durante muitos e longos anos poucas pessoas ousaram atravessar a ponte durante a noite.

Entretanto, há mais de dez séculos que não se ouve falar de sinais de Lúcifer na ponte de Montoulieu.

Se você for passear por ali e você o encontrar, fique sabendo que foi você que o atraiu lá!”



(Fonte: “La legendo del pount del diable”, tirada do livro “La Mandrette- Mémoire d’Ariège”, Ed. Lacour/Rediviva).



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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

São Francisco, o frade orgulhoso e o enviado de Deus


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No tempo de S. Francisco de Assis vivia um frade que achava estar à altura da inteligência de um anjo.

Aconteceu que um dia São Francisco estava rezando na floresta, quando um jovem veio até a porta do mosteiro e começou a bater bem forte, por tanto tempo, que os frades surpreenderam-se com o barulho. Um deles foi até a porta, abriu-a e disse ao jovem:

— Obviamente você nunca esteve aqui antes, pois não sabe como bater em nossa porta adequadamente.

— Como então devo bater?

— Bata três vezes lentamente, então espere até que os frades possam dizer um Padre Nosso. Se ninguém vier, bata novamente.

— Estou com muita pressa, por isso bati tão forte. Envie-me Frei Elias, pois eu lhe farei uma pergunta. Ele é muito sábio.

Frei Elias ficou ofendido com o modo do pedido, e não queria ver o jovem. Novamente ele começou a bater, tão alto quanto antes. Mais uma vez o frade foi até a porta, e disse:

— Você não observou minhas instruções de como bater.

— Frei Elias não virá. Vá até a floresta e diga a Frei Francisco para enviar-me Frei Elias.

Quando Frei Elias soube desta ordem, foi até a porta com grande fúria, e abrindo-a com violência e barulho, disse:

— O que você faria?

— Tome cuidado, Frei Elias — respondeu o jovem —, pois a ira atrapalha a alma e encobre a percepção da verdade.

O jovem fez então a Frei Elias uma pergunta muito difícil, sobre uma das regras do mosteiro.

— Eu sei bem a resposta — respondeu Frei Elias com raiva. Mas na verdade não sabia respondê-la, e bateu a porta na face do jovem.

São Francisco, a quem todos esses acontecimentos tinham sido revelados, repreendeu severamente Frei Elias, dizendo:

— Deveis estar doente, Irmão Elias, pois expulsais anjos que Deus nos envia para nos ensinar. Pois eu vos digo que temo muito que vosso orgulho vos fará acabar os dias fora da ordem.

E assim aconteceu, como São Francisco havia dito.



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