segunda-feira, 2 de novembro de 2015

São Save e o diabo

Diabo tortura precitos nos inferno. Hans Memling (1430 - 1494)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Um dia São Save, ou Saint Savin pelo seu nome francês, tinha de ir a uma aldeia, que ficava sobre uma montanha.

Subindo o caminho alcantilado, viu o diabo que vinha pelo lado oposto. No mesmo momento em que pôs os olhos no santo, o diabo quis fugir, mas havia altos barrancos em ambos os lados da passagem estreita, e ele não teve jeito de escapar.

Quisesse ou não quisesse, tinha que continuar e encontrar-se com São Save. Quando estavam bem próximos, São Save cumprimentou-o:
— Deus o ajude, viajante!
— Minha viagem não é de sua conta!,  respondeu o diabo, zangado.
— Quem é você?
— E que lhe importa saber quem sou eu?
— Aonde vai?
— Também isso não lhe diz respeito.
— Que gostaria você de fazer?
— Bem, eu gostaria de plantar verduras, se tivesse um pouco de terra e um sócio tal como o senhor.
— Se é isso que deseja, irmão, serei seu sócio. Mas primeiro vamos decidir a respeito do que fazer: o que semearemos, e quem deve comprar a semente?
— Embora eu deteste trabalhar com o senhor, padre, farei isso, com a condição de estabelecermos um contrato de negócios. Não quero ser seu subordinado, de maneira alguma. Temos que ser sócios com direitos iguais.

Conversaram sobre várias verduras, durante algum tempo, e resolveram cultivar cebolas, para começar. Encontraram um campo nas proximidades, semearam as sementes de cebolas e esperaram que elas crescessem.



A abadia de Saint-Savin-sur-Gartempe, na França
Depressa as hastes verdes irromperam da terra. O diabo vinha frequentemente festejar seus olhos com aquela sua bonita plantação.

Claro está que jamais lhe ocorreu olhar o que havia na terra, por baixo das hastes verdes.

Quando as cebolas estavam no seu melhor ponto, São Save chamou o diabo, e assim lhe falou:
— Agora, aquilo tudo é nosso. Isto é, metade me pertence e a outra metade pertence a você. Trate de decidir qual é a metade que prefere.
— Ficarei com a parte que fica acima da terra, e o senhor pode ficar com a outra.
— Está bem — disse o santo, sorrindo.

Logo depois de terem feito aquela combinação, as cebolas começaram a amadurecer. O diabo vinha sempre vê-las, mas agora já não se mostrava tão jubiloso, pois as hastes verdes iam ficando amarelas e secando.

Quando as cebolas ficaram inteiramente maduras, tudo quanto ficava acima da terra tornou-se arruinado e inútil. Foi então que São Save chegou ao campo, cavou e retirou da terra as grandes cebolas vermelhas, e levou-as consigo.

O diabo ficou muito triste e muito zangado, e resolveu vingar-se do santo.
— Tentemos outra vez, amigo — disse ele.
— Eu gostaria que fizéssemos outro contrato de trabalho.
— Está bem, sócio, mas que iremos plantar, desta vez?

Discutiram durante alguns momentos, e finalmente resolveram plantar repolhos.
— Veja lá, sócio: desta vez eu ficarei com a metade que fica sob a terra, e o senhor ficará com a outra metade, a que fica por cima.
— Como quiser, sócio — respondeu cortesmente o santo.

São Clemente, primeiro bispo de Metz encadeia o demônioSemearam os repolhos, e depressa as folhas começaram a aparecer acima da terra. Eram bem bonitas de se ver: grandes rodas verdes, pareciam crescer dia a dia. O diabo estava muito satisfeito, e dizia sempre, para si próprio:
— Já que há tanto acima da terra, quanto deverá haver debaixo dela!
E felicitava-se, por ter escolhido tão sensatamente.

No outono, quando os repolhos estavam em seu melhor ponto, São Save veio ao campo, cortou as cabeças e levou-as, deixando as raízes duras para o diabo.

Logo depois dele chegou o diabo com um grande séquito, pronto para dar uma esplêndida festa de regozijo pelo seu sucesso. Adiantou-se lentamente, com tocadores de gaitas de fole, cantores, dançarinos e muitas outras pessoas em sua esteira. Ao chegar ao campo, fez sinal a todos para que parassem e o observassem — para que o admirassem, era isso que ele sinceramente esperava.

Ajoelhou-se no chão e cavou uma raiz, com gestos elegantes. Não pôde acreditar em seus olhos. Tendo visto as raízes secas e duras por toda parte, precisou, mais uma vez, confessar seu fracasso. O rosto dele ficou verde de fúria e desapontamento, mas não quis que as coisas ficassem assim. Despediu seus acompanhantes, encolerizado, e apressou-se a ir ter com São Save.

São Miguel Arcanjo resgata alma que estava sendo levada pelo diabo, Allemans-du-Dropt, Lot-et-Garonne
São Miguel Arcanjo resgata alma
que estava sendo levada pelo diabo.
Allemans-du-Dropt, Lot-et-Garonne
— Caro sócio, tenho grande prazer neste nosso trabalho em conjunto. Façamos outro contrato em relação às verduras que vamos plantar agora.
— Se esse é o seu gosto, sócio, também eu estou disposto a continuar, porque também estou gostando do nosso trabalho em comum. Que será, desta vez? Talvez batatas?
— Oh! muito bem... batatas, era isso mesmo que eu tinha em mente quando vim falar com o senhor. Só que eu desejo ficar com a parte de cima da terra, e o senhor ficará com a de baixo.
— Está bem, fica assim combinado — confirmou São Save, afastando-se.

No tempo certo, logo no começo da primavera, semearam batatas. O tempo estava bom, e depressa apareceram as folhas verdes sobre a terra. Quando as batatas deram flor, o diabo sacudia o corpo, rindo e dizendo consigo mesmo:
— Desta vez agarrei o padre Save: ele terá tempo bastante para se arrepender de sua escolha.
Ria na cara do santo, que suportava aquilo com grande paciência, e esperava pelo outono.

A flor da batata transformou-se em semente, as grandes folhas verdes encolheram, ficaram amarelas e apodreceram. O diabo não ria, agora. Quase chorou de despeito quando São Save veio cavar suas batatas e levá-las para seu carro. O diabo quase rebentava de fúria, mas ainda assim esperava poder tirar sua vingança.
— Vamos continuar com o nosso contrato de negócios — disse ele ao santo. — Estou tão habituado a trabalhar com o senhor, agora, que me aborreceria de morte, se deixasse de fazê-lo.
— Trabalharemos juntos enquanto você tiver prazer nisso, sócio. Ainda não tentamos plantar trigo. Vamos tratar disso?
— Como quiser, meu caro sócio — respondeu o santo, tão cortesmente como de costume.

Semearam trigo, que no tempo devido cresceu e amadureceu. Quando as espigas douradas estavam pesadas de grãos, São Save chamou vários trabalhadores, que cortaram habilmente o trigo com suas foices.

O diabo, entretanto, estava pensando nas riquezas subterrâneas, mas ficou amargamente desapontado, mais uma vez. Não levou muito tempo a perceber que só a haste espinhenta ficara para ele. Gritou de cólera, e foi ter direito com São Save.
— Bem, padre, quero plantar uma vinha com o senhor. Se conseguir levar vantagem sobre mim, não mais seremos sócios.
Monge copista medieval
Monge copista medieval
— Seja assim, meu amigo. Deixarei a você a escolha, como sempre fiz — disse São Save.

Plantaram uma vinha. Dessa vez levaram três anos a esperar os frutos. No terceiro ano, belos cachos verdes começaram a crescer nas vinhas. São Save e o diabo vieram dar uma olhadela à sua propriedade e decidiram dividir tudo. São Save perguntou ao diabo:
— Que deseja agora, sócio: o caldo claro ou a massa espessa?
— Ficarei com a massa espessa, e o senhor pode ficar com o caldo claro — disse imediatamente o diabo.

Quando os cachos amadureceram, São Save apanhou-os da vinha e colocou-os num tonel. Logo depois derramava vinho fino em barricas, deixando o resto para o diabo.

O diabo ficou furioso outra vez, mas algo ocorreu-lhe: derramou água sobre o restante, e assim obteve a aguardente. São Save viu-o remexendo-se em torno do tonel, e perguntou-lhe:
— Que está fazendo, sócio?
— Destilando aguardente, irmão.
— Deixe-me prová-la, para ver que gosto tem.
— Com muito prazer, sócio.

O diabo entregou um copo de aguardente. São Save provou uma vez, duas vezes, e na terceira vez abençoou a bebida e persignou-se. O diabo não pôde aguentar aquilo e fugiu, gritando:
— De agora em diante essa bebida será remédio para os velhos e loucura para os jovens!

Desapareceu, e nunca mais voltou aos lugares onde sabia que se poderia encontrar um padre virtuoso.

("Maravilhas do conto popular" - Cultrix, SP, 1960)


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