domingo, 17 de novembro de 2013

Os sarcófagos vazios de Quarré-les-Tombes

São Jorge, catedral de Estocolmo
São Jorge, catedral de Estocolmo

No coração da região de Morvan, na Borgonha (França), entre os límpidos rios Cure e Cousin, uma aldeia tem um nome curioso: Quarré-les-Tombes, algo como o Cercado das Tumbas.

O nome vem da presença sempre inexplicável de grande número de sarcófagos vazios – lá chamados de “pierres carrées”.

A concentração nesse local de milhares de túmulos sem os respectivos restos sempre excitou a imaginação popular.

A história começa no século nono da era cristã. Os normandos – ou vikings – que naquela época eram pagãos, invadiam a França e remontavam os rios a bordo de seus grandes barcos, os drakkar.

Eles não somente matavam, pilhavam e queimavam tudo na sua passagem, mas também arrasavam as igrejas e dispersavam as santas relíquias.

Lutar contra os normandos equivalia não somente libertar o território, mas também partir em cruzada e, por essa via, conquistar o Paraíso.


Alguns dos túmulos vazios junto à igreja de Quarré-les-Tombes
Alguns dos túmulos vazios junto à igreja de Quarré-les-Tombes
Renaud, filho de Aymon, príncipe de Ardennes, foi um dos chefes mais célebres nesta guerra.

Certa feita, ele cavalgou durante vários dias à testa de seus cavaleiros sem repousar nem se alimentar, porque queria ir mais rápido que os normandos e pegá-los no centro do Morvan.

Como queria descansar um pouco num local fresco e calmo algumas horas antes da batalha que planejava provocar, Renaud amarrou seu cavalo num velho carvalho à sombra de uma floresta e deitou-se.

A grama parecia confortável, um rouxinol cantava maravilhosamente, o ar era agradável.

Sarcófagos dentro da igreja de Quarré-les-Tombes
Sarcófagos dentro da igreja de Quarré-les-Tombes
Tudo concorria para Renaud dormir – debilidade compreensível, pois ele estava esgotado para além do imaginável.

Os dois exércitos se entrechocaram enquanto o herói dormia.

Excitado pelo ruído das armas e dos gritos de combate, seu cavalo encheu-se de impaciência e, para acordar o dono, começou a relinchar e cavar o chão com tal violência que se enterrou até o ventre.

Por fim, tirado do sono pelo pobre animal, Renaud acorreu ao local do combate para sustentar seu exército que começava a arredar.

Jogou-se então de corpo inteiro na batalha, e os guerreiros, vendo-o de tal maneira engajado, recuperaram a coragem.

São Jorge, igreja de Hanworth, Inglaterra
São Jorge, igreja de Hanworth, Inglaterra
Os infiéis começaram a cair como espigas na colheita: o jogo de forças inverteu-se e logo não sobrou nenhum normando vivo.

Mas, nas hostes cristãs as perdas foram severas. E os sobreviventes ficaram donos do terreno, mas esgotados.

São Jorge, padroeiro dos cavaleiros, havia acompanhado a cena do alto do Céu e quis levar consigo ao Paraíso aqueles guerreiros mortos com tanta bravura.

Porém, para ir ao Paraíso era preciso que fossem enterrados em cemitério cristão.

Então o cavaleiro do Céu, armado com sua longa lança e montando seu belo cavalo branco, enviou uma chuva de sarcófagos destinados aos soldados de Renaud.

E fiz crescer um monte de espinheiros sobre o corpo dos incrédulos.

O cemitério foi consagrado pelos clérigos.

E depois que todos partiram, São Jorge levou os cruzados mortos para o Céu.

Quando em séculos posteriores os pesquisadores foram a abrir os féretros de Quarré-les-Tombes, descobriram que eles estavam vazios.



(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 42-43)



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