domingo, 15 de setembro de 2013

O demônio que virou roda

São Bernardo de Claraval. Heiligenkreuz, Áustria
São Bernardo voltou certa vez à sua aldeia natal – Fontaine, perto de Dijon – para encontrar junto à lagoa de sua infância toda a calma e toda a força de que necessitava.

Com efeito, através de sua eloquência e da força de convicção de sua fé, ele deveria arrastar para a segunda Cruzada tudo quanto na Europa havia de melhor na nobreza e nas classes populares de boa vontade.

Por isso ele precisava de um momento de contemplação e repouso em sua terra natal.

Tanto mais quanto havia tempo que inquietações e dúvidas o assaltavam e atormentavam, dando a impressão de que uma diabólica mão pesava-lhe sobre as costas, queimando-a.

Uma voz lhe murmurava palavras desencorajadoras e anunciava que seu projeto iria fracassar.

Imagens ora tentadoras, ora aterrorizantes desfilavam diante de seus olhos.

São Bernardo lutava contra o demônio com todo o poder da oração, sendo nisso ajudado pela tranquilizadora paisagem de seus jovens anos.


A serenidade voltou e ele decidiu se reunir com o já numeroso magote de companheiros de fé e de combate, com os quis pegou a estrada de Vézélay.

Os caminhos naqueles tempos eram ruins e difíceis, as viagens lentas e penosas, o perigo acompanhando os viajantes como se fosse parte de sua própria bagagem.
Demônio queria impedir a pregação da Cruzada

Entretanto, incidente algum de importância perturbou o avanço do comboio que se aproximava do ponto de chegada.

Ora, uma tempestade de uma violência extraordinária pegou-os uma noite num vale muito estreito.

Um ruído infernal descia como que rolando de pedra em pedra, torrentes de lama ameaçavam a todo o momento levar as carruagens, os bois e os cavalos.

Os viajantes encontraram refúgio numa gruta onde acabaram cedendo ao sono.

São Bernardo ficou só sob a tempestade a fim de tranquilizar os animais.

O santo tentou desentalar uma das charretes que estava atolada na lama, mas enquanto o fazia uma de suas rodas quebrou completamente.

Um riso estridente se fez ouvir nas suas orelhas e ele percebeu nas costas o sopro ardente que ele conhecia bem.

O diabo não abandonava sua presa e naquela noite mostrava-se mais empedernido.

E o diabo mordeu o rabo e foi fazendo o trabalho
da roda quebrada
São Bernardo fez então lentamente o Sinal da Cruz e com voz forte deu ordem ao demônio para ocupar o lugar da roda quebrada.

Uivando de dor e de raiva, o espírito mau não pôde resistir à vontade daquele que agora era seu senhor.

Mordendo a própria cauda, ele assumiu a forma circular e tirou com suas forças a charrete entalada.

O amanhecer despontou calmo e luminoso sobre o comboio já disposto em ordem e todos retomaram a estrada.

Apenas um gemido melancólico proveniente de uma roda ritmava a marcha: esta foi a única lembrança dos furores da noite.

No dia seguinte, São Bernardo atingiu o alto da colina de Vézélay e ali pregou a Cruzada com o brilho que a História registrou.


(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 59-60)


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