domingo, 5 de maio de 2013

Daquele santo frade ao qual a Mãe de Cristo apareceu quando estava enfermo, e lhe trouxe três caixas de eletuário

No sobredito convento de Soffiano viveu antigamente um frade menor de tão grande santidade e graça, que parecia todo divino e freqüentes vezes ficava arrebatado em Deus.

Estando certa vez este frade todo absorto em Deus e enlevado; porque tinha notavelmente a graça da contemplação, vinham ter com ele passarinhos de diversas espécies e domesticamente pousavam-lhe nas espáduas e na cabeça, nos braços e nas mãos e cantavam maravilhosamente.

Era ele solitário e raras vezes falava; mas quando lhe perguntavam alguma coisa, respondia tão graciosamente e tão sabiamente, que mais parecia anjo do que homem e era de grandíssima oração e contemplação, e os frades o tinham em grande reverência.

Acabando este frade o curso de sua vida virtuosa, segundo a disposição divina enfermou de morte, de modo que nenhuma coisa podia tomar, e com isto não queria receber nenhuma medicina carnal, mas toda a sua confiança era no médico celestial Jesus Cristo bendito e na sua bendita Mãe; da qual ele mereceu pela divina demência de ser misericordiosamente visitado e consolado.

Pelo que, estando uma vez no leito e dispondo-se à morte com todo o coração e com toda a devoção, apareceu-lhe a gloriosa Virgem Maria, mãe de Cristo, com grandíssima multidão de anjos e de santas virgens com maravilhoso esplendor e se aproximou do seu leito.

E ele, olhando-a, recebeu grandíssimo conforto e alegria quanto à alma e quanto ao corpo; e começou a pedir-lhe humildemente que ela pedisse ao seu dileto filho para que, pelos seus méritos, o tirasse da prisão da mísera carne.



E perseverando neste pedido com muitas lágrimas, a Virgem Maria respondeu-lhe, chamando-lhe pelo nome, e disse-lhe:

“Não duvides, filho, porque tua oração foi atendida, e eu vim para confortar-te um pouco, antes de te partires desta vida”.

Estavam ao lado da Virgem Maria três santas virgens, as quais traziam nas mãos três caixas de eletuário de desmesurado odor e suavidade.

Então a Virgem gloriosa tomou e abriu uma daquelas caixas e toda a casa ficou cheia de odor: e tomando com uma colher daquele eletuário o deu ao enfermo: o qual, tão depressa o saboreou, sentiu tanto conforto e tanta doçura que sua alma parecia não poder mais ficar no corpo; pelo que começou a dizer:

“Não mais, ó Santíssima Mãe, Virgem bendita e salvadora da humana geração, não mais; porque eu não posso suportar tanta suavidade”.

Mas a piedosa e benigna Mãe, apresentando outra vez daquele eletuário ao enfermo e fazendo-o tomar, esvaziou toda a caixa.

Depois, vazia a primeira caixa, a Virgem bendita toma a segunda e nela pôs a colher para dar-lhe, pelo que ele docemente se queixava, dizendo:

“Ó Beatíssima Mãe de Deus, se minha alma quase toda está liquefeita pelo ardor e a suavidade do primeiro eletuário, como poderei eu suportar o segundo? Peço-te, bendita sobre todos os santos e sobre todos os anjos, que não me queiras dar mais”.

Respondeu Nossa Senhora:

“Saboreia, filho, ainda um pouco dessa segunda caixa”.

E dando-lhe um pouco, disse-lhe:

“Hoje, filho, tomaste tanto, que já chega. Conforta-te, filho, que depressa virei por ti e levar-te-ei ao reino de meu filho, ao qual tu sempre buscaste e desejaste”.

E dito isto, separando-se dele, partiu, e ele ficou tão consolado e confortado pela doçura daquele confeito, que por muitos dias sobreviveu saciado e forte, sem nenhum alimento corporal.

E depois de alguns dias, alegremente falando com os frades, com grande letícia e júbilo, passou dessa vida mísera à vida bem-aventurada. Amém.



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