domingo, 12 de agosto de 2012

Lenda de Tentúgal “Tem-te-igual” face à moraima

Igreja de Tentúgal
Igreja de Tentúgal
Entre a cidade de Coimbra e a Vila de Montemor-o-Velho fica a aldeia de Tentúgal que hoje é uma pequena povoação mas que nos tempos de primeira dinastia era uma posição fortificada bastante importante, defendendo a passagem do Mondego.

Os mouros tinham sido escurraçados até ao Algarve, mas os dois sucessores do conquistador de Silves não foram lutadores como os dois primeiros reis portugueses e eram freqüentes as incursões sarracenas que, vindas da Andaluzia, atravessavam o Guadiana e vinham assolar as terras reconquistadas.

Os portugueses eram senhores dos castelos e quando os mouros faziam os seus fossados, as populações rurais, ainda mozárabes, isto é mistas de católicos e árabes convertidos, refugiavam-se atrás das ameias.

Os mouros faziam correrias até o Tejo, passando pelos campos e montes entre as praças-fortes e apoderavam-se das colheitas e do gado que podiam recolher. Depois, voltavam para o seu reino da Andaluzia com os despojos.


Montemor-o-velho
Mas uma das incursões era comandada por um grande mouro, uma figura gigantesca a que os portugueses chamavam “mourão”.

Este intrépido inimigo concebeu o plano de ir atacar e saquear Coimbra que era, então, onde a corte residia.

A cidade estava cheia de riquezas e como ficava longe da fronteira, as precauções de defesa não eram tão grandes como em Lisboa, Santarém ou Évora.

Os sarracenos passaram o Tejo entre Abrantes e Santarém, por terras da Golegã e, evitando Tomar, seguiram pelo vale de Nabão em demanda de Coimbra.

O plano consistia em ultrapassar a cidade para o lado Norte e atacá-la.

É claro que esse lado era o menos vigiado por não se esperar um ataque pelo lado em que os territórios eram há muito católicos e bastante povoados. Além disso, havia a defesa natural do Rio Mondego.

Mas os ousados sarracenos, passaram-no junto de Alfarelos e foram acampar na margem Norte, entre o Castelo de Montemor e o de Coimbra, junto da povoação que ali havia.

O seu acampamento ficava exatamente onde hoje se ergue a igreja matriz e ali mesmo ficava a tenda maior que era a do general, o “mourão” que comandava.

Mouros sitiam Montemor-o-Velho
Mouros sitiam Montemor-o-Velho
Por isso, o lugar ficou a ser conhecido por Mourão e ainda hoje tem esse nome.

Quando os católicos tiveram noticia da chegada das hostes mouras, reuniram tropas idas de Montemor, de Coimbra e até de Leiria.

Travaram-se muitos combates preliminares, como era uso da época, simples escaramuças para avaliação de forças de ambas as partes contendoras.

Finalmente, chegou o dia da peleja que se realizou em campo aberto com sorte vária para ambos os lados. Ora os portugueses eram repelidos ora avançavam impetuosamente, fazendo recuar os invasores.

A batalha ficou indecisa até à noite e recomeçou no dia seguinte com redobrado esforço.

Foi então que o gigante mouro resolveu entrar na luta com a sua guarda de escol para resolver a batalha a seu favor.

Logo que investiu com a sua força devastadora, o resultado do combate parecia decidido e os chefes portugueses já pensavam em retirar para Coimbra, quando um moço português resolveu enfrentar pessoalmente o “mourão”.

Abriu caminho até o mais aceso da luta e fez frente em duelo mortal ao inimigo invasor.

Brasão em Tentúgal
Brasão em Tentúgal
Então os portugueses ao verem o valoroso combate, resolveram suspender a manobra de retirada e recomeçar a luta em apoio do seu campeão.

Enquanto eram dadas as ordens para o efeito, os dois contendores digladiavam-se já isolados nas ruínas das fortificações que eram bastante frágeis, e estavam quase completamente desmoronadas, pois haviam ainda sido construídas pelos godos.

À medida que os católicos iam recuperando terreno, gritavam repetidas vezes para o seu valoroso campeão: Tem-te igual com o “mourão”! 

Tem-te igual com o “mourão”! Essa frase de português arcaico equivaleria hoje a bradarem: Agüenta-te com ele! Agüenta-o!

O valente guerreiro agüentou os golpes do alfange agareno com o seu montante até que os companheiros treparam às ruínas e rodearam o “mourão” por todos os lados. Em breve, a cabeça rolava pelas pedras envolvida no turbante ensangüentado.

Os mouros, vendo cair a seu general derrotado, começaram a render-se e a fugir. Como estavam longe das suas bases, em breve eram aprisionados, mesmo antes de chegarem a Tomar, porque os portugueses dessa cidade vieram ao seu encontro.

Foi esta a última arrancada mourisca pelo centro de Portugal para lhe atingir o coração. Nunca mais ousaram fazê-lo porque as perdas tinham sido muitas e verificaram que nem de surpresa conseguiam vencer os portugueses.

Brasão em Tentúgal
Brasão em Tentúgal
Muita coisa se perdeu nas brumas da História, como o nome do “mourão” e o do valoroso português que lhe fez frente.

Mas o lugar do acampamento mouro ficou para sempre recordado como lugar do “mourão” e ali foi construída uma igreja, já reedificada várias vezes.

Quanto à aldeia próxima, também já se não sabe o seu nome primitivo, anterior à batalha.

O castelo que ali foi construído recebeu o nome de castelo do “Tem-te-igual”, nome que, com o tempo, evoluiu para Tentúgal.

Hoje, Tentúgal é uma vilazinha sossegada e laboriosa, cuja fama já não é devida a memórias guerreiras, mas aos seus apreciados pastéis de finíssimo folhado com recheio de doce de ovos...

Quem viaja entre Coimbra e a Figueira da Foz não deixa de parar em Tentúgal para saborear os afamados pastéis.

Mas, se perguntar aos anciãos donde provém o nome, já ninguém sabe referir a tradição lendária...


(Autor: Álvaro Carlos, “Narrativas e Lendas de Portugal”, Edições Paulistas, Lisboa, 1987, pp. 43 a 46)




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