quinta-feira, 22 de julho de 2010

A flauta do monge inocente


Em Sens, na França, havia um jogral incapaz de fazer mal a uma criança, mas que levava a vida mais desordenada que se possa imaginar. Passava as horas e os dias na taberna, nas praças ou em lugares piores.

Ganhava algum dinheiro cantando e tocando seu instrumento, mas logo corria à procura de quem estivesse disposto a jogar, e perdia até a camisa do corpo. Quando não tinha dinheiro, empenhava até sua viola para obtê-lo, e esse também se evaporava, porque de fato a sorte nunca o ajudava.

Por isso sempre vestia roupas maltrapilhas, andava descalço e sem dinheiro. Mas estava sempre contente, sorria sempre e cantava sem cessar. Só pedia a Deus que convertesse todos os dias da semana em Domingo.

Acabou morrendo. Um diabo novinho, que ainda não fizera sua estréia no serviço de levar almas para seu patrão, e que durante o mês anterior percorrera vilas e campo à procura de oportunidade para cumprir suas incumbências, coincidiu de passar por ali no momento em que o jogral expirava, e se apoderou da sua alma. Colocou-a nos ombros e se mandou para o inferno.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A cadeira emprestada e devolvida

Banquete medieval
O conde Henrique tinha por senescal um homem duro, avaro e cruel. Sempre que o conde fazia alguma obra de caridade, ele se condoía muito pela perda do patrão.

Não porque zelasse desinteressadamente pelos bens do conde, mas, pelo contrário, porque roubava constantemente da mesa vinho, caças e outros alimentos, que depois devorava às escondidas. E não queria que outros compartilhassem com ele os bens do conde.

Isso ocasionava algumas vezes, sobretudo quando havia visitas, cenas hilariantes com as quais se divertia o conde.

Mas outros que viam isso não achavam graça, e desejavam que o senescal fosse de alguma forma punido por sua avareza.

Um dia o conde anunciou que ia dar uma festa, para a qual estavam convidados todos os seus vassalos, altos e baixos, ricos e pobres. Festa suntuosa.

As portas do castelo estavam abertas de par em par, e por todo lado havia mesas cheias dos manjares mais diversos. Compareceram cavaleiros, damas, donzelas, escudeiros, jovens, jograis e menestréis.

O avarento senescal pensava com seus botões: “Toda essa gentalha parece não ter comido durante todo o ano! Como comem! Vão acabar deixando a despensa vazia!”

Mas, como precisava agradar ao patrão, dissimulava a raiva e dizia aos convidados, com sorriso hipócrita:

— Servi-vos bem, senhores! Comei e bebei à vontade!

Todos se haviam assentado e a festa começado, quando chegou um pobre lavrador, que comparecia depois de terminada sua faina diária.

Vendo-o, o senescal se enfureceu e descarregou sobre ele toda a raiva que havia acumulado, gritando com o pobre homem:

— O que está querendo aqui? O que é que perdeu nesta casa?

— Eu vim comer, pois fui convidado como todos os outros e estou com vontade de comer. Por favor, arranje-me um lugar para sentar-me, pois não estou vendo nenhuma cadeira vazia.

— Lugar para sentar? Aí tens um lugar para sentar — disse o senescal, enquanto dava um chute no traseiro do camponês.

Logo depois o senescal se arrependeu, por medo de que o fato chegasse ao conhecimento do conde, e resolveu apaziguar o lavrador, pedindo-lhe perdão e arranjando-lhe um lugar.

Sorrindo, o lavrador demonstrou que não guardava rancor, mas de fato esperava a ocasião adequada para vingar-se. Comeu e bebeu à vontade, e depois passou com os outros para o salão.

Menestreis da Cantiga de Santa Maria, anónimo espanhol
O conde acabara de fazer entrar os jograis e menestréis, para divertir os convidados. Para incentivá-los a cantar bem e demonstrar suas habilidades, prometeu uma luxuosa roupa escarlate àquele que conseguisse maiores aplausos ou risos com o que cantasse ou fizesse.

O prêmio era valioso, e então os jograis cantaram as mais belas canções, outros fizeram passes, outros imitaram os bêbados e loucos, alguns imitaram brigas de mulheres, cada um se esforçando por fazer o que julgava mais engenhoso.

O lavrador olhava e se divertia como todos os outros, no salão repleto.

Quando tudo terminou, o lavrador se aproximou por trás do senescal, que estava de pé ao lado do conde, e lhe deu um tremendo ponta-pé no traseiro, que o fez estatelar-se de bruços no chão. E disse em voz bem alta:

— Aí está a cadeira que me emprestaste. Como estás vendo, entre gente honrada nada se perde.

A queda do senescal provocou grande sensação. Os criados acorreram, uns para socorrer o senescal, outros para deter o lavrador. Depois o conde o interrogou:

— Por que fizeste isso com o senescal?

— Senhor, disseram-me que eu poderia vir aqui hoje para a festa, e eu, muito agradecido em relação a vós, compareci, embora um pouco tarde, pois outros haviam chegado antes e tomado todos os assentos. Pedi então ao vosso senescal que me conseguisse um local onde pudesse sentar-me, e ele me deu um ponta-pé, dizendo que estava me emprestando uma cadeira. Como eu já comi e bebi, não tenho mais necessidade da cadeira, e estou devolvendo-a, com um certo acréscimo por conta dos juros. Asseguro-vos, senhor, que não tenho comigo nada mais que seja vosso, pois sou pobre mas tenho a consciência limpa. Mas se o senescal julgar que o valor do aluguel foi insuficiente, estou disposto a completá-lo.

Quando ouviram tal explicação, o conde e os convidados deram gostosas gargalhadas. Enquanto isso o senescal se levantara e massageava a parte dolorida, o que aumentou ainda mais as gargalhadas.

Riram tanto, que afinal o conde acabou dando a roupa escarlate como prêmio ao lavrador, e todos os jograis e menestréis concordaram que era merecido.


(Fonte: Jakes de Basin, in R. Menéndez Pidal, Antología de cuentos – Labor, Barcelona, 1953)

Desejaria receber 'Contos e lendas da Era Medieval' sem compromisso no meu Email