quinta-feira, 10 de junho de 2010

A alma penada do castelão de Castelbouc

Nas gargantas do rio Tarn, do lado esquerdo para quem vai rumo a Santa Enimia, um curioso castelo expõe suas ruínas fantasmais sobre um rochedo quase inacessível.

O seu deplorável estado liga-se à lembrança lendária de um nobre que não quis ir às Cruzadas e, caindo numa extrema moleza, teve o coração corrompido pelas mulheres.

Desde então um animal estranho – dizem – volta de tempos em tempos ao local e solta misteriosos gemidos.

Os remotos fatos aconteceram no século XIII. Nessa época São Luís rei da França, bispos, barões, senhores e servos partiam para as Cruzadas.

Foram procurar a Raymond, Senhor do castelo, para ir defender a Terra Santa. Porém, desde o alto de sua poderosa torre, ele berrou:

‒ “Eu fico!”

‒ “Mas como, senhor? Todo o mundo vai para a Cruzada!”

‒ “A mim, o elmo me afoga, e o casco me esmaga.”

‒ “Mas, senhor, nós ...”


‒ “Chega! Vão embora. Eu não fui feito para carregar armas ou armaduras, mas antes bem para cantar poesias”, afirmou fortemente e se encerrou na fortaleza.

É verdade que Raymond parecia ser um bom trovador e não um guerreiro.

O tempo passou. Todos partiram para a Cruzada. A vergonha e o remorso começaram a tomar conta de Raymond. A vergonha de se sentir inútil, de ficar só no seu castelo como um urso na sua toca.

Por fim, chegou a primavera, e com ela seu coração sentimental e mole desbordava de melúrias.

Uma manhã, ele desceu até a aldeia achando que mesmo andando fora da estrada a vida era muito bela e valia a pena gozá-la.

As camponesas vendo que seu senhor aproximava-se o rodearam dizendo:

‒ “Ah, como nós estamos tristes, mulheres e moças ...”

‒ “Mas, por que diabos?”, interrogou Raymond.

‒ “... é que nós ficamos sem nossos noivos, esposos, e pior ... sem os homens nossos dias são tediosos e nossas noites são muito longas!”

‒ “Pois bem, ... sim ... quer dizer ...” balbuciou Raymond. Mas, ouvindo essas lamentações seu coração derreteu como a cera sob o sol.

‒ “O Sr. é nosso nobre ... ajude-nos ...”, acrescentaram as mulheres.

‒ “Creio conhecer o remédio para vossos males e eu vos consolarei todas se o Céu me ajudar ...”, respondeu Raymond.

Foi assim que o castelo do senhor-trovador virou ponto de “romaria” para todas as mulheres tristes ou sofrendo mal de amores.

Um dia, uma velha mulher lhe disse:

‒ “Isso vai acabar mal. Abusando desse jeito, o animal morre”.

Raymond não prestou, ou fingiu não prestar, atenção. Cada mulher da cidade tirou dele até a última gota do festim que ele lhes ofereceu.

Assim, o senhor que com seus versos distribuía chamas de sentimentos, uma noite, como um fogo que não é cuidado, morreu ... e entregou a própria alma ... mas, a quem?

O sacerdote da cidade não quis benzer o corpo desse senhor pecador, e as cinzas desse fogo extinto foram jogadas no fundo do túmulo sem cerimônia religiosa.

Não se sabia se sua alma fora levada pelo diabo. Porém, todas as mulheres do local acharam que no dia seguinte, um estranho animal cabeludo, chifrudo e cor de pele levantou vôo por trás do rochedo do castelo.

Algumas garantiam ser um grande bode da montanha que soltava balidos infames olhando para a aldeia.

A velha senhora deu a palavra final dizendo:

‒ “É a alma do Senhor Raymond!”

Desde aquele triste dia pode se ouvir, por vezes, nas noites de lua cheia, no topo das ruínas, um balido planturoso acompanhado de estranhos murmúrios de vozes femininas.

Os mais ousados insistem que é algo como um bode que esvoaça em torno do castelo ...

Por isso o local ficou chamado: Castelbouc, ou o castelo do bode.

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