domingo, 17 de junho de 2012

O escorpião de frei Anselmo


D. Lourenço de Baena, homem bondoso e simples, possuía uma considerável fortuna. Um dia, porém, aconteceu que a má sorte entrou em sua casa, e desde então as calamidades se sucederam numa série ininterrupta.

Um de seus barcos, que regressava com tecidos da China, foi saqueado pelos piratas. Naufragou outra caravela de mercadorias, que D. Lourenço havia comprado.

Enviou um comboio de prata às províncias do Ocidente, e os índios o assaltaram. Mas não foi isto o pior.

Seu filho único, que ia neste comboio, foi escalpelado pelos índios. Sua esposa, esgotada pela dor, morreu algum tempo depois.


D. Lourenço sofria tudo com cristã resignação. Quando sua ruína foi completa, seus amigos o abandonaram, e teve que vender sua casa e até seus móveis.

Um dia se dirigiu ao convento de San Diego. Vivia ali um santo homem, chamado frei Anselmo, sempre disposto a ajudar a quem a ele acudisse, caritativo e desprendido ao extremo. Sua cela era a mais pobre do convento, e seus hábitos estavam cobertos de remendos.

Ele dava tudo o que tinha, e seus irmãos já não lhe davam mais hábitos novos, pois sabiam que se desfaria deles num instante, para socorrer os necessitados.

D. Lourenço lhe contou todas as suas misérias. Sabia que um barco carregado com sedas da China estava para chegar. Se alguém lhe emprestasse 500 pesos, poderia comercializar com essas mercadorias e sair de sua angustiosa situação.

Frei Anselmo estava muito penalizado, porque já não tinha nada para poder ajudar tão bom homem. Então um escorpião começou a subir lentamente pela parede. O frade o recolheu cuidadosamente, envolveu-o num pano e o deu a D. Lourenço, dizendo:

— É a única coisa que tenho, irmão. Leve-o à casa de penhores, para ver quanto lhe dão por ele.

D. Lourenço fez o que o frade lhe tinha indicado. Apresentou-se à casa de penhores, temeroso e envergonhado, e entregou o embrulho.

E quando esperava que o despedissem rudemente, tomando sua ação como burla, viu-se surpreendido pela exclamação de admiração que o comprador lançou, ao abrir o pacote. Em seu interior havia um escorpião de filigrana de ouro, adornado de esmeraldas, rubis, diamantes.

Recebeu por ele três mil pesos, e saiu para San Diego de Acapulco, aonde acabava de aportar a embarcação esperada.

Voltou ao México com as mercadorias e as revendeu rapidamente. Isto lhe serviu de base para reavivar seus negócios, e logo pôde recuperar seu antigo capital.

D. Lourenço voltou a ser riquíssimo, mas não se esquecia de tudo o que devia ao humilde frade. Um dia, querendo recompensá-lo, foi à casa de penhores, comprou o maravilhoso escorpião, embrulhou-o cuidadosamente e o levou.

Frei Anselmo recebeu o presente, e tranqüilamente abriu o pacote. Tomou cuidadosamente o escorpião e o colocou na parede, no mesmo lugar de onde o havia tirado no dia em que o deu a D. Lourenço. E disse:

— Segue teu caminho, criatura de Deus.

E o precioso animal, convertido de novo num vulgar escorpião, começou a caminhar lentamente.

(Fonte: V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)



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