quinta-feira, 12 de abril de 2012

O camponês avarento


Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi surpreendido pela noite à entrada de uma aldeia. Procurou uma casa onde pudesse pedir pousada, mas as portas todas estavam fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas.

Tudo estava adormecido. Apenas no fim de um beco se ouvia o barulho de um mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequenina luz. Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou rente ao muro de uma quinta e bateu à porta. Logo depois veio um camponês atender. Nosso Senhor lhe disse:
— Faz-me um favor de me dar agasalho por esta noite? Não se há de arrepender.



Depois de entrar, perguntou:
— Todos estão deitados, e por que o senhor ainda está trabalhando?
— Soube ontem à noite que ia ser perseguido por um credor sem entranhas. Ele prometeu matar-me, se não lhe pagasse amanhã o que devo. Portanto, eu e meus filhos estamos batendo o pouco trigo que colhi, para vender no mercado e pagar a minha dívida. Depois não nos fica nada, e não sei como havemos de atravessar o inverno. Seja o que Deus quiser!

Ao dizer isto, o camponês limpava o suor da testa e passava a mão pelos olhos arrasados de lágrimas. O Senhor teve pena dele, e disse-lhe:
— Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse que não te havias de arrepender. Vou provar-te.
Pegou na candeia, que estava suspensa de uma das traves do celeiro, e aproximou-a do trigo.
— Que vai fazer? — perguntaram assustados os trabalhadores.
— Vai pôr fogo a tudo?

Mas no mesmo instante, da palha que eles receavam ver inflamar-se, de cada espiga desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista de tal milagre, os camponeses maravilhados caíram de joelhos.
— Visto que foste caridoso — disse Jesus — visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te enriquece.

Dito isto, desapareceu. E a chuva de grãos não parou durante toda a noite, e fez um monte tão alto como uma catedral. O camponês pagou as suas dívidas, comprou terras e construiu uma bela casa.

Era rico, e esquecendo-se de Nosso Senhor, tornou-se altivo com os pobres, orgulhoso. Ele e seus filhos adquiriram costumes perdulários. Tanto e tanto fizeram, que se arruinaram. E como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguém os ajudou na sua miséria.

Uma noite o velho camponês, que bebera muito, entrou no celeiro, e recordando-se do milagre que o enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na candeia, aproximou-a de um feixe de palha e comunicou-lhe o fogo.


Ardeu a casa e tudo o que lhe restava. Depois de algum tempo, morreu na miséria mais absoluta.



(Fonte: Guerra Junqueiro, "Contos para a infância" - Lello & Irmão, Porto, 1953)



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Um comentário:

  1. Olá, Adoro receber esses contos. Grata!!

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